Wednesday, March 06, 2013

PRIMEIRA PARTE DA ENTREVISTA CONCEDIDA PELO SR. PRESIDENTE DA CÂMARA DO ALANDROAL JOÃO GRILO

Durante estes três anos de mandato qual a situação que considera mais positiva em beneficio do Concelho?
 Estes três anos foram, provavelmente, os mais difíceis para o Alandroal no pós-25 de Abril. A crise económica que se abateu sobre o país teve está a ter aqui os seus reflexos. Houve, com certeza, nos primeiros anos da democracia outros momentos difíceis, mas nunca o concelho esteve tão fragilizado do ponto de vista financeiro para os enfrentar, até porque o papel do município, assim como as expectativas dos munícipes eram completamente diferentes nessas alturas.
Foram três anos a lutar contra um endividamento de tal modo pesado que todos os dias limita as nossas possibilidades de actuação, três anos em que assistimos a sucessivas reduções nas transferências do Estado para a autarquia ao mesmo tempo que as nossas receitas directas de taxas e impostos diminuíam e éramos alvo de retenções e penhoras de créditos de valores astronómicos para a nossa realidade por dívidas do passado – o que ainda está a acontecer. E tudo isto num cenário de crise nacional e internacional em que as pessoas estão mais desprotegidas e ainda esperam mais da câmara municipal.
Algumas pessoas ainda não perceberem a real dimensão do problema e pensam que tudo não passa de uma guerra de números entre forças políticas. Mas a verdade não permite interpretações duplas.
 Portanto, neste contexto, que era a combinação perfeita para que tudo corresse mal e nós não fossemos mais do que os “administradores da insolvência” de um município falido, conseguimos, com a nossa actuação e as nossas respostas, assegurar o normal funcionamento da instituição, aprofundar politicas educativas e culturais, melhorar respostas sociais, estar mais perto dos munícipes na sua relação com a câmara municipal, recuperar a confiança dos fornecedores locais e das associações do concelho. Ao mesmo tempo, conseguimos concluir e pagar obras que estavam paradas ou em andamento mas sem pagamentos efectuados e, portanto, condenadas a parar a curto prazo. Lançámos e estamos a lançar novas obras e ao longo deste tempo desenvolvemos um número considerável de novos projectos que apenas aguardam financiamento. Estamos longe de ultrapassar todas as dificuldades e os tempos vão continuar a ser difíceis mas começamos a ter “a casa arrumada” e a poder olhar para o futuro com mais confiança.
Por tudo isto, para mim, o mais positivo destes três anos é, apesar de todas as dificuldades, termos uma câmara a funcionar em pleno, a construir as bases sólidas para um futuro melhor, a recuperar a sua credibilidade, bom nome e confiança das pessoas do concelho, assim como credibilidade externa nas relações institucionais. E ainda considero mais positivo que seja um movimento independente a liderar este processo com a ajuda de muita gente, dentro e fora da câmara que coloca acima de tudo a sua dedicação ao concelho.

E a menos conseguida ou até a mais frustrante?
 O menos conseguido é que, por força deste cenário de crise, algumas coisas – que não dependem de nós – tendem a acontecer mais lentamente do que gostaríamos o que é frustrante para quem tem urgência em fazer acontecer.
Tem havido limitações e atrasos na aprovação de financiamentos comunitários para alguns dos projectos que desenvolvemos e que consideramos prioritários, como por exemplo a  remodelação dos sistemas de água e saneamento em todo o concelho ou a requalificação do caminho municipal 1109 entre Rosário e Ferreira de Capelins, ambos prontos para avançar há quase 2 anos.
Por outro lado, a conjuntura económica tem sido um obstáculo ao avanço de projectos privados, sobretudo na área do turismo, que estão aprovados pela câmara, alguns até já têm financiamento comunitário mas que demoram a sair do papel pelo clima de incerteza com que os investidores se confrontam e que poderiam, muito rapidamente, contribuir para a criação de emprego e para ajudar o concelho a afirmar-se como destino turístico.
 Por fim, embora tenhamos noção que, em termos gerais, as pessoas do concelho compreendem e apoiam as nossas prioridades e a nossa política, dentro da câmara – ao nível dos funcionários – a mensagem tem sido mais difícil de passar e assumo isso como um dos aspectos menos conseguidos. Por força do nosso esforço de reestruturação dos serviços e redução dos custos internos e de funcionamento, a que temos recorrido para manter os postos de trabalho e os vencimentos ao final do mês, pelas alterações legislativas que têm estado associadas a limites nas horas extraordinárias e ajudas de custos, a cortes nos salários e subsídios de férias e de natal, ao congelamento nas carreiras ou a regras mais rígidas nas comparticipações nas despesas de saúde. Num cenário de crise e de perda, generalizada, de poder de compra é, sem margem de dúvida, mais difícil aceitar estas mudanças. Contudo, e apesar de tudo, parece-me que as pessoas começam a perceber que só estamos a pensar no futuro de todos.

PUBLICADO EM 18 FEVEREIRO
 Das prioridades que escolheu para resolução imediata quais foram as concretizadas?
 Desde logo o equilíbrio das contas do município. Quando assumimos funções a câmara vivia uma situação de absoluta emergência financeira com mais de 30 milhões de passivos totais exigíveis através dos compromissos assumidos. Desse valor, pelo menos 17 milhões de euros eram dívida de curto prazo que podia e estava a ser exigida a todo o momento pelos credores. Temos estado a fazer um percurso de eliminação de compromissos assumidos, pagamento de dívida e consolidação de passivo. Em cada um destes 4 anos de mandato, mais de um milhão de euros das nossas receitas que devia ser para investimento terá sido para pagar dívida. Ainda estamos a viver momentos difíceis, mas quando entrar em vigor o Plano de Reequilíbrio Financeiro aprovado em Dezembro a dívida de curto prazo não consolidada do município passará a zero, e os passivos totais serão pouco superiores aos 18 milhões de euros. É um problema que vai demorar 20 anos a ser resolvido, mas nestes 4 terão sido dados os passos necessários para que a câmara possa funcionar e pagar a dívida acumulada sem comprometer o desenvolvimento do concelho.
 Por outro lado, quando assumimos funções, a câmara era uma estrutura pesada, dispersa, desorganizada e gastadora em todos os sentidos. A reorganização de serviços e da estrutura da câmara permitiu reduzir custos de funcionamento, melhorar as respostas e embora este seja um trabalho que nunca se pode considerar concluído, começamos a ver os frutos dessa estratégia.
Temos estado a introduzir mecanismos de poupança que só não avançam mais rapidamente porque exigem investimentos iniciais significativos, como é o caso da bomba de combustível própria que já está em funcionamento e que permite uma poupança de 10 cêntimos por litro de gasóleo.
 Mas isto não significa que já tudo esteja bem. Este trabalho tem que continuar a ser desenvolvido. Tenho noção, por exemplo, que o serviço de águas continua a ser uma fonte de problemas na nossa relação com os munícipes. Estamos longe de estar satisfeitos com isto e vamos continuar a introduzir alterações até as coisas funcionarem a 100%. E ainda há muito trabalho a fazer, por exemplo, no estaleiro municipal, armazéns e arquivo.
 E acima de tudo, a mais importante das prioridades, porque dela dependem todas as outras, é a definição de um rumo e uma estratégia de desenvolvimento para o concelho, o que não existia. Houve uma aposta para além de todos os limites do razoável nas “grandes obras”, dispersas, megalómanas, desequilibradas, para “encheram o olho” à população e o ego de algumas pessoas e que serviram mais as vaidades politicas que o desenvolvimento do concelho. Obras que se revelaram caras, desajustadas das necessidades da população e que tem elevados custos de manutenção que vão sempre ser um problema no futuro.
 Nestes quatro anos invertemos essa tendência e definimos uma verdadeira estratégia de recuperação e reabilitação dos imóveis já existentes, como são exemplo, a antiga escola primária do Alandroal e o antigo posto da guarda fiscal do Alandroal que agora se destina ao novo quartel da GNR ou a escola primária de Terena, prestes a entrar em obra. E já temos em desenvolvimento projectos para a recuperação do antigo posto da guarda fiscal de Montejuntos e das capelas de S. António em Alandroal e Terena para desempenharem com dignidade as suas funções de capelas mortuárias.
Quanto ao património histórico, assumimos como prioritária uma estratégia de intervenção e de recuperação como factor decisivo para um desenvolvimento sustentado assente na economia cultural e no turismo. Estamos a intervir no castelo do Alandroal, vamos restaurar a “Fonte das Bicas” e recuperar a Capela da Boanova e estamos a desenvolver projectos para que o património do concelho tenha um plano de recuperação exequível e contínuo ao longo do tempo – algo que nunca aconteceu no passado! – e estamos a preparar uma estratégia de incentivo à ocupação e reabilitação dos centros históricos de Alandroal, Terena e Juromenha.
Destaco ainda a prioridade dada ao desenvolvimento económico. Criámos eventos de promoção do concelho e das suas actividades económicas que se estão a consolidar pela autenticidade, qualidade e sustentabilidade. A “Mostra Gastronómica do Peixe do Rio” e o Festival “Terras do Endovélico” estão a tornar o concelho conhecido pelo que tem de melhor. Ajudámos a criar a primeira associação empresarial do Alandroal, criámos um novo conjunto de incentivos à fixação de empresas e estamos a estabelecer laços de cooperação com outros municípios, de onde destaco a cooperação com Olivença que se vai traduzir na assinatura de um protocolo já no próximo dia 19 com a presença de empresários dos dois concelhos.
Estas prioridades, assim como outras em áreas tão diversas como a cultura, a acção social e a educação, a eficiência energética, as acessibilidades e a mobilidade sustentável estão hoje plasmadas num documento que contou com a participação de todos na sua elaboração (Agenda 21 Local) e que orienta o desenvolvimento estratégico do concelho para os próximos anos.

