Monday, April 02, 2012

A CIDADE DO ENDOVÉLICO - (João Cardoso Justa)

Nota introdutória:
Esta publicação, breve síntese de outra, mais abrangente e detalhada que penso editar oportunamente, não tem a pretensão de ser considerada um documento histórico apesar do extremo rigor (documentado) de tudo o nela é referido. Não segue essa metodologia, não é escrita por alguém com formação em História, nem é preferencialmente dirigida ao “mundo académico.

A CIDADE DO ENDOVÉLICO

Se as breves palavras que “rascunhei” há anos, numa tarde solarenga que inundava de morno silêncio a sala de leitura da Torre do Tombo, não tivessem resistido, teimosamente vincadas, numa das minhas caóticas sebentas, a determinação em realizar esta pesquisa histórica de que aqui vos pretendo revelar os resultados, ficaria por certo, como ficam tantas ideias da nossa vida, primeiro, adiadas para tempo incerto, e depois, esquecidas para sempre. Mas, tantos foram os olhares indiferentes, sobranceiros, senão desdenhosos, que em meu redor se multiplicaram quando, entre “a sacra e muy nobre” elite dos meios académicos, me atrevi a balbuciar a informação sintetizada nesse rascunho que, o medo ao ridículo, perante a minha própria inteligência e sobretudo a alheia, a foi remetendo aos poucos para os dúbios níveis do imaginário e do fantasioso. Contudo, em Setembro de 2011, após assistir a uma conferência sobre o Deus Celta Endovélico e da sua localização representativa no Templo (ainda não determinado arqueologicamente) no famoso outeiro de S. Miguel da Mota, o sentido codificado nas letras que traçara de atravesso no meu velho caderno entre o religioso ambiente da Torre do Tombo, reacendeu-se, vivo e incómodo, como nunca.

Efectivamente, (essa a ideia que eu tentava transmitir há muito) não era expectável que em redor de um Templo, com a carga mística contida no culto do Deus a que toda a Ibéria peregrinava, e a grandiosidade física que dos seus inúmeros vestígios podemos inferir, não existisse uma urbe de apoio logístico ao funcionamento de tal complexo e à guarida dos inúmeros devotos que ali se deslocavam (ainda não tinha lido Emil Hubner (1834-1901), que o afirma textualmente). Portanto, apenas duas elementares hipóteses se entrecruzavam em mim enquanto fui olhando os bicos dos sapatos pelo caminho até casa.
1ª - Que está por localizar uma cidade de dimensões consideráveis nas proximidades de S. Miguel da Mota.
2ª – Embora mais remota – Que o Templo do Deus Endovélico não se situava naquele ermo isolado, onde a decrépita ermida, de data incerta e construtor desconhecido, pretende simbolizar a cristianização do ancestral culto pagão.
Ora, era em pleno âmago da 1ª hipótese, que os meus velhos apontamentos, renascidos, incandesciam. E lá estavam, prova viva, entre desenhos e escritos vários, desencarnados de qualquer sonho ou fantasia, esperando que renovado olhar os relesse - «… os historiadores portugueses têm sucessivamente esquecido a existência de uma outra Lacobriga, transtagana (alentejana), céltica, mencionada por Ptolemeu, cap. V, tábua II, da sua Geografia, situada a oriente de Lisboa. Possível localização – Entre a ribeira do Lucifecit e a ribeira de Pardais????... » (ipsis litteris). Eis portanto, nesta última frase das minhas notas recolhidas no mausoléu dos pergaminhos, o motivo que, em vão, me acicatou a “incomodar”o mundo académico para a eventualidade desta descoberta. Aquele pequeno palmo de mundo, entre as ribeiras meridionais da Serra D`Ossa que serpenteiam até ao Guadiana, era o campo, a terra e as árvores e os matos e as ervas, onde nasci e cresci, era o passado da minha região, das “minhas gentes”, que estava em causa. E esse registo de quem fomos, no Alentejo, em Portugal, ou em qualquer outra parte deste planeta, deve ser exposto com absoluta verdade às gerações presentes, para que, desde as passadas, possam traçar a trajetória desta miraculosa raça humana, e, da sua leitura, retirarem o que a idoneidade de cada um achar por bem.
Nessa mesma tarde desafiei-me na realização de uma pesquisa própria, e, é para essa “viagem” regressiva pelo tempo que os convido, até à Antiguidade, até centenas de anos antes do início da era cristã, e aí, entre florestas habitadas por animais selvagens e ribeiros abundantes que se entrelaçavam num majestoso Guadiana (então denominado Anas), determinar a localização, exacta, desta surpreendente cidade que abraçava o Templo do Deus supremo dos Celtas, e que depois, ganhou a veneração de invasores cartagineses e romanos.
Deixei crescer barba e bigode cientista, empinei no nariz os meus óculos mais intelectuais, e assim, vestido com a pele de erudito sobre a essência ignorante (coisa nunca vista), encerrei-me três meses entre pergaminhos, papéis seculares, e microfilmes, na Biblioteca Nacional de Lisboa.
Qual o significado de Lacóbriga? Que particularidades comungavam esses aglomerados populacionais para que os historiadores assinalassem a existência de cidades homónimas no território hoje designado Portugal? – Estas eram, sem dúvida, as interrogações prioritárias de onde urgia partir.

Etimologia de Lacobriga ou Lacobrica

Escreve o erudito P. Henrique Florez, na sua España Sagrada: «Lacobriga - es nombre antiguo de los españoles primitivos, segun muestra la voz “briga”, frequentíssima en lugares antiguos, que significa vila ó poblacion : y en vista de que la misma voz suele entrar a composicion com términos latinos, como Augustobrica, Caesarobrica, etc. podemos reconocer en Lacobriga la etymologia de Lacus y briga; de suerte que por algun lago vecino recibiese el nombre…»
Mais específico ainda, Leite de Vasconcelos «… o nome “briga” significa “altura”, “castelo”, e provém do termo “brig” que se encontra no irlandês arcaico “bri”- montanha, e noutras línguas célticas. O nominativo irlandês “bri” perdeu a gutural, mas esta encontra-se ainda no genitivo “breg” < “brigos”.»
Podemos pois, desta conjugação etimológica, “Lacus (latina – lago ou lagoa) + “briga”, inferir como significado abrangente de Lacobriga, um núcleo populacional amuralhado, situado numa elevação, com a particularidade de estar próximo, ou, inclusivamente, rodeado por um lago. Simplificando, “Cidade do Castelo do Lago” (ou lagoa) (o P. Florez chama-lhe apenas villa ou Cidade da Lagoa).
Conhecendo de forma genérica o que procurávamos, a razão aconselhava o estudo das duas Lacóbrigas identificadas pelos historiadores. Uma, que seria a norte (na margem esquerda do Douro, diz Plínio (Liv. 3), assinalada no Itinerário de Antonino Pio (Imperador romano, 86 d. C. – 161) no trajecto de Lisboa a Braga (como Lancobriga), de que não nos ocuparemos por motivos que durante esta narrativa serão fáceis de entender (e também porque dela pouco ou nada reza a História, duvidando-se mesmo que possuísse dimensões de cidade), e a outra, essa sim, fundamental e determinante neste estudo, a Lacobriga que os cientistas históricos demarcaram no Algarve e de quem a cidade de Lagos usufrui, (usurpa, como veremos) há séculos, Passado e Fama. Analisemos então como se procedeu à identificação no sotavento algarvio, entre os Cónios (ver fig. 1), dessa mítica urbe que Ptolemeu indica a oriente de Lisboa e à cabeça das cidades Célticas.
Dos Autores Antigos, gregos e romanos, no que se refere à descrição do Sul da área geográfica que o Império Romano designará depois por Lusitânia, diferenciando-a da Bética pelo rio Guadiana (então, por todos referido como o rio Anas), as sub-regiões por eles demarcadas chegam-nos substantivadas pelo termo “Promontorium”. Deste termo latino, das suas diferentes traduções, interpretações, corrupções linguísticas, e respectivas demarcações no terreno, criou-se uma tal miscelânea (desde Avieno, Artimidoro, Estrabão, Plínio, Varrão, Agripa, Ptolemeu, Estácio de Veja, André de Resende, etc. (e este “etc.” inclui centenas que a este assunto se têm dedicado, até aos contemporâneos Jorge de Alarcão e Amílcar Guerra), que, se os “promontorium” fossem placas tectónicas nas mãos destes cientistas, viveríamos há milhares de anos sobre terramotos colossais, tantas são as voltas em que estas regiões colidiram, estrondosamente, nos seus textos. A vocês, meus companheiros de viagem, não os vou arrastar para este interminável “cataclismo” de onde saí com todos os neurónios retorcidos, não é esse o objectivo da nossa investigação, contudo, tenho que referir o “Promontorium Sacro”, traduzido por Promontório Sagrado, pois é neste que os Autores Antigos situaram Lacobriga (“in Sacro, Portus Hanibalis e Lacobriga” – Geografia de Ptolemeu).
É pois, (situemo-nos no sec. XVI) transportando sob o hábito de frade dominicano (que a Inquisição tornará particularmente popular) uma panóplia de “promontorium” e muitas outras informações que recolheu por toda a Europa, que o eborense André de Resende, pioneiro dos nossos arqueólogos, e padrinho de muitas localidades por inspiração própria (Vila Viçosa, por exemplo, para quem ele inventou o nome de Calipolis, e os habitantes desta localidade intitulam-se, há quinhentos anos, de calipolenses, sem que para isso haja qualquer raiz histórica), ávido de riscar no terreno as cidades e os lugares escritos nos seus papéis, qual divino Baptista - «Atravessemos agora o Guadiana e exponhamos aos estudiosos da Antiguidade as cidades da Lusitânia sobre as quais se julgará sem margem de dúvida ou pelo menos por conjectura provável.» - são palavras suas nas Antiguidades da Lusitânia (Adapt. de Raúl Fernandes). E conjecturou tão bem que, alegando uma lenda que os fantasiosos seguidores da “escola alcobacense” enfatizaram dos Autores Antigos, e segundo a qual terá existido um templo a Hércules na ponta de Sagres (Artimidoro foi o único a estar lá em presença e nega peremptoriamente qualquer vestígio desse Templo. Leite de Vasconcelos apenas lá encontrou uma lenda, e bem mais humilde, umas pedras que se moviam, à noite…), e assim, de nada mais que a brisa atlântica, o cabo de S. Vicente absorveu por séculos a designação de Promontório Sagrado, e a cidade céltica de Lacobriga, que André de Resende sabia estar indicada nas Tábuas de Ptolemeu a oriente de Olysipo (Lisboa), ficou a banhos até hoje no Algarve (então país dos Cónios), e as gentes nativas na área da sua verdadeira localização, os netos desses celtas, os descendentes dos lacobricenses que, assim o veremos durante este estudo, foram dos povos mais interventivos na nossa Antiguidade, ficaram privados da sua história com mais de 2.300 anos.

