Wednesday, September 26, 2012

PLÍNIO, O BORBOLETA

O Borboleta? Também eu me interroguei.
Porque é que o rapaz se havia de chamar Borboleta.
E mais me interroguei por lhe chamarem também Passarinho e, muito mais surpreso fiquei quando alguém me disse que tinha mais uma alcunha, Passarinha.
Quando alguém me disse? Esta é de “cabo de esquadra” porque ninguém mo disse.
Certo é, de olhos fechados, quando não se vê ninguém e falamos com tanta gente, senhores de toda a liberdade do Mundo, imaginamos.
Idealizei o Borboleta, vi o Borboleta, dialoguei com ele.
Naquele dia estava simpático e conversador e começou a contar-me a sua história.

A História
- Plínio, desculpa mas eu não te posso tratar por tu, não te conheço e não quero falar contigo sem te ver, - disse-lhe com algum receio.
- Trate -me por tu, sei que lhe dá mais jeito e não abra o olho, - e continuou, - no meu tempo, no tempo do respeito, os homens tratavam os rapazes por tu e os rapazes tratavam os homens por vossemecê.  
Esta frase soou-me como uma ordem, confundiu-me e indigno-me - quem será esta criatura ou quem se julga ser para me dar esta ordem? - pensei, de mim para mim.
- Se abrir os olhos esfumar-me-ei como fumo da lenha de sobro - implorou-me.
 Não pude dizer que não e, temporizando, continuei o diálogo.
- No teu tempo, Plínio? - mas de que época és tu? - interroguei-o.
- Da época do seu avô? - disse-me com rapidez.
Comoveu-me, quem não se comove, na idade da saudade, ao ouvir falar dos entes queridos? Os meus olhos humedeceram.
A conversa começara a interessar-me. Far-me-ia recordar o meu avô de Terena ou do Alandroal. Iria regressar à minha infância, nalgumas recordações relatadas pelo Borboleta.
Sem querer agitei-me. Plínio notara-o e voltou-me a dizer-me - se abrir os olhos eu desapareço.
Não havia dúvida, Plínio tomava conta de mim, conduzia-me aonde ele bem queria, como alguém que conduzisse um animal. E eu agradava-me aquela condução, estava a sentir-me bem, era, por estranho que pareça, um cego que lhe agradava não ver.
A determinada altura disse-me - esta é a história da minha adolescência e da minha meninice, morri cedo.
- A tua história é trágica, Plínio? - perguntei-lhe ansioso.   

O começo
Plínio silenciou-se por momentos, olhei para ele e vi que se concentrara.
Respeitei o seu silêncio e esperei que começasse a contar a sua história.
- Esta foi a mais linda coincidência com que me deparei após a minha morte.
 O senhor pensou num rapaz chamado Borboleta e eu apareci para contar a minha história. O seu sonho foi a minha realidade, - interrompi-o.
- Plínio, não te estarás a aproveitar do meu sonho? Não estarás a roubá-lo a minha imaginação?- mesmo dizendo isto com toda a brandura do mundo, pensei que o rapaz se iria zangar.
- Não, - respondeu sem alterar a voz, sinal que não se zangara, e continuou.
- Com o decorrer da minha narração verá que os fatos de que falo são verdadeiros.
- Também te chamavam Passarinho? - perguntei.
- Sim, foi a minha primeira alcunha, - respondeu-me e explicou o porquê.

A primeira explicação
- Nasci de uma família que se podia chamar de remediada.
Ao nascer a minha mãe não conseguiu criar leite durante uma semana e durante esse tempo foi amamentado por duas parturientes.
Quando a minha mãe teve leite encontrava-me muito débil, mesmo sendo depois alimentado a leite de cabra e de vaca. Apesar de todos os esforços dos meus pais não consegui ter meninice igual aos outros rapazes Não medrei.
Quando veio a escola, aprendi sem nenhuma dificuldade, mas nos jogos e apesar da minha vontade e coragem ficava sempre entre os últimos.
Sucedeu assim com o jogo do “avincão” “abelharda”.
Não perdi a coragem e tentei a bola, onde me refugiei a guarda-redes.
Nem nas bolas rasteiras, nem nas bolas altas tinha dificuldade. Bastava dar-lhe um jeito, para que a bola, com a força que trazia, tomasse efeito e não entrasse na baliza.
Um dia ao encaixar uma bola, que vinha com muita força, fui parar dentro da baliza, encostando-me às malhas traseiras.
 Os meus companheiros chamaram-me ”menina de leque”, outros de Passarinho. Pegou o Passarinho.
Assim me explicou, o rapaz, como apanhou a alcunha de Passarinho.

A explicação de Passarinha
- Refugiei-me no jogo da semana e do hidroavião.
Era leve e rápido. Depressa me adaptei ao jogo. O meu jeito, um pouco afeminado, dava-me uma certa graciosidade ao jogar.
Este jogo era atribuído às meninas e logo alguns rapazes me começaram a chamar de Passarinha.
Devo-lhe confessar senhor Helder, - mais uma vez o interrompi. Senhor Helder? como descobriste o meu nome, Plínio?
- Entrei no seu imaginário. Foi fácil uma vez que o senhor já tinha idealizado as minhas alcunhas, - justificou-se e eu concordei.
- O imaginário é um mundo onde cabemos todos, basta sabê-lo utilizar.
Plínio pareceu sentir o efeito desta frase, entristeceu-se e sentou-se numa laje que pela sua frieza mais parecia um bocado de um iceberg.
Levantou a vista e encarou-me retomando a frase.
- Confessou-lhe que foi aqui que comecei a ser um sonhador ou um realista, conforme se entenda. As raparigas adoravam-me e confiavam-se em mim. Muitas pediam-me conselhos. Como haviam de proceder perante os pais, perante os namoricos que principiavam hoje e acabavam amanhã.
O meu pai cedo me confiou algumas tarefas de menor responsabilidade, parecia que toda a gente gostava de mim, - era um desabafo, uma amargura a denunciar um revés de vida e continuou sem alterar a voz, - depois apareceu a Maria Pulquéria.

A terceira explicação
- A Maria Pulquéria era a menina mais bonita da escola.
Cabelos louros que logo pela manhazinha e banhados pelo Sol outonal ou primaveril brilhavam como ouro. Olhos azuis irrequietos e cintilantes. Corpo escultural, curvilíneo, adorável. Cedo fixei a sua imagem recordando-a sempre quando não estava comigo, - pensei em interrompe-lo, mas preferi deixá-lo continuar - não gostei de mais ninguém, - conclui no mesmo tom magoado.



- Plínio gostava de ouvir a tua história amorosa completa, - pedi-lhe.
- Com todo o gosto Amigo, - Amigo?, - deixei escapar surpreendido.
- Amigo, sim senhor Helder, - reforçou Plínio, comovendo-me uma vez mais.
- As pessoas que sabem escutar, que nos dão atenção, que vivem os problemas de cada um, só podem ser Amigos.
- Por favor, Plínio, mesmo no imaginário onde nos encontramos poupa-me à comoção, aliás, já não sei se este diálogo é uma conversa de vivos ou de mortos, - disse isto denunciando alguma ansiedade, que não escapou ao meu interlocutor.
- Que importância tem no ambiente em que nos encontramos, estarmos vivos ou mortos. O senhor está de olhos fechados, mas vivo e a julgar-se já morto, e eu de olhos abertos, morto a fingir-me vivo.
O grau de relatividade é o mesmo para ambos, - e continuou
- Há entre nós uma razão e duas verdades, - Plínio pronunciou esta frase com uma voz assustadora, parecia divina e ordenou-me.
- Escreva um 6, - escrevo um 6, sem papel, sem caneta, nem lápis e de olhos fechados, - disse surpreendido.
- Escreva na atmosfera, ainda está vivo, - ordenou-me com a mesma voz, mas ainda mais acentuada, que me levou a pensar que eu não iria sair vivo deste imaginário.
- O senhor escreveu seis e eu do lado oposto leio nove. Se trocarmos de lugar a leitura é invertida, mas a algarismo é a mesmo e só um, provocando duas interpretações, duas verdades. Os Homens justos nunca fogem à razão que se alcança dos factos observados. A razão é eternamente imutável.
Depois respirou com alguma dificuldade e o seu rosto teve uma pequena mas bem visível transformação.
 - Estou cansado. Os mortos quando trabalham e se comovem, também se cansam.
Descansamos uns minutos - disse-me com uma voz de agradável audição, que me tranquilizou.
Com a decorrência da conversa Plínio surpreendia-me a cada momento.
Dissera-me que morrera cedo e demonstrava-me uma experiência de vida invulgar, própria de quem vivera uma eternidade.
Mesmo com os olhos fechados vi o rapaz adormecer deitado na laje que não parava de escorrer água. O corpo do Plínio estava abrasando.
Sem abrir os olhos adormeci.

