Tuesday, November 27, 2012

S. GENS - UMA HISTÓRIA DO HELDER SALGADO


 Uma ficção do nosso colaborador Hélder Salgado.
Nesta ficção o Hélder Salgado tenta demonstrar-nos o que se passa actualmente na administração nacional e porque não na administração local.

São Gens
O único sujeito

    A festa tinha decorrido no lugar mais bonito do concelho, quiçá do Alentejo e no imaginário de muita gente, que se dizia viajada, no lugar mais bonito de Portugal, outros ainda, fazendo alardes da sua experiência de viandantes pronunciavam-se pela Europa, outros denunciadores de certa alarvidade, diziam sem nenhuma propriedade, que aquele lugar era o mais bonito do planeta Terra.
   Certo é que o rio do Prazer nunca deixara de correr. Corria tanto de Verão como de Inverno e o seu caudal não diminuía de intensidade nas estações intermédias.
    O local era um verdadeiro paraíso por desvendar.
    São Gens, o santo chegara ali novinho deixado pelos pais, que logo se aperceberam que o filho sobrevivia, naquele sítio, sozinho.
   Entre duas altas rochas, no cimo da ravina mais alta, construíram-lhe uma choupana, cuja cobertura de esteva e piorno não deixava entrar a água da chuva.
    São Gens, curioso, desceu a ravina e chapinhou-se com a água do rio do Prazer.
   Sentiu uma estranha sensação e repetiu o gesto. Por instinto ou por magia mergulhou nas águas que apresentavam uma limpidez cristalina e sem nenhuma ondulação.
   Mansa era aquela água que seduziu, como a donzela mais bonita e pura que alguém pudesse imaginar o menino São Gens, que sentiu pela primeira vez um calor humano diferente do materno.
   Quando saiu da água, o jovem São Gens tinha à sua disposição um hábito que lhe chegava até aos pés e uma corda para apertar a vestimenta.
   Sentiu-se iluminado.
   Mirou-se e remirou-se.
- Sou um frade - gritou em voz alta.
   O seu grito foi retornado, em eco, pelas ravinas sete vezes, que ele ouviu com enorme espanto, admiração e surpresa.
- Frade? E porque não santo? - Interrogou-se.
   Que diferença faria a São Gens ser frade ou santo? Estando sozinho naquele paraíso terreste, até podia ser Deus.
   Certo é que sentiu algo estranho, quando se banhou no rio e também o aparecimento da roupa, era mistério que ele não conseguia desvendar.
   Interrogou-se mas não refletiu.
  A sua idade ainda não lhe permitia grandes pensamentos, nem para isso tinha tempo, pois estava ainda a reconhecer o local.
   Tentou descobrir a nascente e embora dela muito se aproxima-se não consegui chegar à sua origem.
   Bombos bravos, torcazes e seixas, acompanhavam-no tentando afastar as pegas e os picanços. Curiosamente não se incomodavam com os pintassilgos, verdilhões ou com os rouxinóis, parecendo quer que estes cantassem para o São Gens, agora santo.
   O jovem santo apercebia-se deste encanto e, mais se admirava ao descer o rio, com o contínuo coaxar das rãs e o cantar dos sapos.
   Os choupos e as acácias tentavam dobrar-se para o cumprimentar e nem as silvas e os carapetos o picavam. O rosmaninho e os alandros intensificavam os seus cheiros, quando ele passava.
   São Gens vivia um sonho encantador.
   Não tinha preocupações com os alimentos pois o vale era muito fértil em fruta de todas as espécies.
    Nesta espécie de paraíso foi crescendo São Gens.
 Há sempre um dia
 Um dia estando o santo na sua choupana, lá no alto da ravina viu chegar ao rio um grupo de ciganos.
   Acamparam na margem esquerda, a margem menos agreste e arborizada e dirigiram-se à água para fazerem alguma higiene. Ao tocarem nesta, as raparigas corriam para o acampamento para se verem ao espelho e vestiram roupa nova, os homens surpreendidos conversavam uns com outros.
    Nada disto passou despercebido a São Gens.
   Agora com mais idade e possuidor de um grande poder de reflexão, tirou todas as dúvidas que no seu espirito pairavam, quanto ao poder daquela água.
   O rio era milagreiro.
   Como atacados por algo que passou despercebido ao santo, os ciganos retiraram-se. 
   São Gens entristeceu-se. Tinha com a chegada dos ciganos a possibilidade de conviver, de conversar e de trocar ideias acerca daquele maravilhoso local, além disso, no seu íntimo de jovem agradara-lhe ver as raparigas ciganas cuja garridice dos trajos o impressionara.
 O nascimento de uma povoação
 Passados oito dias da saída dos ciganos, São Gens vê chegar uma enorme multidão de gente. Observou-a atentamente e verificou que eram ciganos.   