Parece incrível (para quem não acompanha de perto estes malabarismos interpretativos da História) que, em pleno sec. XXI, depois de milhares de supostas pesquisas, de milhares ou milhões de textos supostamente técnicos, mas afinal, apenas compostos por ideias emaranhadas em refinada linguística histórica, possam persistir mistificações do passado com esta dimensão, mas na realidade assim é, e aqui o demonstrarei de forma a não subsistirem quaisquer dúvidas. Em Lagos, ou nas suas proximidades, não existiu qualquer Lacobriga, e acrescento mais, em todo o Algarve não floresceu qualquer urbe pré-romana com as dimensões necessárias para se lhe atribuir a designação de cidade (Ossonoba não pode ser Faro, e que Balsa seja Tavira é muito duvidoso). Parta-se da listagem dos achados arqueológicos publicada por Carlos Fabião no seu estudo sobre o “guarum”(que é bem mais tardio), investigue-se, e medite-se no que essa zona, encerrada entre o mar e as serras, teria para comercializar com fenícios ou cartagineses.
O que resta agora do objetivo inicial da nossa investigação, da procura da Lacóbriga celta, que, julgando-a perdida na memória dos tempos, na esperança que algum moribundo vestígio seu nos surgisse entre a intricada escrita da Antiguidade, nos queimou olhos e cérebro na descodificação de dezenas de livros? A cidade de Lagos, e a convicção que os habitantes dessa localidade algarvia, eles próprios, embora de distinta forma, vítimas também desta falta de rigor científico, portanto involuntariamente, usurpam o passado dos povos que mais lutaram, morreram em chacinas várias, e (é grande a possibilidade atendendo a situações semelhantes com povo celta), se ofereceram e aos seus filhos em sacrifícios de sangue para manterem vivos os Deuses e as áureas sagradas em torno das tumbas dos seus mortos.


Espanha de Ptolomeu

De: A evolução dos Mapas através da História
Autor: Mário Ruiz Morales
Sub-Delegação do Governo de Granada
Universidade de Granada