A alcunha Borboleta.
Plínio ao acordar parecia outra pessoa. O seu corpo depressa alcançou a naturalidade de um ser vivo e começou a falar da Maria Pulquéria, da sua amada.
- Pela leveza e rapidez que eu me entregava no jogo da “semana” começou a chamar-me Borboleta. Se já me agradava estar perto das raparigas devido ao jogo, mais me agradou a alcunha vinda da Maria Pulquéria, - Plínio contava-me isto, completamente refeito do cansaço. O sono restabelecera-o e eu refresquei-me um pouco, parecendo sair do estado mórbido em que já me julgava encontrar.
- Vejo que és um romântico e com a tua grande capacidade de inteligência, conseguias superar as deficiências do teu corpo. Admiro-te por essa capacidade.
Ao ouvir estas palavras Plínio só sorriu.
- E a escola Plínio?- perguntei-lhe de chofre.

O tempo da escola
- Foi o começou do meu calvário, da nossa tragédia, - disse-me com uma voz tão magoada que me deu pena.
- Eu e a Pulquéria éramos os melhores e ao mesmo tempo os piores alunos da classe, quando chegavam os exames não passávamos, - interrompi-o.
- Como é que isso podia, acontecer, Plínio? enervavam-se?
- Não, fazíamos a propósito, - disse-me com um sorriso triste nos lábios.
- De propósito? - mas isso foi possível.
Com ar tranquilo foi descrevendo a sua aventura, contou que o namorico com a Maria começara com uns sorrisos e troca de olhares. Depois começaram a falar até que as desconfianças, as más-línguas os descobriram.
Ela era das da aldeia das Hortinhas o que dificultava a nossa relação. Decidimos, apesar de vigiados, chumbar nos exames, assim estaríamos mais tempo ao pé um do outro.
- Claro, duplicavam o tempo e, no último ano de exame como foi? - perguntei.
- Não houve exame. Tínhamos a certeza que após o exame nunca mais nos veríamos. Na véspera do exame da quarta classe, já com quinze anos feitos, devido ao atraso do carreiro que vinha buscar a Maria e trocando as voltas à professora, consegui dar-lhe um escrito.
Estarei à uma da manhã junto à cabana das bestas, vê se podes lá estar. Toma cuidado com o cão para que não ladre e procura não fazer barulho”,
- E ela foi?
- Sim tinha a certeza que não faltaria. Deu-se um imprevisto. Naquela noite, ou porque tivéssemos tido, pela primeira vez relações sexuais ou porque lhe apareceu a menstruação, ela sentiu dores horríveis e teve fortes hemorragias
Levaram-na a um médico em Vila Viçosa e encerram-na no Seminário, que também albergava um núcleo de freiras.
- Imagino o sofrimento, o teu e o dela, Plínio.
- Foi grande e doloroso, com o psíquico a sobrepor-se ao físico, mas durou pouco tempo. - ao dizer esta frase o rapaz baixou a cabeça e começou a dar, novamente, mostras de cansaço.
- Ela morreu? - perguntei com ansiedade.
- Morreu ao sétimo dia de entrar para o Seminário e eu morri no dia do seu funeral.

O funeral
- Decorria o mês Fevereiro, com fortes e frias chuvadas. Tive a sensação que algo diferente e anormal se iria passar comigo. Parecia que o mundo me caía em cima, toda a gente me apontava o dedo “foi ele” “foi ele que a matou”.
Mas há sempre alguém, há sempre uma alma que nos compreende, que nos estende a mão, um benfeitor que nos ajuda.
- E quem foi esse alguém, Plínio? como te ajudou? - perguntei-lhe com o intuito de o fazer sair um pouco do seu estado melancólico.
 - Foi o meu avô. Levou-me alimentos ao quarto, de onde só saí no dia do funeral. Consolou-me dizendo “violaste o tempo do respeito, não por roubares ou por ser mal-educado ou dizeres mal das pessoas, foi por amor, pelo amor de uma flor ainda em botão, que no dia em desabrochou, morreu. Nunca serás condenado pelos homens de boa vontade”.
- A vossa história é a mais linda história que ouvi contar, é comovente, acredita que um dia a tentarei escrever, - Plínio levantou a cabeça, o seu rosto alegrou-se um pouco, sorriu de mansinho. Um sorriso de quem é compreendido, um sorriso de gratidão. E continuou.
- Fui cedo para o cemitério para assistir ao funeral. Meti-me dentro de uma cova e tapei-me com um pano preto. Pareceu-me ter morrido por momentos, ser condenado por um sem fim de mãos. Naquele mar ameaçador e tumultuoso de acusações, emerge a mão salvadora, benfazeja, triunfante. “vem neto, tenho um esconderijo melhor do esse, o meu capote, ele te abrigará e te conduzirá ao caixão da tua amada”  e assim sucedeu.
Quando abriram o caixão, precipitei-me e dei dois beijos na Maria Pulquéria, ao mesmo tempo que o meu avô gritava “revive Maria, revive” e a multidão insensata, incapaz de nos compreender, respondia “matam-se, matam-se”.
O capote do meu avô pairou pelos ares, abriu caminho por entre a multidão, enfurecida e fugimos.
 Não sei se corri se voei, e sem querer, vi-me na ponte velha observando a água que corria impetuosa, parecendo procurar alguém.
Num barulho aterrador que parecia a queda de um corpo nas profundezas da terra, ouvi a voz da Maria Pulquéria dizer “salta Borboleta, salta”.
Levantei a vista e vi uma borboleta multicolor esvoaçar sobre a minha cabeça, tocou-me na cara parecendo beijar-me. Ao tentar agarrá-la caí à água.
- E morreste, - perguntei.
- Morri, - respondeu e continuou.
- Hoje dia 18-09-2012, às 2 horas da manhã partilhando este imaginário consigo, já duvido que esteja morto.
- Por favor Plínio, há pouco foi eu que estava confuso agora és tu que te estás a confundir. Tu estás morto. Os cento e cinquenta anos que nos separam não impediram esta conversa de comunhão e compreensão imaginativa, mostrando ao mundo, que o amor é o mais belo sentimento de ligação humana, mas começo a sentir cansado, por favor Plínio, deixa-me descansar um pouco, deixa-me abrir os olhos, - pedi-lhe suplicando.
Senti um forte abraço, senti o coração do Plínio a bater forte, senti o calor do seu corpo.
Ao contar a sua história Plínio reviveu.
Quando abri os olhos, mas ainda mal vendo e mal refeito das emoções, vi uma borboleta esvoaçar e sumir-se no horizonte, como o fumo de sobro a arder.
Já com vista clareada vi, em cima da minha secretária, o texto que vós estais a acabar de ler. A tragédia da Maria Pulquéria.