Politicamente optou por ser do PS e nessa força política foi militante. Depois face às situações sobejamente conhecidas e que o levaram à fundação do MUDA, qual é presentemente a sua orientação ideológica dominante?
 Aquilo que somos em cada momento é o somatório da nossa história de vida, da nossa formação e dos nossos valores. Isso não muda por se estar num partido ou num movimento. O desempenho de funções autárquicas aumenta a nossa sensibilidade para algumas questões, alarga os nossos horizontes, mas a nossa essência mantém-se. Não preciso de fazer parte de um partido para me sentir em paz com os meus valores ideológicos e comigo mesmo. Sinto-me bem como independente e sei que sou respeitado por isso.
Não quero falar do passado, mas o tempo veio provar que estávamos certos nas posições que tomámos. Sabíamos quais seriam as consequências disso ao nível do partido e sempre convivemos bem com isso. Aliás, a cada dia que passa aumenta a nossa convicção de que não poderia ser de outra maneira e cada vez são mais as pessoas que compreendem isso.
Neste momento representamos com muito orgulho um movimento independente que mantém boas relações com todos os partidos e isso é o mais importante porque quem ganha é o Alandroal.

PUBLICADO DIA 21 DE FEVEREIRO

Considera-se um político de carreira? Pensa continuar mesmo que não venha a ser o próximo Presidente da Câmara prosseguindo a vida politica? Isto é, aceitaria desempenhar o cargo de Vereador mesmo se não vier a vencer as eleições?
 Nunca me poderia considerar um político de carreira porque fiz o meu percurso e a minha carreira no ensino e num determinado momento senti que podia fazer uma pausa nessa carreira e dedicar-me ao meu concelho. É isso que tenho estado a fazer e só nesta perspectiva é que encaro a vida política. Só esta perspectiva é que me permite que esteja de corpo e alma num projecto mas sempre pronto para voltar a essa carreira se for necessário, sem me sentir refém de nada nem de ninguém. Penso que já demonstrei que não estou agarrado a lugares nem a tentar fazer carreira. O que me move são as convicções e é por elas que pretendo continuar enquanto sentir que faz sentido. Em politica, como na vida, tão importante como escolher o momento para entrar é saber escolher o momento para sair. Espero vir a ter a sabedoria necessária para um dia não deixar passar esse momento.
O MUDA tem um projecto de desenvolvimento para o concelho que está longe de se esgotar nestes quatro difíceis anos que agora terminam. Pelo contrário, é nos próximos 4 a 8 anos que esperamos que todos, no concelho,  possamos colher os frutos deste trabalho. Como tal, não nos passa pela cabeça que este ciclo fundamental para o futuro do concelho seja interrompido antes do tempo. Mas isso, o povo é que, soberanamente, através do voto, vai decidir. Qualquer pessoa que se apresenta a eleições tem que ter a humildade para ocupar o lugar que os eleitores lhe reservarem. É uma das mais elementares regras democráticas e de respeito pelos eleitores.

Acredita que consegue até ao fim do Mandato colocar o Município a salvo do garrote das dívidas contraídas e que, enquanto Presidente, poderá concretizar as medidas preconizadas na Agenda 21 Local?

Como já disse, os passos necessários para isso já estão dados. Com a aprovação pela Assembleia Municipal do Plano de Reequilíbrio do Município é só já uma questão de tempo até que o mesmo seja uma realidade. Esse plano representa  dificuldades e constrangimentos, uma vez que ao longo de 20 anos vamos ter que amortizar mais de um milhão de euros de dívida por ano – dinheiro que devia ser usado para o desenvolvimento do concelho nos próximos mandatos – mas, apesar de tudo, este plano assegura uma margem de investimentos que nos permite acreditar na implementação da Agenda 21 Local. É nesse equilíbrio difícil entre pagar dívidas e fazer investimentos que temos que construir o nosso futuro. Sendo certo que o “tempo das vacas gordas” passou e hoje vivemos uma realidade completamente diferente no país e no mundo. No Alandroal, em particular, as vacas nem sequer eram gordas, estavam inchadas de endividamento para bem parecer. Nem somos tão pobres como nos pintaram no passado nem tão ricos como recentemente nos quiseram fazer parecer. Somos um concelho onde é preciso arregaçar as mangas, falar menos e trabalhar mais!


Trace-nos um brevíssimo diagnóstico para o Concelho do Alandroal em termos de presente? Acha que temos um futuro prometedor?
 Se não acreditasse num futuro prometedor para o concelho não andava aqui.
Temos futuro porque somos um concelho que pela riqueza natural e patrimonial, pela história e cultura, pelas acessibilidades e proximidade com Espanha, por estar simultaneamente na Zona dos Mármores e em Alqueva tem um potencial de desenvolvimento acima da média dos concelhos vizinhos e dos concelhos do interior no geral, mas não há milagres. Só com muito trabalho ao longo do tempo se pode concretizar essa realidade. Acredito nessa realidade e nestes quase quatro anos fiz tudo para criar os “alicerces” que nos aproximam dela. Gostava de continuar a dar o meu contributo para o crescimento das “paredes” deste edifício nos próximos anos e um dia ver concretizado o mais que merecido “telhado” para os nossos filhos e netos. Porque acredito neste edifício chamado “Concelho do Alandroal”.
O que sempre faltou ao concelho foi trabalho sério e estratégia de longo prazo.
Sempre ouvi dizer que “temos a vantagem de estar perto de Espanha”, mas nunca vi ninguém fazer nada para tirar partido disso. Agora, pelo contrário,  estamos a trabalhar a sério com Olivença e queremos chegar a Badajoz, Cáceres e Mérida. Nunca antes tinha havido, do ponto de vista político, o mais pequeno esforço de aproximação. Houve geminações com Cuba, Cabo Verde, Brasil que a única coisa que deixaram foi grandes contas para pagar e nunca se olhou para o lado, onde os benefícios para as populações podem ser simples e imediatos.
Sempre ouvi dizer que “o Endovélico é único no mundo e só nosso” mas nunca vi ninguém fazer nada para o promover ou criar um museu. Agora, pelo contrário, criámos o “Terras do Endovélico”, estamos a projectar o museu, criámos o centro de estudos, estamos a apoiar publicações, escavações, etc.
Sempre ouvi dizer que “temos um grande tradição no peixe do rio  e o nosso concelho é conhecido por isso”, mas nunca vi ninguém fazer nada para promover essa tradição e com isso trazer visitantes. Agora, pelo contrário, criámos a “Mostra Gastronómica” e já se pode comer peixe do rio em todos os restaurantes do concelho (antes da mostra havia um único a servir peixe) e a procura de peixe já permite a existência de pescadores profissionais.
Sempre ouvi dizer que “os nossos monumentos, os nossos castelos, são a nossa maior riqueza”, mas muito pouco se fez para os recuperar e tornar atraentes para os visitantes. Vendeu-se gato por lebre até à exaustão com “o concelho dos três castelos” que depois eram três ruínas que causavam – e ainda causam –grande desilusão aos turistas. Agora, pelo contrário, temos um plano contínuo de intervenções no património que já começou no castelo do Alandroal, vai estender-se à fonte da praça e à Capela da Boanova, ao castelo de Terena e à Misericórdia de Terena, Rocha da Mina, o Posto da Guarda Fiscal de Montejuntos, para mencionar os que já tem trabalho em desenvolvimento.
Sempre ouvi dizer que “o nosso concelho tem um grande potencial turístico, agrícola e agro-industrial” mas nunca vi a câmara fazer nada de concreto para ajudar os empresários a construir essa realidade. Agora, pelo contrário, ajudámos a criar uma associação empresarial, temos em desenvolvimento investimentos comuns com a Associação de Beneficiários do Lucefecit, estamos a estabelecer pontes com Espanha e com outros países da Europa, e tudo sem sair de cá! É verdade que é o momento mais difícil para este trabalho, mas por isso mesmo é que não podemos perder mais tempo.
E podia continuar com o “sempre ouvi dizer” e “nunca vi fazer”. Porquê? Ajudem-me a responder os que puderem, mas a verdade é que estava tudo aí, à espera de ser feito. É claro que os resultados de uma estratégia deste tipo demoram a aparecer. Não dão votos no imediato. É um risco para quem governa mas é o que o concelho precisa. E sempre se apostou em estratégias mais “seguras” de curto prazo. Mas imagine onde estaríamos hoje se todas estas estratégias de desenvolvimento tivessem sido começadas há 30, 20 ou mesmo 10 anos atrás!
Mais vale tarde que nunca – teremos que dizer – mas está aqui grande parte da explicação para o nosso atraso histórico em relação aos concelhos vizinhos.