Como atrás opinei, não há registo de qualquer cidade pré-romana desde a ponta de Sagres ao (então existente) delta do Anas (Guadiana). O mesmo se pode depreender da “Ora Marítima” de Avieno (sec. IV).
Assim, o projecto inicial que nos desafiara, a descoberta da Lacóbriga “perdida”, alterou-se em absoluto. O que iremos demonstrar, sem prejuízo da exacta localização da cidade entre os torrões alentejanos onde permanece sepultada, é que André de Resende (e quem o seguiu), cometeu um tremendo erro ao identificar o Cabo de S. Vicente como sendo o Promontório Sagrado, e, tirando partido da semelhança fonética, “colou” Lacóbriga a Lagos - «O vulgo designa Lacóbriga pelo nome mutilado e algo modificado de Lagos» (Ant. da Lusitânia – R. Fernandes) – afirma ele parecendo querer aliviar as responsabilidades – e atribui a Portimão o nome de Portus Hanibalis (de Portus Hanibalis, supostamente edificada pelo comandante cartaginês Haníbal, pouco mais nos contam os escritos históricos, sabe-se, contudo, que no período árabe se designava por Burj Munt, que significará “Torre no Monte ou Monte da Torre) (quanto a Lagos, diz-nos Mário Saa (1893-1971) em As Grandes Vias da Lusitânia, que no sec. Xll era uma pequena aldeia chamada Halcos), ocultando assim a sua verdadeira localização, que era, sem margem para dúvida (aqui ficará provado), nas terras do Endovélico, em pleno coração dos celtas do Alentejo. Recorde-se, para melhor entender estes “equívocos”, que, à época de André Resende (séc. XVI), Lagos e Portimão eram centros populosos com alguma importância no suporte da controversa Escola Náutica de Sagres fundada pelo Infante D. Henrique, e já com forte implantação da Igreja Católica (Lagos já tinha Bispo, e uma Capela dos Ossos…?).
Concentremo-nos então em desmontar esta teia de inverdades que se emaranha na História desde há séculos. Vários são os documentos históricos de que nos serviremos e que mencionam Lacóbriga, cuja construção (há quem escreva reconstrução, o que pressupõe a existência de um povoado mais antigo) é atribuída ao governador cartaginês Bahodes por volta do ano 370 a. C. (antes de Cristo). Nos Autores Antigos existe mesmo a descrição de um episódio nela passado na guerra de Sertório de que Plutarco dá conta na Biografia deste general romano (Tito Lívio também o menciona) e que muitos outros depois repetem. Mas, antes de analisarmos esses milenários registos e outros posteriores, vejamos aquele (finais do sec. XVI) que nos conta a formação de Lacobriga (em Lagos, não ousando contrariar o “mestre” André de Resende), e, como nesse mesmo escrito, algumas linhas depois, o historiador contorce os factos de tal forma que, descreve também a construção do Templo Endovélico nas Abas da Serra D´Ossa. Um malabarismo curioso, assim o veremos, mas, por pouco inteligente, de uma incoerência total. O seu autor é Frei Bernardo de Brito (1569-1617), um dos mais profícuos filhos da fantasiosa escola Cistercense de Alcobaça, estudante em Roma e Veneza, doutorado em Teologia por Coimbra, e nomeado Cronista-Mor do reino em 1614. Rodeado de apontamentos vários, onde pontificavam os do “sistema” Resende, molhou a pena no tinteiro, e, com um olho no papel e outro em todas as fogueiras da Inquisição que ardiam pelo país, escreveu um texto (Livro ll, Cap. Xll, da “Monarchia Lusytana”) que, “espremido” do seu palavreado medieval e nacionalista (estávamos em plena ocupação espanhola), nos pretende convencer do seguinte: O governador cartaginês Bahodes, depois de sofrer grande contestação na Andaluzia (a Turdetânia, suponho) refugiou-se no Porto de Haníbal (que afirma ser Portimão, claro) onde, ao perceber que as trocas comerciais eram tão cordiais, afectuosas até, com os Lusitanos (para ele o povo dos Cónios não existiu), mandou chamar os chefes das tribos do «sertão» (Alentejo, dos Celtas) e, durante uma grande festança com bois assados junto ao Templo de Hércules (que nunca existiu na ponta de Sagres), pediu-lhes permissão para construir uma cidade no interior, de forma a tornar mais acessível o intercâmbio de bens entre estes e os comerciantes cartagineses. Os chefes tribais do «sertão» (celtas do Alentejo, recordo) acharam uma ideia brilhante e concederam-lhe para tal objectivo, (a criação de um posto comercial mais no interior) uma cidade do povo Cónio(!), ainda mais distante e litoral(!), Lagos (!). Tudo isto é absurdo, é evidente, mas a incoerência na construção de tão desastrado texto por Frei Brito, continua – Depois de construída Lacobriga, Bahodes é substituído pelo governador Maharbal, este, «um dos que mais afeiçoados à nação Portugueza de quantos até aí tinham entrado em Espanha», instalou-se também em Portimão, e aí, há 2.370 anos(!), ouviu falar da cidade de Elvas, muito “famosa” nessa época «que já nesse tempo era cousa notável» (Há um desconhecimento total sobre Elvas nessa fracção do tempo. Ou não existia, ou seria um pequeno povoado da tribo dos Helvécios, presume-se), e, portanto, Maharbal contornou a costa, subiu o Anas (Guadiana) para apreciar essa «cousa notável» que era Elvas, e, sendo acometido por grave e súbita doença, consultados os “adivinhos” («agoureiros»), estes informaram o governador que o Deus Cupido estava muito zangado com ele (entretanto, Frei Brito introduziu no texto a história de uma nau grega que se perdera, cuja carga eram Ídolos de Vénus e Cupido e sacerdotisas venusianas, que os cartagineses capturaram) e, só a construção de um templo dedicado à divindade enfurecida, o poderia curar da desconhecida maleita. «Tal foi o medo em Maharbal, que concedendo liberdade aos gregos, deu logo ordem à formação do Templo, acudindo os Portugueses com tanto gozo à obra, que antes que o Capitão (Maharbal) se partir dali, foi acabada e posta no Templo de Cupido… (descreve o ídolo, e continua) … chamando a este ídolo em nossa língua antiga de Endovélico, cujo nome vemos nos templos de agora em algumas pedras do Templo dos romanos…». Assim, com esta “simplicidade”, se separou a cidade de Lacóbriga, em trezentos e tal quilómetros, do Templo Endovélico que, ficámos a saber pelo erudito Padre de Cister, se Elvas não fosse «uma cousa tão notável» que dava brado há 2370 anos entre os Cónios das praias algarvias do barlavento, os Celtas não teriam adorado o seu Deus, uns milhares de anos antes dos acontecimentos relatados por Frei Brito…
Depois de folhearmos estas páginas de puro ridículo, debrucemo-nos sobre o episódio mais conhecido da História Antiga em que Lacóbriga é referida, e que, na procura de explicações racionais para os acontecimentos nele referidos, mais tem perturbado os historiadores modernos, forçando-os a duvidar da situação geográfica que os clássicos lhe atribuíram. «Problemática» Lacóbriga, chama-lhe Amílcar Serra sem saber onde a colocar para que os registos históricos façam sentido (Alarcão “atira” com ela para a Arrábida, outros até para Coimbra). Esse texto, que podemos ler na “Biografia de Sertório” por Plutarco, e em muitos outros autores, contém informações preciosas para este nosso estudo, permitindo preencher as dúvidas que tanto têm perturbado quem o analisou em complexas conjecturas, e, marginalizando o evidente, “saltou” com a localização da cidade de Lacóbriga e do quartel-general de Sertório pelo mapa da Península Ibérica, (Pompónio Mela, Schulten, Muller, Tovar, Roldán, Alarcão, Amílcar Guerra, etc. etc.) tentando alcançar uma explicação racional para a sucessão dos eventos descritos no referido documento.
O enquadramento histórico das ocorrências registadas nesse texto, compreende o período em que Sertório, depois do seu retiro no norte de África causado pela guerra entre Mário e Sila, volta à Península Ibérica (há quem diga que a pedido das tribos que nela continuavam a resistir aos invasores romanos) e comanda os guerreiros nativos a quem juntou outros trazidos das regiões africanas. Entre as legiões de Roma que venceu, as comandadas pelo procônsul Quinto Cecílio Metelo Pio, foram das que mais sofreram com as investidas constantes de Sertório que, adoptando a táctica de guerrilha nativa, a mesma que anos atrás tanto sucesso permitira a Viriato (O segundo Viriato de que fala a história, natural do chamado Hermínio Menor, Marvão (!). O primeiro Viriato, contemporâneo de Aníbal Barca, faleceu na batalha de Cañas (216 a. C.). Viriato, não era um nome próprio, era um título, “o que usava as vírias”, símbolos de poder). Conta-nos Plutarco que Cecílio Metelo, vendo as suas legiões cada vez mais desgastadas por uma guerra para que não estavam preparadas, e querendo mudar a feição da contenda, resolveu cercar a cidade mais fiel a Sertório, Lacóbriga. A intenção do cerco era vergar os lacobricenses pela sede, uma vez que, apesar da abundância de água que rodeava a fortaleza, esta, intra-muros, possuía apenas um poço (outros escrevem cisterna). Imaginando uma rápida rendição, Cecílio Metelo ordenou aos seus homens que se aprovisionassem para meia-dúzia de dias, mas Sertório, rapidamente avisado pelos seus vigias, ordenou que se enchessem dois mil odres de água, e, pela calada da noite e pelos trilhos da serra, conseguiu introduzir o precioso líquido na fortaleza aliada. Cecílio Metelo, ao perceber que os sitiados resistiriam muitos mais dias que os previstos, enviou o seu lugar-tenente, Aquílio, com seis mil soldados, para recolherem novos mantimentos. Antecipando esta decisão do comandante rival, Sertório montara-lhes uma emboscada onde dizimou completamente as tropas de Aquílio que, sem armas e sem cavalo, se apresentou perante Cecílio Metelo, e todos, apavorados com a aproximação dos guerreiros de Sertório, atravessaram o Anas (Guadiana) e refugiaram-se nas cidades que dominavam para além deste rio.