Helder Salgado
18-09-2012
 
 (TODAS AS PERSONAGENS SÃO FRUTO DA IMAGINAÇÃO DO AUTOR - QUALQUER SEMELHANÇA COM PESSOAS DA VIDA REAL SÃO PURA COINCIDÊNCIA)


    

   
 





Tuesday, July 24, 2012

CASTELO DO ALANDROAL VII SÉCULOS


Al Tejo continua a homenagear a memória do Vicente Roma.
Depois de lhe transcrevermos = O USUFRUTO DE UM CASTELO POR UMA POPULAÇÃO – O CASO DO CASTELO DO ALANDROAL E DA VILA DO ALANDROAL – inserido no Livro Castelo do Alandroal VII Séculos, (e que a partir de agora pode ler na integra no Blogue AL SUL -  http://alsul.blogspot.pt/ – vamos passar a transcrever: O CASTELO DO ALANDROAL E DOIS ALCAIDES CANTADOS NOS LUSÍADAS
A importância conferida por Fernão Lopes na Crónica D. João I a Pêro Rodrigues, o Alcaide do Alandroal com papel decisivo na Crise de 1383/85
Chico Manuel

             O Castelo do Alandroal e dois Alcaides cantados nos Lusíadas
A importância conferida por Fernão Lopes, na crónica D. João I a Pêro Rodrigues,           o Alcaide do Alandroal com papel decisivo na crise de 1383/85

O cronista Fernão Lopes, na sua famosíssima Crónica de D. João I, cita tantas vezes o Alandroal que o historiador José Hermano Saraiva diz, num pequeno estudo que antecede uma das edições da obra que «depois de Lisboa, é o Alandroal, uma obscura vila do Alentejo, que mais vezes é referida». À parte as adjectivações, não deixa de ser sintomática a constatação.
Tem um honroso lugar de destaque na Crónica, Pêro Rodrigues, Alcaide do Castelo de Alandroal por altura da crise de 1383-85: Nove capítulos precisamente do 97 ao 105, referem as vicissitudes porque passa o alcaide e a população, os ataques de Castela, as traições dos vizinhos, a solidariedade de e para com os amigos, a sua indefectível lealdade para com o Mestre de Aviz e o Condestável Nuno Álvares Pereira por entre as tergiversações  de outros.
Em Pêro Rodrigues depositam confiança o Mestre de Aviz, aclamado Rei de Portugal, o Comandante de suas hostes no Alentejo, Nuno Álvares, e todos aqueles que são vítimas de Castela e de traições. A ele outros recorrem sempre, para aconselhamento, quando estão em perigo, eles ou as suas fazendas, ou ainda Portugal. A ele propõem, reverentes, e ela aceita, a chefia das acometidas bélicas ou na organização defensiva.
O Alcaide nunca os desilude ainda que arriscando a vida, a sua chefia, isto é, não decide sem ouviras opiniões dos seus capitães que chefia, mas assume a total responsabilidade pelas decisões que toma. É aquilo que hoje se chama líder democrático, sendo certo que também era carismático, atributos nem sempre fáceis de encontrar nos líderes de ontem e de hoje,
É justo na repartição dos despojos e desapegado em relação aos quinhões que lhe cabe como comandante, prescindindo dele e repartindo-o pelos mais necessitados ou anteriormente prejudicados de modo a ressarci-los. É estratega brilhante que inspira e faz inspirar confiança  a D. João. A Nuno Álvares, aos seus conterrâneos e aos vizinhos e põe em rspeito o inimigo porque, no Alandroal, apesar de apenas armados com estevas aguçadas – todos aqueles a quem não era possível distribuir verdadeiras armas , - tanto corriam os de pé como os de cavalo . Gere com parcimónia mas com sabedoria os escassos recursos humanos e materiais de que dispõe (a escassez de meios é evidente se comparada, por exemplo com as possibilidades de Vila Viçosa e de Olivença).

A relevância dada por Luís de Camões n´Os Lusíadas a Pêro Rodrigues
Como é sabido, a Crónica de D. João I  de Fernão Lopes serve de fonte para os Lusíadas de Luís de Camões. Este dá grande relevo a Pêro Rodrigues e ao Alandroal, cantando a valentia, a esteoutro capitão de pouca gente , dedicando-lhe na totalidade , a estância 33 do Canto VIII do seu Poema Épico, cujo último verso diz; Pêro Rodrigues é do Landroal.

Na mesma guerra vê que presas ganha
Estoutro capitão de pouca gente;
Comendadores vence e o gado apanha
Que levavam roubado ousadamente.
Outra vez vê que a lança em sangue banha
Destes, só por livrar, co amor ardente,
O preso por amigo, o preso por leal;
Pêro Rodrigues é do Landroal.

Os Lusíadas, canto VIII, estancia 33

Mais tarde, outro Alcaide deixará o seu nome indelevelmente ligado à História pátria, não tanto pelos feitos aqui feitos - os tempos eram outros, não já de defesa do solo pátrio mas de alargamento do império – mas pelos desenrolados em terras do longínquo Oriente onde nos perdemos e nos achámos. De seu nome Diogo Lopes de Sequeira, na senda de Lopo Soares de Albergaria, a quem sucedeu, e de outros, este Governador da índia, o quarto, tal como o seu antecessor, alcaide do Alandroal, Pêro Rodrigues, arremete contra inimigos, não já de Castela, nem já para defender   o solo pátrio ou a independência, mas para alargar a fé e o império em terras da Ásia, de Goa até Malaca.
Camões não esquece no seu poema épico:

Também Sequeira, as ondas Eritreias
Dividindo, abrirá novo caminho.
Para ti, grande Império, que te arreias
De seres de Candace  e Sabá ninho.
Maçuá com cisternas de águas cheias,
Verá, e o porto Arquico ali vizinho;
E fará descobrir remotas Ilhas,
Que dão ao Mundo novas maravilhas

Os Lusíadas, Canto X, estância 32

 Diogo Lopes de Sequeira regressa ao Alandroal e aqui morre e é sepultado, em campa rasa, na Capela de Nossa Senhora da Conceição, para a qual traz uma imagem da Virgem, feita na Índia, em tempos muito venerada, a qual até há pouco tempo integrava as procissões dos Passos e do Enterro do Senhor nas cerimónias da Semana Santa.
Os nomes de Diogo Lopes de Sequeira e Pêro Rodrigues integram a toponímica local resistindo à avalanche de nomes sonantes da Primeira Republica que destronaram nomes ilustres da História.
O mesmo acontece com D. Nuno Álvares Pereira que dá o seu nome a uma das tais ruazinhas que escorrega do Castelo para as baixas da vila. Mas o mesmo já não acontece com D. João I, O Mestre de Aviz, que teve nome de Rua até há duas dezenas de anos e que a Câmara Municipal do Alandroal entendeu substituir pelo de um médico ilustre desta terra, de seu nome Manuel Viana Xavier Rodrigues, sem que ao menos mantivesse a referência ou lhe t ao nome antigo ou lhe tivesse encontrado outro espaço merecedor. Não estando em causa a justeza da homenagem ao médico e impulsionador dos estudos pós-primários no Alandroal, está bem de ver, trata-se de uma lacuna que facilmente se resolverá, estou certo disso, mas é preciso lembrá-lo aqui e agora, tanto mais que o Castelo do Alandroal pertenceu à ordem de Aviz.
Uma revisão da toponímia que é urgente fazer no Alandroal deverá equacionar estes e outros aspectos da História, identificadores de identidades culturais locais e ilustradores também para quem nos visita, sobretudo numa altura de incremento da fileira de turismo que o Alandroal pode oferecer.
Ainda a este propósito bem parecia, e à História far-se-ia justiça, que o nome de D. Dinis, o nosso Rei Lavrador, que o Castelo mandou construir, figurasse  em artéria condigna do burgo.
Voltando ainda aos dois Alcaides que nos tem ocupado, registe-se com agrado que o antigo Externato do Alandroal, escola de ensino particular que desapareceu naturalmente com o advento do ensino oficial a nível  pós-primário, já depois de 25 de Abril de 1974, tinha o nome de Externato Diogo Lopes de Sequeira e que tal nome transitou para o do Patrono da Escola Oficial, neste momento existente, por proposta de antigos alunos daquele colégio.
Quanto ao nome de Pêro Rodrigues, foi título de um jornal local que, não obstante ter deixado de ser editado no Alandroal porque o seu proprietário, editor e director se mudou para Évora, não perdeu contudo o nome, enquanto se editou em Évora.
Também um clube de Futebol existiu no Alandroal que adoptou o nome de Pêro Rodrigues.
Se tudo isto se refere, é para sublinhar a tal ligação umbilical das gentes com história pátria e local que, bem entendido, nem todos os Alandroalenses – diria até só muito poucos – conhecerão.
Com efeito, teria que ser sobretudo a escola a trazer à luz este passado submerso.