 Em que situação estão as obras da Biblioteca Municipal? E já agora que utilidade se pretende dar ao Parque onde se fizeram as Expo-Guadiana?
 A obra da biblioteca municipal começou em 3 de Junho de 2005 e tinha um prazo de execução de um ano. Tinha um custo total de cerca de 1,5 milhões de euros. Financiada a 50% pelo Terceiro Quadro Comunitário de Apoio (QCAIII) e 45% pelo Instituto Português do Livro e das Bibliotecas (IPLB), à câmara correspondia apenas 5%, ou seja 75 mil euros.
Os projectos do QCAIII tinham que ser executados até à data final de encerramento do quadro comunitário, Junho de 2009, o que não se veio a verificar.
Portanto, hoje, a situação é a seguinte: precisamos ainda de mais de 500 mil euros para concluir a obra e estamos a ser pressionados pela CCDR para devolver mais de 360 mil euros de financiamento recebido. Ou seja, uma obra que teria custado à câmara 75 mil euros se tivesse sido concluída no prazo previsto (ou mesmo em quatro vezes o prazo previsto!) exige, hoje, para ser concluída quase um milhão de euros dos escassos recursos da câmara. É esta a dimensão do problema.
Quanto ao chamado “parque de feiras e exposições” é de longe o local onde, ao longo do tempo, das mais diversas formas, mais dinheiro “se enterrou”.
É impossível calcular com exactidão tudo o que ali se gastou: custo do terreno, sucessivas terraplanagens e instalação de equipamentos eléctricos (cada vez que havia uma feira), aluguer de tendas e outros equipamentos, construção de vedações (foram feitas pelo menos duas, a última em 2009), etc. Foram milhões que não se traduziram em nada.
Para além disso, o projecto de um “mega-pavilhão de eventos” no parque de feiras estava totalmente desajustado da nossa realidade como se tem provado em concelhos vizinhos. O actual quadro comunitário já não estava orientado para financiar projectos deste tipo e o que se conhece do próximo, ainda menos.
Hoje temos em desenvolvimento um estudo prévio que oportunamente será apresentado à população para discussão e que prevê uma total inversão da filosofia do espaço numa lógica de “parque verde” com espaço para a praça de touros e um picadeiro com escola de equitação (numa lógica de concessão privada), jardins, circuito de manutenção, “skate-park”, hortas comunitárias, etc.

PUBLICADO A  28 Fevereiro 2013-02-27

Pode adiantar-nos  algo mais sobre o andamento das Comemorações dos Forais?
 Este era outro assunto que estava totalmente esquecido e que não podemos deixar de assinalar com a devida dignidade pela sua importância histórica e pela circunstância de termos três forais num único concelho. As Comemorações dos 500 Anos dos Forais Manuelinos de Juromenha, Terena e Alandroal estão a decorrer de Outubro de 2012 a Janeiro de 2016 com os principais eventos agendados para o período de Outubro de 2014 a Outubro de 2015. Já está constituída uma comissão “ad hoc” para orientar científica e culturalmente os trabalhos, estão estabelecidos os contactos com o Arquivo Nacional da Torre do Tombo para o restauro dos exemplares do município e contamos apresentar o programa das comemorações muito em breve em data e local a designar. As comemorações envolvem o restauro dos originais, uma edição “fac simile” conjunta dos 3  forais e podem ainda envolver recriações históricas, conferências, exposições e outros momentos distribuídos pelas três localidades do concelho.

Esclareça-nos sobre o projecto “Endovelico”?  As pessoas continuam envolvidas?
 O projecto “Endovélico” é e continuará a ser uma das nossas grandes prioridades. Como traço cultural, é um dos nossos principais factores de diferenciação e de afirmação mas a verdade é que, mesmo dentro do concelho, ainda muitas pessoas desconhecem a real importância que este deus e o seu culto teve no contexto da Lusitânia romana.
Neste mandato desenvolvemos o estudo prévio do centro interpretativo/museu em colaboração com o Museu Nacional de Arqueologia e contamos apresentar o projecto definitivo em Julho próximo. Será um espaço onde o espólio do Endovélico terá um lugar central mas muito interactivo, capaz de mostrar às crianças e jovens das escolas o que era a vida romana no nosso território há 2000 anos atrás. Será também um verdadeiro museu do concelho com uma forte componente etnográfica e da relação com a fronteira. Contamos que seja um espaço capaz de atrair de forma contínua um número significativo de visitantes com destaque para estudantes de todo o país mas também de Espanha.
Lançámos o Festival “Terras do Endovélico”, que terá este ano a sua terceira edição, num formato que conjuga a promoção cultural com a feira de actividades económicas, num modelo muito sustentável mas que procura ser o ponto alto da afirmação do território.
Criámos o “Centro de Estudos do Endovélico” que está a juntar os especialistas na orientação científica do projecto do museu, mas também a criar outras dinâmicas, com destaque para o programa educativo que vai levar a arqueologia até às escolas e a todas as crianças do concelho.
Estamos a desenvolver um documentário sobre as “Terras do Endóvelico” (para apresentar em Julho), financiado por fundos comunitários, e que será um importante cartão de visita do concelho.
Fruto do trabalho do centro, teremos, também em Julho um congresso científico que vai juntar todos os investigadores nacionais e internacionais da temática. As comunicações deste congresso darão corpo à primeira edição dos “Cadernos do Endovélico” que ao longo do tempo continuarão a nova produção científica e a enriquecer o centro de estudo.
Para nós o mais importante é que as crianças e as pessoas do concelho conheçam e valorizem este legado histórico e cultural. Só assim poderemos aumentar a nossa auto-estima em relação ao concelho e à sua riqueza cultural e transmitir aos visitantes.
Como parte desta estratégia posso adiantar que, antecedendo o congresso de Julho, a câmara vai organizar um conjunto de visitas guiadas de pequenos grupos ao Museu Nacional de Arqueologia para que conheçam a real importância deste legado no contexto da Arqueologia nacional.

PUBLICADO 04 Março 2013-03-04


Em recentes declarações, esclareceu que voltaria a candidatar-se, se para tal reunisse o consenso do MUDA. Dando como certa tal anuência e sabendo as dificuldades que se prevêem para os próximos anos, dada a contingência da extinção do Concelho (vide o que sucedeu recentemente com as freguesias), não teme que um segundo mandato possa vir a colocá-lo como o último Presidente da Câmara do Alandroal?