O que contém este breve, mas sangrento, episódio da guerra contra Roma, que relatámos por súmula dos diversos textos históricos que a ele se referem, que tanta discussão tem causado entre os meios académicos? Que interrogações impedem os investigadores de refazerem pela razão os acontecimentos nele descritos? A mais evidente, por roçar o incompreensível, é a relação de privilégio (mencionada em todos os documentos) entre Sertório e a cidade de Lagos (suposta Lacóbriga). Como poderia existir tal afinidade, entre uma povoação situada nos confins do barlavento algarvio e o ex-cônsul romano que desenvolvera toda a sua campanha militar no centro da Península Ibérica e, que se saiba, nunca estabeleceu qualquer contacto com povos tão meridionais? Não faz sentido, contudo, fez acumular entre estudiosos modernos as dúvidas sobre a localização de Lacóbriga em Lagos (e por consequência, do Promontório Sagrado corresponder ao cabo de S. Vicente). E onde estaria aquartelado Sertório para que, de imediato, ter a informação do cerco e da premência de água? Bem perto, certamente, porque conseguiu resolver o problema com os famosos odres de água introduzidos na cidade através dos matagais da serra. E que serra? E a que distância estaria do Anas (Guadiana) a cidade dos lacobricenses, para que Cecílio Metelo o conseguisse cruzar com as suas tropas de forma tão rápida, evitando a perseguição dos guerreiros de Sertório? É inimaginável a quantidade (e a qualidade) das teorias avançadas na tentativa de dar respostas a este “imbróglio”. Direi mesmo que os historiadores entraram num “devaneio” total (desde o quartel-general de Sertório ser em Conitorgis, mais uma das cidades por localizar, desde marchas forçadas dos guerreiros sertorianos de 100 km por dia, teorias e mais teorias, e Lacóbriga saltitando pelo mapa como peça de dominó sem lugar onde encaixar). Contudo, para mim, nascido e criado entre os campos que, através dos meus velhos rascunhos, continuavam a reclamar para si a pertença dessa mítica cidade, outros pormenores da descrição do malogrado cerco de Cecílio Metelo, começavam a desenhar uma imagem que há anos conhecia. Afastei-a por improvável, mas ela teimava em emergir da memória e introduzir-se nos meus raciocínios, ganhando gradual sentido em cada aparição. Até que, incontornável, claramente impressa no texto que então examinava (Mappa de Portugal, Antigo e Moderno, do padre João Bautista de Castro, Pub. 1775) sobre Lacóbriga, essa visualização de que falo, me olhou nos olhos, feita palavra, surpreendente, entre os papéis velhos que enchiam a minha secretária na Biblioteca Nacional. No documento aberto entre as minhas mãos, o padre Castro começava por referir uma história muito famosa na tradição oral, recolhida por Baptista Mantuano nos seus Agelários, (André de Resende diz que a ouvia desde a sua meninice, em Évora) - «Em tempo dos romanos foy cidade muy famosa (Lacóbriga) e lembra-se della Baptista Mantuano, quando diz, que erigira o Senado desta povoação, sete estátuas a Ardiboro (Resende, diz Ardíburo), capitão insigne do imperador Valentiniano, as quais prostraram os Vandalos quando a tomaram.» E, algumas linhas depois, - «Há quem diga que Lacobriga é a villa de Abrantes, outros do Landroal, e João de Mariana diz, que é a villa de Alvor, fundada por Aníbal.»
“Landroal”(!), significava isto que, séculos atrás, alguém concluíra o que eu, depois de ler o texto sobre o cerco de Lacóbriga pelas tropas de Metelo, recusava aceitar, a vila do Alandroal satisfazia por inteiro todas as condicionantes (no domínio geográfico e no lógico) implícitas no polémico documento de Petrarca e muitos outros, e a imagem, que de uma forma recorrente dançava na minha memória (e vos mostrarei aqui, quando explicar o que afirmo) completava-lhe o sentido. Ávido por companhia nas minhas conjecturas, parti em busca do historiador que colocara na História semelhante hipótese. Quem era esse homem que ousara desafiar Resende? Em que argumentos se fundamentara para desafiar os dominicanos? Muitos livros depois, “entrei” no Nº XXX das Notícias da Conferência da Academia Real de História em 1724. Em “livros de folha”, 174, (Miscelânea de papéis políticos e curiosos) diz o seguinte: - «Em nome do grande João de Barros, está neste livro uma descrição da antiga Lusitânia, que não é seu, mas de Gaspar Barreiros, como se vê por alguns lugares em que faz menção à sua Corografia impressa; este Tratado é “douto”, e não está acabado, a última terra que menciona é Tentugal, que quer que seja a antiga Concórdia, e nos nomes antigos discorda muitas vezes de André de Resende, e algumas com boas conjecturas…» (e mais abaixo, no mesmo texto) «sobre a etimologia de Lisboa e a sua formação, aponta muitos erros que a vaidade dos Autores modernos quis autorizar, e é digno de se ler este discurso, como todo o Tratado; descreve algumas terras mediterrânicas, e para que Beja, e não Badajoz, seja Pax Julia, diz que acrescenta aqui os argumentos que defendeu na sua Corografia, e também confirma que Julia Mirtilis, a que chama Mirtilis Julia, é Mértola, e tratando logo de outra Lacóbriga dos Turdulos, mostra equívoco dos dois nomes e infere que uma delas é o Landroal.» Gaspar Barreiros, era este o nome do historiador que não alinhara nas confusões (manipulações) de André de Resende (por ser franciscano, portanto com outras “raízes” na Igreja Católica?). Gaspar Barreiros nasceu em Viseu por volta do ano 1500, formado na Universidade de Salamanca, foi um dos maiores eruditos e geógrafos do sec. XVl. Era sobrinho do célebre João de Barros e incumbido mais tarde por decreto régio de finalizar as Décadas de seu tio, tarefa que não realizará. Foi cónego de Viseu e Évora, chegou a pertencer à Inquisição sob as ordens do Cardeal D. Henrique, deslocou-se como embaixador a Roma onde abraçou as regras jesuítas, mas, meses mais tarde, possivelmente desgostoso com essa vivência, rogou ao Papa que o deixasse enveredar pela humildade dos franciscanos. Do extenso trabalho que deixou manuscrito nas mãos do seu irmão Lopo de Barros, apenas se imprimiu a “Chorographia de alguns lugares…”, e “Críticas de Quatro Livros… “. Da restante obra, supostamente perdida, ou escondida em obscuras bibliotecas, Justino Mendes de Almeida conseguiu localizar o que designou por “Um inédito de Gaspar Barreiros: «Suma, e Descripçam de Lusitania» (Coimbra/1984), e na qual o Geógrafo se refere a Lacóbriga. Para meu desapontamento, é um texto vago, não nega com frontalidade a existência da Lacóbriga algarvia (diz que só Pompónio Mela a menciona) e depois de pretender que os restantes historiadores confundiram Lacóbriga com Lancóbriga, afirma: - «… assim que todos se enganaram, e quanto ao lugar de hoje onde seria Lancobriga nisto há muita dúvida, e muita notícia obscura, quanto a mim parece-me que deve ser o Landroal.» Dos apontamentos, ou das conclusões já sintetizadas, onde fundamentava esta opinião, nada achei. A que informações teve acesso o cónego Barreiros nos anos que passou em Évora, ou o que viu “in loco”, no Alandroal, para que a Conferência da Academia de História em 1724, considerasse tão “douta” esta arrojada hipótese? Silêncio total, é a resposta da História a que temos acesso. Até que em 1888 (finais do sec. XlX, em que as chancelas da Inquisição já se haviam quebrado sob os pés dos iluministas), outro investigador passeia a batina pelos campos alentejanos, contrai repetidamente o sobrolho sobre os escritos dos Autores Antigos, e, (profundo apaixonado pela História e pela Arqueologia) atreve-se a desenterrar, desde as faldas da Serra D´Ossa, a problemática questão da Lacóbriga dos Celtas. Chamava-se, esse curioso e erudito padre (músico também), Joaquim José da Rocha Espanca (1839 – 1896), e o estudo onde compilou as suas investigações e conjecturas, foi publicado na “Revista Archeológica”/ Lisboa, onde assina sob a data de 07/08/1888. Apesar de algumas evidências absolutas que aponta, e onde reclama a localização dessa antiquíssima cidade no Alto-Alentejo (mais propriamente entre os “Vilares de Bencatel e Pardais, defenderá depois, num complemento mais detalhado desta publicação), o único interesse que recebeu em troca do seu texto, concentrou-se por inteiro na preocupação dos museus pela recolha dos muitos achados arqueológicos que o esforçado padre recolheu entre vinhas, terras de “semeadura”, e infindáveis olivais. Da sua argumentação histórica, do alerta que pretendeu enviar aos outros investigadores para a existência, sob os campos alentejanos das últimas ondulações da Serra D’Ossa, da cidade que Ptolemeu colocou à cabeça das cidades Celtas, o incompreendido clérigo, sem eco nem audiência, ficou até hoje a pregar ao vento em pleno «sertão». E porquê? Que razão impede um olhar mais atento dos historiadores para as opiniões de Gaspar Barreiros (que não nega a existência da Lacóbriga em Lagos) ou de Rocha Espanca (que também o não faz, falando sim de uma 3ª Lacobriga), quando afinal está claramente escrito nos Autores Antigos que essa cidade é Celta (e se sabe que o coração da região celta era o Alentejo) e se situa a oriente de Lisboa? Porque, (e foi isso que os impediu de negar a localização inicial de André de Resende), existe um outro pressuposto, a cidade deve localizar-se no “Promontório Sagrado” (Promontorium Sacro) «in Sacro Lacóbriga e Portus Hannibalis» assinalam os mesmos textos. Ora, convenhamos, encontrar um promontório no centro do «sertão» alentejano, não se afigura tarefa fácil.