À guisa de conclusão e um atrevimento prospectivo

A perspectiva subjacente a esta comunicação foge ao escopo histórico. Não sendo o seu responsável historiador, mas sin sociólogo, ainda assim teve o atrevimento de corresponder positivamente a um convite de colaboração na série de comunicações em boa hora promovida pela Junta de Freguesia de Alandroal e pela Câmara Municipal de Alandroal, sob o pretexto das comemorações do sétimo centenário da edificação do Castelo da vila do Alandroal.
Desde logo assistiu-nos o entendimento de que quaisquer comemorações da existência de um castelo não se esgotariam no seu enquadramento histórico, ainda que rica fosse a sua história, e a todos os títulos merecedora fosse de adequada investigação, divulgação e até vulgarização,
Os castelos são - ou deveriam ser – elementos do património edificado vivenciado e não temporalmente cristalizado: Isto é, os castelos deveriam ser um local de culto e de cultos e não um comum amontoado de pedras  intocável que apenas nos dizem que por ali passou história, sem se saber qual, mas não nos mostram  a (con)vivência das gentes que, ex ante, foram a razão de ser da sua edificação e, ex post, o seu sustentáculo vivo.
Há castelos que existem por si com o deserto à volta. Há castelos que coexistem com a sua verdadeira razão de ser: a população que sempre os amparou e se manteve sob a sua proteção tutelar.
O caso do Castelo Do Alandroal é paradigmático no que diz respeito à simbiose população-castelo ou, se quisermos – e não se entenda isto como um mero jogo de palavras castelo- população. E porquê? Porque não sendo, não tendo sido, a vila do Alandroal uma vila acastelada, no sentido de que a sua população estaria concentrada adentro do acastelamento, o Alandroal é sem dúvida, o exemplo perfeito de um aglomerado populacional envolvente de uma fortificação que perdendo embora, como todas, a função estratégica de defesa militar tout court
Terá ganho a função estratégica, também ela,  de manutenção populacional de uma comunidade.
Parece-nos que este aspecto é singularmente importante. Pelo menos durante sete séculos uma população viveu aqui neste lugar, sem altos e baixos demográficos significativos em termos relativos. Quer isto dizer que a evolução demográfica da vila do Alandroal acompanhou a evolução registada no meio, apenas sofrendo os traumatismos, positivos e negativos que outras povoações também sofriam e não qualquer efeito positivo ou negativo peculiar.
O que distingue a vila do Alandroal e é objecto de interesse, é que, situando-se nos limites mínimos, ao contrário do que seria de esperar, soube mantê-los, não perdendo importância administrativa, consolidando a importância económica, sem grandes desenvolvimentos, é certo - mas  também nunca os teve – e preservando a idiossincrasia cultural que é sua, tendo sabido compreender o que se passa para lá dos seus limites de vila, entendendo as peculiaridades do concelho de que é capital, sem atitudes auto ou heterofágicas,  mau grado as influencias sempre exercidas pelos concelhos limítrofes que tendem a esmagar a economia, a visibilidade e a notoriedade da vila e do concelho de Alandroal

O que é que isto tem a ver com o Castelo? Provavelmente nada. O que muito modestamente se pretende revelar é que a ordem natural das coisas teria remetido o Alandroal para o seio das micropulações, hoje deificadas, com o seu castelo feitiche-  mas nem  isso por isso deixando de ser cristalizadas, económica, social e culturalmente – que, se nos é permitida a citação, hoje muito conhecida  através de Herman José, não passam de vilas com seu castelo altaneiro. Esta não.
A oportunidade para discorrer sobre o Castelo do Alandroal no ano em que comemora os sete séculos, ademais numa perspectiva não histórica ou, se quisermos numa perspectiva não predominante histórica, remete-nos, quer queiramos quer não, para análise sobre o status quo
actual no que ao castelo diz respeito e, por extensão, ao Alandroal, vila e concelho.
Apenas uma simples reflexão susceptível de induzir análises prospectivas que inexoravelmente terão que ser feitas a breve trecho, sob pena de se perderem oportunidades como se têm vindo a perder.
O concelho do Alandroal tem três vilas cada uma com seu castelo: Alandroal, Terena e Juromenha. Aqui há alguns anos, tive oportunidade de propor informalmente à Câmara Municipal uma espécie de slogan promocional para a vertente histórica que seria precisamente este: Alandroal – Um Concelho, três Castelos.
Tenho verificado que continua a ser adaptado, com alguma timidez, é certo, e que a ideia tem pernas para andar,
Haveria que proceder a estratégias consistentes, sistemáticas e oportunas no sentido de conseguir dar maior visibilidade e notoriedade ao concelho do Alandroal.
Este aspecto, para lá de atrair atenções do exterior, contribuiria para dar mais consistência a estratégias de coesão interna dos alandroalenses, lato sensu, isto é, dos que habitam a vila e o concelho. Considero este aspecto muito importante: os alandroalenses  têm  que sentir orgulho da sua terra  e acreditarem em si próprios. Talvez o grande mérito do conhecimento do passado e o aproveitamento dos seus vestígios materiais e espirituais seja o de contribuir exactamente para isso. Todavia, nada se fará sem o respeito pelo que existe. E neste aspecto muito haveria que dizer sobre a incúria dos homens com responsabilidades, ao longo dos anos, nesta to que ser discutidas –: não é aqui nem agora o momento para o fazer. É apenas o momento – porque o tempo urge – de lançar o repto para uma futura discussão – porque estas coisas têm mesmo que ser discutidas – sobre as inadiáveis tarefas que é urgente levar a cabo no sentido de. Primeiro: preservar, com esmero, o que se tem: segundo: potenciar, com inteligência, o património, o edificado e o outro, aquele que não se vê e que menos resiste à erosão da ignorância, mas no fundo o mais importante, e que mais depressa e mais facilmente, se perde numa sociedade mediatizada e num mundo globalizado que tende para as unificações de novas culturas emergentes, com impactos negativos na idiossincrasias próprias; terceiro: associar tudo isto ao crescimento económico e ao desenvolvimento sócio cultural endógenos.
A grande virtude do Alandroal, se me é permitida esta análise, resulta não tanto do que tem sido feito ao longo de séculos, mas, paradoxalmente, do que não tem sido feito. É neste marasmo de dolce far niente que tem vindo a conservar uma vila que corre o grave risco de ser apenas pitoresca. Durante anos pouco se fez, daí que não se tenham cometido muitas asneiras. No último quarto de século, as mudanças aceleradas que têm caracterizado a sociedade portuguesa, não tendo os impactos negativos por acção que se verificam noutros sítios têm tido repercussões negativas por omissão. Pouco ou nada se tem feito para dignificar o património, em particular o Castelo, no fundo e centro da razão de ser desta conversa e, obviamente, a envolvente arquitectónica e urbanista..
Os alandroalenses, todos, mas em particular as entidades, têm obrigação de não só não delapidar ou não permitir que se delapide, a herança cultural, mas sobretudo, de legar às gerações vindouras a valorização do que receberam, já que elas, quer queiramos quer não, a todos julgarão. Talvez a grande referencia, ainda e sempre seja um simples Castelo mais a comunidade que o envolve.
Vicente Roma