Penso que a fusão de municípios fará sentido em áreas densamente povoadas, onde quase não se percebe onde acaba um concelho e começa outro – como as áreas metropolitanas de Lisboa e Porto – onde seria possível uma grande poupança com grandes ganhos de escala já que existem maiores dinâmicas empresariais e da sociedade civil e onde os serviços do Estado estão bem presentes. Nos territórios do interior, onde as câmaras municipais, mercê do desinvestimento de sucessivos governos, são a única resposta para as populações e ao mesmo tempo as grandes impulsionadoras das dinâmicas locais, extinguir municípios é condenar os territórios a sofrerem uma desertificação ainda mais rápida e destrutiva.
E não podemos aceitar argumentos de poupança, já que o esforço do Estado é mínimo comparando com tudo o que se consegue aqui fazer pela vida das pessoas com esse dinheiro. Os males da nação estão bem identificados no buraco da Madeira, no défice crónico e crescente das grandes empresas públicas, nas PPP’s e nos BPN’s, entre outros. O dinheiro que aqui recebemos do estado é mais do que devido. Não só resulta dos nossos impostos com também nos nossos territórios estão os recursos naturais, as áreas protegidas, os montados, as barragens, a RAN e a REN... As populações do interior pagam um preço elevado para que Portugal mantenha bons indicadores ambientais e o único que pedem em troca é que sejam compensadas na devida medida em relação à riqueza que produzem e que encerram e não que sejam olhadas com a desconfiança de quem está a pedir para gastar o que outros pagaram em impostos.
Para alem disso, nestes  territórios que estão a ser abandonados à sua sorte está tudo o que Portugal tem de único e irrepetível em qualquer lado do mundo e com potencial para ajudar a construir um futuro sustentável. Está o que resta de cultura e tradições milenares de um modo de vida em equilíbrio com a Natureza, que para além de ser factor decisivo de identidade e afirmação é um factor económico de peso.
Temo que o Alandroal possa vir a estar numa posição mais fragilizada do que devia no momento em que a questão vier um dia para cima da mesa. A sucessiva falta de estratégia de desenvolvimento e a situação de endividamento crónico em que ficámos retira-nos alguma capacidade de argumentação.
É por isso que é importante mostrarmos hoje que sabemos para onde queremos ir, que temos parcerias estratégicas com os nossos vizinhos que ajudam a construir esse caminho. Que temos valor e potencial económico. Que somos rigorosos na aplicação de fundos comunitários. Que fazemos trabalho sério e consistente e que, como tal, devemos ser respeitados pelo poder central e por todos os organismos do Estado. Temos que mostrar que vale a pena continuar a pensar o Alandroal como um território com identidade, potencial e futuro. E que há lugar neste processo para todos os que queiram dar o seu contributo.
Esta pode muito bem ser a nossa última oportunidade de mostrar isso e fazer um ponto de viragem neste concelho. Temos que mostrar que a nossa continuidade enquanto concelho não pode ser posta em causa. E se não o conseguirmos, seremos todos responsáveis. Uns mais que outros, é claro, em função das responsabilidades e do poder de intervenção. Portanto a questão de fundo é quem se vai demitir de fazer parte deste processo!

 A terminar: dê-nos a sua opinião sobre o papel dos blogues e sites do Alandroal e, se assim o entender sobre o papel que o Al Tejo tem vindo a desenvolver.

Os blogues podem ser importantes meios de comunicação, e é por isso que desde o início deste mandato, a Câmara Municipal adoptou a postura de enviar informação da actividade do município para os blogues mais conhecidos da sede de concelho colocando-os em pé de igualdade com qualquer  meio de comunicação social, até porque, esses meios não existem no concelho e estes acabam por ser uma importante fonte de informação.
Entre as pessoas ou instituições e os meios de comunicação social, por força do seu código deontológico, existe, regra geral, um respeito mútuo e uma partilha de responsabilidades que funciona como garantia dos direitos e liberdades e da livre expressão de cada um. Nos blogues isto não está assegurado. As únicas garantias que podem existir são as que resultam dos critérios, mais ou menos claros, do editor.
Não nos podemos esquecer que os direitos e liberdades de uns terminam necessariamente onde começam a colidir com os direitos e liberdades de outros.
Admiro e respeito todas as pessoas que nos blogues dão a sua opinião e escrevem o seu verdadeiro nome por baixo. Como alguém disse um dia, “posso não concordar com o que dizes, mas bater-me-ei até ao fim pelo teu direito a dizê-lo!”
Infelizmente para todos nós, noto que os nossos blogues estão longe de cumprir esta missão.
Ao contrario do que muitos defendem, o  anonimato não serve a livre expressão.
A pretexto da “liberdade”, da “livre expressão” ou da “imparcialidade” não se pode dar espaço às mais cobardes formas de espalhar o boato, a mentira e a difamação.
Os blogues perdem assim o seu carácter informativo e transformam-se  em espaços e instrumentos que contribuem activamente para um ambiente revanchista, destrutivo, de “bota-abaixo” e de destilar de ódios que só serve interesses obscuros mas ao mesmo tempo identificáveis.
Ninguém que queira fazer um trabalho de comunicação sério pode deixar-se usar como instrumento desta estratégia.
Quem quer ser respeitado deve dar-se ao respeito. Qualquer editor não se pode distanciar de qualquer conteúdo do seu blogue ainda que seja um comentário. Se os blogues querem fazer um trabalho sério e ser respeitados por isso comecem por dar o exemplo: Acabem de vez com comentários anónimos e de gente que não se identifica publicamente.
Portanto, penso que o AL-TEJO tem sido um importante meio na difusão do concelho e do que nele acontece, que o tem feito de forma imparcial e abrangente, que dá espaço a opiniões diversas e bem identificadas e que já fez um importante percurso na forma de lidar com os comentários anónimos. Falta dar mais um passo. Falta acabar de vez com esses comentários que poluem uma imagem quase irrepreensível. Deixo aqui esse desafio ao editor.

 Caso o entenda necessário e  se  for de acrescentar e informar algo
mais sobre o Concelho, faça o favor. Via aberta.

Muito se tem feito neste mandato para colocar o concelho no rumo certo. Mas é incomparavelmente mais o que está por fazer do que aquilo que está feito.
Não temos medo da crítica. Vivemos bem com ela e é ela que nos ajuda a melhorar. Acedi a dar esta entrevista neste espaço sabendo que ela ia ser alvo de grande escrutínio local, e é perfeitamente identificável o que são críticas sérias, consistentes e com fundamento – porque sabemos que erramos e nem sempre conseguimos ver todos os lados de um problema – e o que é politiquice baixa e fundamentalismo bacoco. É esta última parte que está a mais nos blogues e no nosso dia a dia.
Somos uma comunidade pequena e frágil que deve estar fortemente unida nos desafios que tem pela frente.
Aproxima-se um momento eleitoral que vai ser vivido no mais difícil cenário de crise e dificuldades de que temos memória recente.
Os alandroalenses vão ter que fazer escolhas. E vão ter que escolher entre opções de futuro bem diferentes e bem identificadas.
Será mais um momento para o Alandroal demonstrar a sua cultura democrática e tenho a certeza que o vamos fazer da melhor forma, mas deixo um apelo.
Não deixem que a politica vos divida. Não deixem que alguns políticos vos dividam. Não deixem que vos coloquem uns contra os outros. Não deixem que a politica crie barreiras entre familiares, vizinhos, colegas de trabalho, etc.
Tenham “adversários políticos”, não tenham “inimigos políticos”.
Critiquem, perguntem, interessem-se! Queiram saber! Informem-se a fundo. Não se deixem ficar pela superfície e pelo “diz que disse”.
E depois façam as vossas opções, votem em consciência.
Uma comunidade distingue-se pelos valores que pratica e não pelos que apregoa.
Penso que o crescimento deste espírito no concelho tem sido um dos grandes contributos do MUDA e é também por aqui o Alandroal deve aproximar-se mais do “quem de ti se fiar não o enganes, lealdade em todas as cousas”.