O Promontório Sagrado

“Promontorium”, termo latino, cuja tradução nos remete de imediato para a óbvia tradução da palavra promontório (ou cabo). No entanto, assim como em muitas questões de outro âmbito, o óbvio é uma ferramenta do erro, remetendo o entendimento para verdades de sinal contrário. “Promontorium”, significa também – acima de, elevação, serra, montanha (quando a significação pretendida era serra ou montanha, incluía também a zona envolvente. Leite de Vasconcelos refere-o antes de embarcar em mais uma “calamidade” entre promontórios marítimos) e, com esta intenção de sentido era vulgarmente utilizado na Antiguidade). Resulta daqui que, com toda a propriedade, a expressão “Promomtorium Sacro” pode (e deve, neste caso específico) ser traduzida por Serra Sagrada ou Montanha Sagrada. E onde, com mais segurança de verdade histórica, se poderá encontrar serra ou montanha que corresponda a esta designação? Em Sagres, onde afinal nunca existiu qualquer templo? Na Arrábida, onde alegadamente existia um templo a Neptuno (numa época pré-romana?)? Como é possível que, aos nossos historiadores, não tenha ocorrido que a serra onde os Celtas tinham os altares dos seus deuses supremos (Endovélico, Atégina (Proserpina), Runesus, Fontana, Fontano, talvez Fagus (herdade da Faia)), essa Serra Sagrada, fosse, naturalmente, a Serra D’Ossa? Que outra Serra, que outra Montanha Sagrada poderia existir, senão aquela que congregava os Deuses no coração da nação céltica (Alentejo), e, (“coincidência”!) geograficamente situada, sem qualquer margem de erro, a oriente de Lisboa? Nos limites desse “Promontorium Sacro”, se situou Portus Hannibalis porque o comércio com os cartagineses (cereais, lã, e sobretudo os produtos da abundante extracção mineira) fazia-se pelo Anas (Guadiana), todos os historiadores o reconhecem. Embora a História nada diga de relevante sobre Portus Hannibalis, através do nome árabe, Burj Munt – Torre no Monte, ou Monte da Torre, Juromenha é uma boa candidata à sua localização, mas não tenho qualquer garantia que o confirme. Mas tenho sim , e muitas, evidências (ao longo deste estudo se irão revelar) que nesse “Promontorium Sacro”, o mesmo (e único) que Ptolomeu mencionou, está, a Lacóbriga que Bahodes ergueu, e junto à qual, Maharbal engrandeceu o templo de Endovélico, o grande Deus do Celtas, depois denominados Celtici, que viviam entre o Tejo e o Guadiana. E é essa Lacóbriga, a única que preenche todas as condicionantes implícitas no polémico texto que descreve o cerco montado por Cecílio Metelo, sem recorrer a qualquer esforço imaginativo nem discursos fantasiosos. E é, dessa enigmática cidade, da Cidade do Castelo do Lago, ou Cidade da Lagoa, situada a oriente de Lisboa, nas abas da Serra D’Ossa, perto do rio Anas (Guadiana), e que apenas possui uma cisterna no seu interior, que aqui vos mostro uma imagem, mil anos depois da sua construção, após D. Dinis já ter erigido sobre as suas fundações o actual castelo que, como veremos, possui ainda mais “segredos” para revelar.


- Na zona aqui demarcada em azul, Duarte D´armas, para que não restassem dúvidas, escreveu “Alagoa”.
- No quadrado a vermelho, chamo a atenção para umas intrigantes ameias que, sendo vistas de Sul, eliminam a tentação de as considerar um resquício de Vilares, que o «vulgo» aponta como sendo o originário Alandroal.
Vejamos agora, com a localização de Lacóbriga determinada (e uma parte, repito, uma parte, da cidade já documentada na Fig. 3), o famoso episódio do seu cerco que tanta tinta delirante consumiu sob as “doutas” penas dos historiadores.

O CERCO DE LACÓBRIGA

Para a compreensão definitiva deste acontecimento ocorrido há mais de 2000 anos, é fundamental determinar a localização dos aquartelamentos das legiões de Cecílio Metelo e do acampamento dos guerrilheiros de Sertório. Quanto ao quartel-general do procônsul romano, Manuel Andrade Maia dá-nos uma ajuda preciosa (Romanização do território português ao Sul do Tejo / Faculdade de Letras de Lisboa / 1987) (pág. 165): «Domergue (Claude Domergue) contribuiu, de forma notável, para confirmar o apoio das populações da futura Bética à causa de Metelo, ao dar a conhecer glandes de chumbo, por utilizar, em Azuaga (província de Badajoz). Estas balas, apresentam a marca “Q. ME” ou “Q. MET” que o autor identifica, logicamente, com o procônsul da Ulterior, Q. Cecilius Metellus Pius. A inscrição demonstra que as glandes foram manufacturadas naquela localidade da Sierra Morena, quando o procônsul tinha estabelecido, na região, o seu quartel-general e base, contra Sertório.» Quanto ao acampamento dos guerreiros do sublevado Sertório, parece-me indesmentível, depois de lermos Plutarco e tantos outros autores (André de Resende tudo fez para o ligar a Évora, até lhe “deu” casa, mulher, e serva), seria nas franjas da Serra D´Ossa viradas para a cidade eborense, há quem refira Vale de Infantes, outros a povoação de Pomares, até mesmo Evoramonte, S. Gens, etc. Não me querendo intrometer sobre a discussão subjacente, a localização do mítico Monte Vénus corresponder a um destes locais, deixo aqui apenas estas palavras de Tito Lívio quando trata da acomodação das tropas sertorianas entre as populações locais: «… os venusianos (naturalmente os habitantes do monte Vénus!) depois de repartir estes homens entre as famílias, para que aí fossem recebidos e bem tratados…»
Assim, sem obrigar os homens de Sertório a correr mais que cavalos, de odres às costas, desenfreados para o Algarve, ou para a Serra da Arrábida, nem as legiões de Cecílio Metelo a deslocarem-se, quais fantasmas invisíveis, para cercarem essas zonas, tudo se passou, afinal, numa área de aproximadamente 50 km o que, justifica desde logo, o pouco aprovisionamento das tropas romanas. O procônsul atravessou o Anas (Guadiana) vindo das cercanias de Badajoz, por Juromenha (que nesta época se chamaria Dippo, ou Dipone,) e montou o cerco a Lacóbriga remetendo os habitantes para o interior das muralhas onde ficaram dependentes da água existente na única cisterna. Os guerrilheiros de Sertório, acampados na Serra D’Ossa, tiveram de imediato conhecimento do cerco (ainda hoje há atalaias por toda aquela zona), e, sem marchas forçadas, profundos conhecedores do terreno, durante a noite desceram pelos trilhos da serra e introduziram os afamados odres dentro da cidade sitiada. Os restantes guerreiros, com Sertório á cabeça, rodearam a zona invadida e armaram a cilada onde chacinaram todos os soldados que acompanhavam Aquílio quando se ia reabastecer. Avisado do desaire e da aproximação de Sertório, Cecílio Metelo levantou o cerco, atravessou o Guadiana e refugiou-se nas cidades que dominava para lá deste rio. Como sempre, afinal, quando a verdade impera, a explicação é simples.
Os pressupostos anteriores, na localização dos respectivos quartéis-generais, de Sertório e do procônsul Metelo, são afinal, os mesmos que serviram para entender o chamado “problema da batalha de Segóvia”, cuja localização “saltou” centenas e centenas de quilómetros por toda a Península Ibérica e pelo imaginário dos historiadores, até que em 1981, Teresa Gamito, apontou o dedo para Segóvia, no concelho de Elvas (!).

A CONSTRUÇÃO (ou reconstrução) DE LACÓBRIGA

Depois de localizada Lacóbriga, recuemos quatrocentos anos desde este episódio com Sertório, e vejamos também, sem cidades celtas no Algarve, sem barcos gregos carregados de Ídolos e sacerdotisas, e sem arrufos do deus Cupido, o que resulta da versão do “criativo” Frei Bernardo de Brito quando descreve, no mesmo texto, a construção da cidade Lacobricense e do Templo a Endovélico.
O governador Bahodes, era responsável pelas feitorias cartaginesas que ao longo do Guadiana (lembremo-nos que nessa época as “estradas”, as vias de transporte, eram os rios e os seus afluentes, muito mais caudalosos que no presente) recolhiam os bens produzidos em abundância no interior da Península (ouro, prata, estanho, cereais, carne, lã, entre outros), trocando-os por armas, tecidos, estatuetas, peças de vidro, cerâmica, e demais produtos produzidos em zonas mediterrânicas. Assim, Bahodes, inteligentemente, percebeu o valor estratégico de possuir um entreposto no local onde afluíam tantos peregrinos (razão pela qual muitos historiadores afirmam que instituiu uma grande feira anual em Lacóbriga) e propôs aos nativos a construção de uma nova cidade (ou reconstrução da antiga, alegadamente destruída por um terramoto), apoderando-se assim de todo o comércio na zona que albergava os devotos. Por esta razão, Frei Brito escreve - «Os nossos, a quem não eram suspeitos estes negócios, pelas frescas pazes, lhe concederam logo a sua petição…». Erguida (ou reerguida) a cidade, Bahodes é rendido pelo governador Maharbal que, ao visitar a recente construção e prestar homenagem ao Deus Endovélico (assim homenageando a cultura nativa), achou por bom investimento a construção de um Templo, certamente com a grandiosidade da, depois designada, por cultura greco-romana, junto ao tempo primordial celta (que seria uma grande formação natural junto à água, característica comum aos templos célticos). Portanto, Bahodes edificou uma nova Lacóbriga, e Maharbal edificou-lhe um novo Templo. Simples.