Friday, July 13, 2012

A SECRETÍSSIMA TRINDADE


SIED - Seviço de Informação E Desinformacão

A Secretíssima Trindade – ministro, espião e muito mais

Um caso de jornalismo intempestivo pôs um ministro e um espião em rota de colisão… isto é… confusão. E como quem conta um conto acrescenta um ponto, o caso gastou rios de tinta e resmas de papel nos jornais do princípio do século. Principalmente à época, um tal CM (Correio Mór) fez as delícias da populaça com apetências mórbidas para histórias vampirêscas, casos de adultério (vulgo cornos), corrupção e intriga política, condimentadas estas, regra geral, por clichés das anteriores.
Caro leitor, nada do reproduzido é actual (ou atual)! Apenas o espírito humano permanece imutavelmente depravadíssimo.

Capítulo I: O Almocinho

-Sim…, estou!
«Boa tarde Dr. Elvas…, é o George.».
-George quê pá?
«George da Ongoering Dr.».
-Ah!... como está o meu amigo…, isto não é perigoso pá… estar a contactar-me por telemóvel pá… eles até o Cavaquinho Silverado escutam em Bérrém…
«Dr…, deixe isso por minha conta…, está tudo sob controle».
-Sendo assim…, em que posso ser útil ao meu amigo pá?
«O patrão Bruno Mausconselhos encarregou-me de lhe fazer um convite para um almocinho de trabalho… nós aqui na Ongoering trabalhamos também durante a hora de almoço…, brqrtrfrvr…»
-Estamos sempre abertos a esse tipo de iniciativas: um almoço de trabalho…, contém comigo…, trabalho é comigo… é do que este país mais precisa… gente trabalhadora… (como nós…, pensou em voz alta o Dr. Elvas).
George Cara de Pau desligou o telemóvel dando aos lábios um trejeito semelhante a um disfarçado sorriso, pois o agente toupeira, ou sobespião, nomes porque também é conhecido no milieu das secretas, nunca sorri.
«Por esta é que o Mausconselhos não está à espera…, vou sentar-lhe na mesa da sala Tojo o chefão-mor do próximo governo do Passos Perdido… (o agente toupeira teve que morder com afinco os lábios para não soltarem uma estridente gargalhada). E foi a cismar num mais que justificado aumento do pré que George Cara de Pau deu três afinados toques na porta do gabinete do chairman da Ongoering… e entrou.
Mausconselhos estava a tratar a secretária do gabinete, Liz Boa, que se posicionara em cima da secretária de “pau santo” do patrão, que não havia meio de se despachar, vindo ainda a assistir, o sobespião, ao arranjo da compostura de ambos.
 -Porra meu irmão…, essa mania que você tem de bater e entrar logo de seguida tira-me do sério…, isto aqui não são os “serviços secretíssimos” onde não há segredos para ninguém, onde cada qual sabe da vida de todos e todos de cada qual!
Babyfaca, outro “heterónimo” do sobespião, fez jus ao apelido de Cara de Pau, e tomou a seguinte nota no seu telemóvel: o patrão “come” a secretária do gabinete que usa cinta de ligas e meia de lycra transparente… e pelos vistos gosta à doggystyle… brqrtrfrvr…; enquanto o diabo esfrega um olho, a nota solta foi arquivada  na secção “manias e depravações do patrão da Ongoering”.
-Já agora gostava de saber porque interrompeste o meu momento de ginástica de pausa, sem te ter chamado…, meu irmão espero que seja secretíssimo segredo de estado…, gritou, fora de si, o Ongoering man.
«Ó boss, adivinha quem vem almoçar?»…, os olhinhos de Mausconselhos rodopiaram nas órbitas ao adivinhar a visita para o repasto…; «esse mesmo meu irmão e patrão do coração… o Dr. Elvas pessoalmente», rematou George Cara de Pau.
-Então quer dizer que temos o Balsepé na mão…, Balsepé na mão?..., isto não me soa bem, rematou Bruno Mausconselhos enquanto desamarrotava as calças da ginástica de pausa.
O almocinho, propriamente dito, bem comido e bem regado, onde se soube a marca da caneta com que Ricardo Aposta escreve os seus perigosos artigos no Expressamente Jornal (Monte Branca), terminou com uma frase lapidar do Dr. Elvas: -meus irmãos vamos ver o que posso fazer pá…, ou desfazer pá!
Mal sabia o Dr. Elvas que, durante o almocinho na sala Tojo, o agente toupeira mandara os seus pupilos do serviço secretíssimo fotografar o seu pópó, matrícula incluída, e decorá-lo nos interiores com dois potentes e invisíveis aparelhos de TV Audio.

Capítulo II: Estou Ministro
-Está lá queriiida…, está lá?...
O Dr. Elvas não consegue ouvir bem a mulher, pois um besouro de fundo corta as palavras.
-Vai  para o meu escritório amor… talvez consigas ouvir melhor… aí costumo ter boa rede – não desconfia o Dr. Elvas que duas potentes e invisíveis atenas audio dão uma ajudinha na rede local.
«Sim querido… agora ouve-se como se estivesses aqui». Dona Elvas esperava ansiosa aquele telefonema do marido… para lhe comunicar que sim…, que sim…, já estás ministra fofinha. O marido tinha toda a legitimidade em acreditar na sabedoria popular, que confirma: mulher de ministro é ministra!
-Estou ministro querida…, amor… ducha…, eheheheheheheh!..., ministro não… superministro pá!!!
«Mas o Passos Perdido manda mais que tu filho!… ele é o nosso PM» - saiu da boca de Dona Elvas um gritinho histriónico directo à bochecha nadegueira do marido.
-E quem manda no Passos Perdido?... quiduchinha…, quem é?… diga lá amor: moi même…, je…
«Ó Krido Kridinho…, tenha cuidado com a conversa… dizem por aí que um tal agente Cara de Pau anda a escutar Portugal inteiro…» Dona Elvas disse o que disse com a voz mais maternal deste mundo.
-E porque julga a minha menina que eu estou a falar em francês?... esse agente Cara de Pau tirou um cursozeco de línguas técnicas nas Novas Oportunidades…, num domingo de manhã!…  Bom…, bom…, mas agora quem manda sou eu…, o Passos Perdido é chefe do governo e o Dr. Elvas é chefe do Passos Perdido… ip ip urra… ip ip urra… áferriá…, áferrié…
«Não venha tarde maridinho…, cá em casa hoje há jantar e ceia reforçados ihihih…» - rematou Dona Elvas ao desligar a bomba que tinha entre mãos.
Dizem que Quentin Tarantino veio a Portugal inspirar-se para o seu primeiro filme Kill Bill. A fama do SIED (Serviço Informação E Desinformação) chegara a Hollywood e os agentes da Secretíssima portuguesa poderiam lançar pozinhos de inspiração, quer nas cenas de artes marciais, quer nas técnicas de disfarce e vigilância utilizadas pelo Serviço de espiões mais hermético do globo. O próprio Serviço de Sua Majestade Britânico MI6, sondado sobre o assunto, teria aconselhado Tarantino na aventura portuguesa, já que o chefe da Secretíssima, George Cara de Pau, era conhecido, no mundo do “virar do avesso a vida alheia”,  como “o espião dos espiões”. Verdade, ou não, eis um segredo guardado a sete chaves nos cofres da Informação e Desinformação Lusa.
É velhinho o ditado: o segredo é a alma do negócio.