   Deduziu e não se enganara que os primeiros foram chamar os seus irmãos de raça para ali permanecerem. Verificou que se organizaram e que iriam viver em harmonia.
   Alguns dias passados o santo tem nova surpresa. Vê chegar pastores com os seus rebanhos. Depois os lavradores que cultivam a terra, que se apresentava fértil. Oficiais de vários ofícios chegam logo a seguir. São construídas casas, na margem esquerda do rio.
    Comerciantes estabelecem-se e abrem-se tabernas e, atrás de tudo isto, começa a levantar-se a corrupção e a agiotagem.
    Vagabundos e mendigos não tardam a chegar
    Curiosamente a margem direita do rio é apenas ocupada por poetas, escritores, pintores e periodicamente por estudantes. Aqui as artes parecem querer impor a lei da sensibilidade humana, com manifestações íntimas do pensamento cujas ideias tentavam passar para a outra margem.
    A margem esquerda insensata segue a marcha que ela julga progressista, ignorando os sinais e os conselhos da margem das artes.
 A inquietação do santo
 São Gens agora homem e senhor de um sempre crescente poder de reflexão, pensa que algo terá que ser feito, de modo a ordenar esta contínua avalanche de pessoas.
- Tenho a certeza que sou frade mas santo....? - Pensava São Gens.   
   Esta interrogação levou-o a pensar algum tempo e a retardar a sua decisão.
   Começaram as desordens e os roubos.
   As injúrias entre vizinhos eram frequentes e aumentava de intensidade entre os ciganos e a restante população, parecendo querer abreviar a decisão do santo, que finalmente se decide.
   - Santo ou não vou impor a minha vontade - pensou um dia, quando os conflitos se agudizaram.
   Tinha a certeza que alcançaria bons resultados, tanto mais que quando ele descia a ravina para apanhar frutos, as pessoas que encontrava ofereciam-lhe comida, num ato de louvável respeito, mas que ele sempre rejeitava.
   Gente nova e mais velha já o tinha procurado para se aconselharem levados pelo seu hábito de frade e pela sabedoria que demonstrava nos aconselhamentos.
   Na reflexão que fazia a razão estava sempre do seu lado. Decidiu o dia o local e a hora para tão delicado e ao mesmo tempo arriscado ato.
   Era dia de descanso na comunidade.
   Escolheu, no meio da ravina, a rocha mais alta e ali se prostrou logo de manhã.
   Curiosos de todas as classes sociais abeiraram-se dele, alguns mais curiosos perguntavam-lhe porque estava ali, ao que o santo respondia apenas com um gesto de espera.
   Quando julgou ter à sua beira o número suficiente de pessoas decidiu falar.
- Vamos criar um Concelho, estão de acordo? - Perguntou com uma voz forte, alta e decidida.
   A multidão sentiu algo de estranho naquela voz, como se fosse um elo comunicativo e simultâneo entre todos.
- Estamos – Gritou a multidão em uníssimo.
- O rio Prazer é dividido em quatro cantões, Norte. Sul, Este e Oeste. A margem direita fica para as artes e o restante território do rio fica para o resto do Povo - Ordenou o santo.
   Os artistas rejubilando de alegria agradeceram, seguidos da restante população, excecionando os construtores que já há muito estudavam a maneira de se apropriarem da margem direita.
    Logo começaram a estudar a maneira de convencer o santo a deixá-los construir naquela margem.
   Um dia quando São Gens resolvia uns conflitos, construíram-lhe uma pequena casa, com duas divisões, cozinha e quarto. Uns ainda pensaram desmanchar-lhe a choupana, mas receosos não o fizeram.
   Pensavam que o São Gens iria para a nova casa, uma vez que não fazia sentido, sendo ele o dirigente máximo daquela comunidade, morar numa choupana.
   São Gens quando chegou ao cimo da ravina e viu a casa, não se surpreendeu e logo pensou ser aquele simples edifício a sede do Concelho.
   Já selecionara algumas pessoas para a feitura das leis, que teriam como base os bons costumes, por ele alcançados nas suas visitas à povoação.
   Nesta verificara que era necessário construir ruas, lavabos e lavadouros e, até uma igreja se a população a pedisse. Nunca a construiria por sua livre vontade, pois ele vivera sempre na sua adorável choupana e era feliz.
   Reunidos os conselheiros decidiram cobrar impostos para estas benfeitorias. Aqui começaram os dissabores e a contestação. 
      Apesar do rio do Prazer continuar com o seu caudal de fertilidade e a vida da povoação não conhecer dificuldades, acharam os impostos elevados.
   Os ciganos decidiram não pagar. Os vagabundos agrupando-se com os mendigos pilhavam o que podiam. Assim nasceu a guarda e a polícia. 