LACÓBRIGA (Landroal), NO MAPA VIÁRIO ROMANO

A localização geográfica de uma cidade com esta carga histórica, «Em tempo dos romanos foi cidade muy famosa…», acrescenta, ao que já dela conhecemos, o P. Bautista de Castro e outros historiadores o fazem (mais conheceremos ainda da sua surpreendente existência), levanta de imediato outra pergunta. Como justificar então, que tal cidade, não esteja mencionada nos Itinerários das vias romanas? Muitos investigadores, embora desconhecendo a localização de Lacóbriga, colocaram esta questão de outra forma pertinente. Como era possível que, entre as vias romanas que ligavam Évora a Mérida, não existisse uma ligação nesses Itinerários direccionada ao Templo do Endovélico? No Itinerário de Antonino Pio (imperador romano, 138-161) principal referência das estradas romanas, e que tantos neurónios gastou e gasta aos estudiosos destas questões, a via que faz a ligação (vinda de Lisboa) entre as referidas cidades de Évora e Mérida, é conhecida pela designação de Itinerário XII, que, na zona alvo deste nosso estudo, faz o seguinte alinhamento: Ebora (Évora) – Ad Atrum Flumen – Dipone (que seria Juromenha) – Evandriana (apontada como sendo Olivença) – Emerita (Mérida). Assim, existem as mais variadas sugestões apontadas pelos campos, numa mistura desigual entre instinto e razão. Uma “canseira…”, escrevendo em alentejano puro. Estudei depois o trabalho de Mário Saa (1893-1971) que, sendo natural de Avis, calcorreou todo o país por veredas e azinhagas tentando descodificar os Itinerários, mas, em boa verdade, concluí que mais foram os problemas criados que as soluções encontradas. Por fim, desnorteado, e também desorientado, confesso, resolvi voltar a estradas menos poeirentas e concentrei-me de novo no Itinerário de Antonino Pio: Ebora – Ad Atrum Flumen – Dipone – Evandriana – Emerita. Na remota esperança de pista fugaz, agarrei-me ao dicionário e traduzi Ad Atrum Flumen = Passagem do rio obscuro. Isto é, fiquei ainda mais baralhado. Mas, uma vez mais, percebi alguns dias passados e muitos livros vazios, era em mim (pelo privilégio de naqueles campos ter nascido), e não nos que ali haviam passado sem conhecer o chão que pisavam, que habitava a resposta. “Passagem do rio obscuro”, e, por efeito contrário, em mim fez-se luz. Eu sabia, muito bem, onde estava esse rio, aliás, onde está, correndo desde há milhares de anos sob os campos de Lacóbriga, oculto, silencioso, aparentemente alheio, mas sendo ele o ponto fulcral na formação da sua história, e, por consequência, o fundamento base que fechará num mesmo sentido todas as revelações deste estudo. “Cabo de Mar”, chamavam-lhe os velhos, pretendendo com esta expressão designar um rio subterrâneo. «Dizem que vem de França, atravessa a Espanha, dá a curva em Sousel, e passa aqui, debaixo da vila». Coincidência, ou talvez não, em 1982, apresentaram-se uns mergulhadores (espeleólogos) ligados a uma universidade francesa (Versailles), que procederam à sua prospecção. Neste momento aguarda-se a divulgação de um novo estudo realizados por espeleólogos portugueses nos algares das Morenas e Stº. António. Se esse “braço de mar” que “vem de França,” contribui para a alimentação da bacia hidrográfica que se espraia sobre o anticlinal de Estremoz, desde o Cano, Sousel, até ao Alandroal, e influencia o curso dessas águas subterrâneas, os geólogos nos darão conta, certamente.


Sobre a zona assinalada a vermelho, encontram-se os “Villares” de Bencatel, Alandroal e Pardais, assim como a área que engloba os algares.

O intrépido caminhante de Avis (Mário Saa), (percebi numa 2ª leitura do seu trabalho, e já lhe pedi desculpa) se à data possuísse esta informação, teria ficado na história como o investigador que localizou Ad Atrum Flamen - «Depois de Évora não há conhecidos sinais romanos até ao caudaloso Lucefécir. Mas a leste do rio intensifica-se a arqueologia romana, em “centrações”, duas das quais, as mais notáveis, são aqui conhecidas por «vilares». Há os vilares de Bencatel (fez mal em não pensar nos vilares do Alandroal, e diz que não conseguiu encontrar a Azenha das Freiras), 1,5 km. ao sul da povoação actual, e 4,5 Km. a leste, os «vilares» de Paredais.» (O nome da aldeia de Pardais, deriva do nome “Paredais”, querendo significar paredes velhas ou muros antigos). E depois, Mário Saa escreve - «Mas de Évora aos “vilares” de Bencatel nada tem que possa interessar o arqueólogo», o que significa que, com a tradução de Ad Atrum Flamen (passagem do rio obscuro), que é a povoação indicada pelo Itinerário depois de Ebura (Évora), mais a informação do curso de água subterrâneo, o historiador de Avis tiraria a lógica conclusão (Creio, do trabalho que li de Rocha Espanca, que ele não teve conhecimento, ou não deu importância, ao “braço de mar”, e no entanto, ainda há homens vivos que lá nadaram, entrando por uma gruta situada na zona conhecida por “Tapada das Caraças”que encosta à “Tapada das Moedas”. Mais tarde, aqui voltaremos).
Nova questão, certamente, se instala agora entre os leitores mais atentos – Que motivo levou o responsável pelo Itinerário de Antonino Pio a substituir o nome de uma cidade tão famosa, Lacóbriga, pelo de Ad Atrum Flamen? Duas, são as possibilidades, onde devemos procurar tão complicada resposta.
1ª – Que a cidade perdeu importância até à data da elaboração dos Itinerários (princípios do Séc. II) e passou a ter outra denominação.
2ª – Que os construtores do Itinerário, apesar da importância da cidade, para melhor cumprirem o objectivo do seu trabalho, acharam que o nome Ad Atrum Flamen era mais abrangente, portanto, passível de fornecer mais informações aos caminhantes.
A primeira possibilidade é, na minha opinião, de excluir. No ano de 663, sob o domínio visigótico, (a estrutura eclesiástica manteve-se apesar da queda do Império Romano do Ocidente), vemos a assinatura de Servus-Dei, Bispo Lacobricense, no 4º Concílio de Toledo, o que pressupõe a continuação do seu esplendor, e conhecemos, em traços gerais, a sua importância durante o período árabe com a designação de Al Azwiya, nome que Lagos também reclama (o erudito António Rey, caiu involuntariamente nesta mistificação, sem atender à etimologia da Azwiya (Azóia) que identificou no barlavento algarvio – Al Rhayiana), e que, aplicado a uma povoação como Lacóbriga, se poderá traduzir como Cidade-Hospedaria (função também desempenhada pelos mosteiros). Seria a cidade algarvia uma hospedaria para os peregrinos (a 35 km.!) que se dirigiam ao templo inexistente em Sagres? Mas, tirando proveito da “simpática” recolha documental dos mistificadores que pretenderam construir um passado fictício para a cidade de Lagos, podemos aproveitar um pouco da “sua” história - «Abderraman, califa de Córdova, reedificou as muralhas dotando-as com duas ordens de grossos muros e torres.» Conforme se pode verificar na seguinte figura…

Resta-nos pois, a 2ª possibilidade - vejamos o que está subentendido no seu enunciado e a surpreendente conclusão a que nos conduz. Que significação tão relevante poderia conter Ad Atrum Flamen (passagem do rio obscuro) para se sobrepor ao nome de uma cidade como Lacóbriga? Uma única explicação pode satisfazer as premissas contidas nesta interrogação. “A Passagem do Rio Obscuro” teria, sem dúvida, que englobar no seu significado a abrangência de um destino mais famoso e procurado que a própria cidade. Portanto, apenas a fama do próprio Templo do Endovélico podia preencher esta condição. Retiremos, para exemplo demonstrativo, uma situação da atualidade. Se num mapa de Portugal, estiver mencionada a expressão “Cova da Iria”, saberemos de imediato que essa via se dirige ao centro do culto mariano, e teremos simultaneamente o conhecimento, por associação, que indica a cidade de Fátima. Assim, e da mesma forma, a “Passagem do Rio Obscuro” assinalava a estrada que conduzia ao centro do culto a Endovélico, e, por associação, à cidade envolvente, Lacóbriga.
Ora, que saibamos, sob o outeiro de S. Miguel da Mota não corre qualquer rio subterrâneo, e Lacóbriga dista deste local cerca de 4km., o que inviabiliza toda a minha argumentação anterior, ou então, por dedução contrária, inviabiliza a existência do Templo a Endovélico na localização que lhe atribuem.
Efetivamente, e tendo consciência do “sacrilégio” que representará para muitas pessoas apaixonadas por este tema, esta minha conjetura, devo afirmar, por disso estar convicto, que, quer a localização do Templo do Deus Endovélico no ermo ressequido de S. Miguel da Mota, quer no exíguo altar da Rocha da Mina (hipótese Manuel Calado), não fazem qualquer sentido