Capitulo III: Na vanguarda da comunicação – Clippings e SMS

Pelo sim, pelo não, o Dr. Elvas, a caminho da sede do PI (Partido da Irmandade) onde vai ditar ao PM Passos Perdido as boas peças do emergente governo, telefonou ao agente de segurança do seu gabinete (ainda sombra) para que pusesse a limpo o posto de trabalho do tal George Cara de Pau, que lhe inundara, nesse mesmo instante, o telemóvel ministerial com uma catrefada de SMS (Sofisticados Meios Secretíssimos) e Clippings (palavrão usado na  gíria da espionagem…,  sem tradução, mas com o sentido de “o que escorre é o melhor”) com nomes de mercados futuros para os serviços secretíssimos.
O Dr. Elvas recorda-se, como é óbvio, do almocinho de negócios na sede da Ongoering…, e da irritação que lhe assomou ao semblante quando esse Cara de Pau o tratou por tu sem pedir, ao menos, licença. O suor encharcou-lhe o lenço branco com que Dona Elvas enfeitara o bolso superior do casaco do marido, ao reproduzir mentalmente a voz da esposa através do telemóvel: «…um tal agente Cara de Pau anda a espiar Portugal inteiro»!
-Ó Jácomo…, você faça uma revisão aos interiores do meu automóvel…, para não termos surpresas desagradáveis com os da comunicação social, que gostam de meter os olhos e os ouvidos onde não são chamados…, compreendeu(?)
«Sim senhor ministro», respondeu Jácomo assertivamente, lançando um sorriso invisível no espelho retrovisor. Se o senhor ministro o tivesse detectado, talvez ficasse de pés e mãos atrás com o seu motorista particular, pois o simpático e prestável Jácomo é um agente infiltrado dos serviços secretíssimos ao serviço do seu ex chefe George Cara de Pau.
Ao chegar a São Catano o ministro Elvas tinha à sua espera o irmão Marcus Sinfrónio que, com a incumbência de ter uma palavrinha a sós com ele, quase se atirava para baixo do carro de sua excelência. Valeu-lhe a perícia de Jácomo que, mesmo assim, não ganhou para o susto.
- Ó Marcus Sinfrónio…, com tanta notícia falsa e boato a correr por aí, só faltaria mesmo esta de o meu carro o ter atropelado…, ou antes…, de você ter atropelado o meu carro. Por aqui também parece que anda tudo doido. E ainda não fomos tomar posse, quero e mando com o Cavaquinho Silverado!
«Estou nervoso…, muito nervoso…, senhor ministro de Estado…, o estado a que as coisas estão a chegar não augura nada de bom» - via-se que Marcus Sinfrónio estava à beira de um ataque de nervos.
-Homem acalma-te…, tem compostura…, o momento político requer frieza e nervos de aço…, toma lá um comprimidinho aqui dos meus que eu hoje já tomei três – o Dr. Elvas toma Valdispert para todo o tipo de sintomas – mas conta como está o ambiente aqui em São Catano…, já sabidas as gracinhas daquele tal George Cara de Pau… que ninguém conhece…
«O Passos Perdido está passado…, melhor dizendo…, quase a passar-se…, repete que “uma barraca destas servida ao país pelo meu ministro de Estado nº 1…, e logo com os troikanos cá outra vez…, a espiolhar por tudo quanto é sítio…, não me faltava mais nada…, chamem o Elvas!» E logo um coro de vozes se ouviu do interior da São Catano: “ó Elvas…, ó Elvas…”
O Dr. Elvas ainda pensou: -olha…, estão a cantar a canção do Paco em minha homenagem!
«Em sua homenagem o tanas – berrou o Dr. Passos Perdido em cima do nariz dum espantado Dr. Elvas – então você mete-se numa sarilhada destas… quero dizer…, mete-nos a todos neste arroz à valenciana em véspera do Cavaquinho Silverado nos empossar…, ó Elvas…, Elvas… ele não morre de amores por nós…, lembre-se que o Cavaquinho partiu uma das jarras mais valiosas que Bérrém se orgulhava de ostentar…, ainda do tempo da viagem do Vasco da Gama…, assim que lhe comunicaram que nós tínhamos ganho o partido!!!
-Calma Senhor PM…, muita calma…, se houve asneira, calma e cabeça fria não fazem mal a ninguém para colmatar algum dano do lado de cá – o Dr. Elvas transparece tranquilidade, confiança e, acima de tudo, seriedade!
«Então o que propõe o meu ministro de Estado nº 1, como plano de ataque…, melhor dizendo, de defesa» - os níveis de adrenalina do PM, sem dúvida, já estavam quase no seu normal, e ao acentuar a sua posição de superioridade na irmandade com aquele “meu ministro de Estado nº 1”  bem vincado, fez perceber ao Dr. Elvas que o Senhor PM dera uma mijadela, como um cãozinho caniche a marcar território à porta do dono.
O ministro Elvas aproveitou, o “acto biológico” tão digno de um PM, para fazer ouvir a sua voz de comando, lembrando a todos que a melhor defesa é o ataque: -penso que estamos todos com dificuldade em digerir o que não passou de um almocinho inocente com os comandos da Ongoering; deixemos a tempestade amainar para amanhã navegarmos à bolina até Bérrém.
«Mas ó Elvas…, não houve um gajo da Secretíssima que te escarrapachou com umas listagens de irmãos no télélé?». A pergunta do PM, feita com evidente despropósito, foi abafada por inteligente intervenção de um homem do norte:
«ao ataqueeeeee…, bradou Marcus Sinfrónio, perante o olhar atónito de todos os presentes na sala vip da São Catano…, a melhor defesa é o ataque» – rematou firme.