PUBLICADO EM 11 MARÇO 2013









Sunday, February 24, 2013

O SABER NÃO OCUPA LUGAR


E QUEM NÃO GOSTA DE SABER A HISTÓRIA DE COMO DESDE SEMPRE O POVO PORTUGUÊS FOI, E CONTINUA A SER EXPLORADO SEMPRE PELOS MESMOS.
=Este filme com a duração aproximada de 47 minutos, passou na RTP2  cerca das 02,00 da manhã e com a visualização do mesmo poderá ficar a saber porque Portugal chegou à miséria em que se encontra, como tudo começou e se prolongou até aos dias de hoje= 
Donos de Portugal
 Donos de Portugal é um documentário de Jorge Costa sobre cem anos de poder económico. O filme retrata a proteção do Estado às famílias que dominaram a economia do país, as suas estratégias de conservação de poder e acumulação de riqueza.
Mello, Champalimaud, Espírito Santo – as fortunas cruzam-se pelo casamento e integram-se na finança. Ameaçado pelo fim da ditadura, o seu poder reconstitui-se sob a democracia, a partir das privatizações e da promiscuidade com o poder político. Novos grupos económicos – Amorim, Sonae, Jerónimo Martins - afirmam-se sobre a mesma base.
No momento em que a crise desvenda todos os limites do modelo de desenvolvimento económico português, este filme apresenta os protagonistas e as grandes opções que nos trouxeram até aqui.
Produzido para a RTP 2 no âmbito do Instituto de História Contemporânea, o filme tem montagem de Edgar Feldman e locução de Fernando Alves.
A estreia televisiva teve lugar na RTP2 a 25 de Abril de 2012. Desde esse momento, o documentário está disponível na íntegra emdonosdeportugal.net.
Donos de Portugal é baseado no livro homónimo de Jorge Costa, Cecília Honório, Luís Fazenda, Francisco Louçã e Fernando Rosas, editado em 2011 pela Afrontamento e com mais de 12 mil exemplares vendidos.
 (Devido à duração do mesmo optamos por colocar o link.
Clique no mesmo, veja e medite…)

Monday, January 21, 2013

O ALENTEJO NA IMPRENSA INTERNACIONAL DE RENOME


Há relativamente pouco tempo aqui deixamos vários conselhos sugeridos pelo prestigiado diário The Telegraph sobre uma visita ao Alentejo.
Na sequencia damos-lhe hoje a conhecer este magnifico vídeo que justifica em absoluto o interesse demonstrado pelo Jornal por esta nossa Região.

 Video: the Alentejo – Portugal's best-kept secret
Watch this video for a flavour of the magical holiday experiences available in the Alentejo – in less than three minutes!


Thousands of square miles of unforgettable countryside and protected areas; 3,000 hours of sunshine per year; around 50 pristine beaches; western Europe's largest man-made lake; unspoilt traditional architecture and historical treasures; religious monuments; superb cuisine and fine wines; and a friendly welcome from the locals: for a timeless slice of real Portugal, let Sunvil introduce you to the unrivalled Iberian splendour of the Alentejo

Friday, January 11, 2013

Tuesday, November 27, 2012

S. GENS - UMA HISTÓRIA DO HELDER SALGADO


 Uma ficção do nosso colaborador Hélder Salgado.
Nesta ficção o Hélder Salgado tenta demonstrar-nos o que se passa actualmente na administração nacional e porque não na administração local.