O “problema” Endovélico

Vejamos, em concreto, a situação presente que os arqueólogos, depois de centenas de anos de pesquisas e bibliografias, enfrentam na localização do Templo a Endovélico, Deus Supremo dos celtas do «sertão». Pelas palavras dos próprios, após a última investigação séria feita em 2002 (Amílcar Guerra, Thomas Schattner, Carlos Fabião e Rui Almeida):
«Chegados a este ponto, é interessante reflectir sobre os erros de avaliação que sempre foram cometidos quando se tratou do sítio de S. Miguel da Mota, incluindo os signatários. Em primeiro lugar, sempre se admitiu que deveríamos estar perante uma estrutura fruste, por ser um santuário consagrado a uma divindade indígena, quando toda a evidência escultórica e epigráfica nos falava de um santuário romano e sugeria mesmo alguma monumentalidade. Em segundo lugar, sempre se tomou como certa a localização da estrutura (um templo ou vários) no topo da crista, no local onde se ergueu mais tarde a ermida de S. Miguel, pelo que os vestígios de utilizações antigas da encosta nascente foram considerados como pertencentes a um amuralhado indígena, pesando na apreciação, uma vez mais, o carácter da divindade (Vasconcellos, 1905, p. 125), ou estruturas anexas ao santuário, quando afinal, ao que tudo indica, se trata do santuário propriamente dito».
Afinal, sabe-se agora, que não se tratava do «santuário propriamente dito», e esta teoria, do “templo de socalcos”, está definitivamente arredada entre os investigadores. E outras assim acabarão, em “nada”, porque nada se saberá da localização do Templo enquanto os arqueólogos recusarem aceitar que, há anos, perseguem uma pista “plantada” (não sei qual o “ramo” eclesiástico que o fez ao decidirem cortar pela raiz todos os cultos pagãos), que, como em todas as situações semelhantes, pretende afastar o conhecimento comum das pedras que falam verdades incómodas. A capela de S. Miguel foi erigida (repito, não se sabe quando nem a mando de quem) naquele local, porque ali existiam vestígios romanos (talvez uma habitação) que foram preenchidos, como se infere do texto publicado em 2002 pelos referidos autores «Era evidente que todo este material se encontrava descontextualizado e reutilizado simplesmente como material de enchimento, à semelhança do sucedido com muitos dos outros exemplares (escultóricos e epigráficos) daqui levados por Leite de Vasconcellos em 1890, as estátuas e outros fragmentos preenchendo a cavidade natural e a árula usada como material de construção». Que verdades procuraram ocultar da posteridade essas fantasmagóricas personagens? Não sei. Quem se dedica a estudar essas “guerras”, depois de afirmar que o poeta Luís de Camões andou com o Duque de Braçança e a sua «Academia da Luz», no Alentejo, a estudar as aras do Endovélico “agarram-se” a este extrato da obra camoniana:
«Se dizem, fero Amor (o deus Cupido), que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
È porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano»
E daqui retiram terríveis conclusões que, por desconhecimento fundamentado das mesmas, não comentarei.
Por curiosidade, acrescente-se que em Vila Viçosa, os falsários, foram menos meticulosos nos alicerces da Capela de Santiago, onde “estava” o templo de Proserpina.

O verdadeiro TEMPLO do DEUS ENDOVÉLICO

Para aceder ao entendimento correto deste “problema Endovélico” é necessária uma abordagem ligeiramente distinta das formas como o seu estudo tem sido tentado. Na verdade, apenas a introdução de uma subtil pergunta entre o conhecimento adquirido, pode conduzir a novas conclusões. Isto é, possuímos num prato da balança (visualizemos assim), milhares de estudos sobre o tema Endovélico nas Universidades de todo o mundo, e, em mais Universidades ainda, no outro prato desta avaliação, o peso colossal dessa fantástica cultura greco-romana que se rendeu, embora adaptando-se, conforme se pode verificar nas inúmeras aras votativas, com profunda convicção, portanto fé, ao culto tópico, local, de um Deus celta perdido entre as faldas da Serra d´Ossa. Foi uma das características da romanização, pensarão muitos, e eu devo responder-lhes que não. Com esta convicção com que adoraram Endovélico e Atégina (Proserpina), com esta fé com que os tomaram por seus Deuses Superiores, não é uma característica da romanização. Os romanos não hostilizavam, toleravam (lembremo-nos que estamos a falar de sociedades profundamente religiosas), mas não se entregavam desta forma aos cultos nativos. Necessariamente, existiram condições especiais no culto destes Deuses celtas, em que a cultura-greco romana se reviu, em que se sensibilizou, em que comungou, através do sentido do divino dos locais, uma identidade total com os princípios profundos que emanavam dos seus próprios deuses, do seu Panteão original. E é aqui que devemos introduzir esta pergunta. Que ligações tão similares, entre conceções da espiritualidade, entre princípios fundamentais que lhe regulavam os nascimentos, as colheitas, as doenças, os amores, tudo afinal, da sua vida, podiam existir entre estruturas sociais tão diversas? E a resposta, é a vida depois da morte. No submundo, habitavam as almas dos seus mortos, e esse submundo, era o reino do Endovélico, e de Atégina, (Proserpina que correspondia à deusa grega Perséfone, quando com ele se recolhia nos meses obscuros. Na mitologia grega e romana, “Os Infernos” eram os lugares subterrâneos onde as almas desciam depois da morte para serem julgadas. Constituía crença geral, tanto na Grécia como em Roma, que todas as cavernas cuja profundidade não fosse sondada pelo homem, eram entradas para “Os Infernos”. Na Grécia, a sua entrada era pelas cavernas próximas ao cabo Averno, perto do Peloponeso, e em Roma era pelas grutas de Cumas, perto do lago Averno. Esta era a “cosmografia” dos Infernos: 1ª Nível – Os palácios da Noite, do Sono, e dos Sonhos. 2º Nível – O Inferno, o dos Maus. 3º Nível – Tártaro – O dos Deuses expulsos do Olimpo. 4º Nível – Os Campos Elísios – Morada dos Deuses Superiores.
Só assim se entende como os invasores, provenientes destas culturas, ficaram absolutamente seduzidos perante este Endovélico, Deus do submundo, das forças ctónicas, telúricas, elo entre a vida e a morte, «praestantissimi et praesentissimi (sempre ativo e presente), que transmitia as indicações divinas desde as profundezas por intermédio de sonhos e visões, ou através dos oráculos. Daqui resulta pois, obrigatoriamente, que o Templo original do Grande Endovélico celta será uma ampla caverna, uma passagem para os seus domínios, o submundo.
E onde existe, nessa zona, uma caverna com tais dimensões? Na verdade, existirão dezenas. As mais superficiais, por vezes cedem sob o peso da cobertura, formando profundos “buracos” no chão dos milenares olivais (nos últimos anos, que eu saiba, abriram dois, um na Herdade da Pipeira junto à transformação de mármore, e outro a poucos metros do olival dos Vilares. Outra dessas cavernas, já aqui o referimos, dava acesso à natação dos rapazes na “Tapada das Caraças”, e outras, de enorme profundidade são “algares”, que os geólogos (espeleólogos) estudam, mergulhando na “Passagem do Rio Obscuro” (Ad Atrum Flamen). É aqui, nesta faixa de terreno, prolongamento em linha reta dos “Villares” de Bencatel e Alandroal, Carambô, dos algares Morenas e Stº António, dos bairros Alfarrobeira e S. Bento (com estrada para os “Villares de Pardais”), a enigmática capela de S. Bento e olivais circundantes (onde abundam os vestígios de cerâmica), e depois, alto da Carrapatoza (significava barranco), Herdade da Pipeira (onde mais tarde se implantou um convento da Ordem de S. Bento), no sentido dos “Moinhos de Vento” (englobando a “Tapada das Moedas”), que o Templo mítico de Endovélico se revelará, quando à sua volta, os arqueólogos “desenterrarem” dos torrões alentejanos, uma página fantástica da História, uma cidade pré-romana com 2.400 anos (talvez mais) de existência, a lendária Lacóbriga.

A CIDADE de LACÓBRIGA, e a sua localização

Zona vermelha – Localização de Lacóbriga (virada a nascente, Espanha).
1-Fonte / Azenha das Freiras – Possível localização do Templo a Fontoura.
2 e 3 - Algares (Morenas e Stº António).
4 e 5 – Vestígios da cidade, sob a Escola Secundária e o bairro de S. Bento (que depois foram “escondidos”).
6 e 7 – Cavernas superficiais que cederam recentemente.
8 – Ribeira do Alcalate (linha das fortalezas)
9 – Tapada das Caraças (caverna e fonte – “escondidos”)
10 – Tapada das Moedas.