Capítulo IV: Depois da bonança a tempestade – o costume

Quase um ano de paz governativa trazia o Dr. Elvas num reboliço de negócios, visitas e inaugurações pelos cantinhos mais recônditos da Lusitânia.
Foi precisamente num desses passeios festivos e de distribuição de benesses aos correligionários do voto na hora, com vivas ao governo atirados como papelinhos de Carnaval, que surgiram as primeiras nuvens no firmamento do Dr. Elvas. O Assessor para a Vigilância e Combate aos Media (VCM) manchou aquele banho de louvores e hinos ao senhor ministro de Estado nº 1, quando o puxou pela manga do casaco e lhe segredou ao ouvido – o que irritava solenemente sua excelência: «doutor…, peço desculpa…, acabo de receber uma informação secretíssima do nosso irmão George, que também saiu hoje no Expressamente, sobre um tal Nunes Semedão… jornalista…, que se diz vítima de escutas telefónicas pelos SS».
O ministro Elvas, embevecido com os vivas e revivas da exultante multidão, fez o comentário mais apropriado ao momento, mas revelando desconhecer as bátegas de água bem gelada que lhe iam cair em cima: -não conheço nenhum George Nunes Simão! E dito isto sacudiu o assessor, voltando à euforia da festa ao som do fandango ribatejano“se tens pau agarra-te ao pau…, se não tens agarra-te ao meu…”.
Só mais tarde, de regresso à capital, dormitando no banco traseiro do seu automóvel de Estado, se deu conta do recadinho que o incansável assessor lhe tentara transmitir.
Lá estava na 1ª página do Expressamente Jornal, esse fazedor de inventonas, a sua fotografia ao lado do George Cara de Pau, com o título “Irmãos da sob-loja M”.
“Car^alhoooooo”… !!! ..., berrou o ministro Elvas em português vernáculo  que fez estremecer o interior do pesado automóvel à prova de bala em que se faz transportar sua excelência, palavrão felizmente abolido com o novo acordo linguístico luso- brasileiro.
-Ó assessor…, liga-me a esse gajo para o pôr na ordem…, isto está a passar das marcas… diz-lhe que estou possesso…, tipo demónio à solta…, ou abafa já…. imediatamente… agora… a barraca…, ou mando triturá-lo numa daquelas enfardadeiras de Rio Maior.
George Cara de Pau, que tranquilamente dormia uma sestinha no seu gabinete da Ongoering, acordou sobressaltado e de revólver em punho, como qualquer espião que se presa, reagindo ao trim trim do télélé ( no caso em questão a música do filme do James Bond 007 – live and let die).
«O senhor assessor activou-me todas as defesas…,  há três noites que não prego olho colado ao Balsepé… já tenho algumas vinte páginas de ficheiro com as actividades desse menino.» - o sob-espião tinha grande à vontade com o assessor ministerial…, e o Dr. Elvas fazia-se de parvo para ir tirando vantagem de toda a informação filtrada para o ex chefe agente toupeira pelos corre-legionários ainda activados.
«Ó Cara de Pau…, o senhor ministro está muito…, digamos…, agastado com as notícias do Expressamente sobre um tal jornalista Nunes Semedão… porque, ainda por cima, chaparam com a sua fotografia (do senhor ministro de Estado nº 1) junto com a tua… em amena cavaqueira… parece… » - o assessor engoliu em seco ao vislumbrar a expressão colérica do Dr. Elvas.
Do outro lado da antena o agente toupeira disse um palavrão de grau 6.9 na escala de Berluscona  e foi incisivo: « se o gajo está com agasturas que chupe pastilhas rennie… … e quanto à montagem fotográfica desse pasquim dos sábados… olha ó assessor…, o gajo devia era estar babado por aparecer ao lado de “GEORGE: O ESPIOLHÃO DO SÉCULO”!».
Foi então que o Dr. Elvas percebeu que, uns tempinhos atrás, embarcara num almocinho com um tipo completamente doido…
Uma explicação para o leitor que tem acompanhado esta trapalhada do SIED (Serviço Informação E Desinformação): quando um cidadão mete a mão para recolher informação para qualquer outro cidadão desta Nação poder ajuizar com correção, logo surge o habitual coro de lamentação: ai… ai… ai…, vai  lá vai que estão a bater no pai e na mãe e não se pode dizer mais nada porque os meninos ficam ofendidos. E quando os meninos ficam ofendidos já sabemos que haverá  fuga para a frente.
Pois… choveram mais SMS e Clippings, telefonemas anónimos e emails, nos meus telemóveis e portátil, do que a chuva que caiu durante o Inverno passado.
Assunto recorrente: ofensas pessoais e a familiares, estes nada tendo a ver…, desconhecendo mesmo os conteúdos das minhas crónicas de investigação.
Claro que acabei por levar uns socos à saída do emprego…, enfim… ossos do ofício, felizmente sem nenhum osso partido.
Com mais uma investigação  em pleno desenvolvimento, a questão curricular do Dr. Gabriel Elvas, aqui fica também um registo do que se pode, ou não pode, apurar.

Capítulo V: a escutar Portugal inteiro

Na estória da espiolhagem portuguesa, desde os tempos do zaragateiro  Afonso, certamente o primeiro caso de violência doméstica praticado entre nós, com dimensão histórica – desancou a mãe na batalha de S. Mamede –…, passando pelos exmos frades dominicanos, mestres nos tratos de p. e p.…, e pelo exmo marquês…, esquartejador da nobre nobreza portuguesa…,  e pelo intendente Pina, avesso aos ventos ciclónicos da revolução francesa…, e termino as nomeações soletrando apenas o nome do major Silva, campeão do terror à moderna portuguesa…, nenhuma destas pragmáticas instituições poderia ombrear com a vanguardista SIED (Secretíssima Informação E Desinformação). Não nos referimos à prática de tortura, nesse aspeto podemos dizer que os agentes têm os pés limpos, mas sim ao acompanhamento de todo e qualquer cidadão que, pelos seus compromissos, atos ou negócios, possa vir a pôr em risco a harmonia da Irmandade Secretíssima. 
E não há memória de tamanha inteligência a dirigir a Secretíssima como o sob-espião George Cara de Pau. Conhecedor dos meios de investigação mais modernaços, consolidou uma base de dados pormenorizada sobre as questões tão simples  quanto relevantes sobre o “cadastro” multifacetado dos personagens.
Pode ler-se, a páginas tantas…, no ficheiro de um qualquer arqui-inimigo: …tem seis dedos em cada pé… ou só corta o cabelo se o Benfica for campeão… ou ainda…, come de boca aberta… …e tem caspa que se farta; qualquer um é apontado certeiramente quando é necessária uma identificação eficiente; em outra ficha chega ao pormenor de anotar que o ministro “fulano de tal” tem dez cabeleiras postiças, assim como o número de cabelos que possui cada uma.
Um pasmo de competência e ação habita na casa dos segredos secretíssimos…, foi esta a desinformação que o PM Dr. Passos Perdido transmitiu ao país e em particular aos portugueses…, …que podem dormir de portas abertas e com o computador ligado (hoje a maior parte dos portugueses tem portátil para preencher o IRS).
Este pequeno equívoco do Senhor PM, desconhecendo a mudança de habitat do tal “pasmo de competência”, levará mais tarde a uma embrulhada governamental tão inimaginável quanto foi, depois, o seu pedido de proteção política ao troglodita da ilha da Bananeira.
Com os mais enlevados sonhos patrióticos, divagando ao sabor da rotineira soneca pós prandial na mansão da Ongoering, George simplesmente, como adora chamar-se a si próprio, foi sacudido do seu estado quase hipnótico pelo Hino Nacional, completo de música e letra, toque que introduziu no seu telemóvel particularíssimo.
-Está lá…, está…, é o George pá?
«Como está o meu amigo… Senhor Ministro Dr. Elvas?»
-É pá!... você soube logo que era eu pá!... – George adivinha o estado emocional do Senhor Ministro pela alta frequência com que usa o “pá” no discurso directo… e indirecto também. 
«Claríssimo meu amigo… então para que me serve uma listinha de vozes que me dei ao trabalhinho de guardar em ficheiro sonoro da Secretíssima?».
-ÓÓÓÓ… mas isso é antidemocrático…, quero dizer anticonstitucional!!!  Se a oposição sabe de uma coisa dessas… é uma bomba mais barulhenta que a atómica (úúúúúú).
«Anti quê?... …Senhor Ministro… cabeça fria… cabeça fria…  temos a mão na massa… não vamos dar o ouro ao bandido…, quero dizer…, à oposição…; …mas a que devo a honra desta hiperligação, para além da grande satisfação que me dá sempre ouvi-lo?».
-Ó Senhor Dr. George…, digamos pá que tenho aqui um probleminha entre mãos com uma espécie de jornalista do Púlpito… uma tal Maria José Palmeira pá… que me anda a moer a cachimónia… e o meu amigo sabe que quando nos moem a cachimónia pá não conseguimos pensar… o que este país mais precisa de nós… do governo pá… - George ouvia atentamente o Sr. Ministro Elvas a roer as unhas ao mesmo tempo que debitava doses maciças de ansiedade em cada palavra articulada – ora pois, pensei eu, o George Cara de Pau deve ter dados interessantes pá da folha curricular desta menina pá!
«O Senhor Ministro pensou… e pensou muito bem…, pois sobre qualquer jornalista…, por mais badameco que seja…, os nossos ficheiros são secretíssimos…, isto é, completíssimos… claro está!».
-Mas… deixe-me perguntar-lhe George, por uma questão de curiosidade pura…, essas completíssimas fichas são de quem…, dos Serviços ou da Ongoering?
«Minhas… meu…, minhas após anos a fio de serviço de toupeira!», disse George Cara de Pau denotando alguma irritação, que o  fez não medir, com o rigor exigido pelo seu estatuto, o modo como se dirigiu a sua excelência o Senhor Ministro de Estado nº 1 Dr. Elvas.
-Então sendo suas vamos a isto… pá…
«Vamos a isto… pá…  uma ova! Vamos primeiro analisar uns pendentes…, senhor ministro pá!», atalhou bruscamente George Cara de Pau, o que deixou sua excelência em crescente grau de perplexidade.
-Ó George… o meu amigo acredita pá que agora não estou a perceber nada dessa sua conversa… pá!?
« O senhor ministro abusa do queijo e um dia destes apanha uma camada de brucelose…é o mais certo» - o agente toupeira sorria discretamente para si ao imaginar o frenesim gestual que acometia o Dr. Elvas.
-Bruce… quê?..., perguntou o ministro, pensando que o agente toupeira já estava a passar das marcas.
Mas não estava: George Cara de Pau avivou a memória do Dr. Elvas sobre um telefonema que este fizera para a sua esposa, anunciando-lhe que estava ministro…, …onde veio à baila um despropositado gozo com ele próprio, George Cara de Pau, sobre o seu grau académico, nomeadamente no domínio das línguas técnicas francês e inglês… …o que considerou uma ofensa pessoal e idiota, de quem mais valia meter a língua no saco. A cólera assomara agora ao rosto do sob-espião numa dose qb.
Um pesado silêncio percorreu de um lado para o outro a rede, sendo comutado por um gaguejante Dr. Elvas: -ó…ó…ó… di… di… diabo…, a Duchinha sempre tinha razão… você anda a escutar Portugal inteiro… pá!
«Eu…, senhor ministro?…, … então leia amanhã o Expressamente…, que vai ter saudades do dia em que a minha fotografia, ao lado da sua, lhe provocou agasturas abdominais… … e talvez perceba quem anda a escutar quem ». George cortou propositadamente a chamada, sabendo que, do outro lado da rede, uma palidez de morte tomava conta do rosto de sua excelência o senhor ministro de Estado nº 1.