 São Gens sente-se enfraquecer
  Depois de passar uma juventude paradisíaca e despreocupada, São Gens vê-se agora cheio de dificuldades e problemas para governar o seu Povo.
    Uma nova ideia lhe aflorou o cérebro - implementar a democracia.    
    Apresentou a ideia aos conselheiros que em unanimidade concordaram.
    A mesma rocha em que antes estivera serviu de palco para o santo, que rodeado pelos conselheiros falou ao Povo.
- Queremos - Gritou em coro a população, para logo impor. 
- São Gens fica como presidente - Pela primeira vez o santo comoveu-se sentindo algo misterioso e humano que o conduziria à desgraça. Sentia uma espécie de arrependimento por se julgar santo e de impor a sua vontade, embora a achasse útil e necessária. Os acontecimentos davam-lhe razão e a maior prova é que o queriam para presidente.
   Tinha ainda outra preocupação, não conseguia evitar os olhares de duas raparigas que pareciam disputá-lo entre si e lhe recordavam a mesma sensação, sempre que tomava banho no rio.
   A democracia é instituída e logo surgiram as lutas de classe.
   O rio continuava abundante e milagroso ia alimentando aquelas lutas.
   Com estas  surgem também as lutas pelo poder.
   Caem governos após governos. 
   São Gens começa a ser ultrapassado e o seu poder começa a escoar-se ao mesmo tempo que o rio começa a ser menos abundante.
   Quando São Gens desce ao rio para colher frutos para se alimentar, este já escasseiam.
   Os maus negócios e a corrupção crescem impunes.
   As leis são demasiado brandas e permissíveis, onde a administração se deixa corromper.
   São Gens sente, cada dia que passa, que o paraíso do rio do Prazer, se aproxima do fim e, apesar de todo o seu empenho e esforço começa a sentir-se incapaz de dominar os acontecimentos, que se tornam céleres em todas as áreas da governação. 
   Pedem-se empréstimos e lançam-se mais impostos que asfixiam tudo e todos, num ciclo infernal e destrutivo.
    O Concelho cai nas mãos dos credores, que ditam a sua vontade.
    O Povo agita-se e o rio enfraquece com ele.
   Os poetas estão incapazes de cantar, os escritores de escrever. Não há pintores que descrevam aquele desolador cenário.
   As artes calam-se para sempre e a solo começa a tornar-se estéril.
   Os pastores vagueiam de herdade, em herdade para alimentarem os seus rebanhos.
    Ciganos e vagabundos, depois de pilharem o que o podiam, debandam do rio. A população vai, gradualmente, em busca de melhor vida abandonando o Concelho.
     A estrutura administrativa é abalada pela corrupção e suborno, rindo-se perante a impunidade das leis.
    São Gens já não se julga santo mas um simples frade que se penitencia a todo o momento.
    O rio do Prazer secara.
    A sua milagrosa água evapora-se por encanto, tal como o menino São Gens dera com ela ao chegar.
    O frade arrastando-se, dirige-se a todo o custo para a nascente, numa tentativa de salvar aquela gente, pessoas que sempre se confiaram nele e que ainda o adoravam.
   Era o que lhe restava fazer, para se livrar do peso que cada vez mais lhe atormentava a consciência.
     Entra agora sem nenhuma dificuldade na nascente. Os pombos já não o acompanham e as rãs e os sapos há muito tempo que perderam o som.
    Está seca.
    Nenhuma humidade transparece.
    O frade interroga-se com o aspeto desolador da nascente.
- Porquê? - Grita São Gens desesperado.
   O eco não retornou a sua voz.
   Uma voz rouca e cavernosa soou, dos confins da terra, aos ouvidos do frade.
- Porque tu São Gens te envaideceste ao julgaste santo. Porque tu, São Gens, deverias ter atuado mais cedo e não atuaste. As tuas leis, São Gens, foram brandas e permissíveis à ganância. Agora é tarde o rio do Prazer morreu.
- Não - Gritou São Gens num esforço para tentar calar aquela voz e ao mesmo tempo justificar-se. Esforço que ele julgava não conseguir, esforço de raiva por não ver reconhecido o seu trabalho, nem a dedicação a uma causa, que julgava acertada e correta.
    Tinha-se colocado, inteiramente, ao serviço daquela população e agora encontra-se sozinho, tal como os pais o deixaram naquele local, mas sem o paraíso do rio do Prazer. Maldisse o seu destino. 
    Não obtendo resposta atirou o cajado que se apoiou para subir o rio, ao teto da gruta, que logo, pedra a pedra, se foi desmoronando.
   O frade não se importou, nem esboçou nenhum esforço para fugir à derrocada.
   São Gens foi o único sujeito a morrer na festa do paraíso acabado do rio do Prazer.  

Helder Salgado.
25-11-2012.