E então, tudo fará sentido. A fama de Endovèlico atraiu os peregrinos, e em volta do culto, tendo por base o “negócio” da fé (o crescimento da cidade de Fátima a partir do pequeno povoado das aparições, continua a ser um bom exemplo), cresceu Lacóbriga. Foi essa capacidade de desenvolvimento deste complexo que o cartaginês Bahodes antecipou, ao solicitar autorização para lhe erguer fundamentos com outra grandiosidade tornando-o mais apelativo à cultura greco-romana, e Maharbal, dando continuidade ao projeto, ergueu na nova cidade um Templo grandioso. Depois, nas centenas de anos sob o domínio do Império Romano, atingiu certamente o seu auge, «em tempo dos romanos foi cidade muy famosa (relembro as palavras de Bautista de Castro), e lembra-se dela Baptista Mantuano quando diz que erigira o Senado (teria Senado) sete estátuas a Ardiboro…». Relacionada com esta história, de entre os escritos de Rocha Espanca, retirei esta curiosidade «… Miguel João Azambuja, meu amigo, tem-me afirmado repetidas vezes que o primo, Frei Francisco, possuía um livro pequeno em oitava, escrito em português, no qual se dizia que, desde Estremoz ao Alandroal, haviam sido levantadas sete estátuas em diversos pontos, asseverando o Frade que aquela cabeça (referia-se à cabeça de uma estátua romana, depois enviada para Lisboa) era uma das sobreditas sete. Mas infelizmente não me sabe dizer o título do livrinho, nem do seu autor, de forma que ainda o não topei». Desta guerra com os Alanos (por volta do ano 410) aqui subentendida (cada estátua corresponderia a uma conquista de Lacóbriga pelos novos invasores e posterior reconquista pelo capitão romano Ardiboro), a cidade sobreviveu sem dúvida pois, no ano de 633, no 4º Concílio de Toledo (época visigótica) aparece a assinatura do seu Bispo. No entanto, no Concílio seguinte (o 5º, ano de 638) na mesma cidade de Toledo, regista-se um facto estranho que continua a confundir-me. A assinatura do Bispo Lacobriguense não surge, e, em seu lugar assina o Bispo Arcobricense (de Arcóbriga, outra das cidades celtas indicadas por Ptolemeu e ainda não identificadas no terreno). Poderá ser uma indicação de que Lacóbriga e Arcóbriga eram duas cidades próximas que alternavam a cadeira do bispado. Ao observar as ameias de uma outra fortaleza na fig 4, demarcada no rectângulo vermelho (e que, de outra forma não lhe sei explicar a origem), pensei na hipótese de estarmos em presença de uma “dipolis” (nome atribuído pelos historiadores a uma cidade dupla), mas, ao verificar a situação da vila dos Arcos em plena bacia hidrográfica do anticlinal de Estremoz (fig 4 ), inclino-me também para a possibilidade desta vila ser uma boa candidata para a localização de Arcóbriga. Devo contudo acrescentar, não tenho qualquer outro indício que possa reforçar alguma destas hipóteses. Voltando a centrar-nos na “nossa” Lacóbriga, agora chamada Al Zawiya pois entramos no período muçulmano (depois do ano 710), mas da escassez de dados disponíveis pouco podemos inferir. Pertenceu certamente à taifa de Badajoz, o historiador António Rey diz-nos que Alcalate (o ribeiro) significa Linha das Fortalezas, o que pressupõe fortificações avançadas frente à cidade (nessa área, Leite de Vasconcelos, li no seu espólio, procedeu a escavações na procura de um cemitério a que não volta a fazer referências), mas penso que é seguro afirmar que não resistiu ao extremismo religioso dos Almorávidas. Não é mencionada nas reconquistas cristãs com a queda de Juromenha e de outras “praças fortes” da fronteira, e apenas voltamos a revê-la com o nome de Landroal, um povoado humilde, encolhido junto ao castelo, insignificante na História que nos contaram a partir do reinado de D. Dinis, e onde, qual sinal de comiseração, nos compensaram com uma estrofe nos Lusíadas, e de que nos sentimos muito orgulhosos, porque o Pêro Rodrigues recuperou meia-dúzia de vacas aos espanhóis… “Obrigadinho”. E os nossos avós celtas, onde estão? E os nossos avós romanos, onde estão? E os nossos avós Alanos, onde estão? E os nossos avós visigóticos, onde estão? E os nossos avós muçulmanos, onde estão?
Onde está o registo do nosso verdadeiro passado? Onde está a documentação, que as seguintes palavras fazem pressupor?
«Para homenagear gentes do Alandroal doutras eras já passadas, lê-se “A primeira parte da crónica de El-rei D. João I de Boa Memória”, da autoria do Cronista-mor Fernão Lopes e depara-se com este parágrafo:»
«Depois de lisboa, talvez nenhuma povoação seja mais vezes referida do que o Alandroal, uma obscura Vila de poucos moradores, onde tanto corriam os homens a pé como a cavalo… Por ali perto tinham sede algumas importantes comendas da ordem de Avis; é possível que algum dos seus freires tenha tomado a peito pôr em escrito o que viu da guerra que levou o mestre daquela ordem à culminância do outro.»
Onde está essa “abundância” de referências que o cronista refere? Que guerras foram essas entre as ordens religiosas? O que se passou de tão grave nessa zona, que tudo desapareceu e, numa incrível mistificação, os detentores do poder material, espiritual, e da criação escrita, até o nome dos seus antepassados esconderam entre a areia e o vento das longínquas praias algarvias? No silêncio da incompreensão, há que entender os Trovadores :
«Cresceu a devoção, foi-se ampliando / Esta de amor esplendida grandeza/ Que mais encobre, do que está mostrando / De vários cultos e de “grão” riqueza; / Que de ano em ano as regras observando / Uma só vez se mostra sua nobreza: / Se então tornais, vereis o mais oculto / Que agora vos proíbe o nosso culto.»
Braz de Mascarenhas/ Viriato Trágico/Est.199/Sobre o Endovélico/1685.

Muitas, inúmeras, são as perguntas que ficam a pairar sobre uma investigação com esta amplitude. Mas para nós, homens e mulheres do presente, há umas que, pela sua premência, sou obrigado a destacar. Os responsáveis locais acompanharam, arqueologicamente, no terreno, as obras de construção da inicial Escola Secundária do Alandroal, do bairro da Alfarrobeira, mais recentemente do bairro de S. Bento onde parece que «aí a coisa apareceu em grande», e, no presente, da urbanização da “Tapada das Caraças”(Que análise foi feita ao túnel antes de o demolirem? Onde está a fonte das famosas “caraças”?)? E, se esses acompanhamentos arqueológicos foram efetuados, o que consta nos seus pareceres? Não pretendo, ao levantar estas questões, indagar culpabilidades, ninguém, estou certo, embora as motivações pudessem abranger interesses vários, cometeria um “homicídio” cultural desta dimensão, se, remotamente, suspeitasse da importância dos vestígios escondidos. Em boa verdade, fazer contas com o passado não altera o presente, mas refletir sobre ele, pode alterar o futuro.
Um abraço a Todos.
João Torcato Coelho Cardoso Justa







A Cidade do Endovélico by João Torcato Coelho Cardoso Justa is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported License.

2 comments:

Sarah Santiago said...

Só uma pergunta: este texto e, sobretudo, estes"mapas" são para ser compreendidos?
Ninguém fica a entender onde fica - NO MAPA - o famoso santuário a Endovélico?
Por outro lado, dou-lhe os parabéns pela sua descoberta sobre a localização de Lacóbriga, utilizando o Livro do Duarte d'Armas.
P.f. retire o encarnado do fundo do texto pois só repele o leitor!

Sarah Santiago

Anonymous said...

"Conhecendo de forma genérica o que procurávamos, a razão aconselhava o estudo das duas Lacóbrigas identificadas pelos historiadores. Uma, que seria a norte (na margem esquerda do Douro, diz Plínio (Liv. 3), assinalada no Itinerário de Antonino Pio (Imperador romano, 86 d. C. – 161) no trajecto de Lisboa a Braga (como Lancobriga), de que não nos ocuparemos por motivos que durante esta narrativa serão fáceis de entender (e também porque dela pouco ou nada reza a História, duvidando-se mesmo que possuísse dimensões de cidade), e a outra, essa sim, fundamental e determinante neste estudo, a Lacobriga que os cientistas históricos demarcaram no Algarve e de quem a cidade de Lagos usufrui, (usurpa, como veremos) há séculos,"
Gostavamos de saber mais sobre a Lacobriga na margem esquerda do Douro no itinerário Lisboa Braga...