São Gens
O único sujeito

    A festa tinha decorrido no lugar mais bonito do concelho, quiçá do Alentejo e no imaginário de muita gente, que se dizia viajada, no lugar mais bonito de Portugal, outros ainda, fazendo alardes da sua experiência de viandantes pronunciavam-se pela Europa, outros denunciadores de certa alarvidade, diziam sem nenhuma propriedade, que aquele lugar era o mais bonito do planeta Terra.
   Certo é que o rio do Prazer nunca deixara de correr. Corria tanto de Verão como de Inverno e o seu caudal não diminuía de intensidade nas estações intermédias.
    O local era um verdadeiro paraíso por desvendar.
    São Gens, o santo chegara ali novinho deixado pelos pais, que logo se aperceberam que o filho sobrevivia, naquele sítio, sozinho.
   Entre duas altas rochas, no cimo da ravina mais alta, construíram-lhe uma choupana, cuja cobertura de esteva e piorno não deixava entrar a água da chuva.
    São Gens, curioso, desceu a ravina e chapinhou-se com a água do rio do Prazer.
   Sentiu uma estranha sensação e repetiu o gesto. Por instinto ou por magia mergulhou nas águas que apresentavam uma limpidez cristalina e sem nenhuma ondulação.
   Mansa era aquela água que seduziu, como a donzela mais bonita e pura que alguém pudesse imaginar o menino São Gens, que sentiu pela primeira vez um calor humano diferente do materno.
   Quando saiu da água, o jovem São Gens tinha à sua disposição um hábito que lhe chegava até aos pés e uma corda para apertar a vestimenta.
   Sentiu-se iluminado.
   Mirou-se e remirou-se.
- Sou um frade - gritou em voz alta.
   O seu grito foi retornado, em eco, pelas ravinas sete vezes, que ele ouviu com enorme espanto, admiração e surpresa.
- Frade? E porque não santo? - Interrogou-se.
   Que diferença faria a São Gens ser frade ou santo? Estando sozinho naquele paraíso terreste, até podia ser Deus.
   Certo é que sentiu algo estranho, quando se banhou no rio e também o aparecimento da roupa, era mistério que ele não conseguia desvendar.
   Interrogou-se mas não refletiu.
  A sua idade ainda não lhe permitia grandes pensamentos, nem para isso tinha tempo, pois estava ainda a reconhecer o local.
   Tentou descobrir a nascente e embora dela muito se aproxima-se não consegui chegar à sua origem.
   Bombos bravos, torcazes e seixas, acompanhavam-no tentando afastar as pegas e os picanços. Curiosamente não se incomodavam com os pintassilgos, verdilhões ou com os rouxinóis, parecendo quer que estes cantassem para o São Gens, agora santo.
   O jovem santo apercebia-se deste encanto e, mais se admirava ao descer o rio, com o contínuo coaxar das rãs e o cantar dos sapos.
   Os choupos e as acácias tentavam dobrar-se para o cumprimentar e nem as silvas e os carapetos o picavam. O rosmaninho e os alandros intensificavam os seus cheiros, quando ele passava.
   São Gens vivia um sonho encantador.
   Não tinha preocupações com os alimentos pois o vale era muito fértil em fruta de todas as espécies.
    Nesta espécie de paraíso foi crescendo São Gens.
 Há sempre um dia
 Um dia estando o santo na sua choupana, lá no alto da ravina viu chegar ao rio um grupo de ciganos.
   Acamparam na margem esquerda, a margem menos agreste e arborizada e dirigiram-se à água para fazerem alguma higiene. Ao tocarem nesta, as raparigas corriam para o acampamento para se verem ao espelho e vestiram roupa nova, os homens surpreendidos conversavam uns com outros.
    Nada disto passou despercebido a São Gens.
   Agora com mais idade e possuidor de um grande poder de reflexão, tirou todas as dúvidas que no seu espirito pairavam, quanto ao poder daquela água.
   O rio era milagreiro.
   Como atacados por algo que passou despercebido ao santo, os ciganos retiraram-se. 
   São Gens entristeceu-se. Tinha com a chegada dos ciganos a possibilidade de conviver, de conversar e de trocar ideias acerca daquele maravilhoso local, além disso, no seu íntimo de jovem agradara-lhe ver as raparigas ciganas cuja garridice dos trajos o impressionara.
 O nascimento de uma povoação
 Passados oito dias da saída dos ciganos, São Gens vê chegar uma enorme multidão de gente. Observou-a atentamente e verificou que eram ciganos.   
   Deduziu e não se enganara que os primeiros foram chamar os seus irmãos de raça para ali permanecerem. Verificou que se organizaram e que iriam viver em harmonia.
   Alguns dias passados o santo tem nova surpresa. Vê chegar pastores com os seus rebanhos. Depois os lavradores que cultivam a terra, que se apresentava fértil. Oficiais de vários ofícios chegam logo a seguir. São construídas casas, na margem esquerda do rio.
    Comerciantes estabelecem-se e abrem-se tabernas e, atrás de tudo isto, começa a levantar-se a corrupção e a agiotagem.
    Vagabundos e mendigos não tardam a chegar
    Curiosamente a margem direita do rio é apenas ocupada por poetas, escritores, pintores e periodicamente por estudantes. Aqui as artes parecem querer impor a lei da sensibilidade humana, com manifestações íntimas do pensamento cujas ideias tentavam passar para a outra margem.
    A margem esquerda insensata segue a marcha que ela julga progressista, ignorando os sinais e os conselhos da margem das artes.
 A inquietação do santo
 São Gens agora homem e senhor de um sempre crescente poder de reflexão, pensa que algo terá que ser feito, de modo a ordenar esta contínua avalanche de pessoas.
- Tenho a certeza que sou frade mas santo....? - Pensava São Gens.   
   Esta interrogação levou-o a pensar algum tempo e a retardar a sua decisão.
   Começaram as desordens e os roubos.
   As injúrias entre vizinhos eram frequentes e aumentava de intensidade entre os ciganos e a restante população, parecendo querer abreviar a decisão do santo, que finalmente se decide.
   - Santo ou não vou impor a minha vontade - pensou um dia, quando os conflitos se agudizaram.
   Tinha a certeza que alcançaria bons resultados, tanto mais que quando ele descia a ravina para apanhar frutos, as pessoas que encontrava ofereciam-lhe comida, num ato de louvável respeito, mas que ele sempre rejeitava.
   Gente nova e mais velha já o tinha procurado para se aconselharem levados pelo seu hábito de frade e pela sabedoria que demonstrava nos aconselhamentos.
   Na reflexão que fazia a razão estava sempre do seu lado. Decidiu o dia o local e a hora para tão delicado e ao mesmo tempo arriscado ato.
   Era dia de descanso na comunidade.
   Escolheu, no meio da ravina, a rocha mais alta e ali se prostrou logo de manhã.
   Curiosos de todas as classes sociais abeiraram-se dele, alguns mais curiosos perguntavam-lhe porque estava ali, ao que o santo respondia apenas com um gesto de espera.
   Quando julgou ter à sua beira o número suficiente de pessoas decidiu falar.
- Vamos criar um Concelho, estão de acordo? - Perguntou com uma voz forte, alta e decidida.
   A multidão sentiu algo de estranho naquela voz, como se fosse um elo comunicativo e simultâneo entre todos.
- Estamos – Gritou a multidão em uníssimo.
- O rio Prazer é dividido em quatro cantões, Norte. Sul, Este e Oeste. A margem direita fica para as artes e o restante território do rio fica para o resto do Povo - Ordenou o santo.
   Os artistas rejubilando de alegria agradeceram, seguidos da restante população, excecionando os construtores que já há muito estudavam a maneira de se apropriarem da margem direita.
    Logo começaram a estudar a maneira de convencer o santo a deixá-los construir naquela margem.
   Um dia quando São Gens resolvia uns conflitos, construíram-lhe uma pequena casa, com duas divisões, cozinha e quarto. Uns ainda pensaram desmanchar-lhe a choupana, mas receosos não o fizeram.
   Pensavam que o São Gens iria para a nova casa, uma vez que não fazia sentido, sendo ele o dirigente máximo daquela comunidade, morar numa choupana.
   São Gens quando chegou ao cimo da ravina e viu a casa, não se surpreendeu e logo pensou ser aquele simples edifício a sede do Concelho.
   Já selecionara algumas pessoas para a feitura das leis, que teriam como base os bons costumes, por ele alcançados nas suas visitas à povoação.
   Nesta verificara que era necessário construir ruas, lavabos e lavadouros e, até uma igreja se a população a pedisse. Nunca a construiria por sua livre vontade, pois ele vivera sempre na sua adorável choupana e era feliz.
   Reunidos os conselheiros decidiram cobrar impostos para estas benfeitorias. Aqui começaram os dissabores e a contestação. 
      Apesar do rio do Prazer continuar com o seu caudal de fertilidade e a vida da povoação não conhecer dificuldades, acharam os impostos elevados.
   Os ciganos decidiram não pagar. Os vagabundos agrupando-se com os mendigos pilhavam o que podiam. Assim nasceu a guarda e a polícia. 
 São Gens sente-se enfraquecer
  Depois de passar uma juventude paradisíaca e despreocupada, São Gens vê-se agora cheio de dificuldades e problemas para governar o seu Povo.
    Uma nova ideia lhe aflorou o cérebro - implementar a democracia.    
    Apresentou a ideia aos conselheiros que em unanimidade concordaram.
    A mesma rocha em que antes estivera serviu de palco para o santo, que rodeado pelos conselheiros falou ao Povo.
- Queremos - Gritou em coro a população, para logo impor. 
- São Gens fica como presidente - Pela primeira vez o santo comoveu-se sentindo algo misterioso e humano que o conduziria à desgraça. Sentia uma espécie de arrependimento por se julgar santo e de impor a sua vontade, embora a achasse útil e necessária. Os acontecimentos davam-lhe razão e a maior prova é que o queriam para presidente.
   Tinha ainda outra preocupação, não conseguia evitar os olhares de duas raparigas que pareciam disputá-lo entre si e lhe recordavam a mesma sensação, sempre que tomava banho no rio.
   A democracia é instituída e logo surgiram as lutas de classe.
   O rio continuava abundante e milagroso ia alimentando aquelas lutas.
   Com estas  surgem também as lutas pelo poder.
   Caem governos após governos. 
   São Gens começa a ser ultrapassado e o seu poder começa a escoar-se ao mesmo tempo que o rio começa a ser menos abundante.
   Quando São Gens desce ao rio para colher frutos para se alimentar, este já escasseiam.
   Os maus negócios e a corrupção crescem impunes.
   As leis são demasiado brandas e permissíveis, onde a administração se deixa corromper.
   São Gens sente, cada dia que passa, que o paraíso do rio do Prazer, se aproxima do fim e, apesar de todo o seu empenho e esforço começa a sentir-se incapaz de dominar os acontecimentos, que se tornam céleres em todas as áreas da governação. 
   Pedem-se empréstimos e lançam-se mais impostos que asfixiam tudo e todos, num ciclo infernal e destrutivo.
    O Concelho cai nas mãos dos credores, que ditam a sua vontade.
    O Povo agita-se e o rio enfraquece com ele.
   Os poetas estão incapazes de cantar, os escritores de escrever. Não há pintores que descrevam aquele desolador cenário.
   As artes calam-se para sempre e a solo começa a tornar-se estéril.
   Os pastores vagueiam de herdade, em herdade para alimentarem os seus rebanhos.
    Ciganos e vagabundos, depois de pilharem o que o podiam, debandam do rio. A população vai, gradualmente, em busca de melhor vida abandonando o Concelho.
     A estrutura administrativa é abalada pela corrupção e suborno, rindo-se perante a impunidade das leis.
    São Gens já não se julga santo mas um simples frade que se penitencia a todo o momento.
    O rio do Prazer secara.
    A sua milagrosa água evapora-se por encanto, tal como o menino São Gens dera com ela ao chegar.
    O frade arrastando-se, dirige-se a todo o custo para a nascente, numa tentativa de salvar aquela gente, pessoas que sempre se confiaram nele e que ainda o adoravam.
   Era o que lhe restava fazer, para se livrar do peso que cada vez mais lhe atormentava a consciência.
     Entra agora sem nenhuma dificuldade na nascente. Os pombos já não o acompanham e as rãs e os sapos há muito tempo que perderam o som.
    Está seca.
    Nenhuma humidade transparece.
    O frade interroga-se com o aspeto desolador da nascente.
- Porquê? - Grita São Gens desesperado.
   O eco não retornou a sua voz.
   Uma voz rouca e cavernosa soou, dos confins da terra, aos ouvidos do frade.
- Porque tu São Gens te envaideceste ao julgaste santo. Porque tu, São Gens, deverias ter atuado mais cedo e não atuaste. As tuas leis, São Gens, foram brandas e permissíveis à ganância. Agora é tarde o rio do Prazer morreu.
- Não - Gritou São Gens num esforço para tentar calar aquela voz e ao mesmo tempo justificar-se. Esforço que ele julgava não conseguir, esforço de raiva por não ver reconhecido o seu trabalho, nem a dedicação a uma causa, que julgava acertada e correta.
    Tinha-se colocado, inteiramente, ao serviço daquela população e agora encontra-se sozinho, tal como os pais o deixaram naquele local, mas sem o paraíso do rio do Prazer. Maldisse o seu destino. 
    Não obtendo resposta atirou o cajado que se apoiou para subir o rio, ao teto da gruta, que logo, pedra a pedra, se foi desmoronando.
   O frade não se importou, nem esboçou nenhum esforço para fugir à derrocada.
   São Gens foi o único sujeito a morrer na festa do paraíso acabado do rio do Prazer.  

Helder Salgado.
25-11-2012.



Wednesday, November 07, 2012

VÁ DE RIR...

REGRESSO DE PORTUGAL AOS MERCADOS
O BEST SELLER DO MOMENTO

Sunday, October 28, 2012

BANDA JUVENIL DO CENTRO CULTURAL DO ALANDROAL – ACTUAÇÃO ENCONTRO BANDAS JUVENIS EM ESTREMOZ


Aqui vou deixo um vídeo da ultima musica intitulada " It's Gospel" interpretada pela nossa banda juvenil no I Encontro de Bandas Juvenis da Cidade de Estremoz realizado no passado de 20 de Outubro, tal como algumas fotos desse evento em que participaram a Banda Juvenil da união (Estremoz), banda Juvenil de Alvide (Cascais) e a banda Juvenil do Centro Cultural de Alandroal.  .
cumprimentos
Hélio Tique










Wednesday, September 26, 2012

PLÍNIO, O BORBOLETA

O Borboleta? Também eu me interroguei.
Porque é que o rapaz se havia de chamar Borboleta.
E mais me interroguei por lhe chamarem também Passarinho e, muito mais surpreso fiquei quando alguém me disse que tinha mais uma alcunha, Passarinha.
Quando alguém me disse? Esta é de “cabo de esquadra” porque ninguém mo disse.
Certo é, de olhos fechados, quando não se vê ninguém e falamos com tanta gente, senhores de toda a liberdade do Mundo, imaginamos.
Idealizei o Borboleta, vi o Borboleta, dialoguei com ele.
Naquele dia estava simpático e conversador e começou a contar-me a sua história.

A História
- Plínio, desculpa mas eu não te posso tratar por tu, não te conheço e não quero falar contigo sem te ver, - disse-lhe com algum receio.
- Trate -me por tu, sei que lhe dá mais jeito e não abra o olho, - e continuou, - no meu tempo, no tempo do respeito, os homens tratavam os rapazes por tu e os rapazes tratavam os homens por vossemecê.  
Esta frase soou-me como uma ordem, confundiu-me e indigno-me - quem será esta criatura ou quem se julga ser para me dar esta ordem? - pensei, de mim para mim.
- Se abrir os olhos esfumar-me-ei como fumo da lenha de sobro - implorou-me.
 Não pude dizer que não e, temporizando, continuei o diálogo.
- No teu tempo, Plínio? - mas de que época és tu? - interroguei-o.
- Da época do seu avô? - disse-me com rapidez.
Comoveu-me, quem não se comove, na idade da saudade, ao ouvir falar dos entes queridos? Os meus olhos humedeceram.
A conversa começara a interessar-me. Far-me-ia recordar o meu avô de Terena ou do Alandroal. Iria regressar à minha infância, nalgumas recordações relatadas pelo Borboleta.
Sem querer agitei-me. Plínio notara-o e voltou-me a dizer-me - se abrir os olhos eu desapareço.
Não havia dúvida, Plínio tomava conta de mim, conduzia-me aonde ele bem queria, como alguém que conduzisse um animal. E eu agradava-me aquela condução, estava a sentir-me bem, era, por estranho que pareça, um cego que lhe agradava não ver.
A determinada altura disse-me - esta é a história da minha adolescência e da minha meninice, morri cedo.
- A tua história é trágica, Plínio? - perguntei-lhe ansioso.   

O começo
Plínio silenciou-se por momentos, olhei para ele e vi que se concentrara.
Respeitei o seu silêncio e esperei que começasse a contar a sua história.
- Esta foi a mais linda coincidência com que me deparei após a minha morte.
 O senhor pensou num rapaz chamado Borboleta e eu apareci para contar a minha história. O seu sonho foi a minha realidade, - interrompi-o.
- Plínio, não te estarás a aproveitar do meu sonho? Não estarás a roubá-lo a minha imaginação?- mesmo dizendo isto com toda a brandura do mundo, pensei que o rapaz se iria zangar.
- Não, - respondeu sem alterar a voz, sinal que não se zangara, e continuou.
- Com o decorrer da minha narração verá que os fatos de que falo são verdadeiros.
- Também te chamavam Passarinho? - perguntei.
- Sim, foi a minha primeira alcunha, - respondeu-me e explicou o porquê.

A primeira explicação
- Nasci de uma família que se podia chamar de remediada.
Ao nascer a minha mãe não conseguiu criar leite durante uma semana e durante esse tempo foi amamentado por duas parturientes.
Quando a minha mãe teve leite encontrava-me muito débil, mesmo sendo depois alimentado a leite de cabra e de vaca. Apesar de todos os esforços dos meus pais não consegui ter meninice igual aos outros rapazes Não medrei.
Quando veio a escola, aprendi sem nenhuma dificuldade, mas nos jogos e apesar da minha vontade e coragem ficava sempre entre os últimos.
Sucedeu assim com o jogo do “avincão” “abelharda”.
Não perdi a coragem e tentei a bola, onde me refugiei a guarda-redes.
Nem nas bolas rasteiras, nem nas bolas altas tinha dificuldade. Bastava dar-lhe um jeito, para que a bola, com a força que trazia, tomasse efeito e não entrasse na baliza.
Um dia ao encaixar uma bola, que vinha com muita força, fui parar dentro da baliza, encostando-me às malhas traseiras.
 Os meus companheiros chamaram-me ”menina de leque”, outros de Passarinho. Pegou o Passarinho.
Assim me explicou, o rapaz, como apanhou a alcunha de Passarinho.

A explicação de Passarinha
- Refugiei-me no jogo da semana e do hidroavião.
Era leve e rápido. Depressa me adaptei ao jogo. O meu jeito, um pouco afeminado, dava-me uma certa graciosidade ao jogar.
Este jogo era atribuído às meninas e logo alguns rapazes me começaram a chamar de Passarinha.
Devo-lhe confessar senhor Helder, - mais uma vez o interrompi. Senhor Helder? como descobriste o meu nome, Plínio?
- Entrei no seu imaginário. Foi fácil uma vez que o senhor já tinha idealizado as minhas alcunhas, - justificou-se e eu concordei.
- O imaginário é um mundo onde cabemos todos, basta sabê-lo utilizar.
Plínio pareceu sentir o efeito desta frase, entristeceu-se e sentou-se numa laje que pela sua frieza mais parecia um bocado de um iceberg.
Levantou a vista e encarou-me retomando a frase.
- Confessou-lhe que foi aqui que comecei a ser um sonhador ou um realista, conforme se entenda. As raparigas adoravam-me e confiavam-se em mim. Muitas pediam-me conselhos. Como haviam de proceder perante os pais, perante os namoricos que principiavam hoje e acabavam amanhã.
O meu pai cedo me confiou algumas tarefas de menor responsabilidade, parecia que toda a gente gostava de mim, - era um desabafo, uma amargura a denunciar um revés de vida e continuou sem alterar a voz, - depois apareceu a Maria Pulquéria.

A terceira explicação
- A Maria Pulquéria era a menina mais bonita da escola.
Cabelos louros que logo pela manhazinha e banhados pelo Sol outonal ou primaveril brilhavam como ouro. Olhos azuis irrequietos e cintilantes. Corpo escultural, curvilíneo, adorável. Cedo fixei a sua imagem recordando-a sempre quando não estava comigo, - pensei em interrompe-lo, mas preferi deixá-lo continuar - não gostei de mais ninguém, - conclui no mesmo tom magoado.



- Plínio gostava de ouvir a tua história amorosa completa, - pedi-lhe.
- Com todo o gosto Amigo, - Amigo?, - deixei escapar surpreendido.
- Amigo, sim senhor Helder, - reforçou Plínio, comovendo-me uma vez mais.
- As pessoas que sabem escutar, que nos dão atenção, que vivem os problemas de cada um, só podem ser Amigos.
- Por favor, Plínio, mesmo no imaginário onde nos encontramos poupa-me à comoção, aliás, já não sei se este diálogo é uma conversa de vivos ou de mortos, - disse isto denunciando alguma ansiedade, que não escapou ao meu interlocutor.
- Que importância tem no ambiente em que nos encontramos, estarmos vivos ou mortos. O senhor está de olhos fechados, mas vivo e a julgar-se já morto, e eu de olhos abertos, morto a fingir-me vivo.
O grau de relatividade é o mesmo para ambos, - e continuou
- Há entre nós uma razão e duas verdades, - Plínio pronunciou esta frase com uma voz assustadora, parecia divina e ordenou-me.
- Escreva um 6, - escrevo um 6, sem papel, sem caneta, nem lápis e de olhos fechados, - disse surpreendido.
- Escreva na atmosfera, ainda está vivo, - ordenou-me com a mesma voz, mas ainda mais acentuada, que me levou a pensar que eu não iria sair vivo deste imaginário.
- O senhor escreveu seis e eu do lado oposto leio nove. Se trocarmos de lugar a leitura é invertida, mas a algarismo é a mesmo e só um, provocando duas interpretações, duas verdades. Os Homens justos nunca fogem à razão que se alcança dos factos observados. A razão é eternamente imutável.
Depois respirou com alguma dificuldade e o seu rosto teve uma pequena mas bem visível transformação.
 - Estou cansado. Os mortos quando trabalham e se comovem, também se cansam.
Descansamos uns minutos - disse-me com uma voz de agradável audição, que me tranquilizou.
Com a decorrência da conversa Plínio surpreendia-me a cada momento.
Dissera-me que morrera cedo e demonstrava-me uma experiência de vida invulgar, própria de quem vivera uma eternidade.
Mesmo com os olhos fechados vi o rapaz adormecer deitado na laje que não parava de escorrer água. O corpo do Plínio estava abrasando.
Sem abrir os olhos adormeci.

A alcunha Borboleta.
Plínio ao acordar parecia outra pessoa. O seu corpo depressa alcançou a naturalidade de um ser vivo e começou a falar da Maria Pulquéria, da sua amada.
- Pela leveza e rapidez que eu me entregava no jogo da “semana” começou a chamar-me Borboleta. Se já me agradava estar perto das raparigas devido ao jogo, mais me agradou a alcunha vinda da Maria Pulquéria, - Plínio contava-me isto, completamente refeito do cansaço. O sono restabelecera-o e eu refresquei-me um pouco, parecendo sair do estado mórbido em que já me julgava encontrar.
- Vejo que és um romântico e com a tua grande capacidade de inteligência, conseguias superar as deficiências do teu corpo. Admiro-te por essa capacidade.
Ao ouvir estas palavras Plínio só sorriu.
- E a escola Plínio?- perguntei-lhe de chofre.

O tempo da escola
- Foi o começou do meu calvário, da nossa tragédia, - disse-me com uma voz tão magoada que me deu pena.
- Eu e a Pulquéria éramos os melhores e ao mesmo tempo os piores alunos da classe, quando chegavam os exames não passávamos, - interrompi-o.
- Como é que isso podia, acontecer, Plínio? enervavam-se?
- Não, fazíamos a propósito, - disse-me com um sorriso triste nos lábios.
- De propósito? - mas isso foi possível.
Com ar tranquilo foi descrevendo a sua aventura, contou que o namorico com a Maria começara com uns sorrisos e troca de olhares. Depois começaram a falar até que as desconfianças, as más-línguas os descobriram.
Ela era das da aldeia das Hortinhas o que dificultava a nossa relação. Decidimos, apesar de vigiados, chumbar nos exames, assim estaríamos mais tempo ao pé um do outro.
- Claro, duplicavam o tempo e, no último ano de exame como foi? - perguntei.
- Não houve exame. Tínhamos a certeza que após o exame nunca mais nos veríamos. Na véspera do exame da quarta classe, já com quinze anos feitos, devido ao atraso do carreiro que vinha buscar a Maria e trocando as voltas à professora, consegui dar-lhe um escrito.
Estarei à uma da manhã junto à cabana das bestas, vê se podes lá estar. Toma cuidado com o cão para que não ladre e procura não fazer barulho”,
- E ela foi?
- Sim tinha a certeza que não faltaria. Deu-se um imprevisto. Naquela noite, ou porque tivéssemos tido, pela primeira vez relações sexuais ou porque lhe apareceu a menstruação, ela sentiu dores horríveis e teve fortes hemorragias
Levaram-na a um médico em Vila Viçosa e encerram-na no Seminário, que também albergava um núcleo de freiras.
- Imagino o sofrimento, o teu e o dela, Plínio.
- Foi grande e doloroso, com o psíquico a sobrepor-se ao físico, mas durou pouco tempo. - ao dizer esta frase o rapaz baixou a cabeça e começou a dar, novamente, mostras de cansaço.
- Ela morreu? - perguntei com ansiedade.
- Morreu ao sétimo dia de entrar para o Seminário e eu morri no dia do seu funeral.

O funeral
- Decorria o mês Fevereiro, com fortes e frias chuvadas. Tive a sensação que algo diferente e anormal se iria passar comigo. Parecia que o mundo me caía em cima, toda a gente me apontava o dedo “foi ele” “foi ele que a matou”.
Mas há sempre alguém, há sempre uma alma que nos compreende, que nos estende a mão, um benfeitor que nos ajuda.
- E quem foi esse alguém, Plínio? como te ajudou? - perguntei-lhe com o intuito de o fazer sair um pouco do seu estado melancólico.
 - Foi o meu avô. Levou-me alimentos ao quarto, de onde só saí no dia do funeral. Consolou-me dizendo “violaste o tempo do respeito, não por roubares ou por ser mal-educado ou dizeres mal das pessoas, foi por amor, pelo amor de uma flor ainda em botão, que no dia em desabrochou, morreu. Nunca serás condenado pelos homens de boa vontade”.
- A vossa história é a mais linda história que ouvi contar, é comovente, acredita que um dia a tentarei escrever, - Plínio levantou a cabeça, o seu rosto alegrou-se um pouco, sorriu de mansinho. Um sorriso de quem é compreendido, um sorriso de gratidão. E continuou.
- Fui cedo para o cemitério para assistir ao funeral. Meti-me dentro de uma cova e tapei-me com um pano preto. Pareceu-me ter morrido por momentos, ser condenado por um sem fim de mãos. Naquele mar ameaçador e tumultuoso de acusações, emerge a mão salvadora, benfazeja, triunfante. “vem neto, tenho um esconderijo melhor do esse, o meu capote, ele te abrigará e te conduzirá ao caixão da tua amada”  e assim sucedeu.
Quando abriram o caixão, precipitei-me e dei dois beijos na Maria Pulquéria, ao mesmo tempo que o meu avô gritava “revive Maria, revive” e a multidão insensata, incapaz de nos compreender, respondia “matam-se, matam-se”.
O capote do meu avô pairou pelos ares, abriu caminho por entre a multidão, enfurecida e fugimos.
 Não sei se corri se voei, e sem querer, vi-me na ponte velha observando a água que corria impetuosa, parecendo procurar alguém.
Num barulho aterrador que parecia a queda de um corpo nas profundezas da terra, ouvi a voz da Maria Pulquéria dizer “salta Borboleta, salta”.
Levantei a vista e vi uma borboleta multicolor esvoaçar sobre a minha cabeça, tocou-me na cara parecendo beijar-me. Ao tentar agarrá-la caí à água.
- E morreste, - perguntei.
- Morri, - respondeu e continuou.
- Hoje dia 18-09-2012, às 2 horas da manhã partilhando este imaginário consigo, já duvido que esteja morto.
- Por favor Plínio, há pouco foi eu que estava confuso agora és tu que te estás a confundir. Tu estás morto. Os cento e cinquenta anos que nos separam não impediram esta conversa de comunhão e compreensão imaginativa, mostrando ao mundo, que o amor é o mais belo sentimento de ligação humana, mas começo a sentir cansado, por favor Plínio, deixa-me descansar um pouco, deixa-me abrir os olhos, - pedi-lhe suplicando.
Senti um forte abraço, senti o coração do Plínio a bater forte, senti o calor do seu corpo.
Ao contar a sua história Plínio reviveu.
Quando abri os olhos, mas ainda mal vendo e mal refeito das emoções, vi uma borboleta esvoaçar e sumir-se no horizonte, como o fumo de sobro a arder.
Já com vista clareada vi, em cima da minha secretária, o texto que vós estais a acabar de ler. A tragédia da Maria Pulquéria.

Helder Salgado
18-09-2012
 
 (TODAS AS PERSONAGENS SÃO FRUTO DA IMAGINAÇÃO DO AUTOR - QUALQUER SEMELHANÇA COM PESSOAS DA VIDA REAL SÃO PURA COINCIDÊNCIA)