Capítulo VI: o sabichão (ficheiro informático recolhido por GCP)

O comentador anónimo do capítulo anterior sugeriu-me que a “questão da licenciatura” fosse abordada. Bronca em pleno desenvolvimento, está visto que o Dr. Elvas não acerta uma…, isto é…, quanto mais quer acertar mais desacerta.
Tendo-me cheirado a esturro, pois é mais que certa a existência de toupeiras no AL Tejo, como na generalidade dos media, não resisti a investigar o assunto que ensombra a secular Instituição Universidade.
É escusado dizer que  Universidade está inocente!
Os patifes, com grandes esquemas de compadrio e corrupção, proliferam no mundo da política e das negociatas como abelhas à volta do mel. Não tendo tempo para dedicar à leitura dos livros da sabedoria, esgatanham-se para arrancar um título de doutor a qualquer preço. É uma afronta àqueles que dedicam a vida inteira ao estudo.
Lembram-se da máxima do Vasco Santana: “doutores há muitos”…

Desde que nascera, o Dr. Elvas fora colecionando créditos, pensando os papás que num futuro, embora distante, uma, ou mesmo duas licenciaturas nunca seriam demais.
Nesses tempos de analfabetismo nacional, saber ler e escrever era uma ousadia quase tão grande como ter dito, uns tempos antes, que a Terra girava à volta do Sol. E ser doutor era um título mitificado… (mistificado), a tal ponto, que elevava o seu titular quase às portas do Olimpo: se um doutor dissesse sim…, era sim senhor doutor…, se um doutor dissesse não…, era não senhor doutor…, … quem é que se atrevia a contradizer um doutor?!
Com base nestas premissas, foi logo religiosamente guardado, no cofre da casa paterna, o chupetão onde o bom do Elvinhas desenvolvera uma bem treinada musculatura de sucção, até ao início da idade escolar. “Ainda pode vir a fazer-lhe falta” – disse o pai!... (grande é a sabedoria dos mais velhos).
No entanto, os desígnios do destino nem sempre cumprem as aspirações familiares, como muito bem o comprova o case study deste promissor estadista… … o Dr. Gabriel Elvas.
Passar as páginas dos livros…, uma a uma…, depois de bem lidas e interpretadas, era uma sensaboria pior do que ir ver um jogo do Sporting Clube De Portugal, assim pensava o jovem Elvas.
Não foi por falta dos conselhos do pai Elvas, que a toda a hora lhe preenchiam os ouvidos: “meu filho…, agarra-te ao verbo…, olha que um canudo vale mais do que a herança da tia Mariana e do pai… … juntas…, depois hás-de torcer a orelha e não deita pinga”…, assim se expressava quotidianamente a preocupação paterna.
Mas qual quê…, o Elvinhas tinha herdado na têmpera uma aversão ao estudo tão grande como o seu gosto por festas, farras e noitadas a jogar ao sete e meio.
Um dia, já moço espigadote, o bichinho da política perfurou-lhe a epiderme e tomou-lhe conta dos interiores. De nada valeram as palavras sensatas…, umas, outras ameaçadoras, do progenitor para o demover de tal desgraça: “os políticos são todos uns pantomineiros…, anda um homem a criar um filho para isto…, desgraçado… …ainda te deserdo… eu e a tia Mariana”…
A Gabriel Elvas esta cantilena entrava por um ouvido e saía pelo outro!
Aconteceu…, num comício da JSD (Juventude Sem Desemprego), após um discurso inflamado do líder, o Dr. Passos Perdido, o nosso amigo ora se levantou…, ora se sentou…, bateu palmas e berrou “Apoiado” tantas vezes quantas as que foram necessárias para o orador lhe dar a devida atenção…, a ele…, posicionado logo ali, na primeira fila.
Por fim, o Dr. Passos Perdido foi ao seu encontro de braços abertos, cumprimentando: «como está o doutor…, muito obrigado pelo apoio doutor…, contamos consigo doutor…, a tiá Guidá…, onde está a tiá Guidá?…, …tiá dê uma ficha de inscrição ao doutor…, partido e irmandade incluída».
Elvas ainda balbuciou, com aquela ingenuidade digna dos principiantes: -doutor…, olhe que eu não sou doutor pá…, ainda nem acabei o 9º ano…
«Qual quê!!!»…, disse o chefão da JOTA (Jovens Operários e Trabalhadores Associados)…, «aqui somos todos doutores… … doutores em “Ciência Política e Estudos Estrangeirados”…, é o C.V. de todos os jotas … concordas meu?».
A quase ultrapassada timidez do Elvas logo o fez questionar: -e o canudo pá?
Foi a voz esganiçada da tiá Guidá que prontamente esclareceu:
«Meu caro doutor Elvas…, o cartucho…, perdão…, o canudo… … estamos a tratar do assunto na Lusófila!».

Epílogo

E que bem trataram do assunto! Veio aos órgãos de comunicação social o excelentíssimo administrador da Lusófila, botar lição de sapiência para todo e qualquer cidadão desta Nação:
“se ele (quem?) já sabe tudo…, não vem cá fazer nada… e dá-se-lhe o canudo!” (sic.)

AC

Wednesday, June 20, 2012

EM MEMÓRIA - I PARTE


Introdução:
O texto que se segue (outros lhe seguiram as pisadas) foi copiado do livro  “Castelo do Alandroal VII séculos”.
Pretendemos com os mesmos homenagear a memória de um grande amigo: Vicente Roma”

Vários são os motivos que nos levam a divulgar algo que escreveu sobre a sua terra natal
1º - Era um amigo
2º - Era um Homem digno
3º - Sempre lutou em prol de um Portugal melhor e acima de tudo pelo Alandroal.
4º - Porque temos a certeza que se ainda estivesse entre nós seria por certo um colaborador em toda a acepção da palavra deste projecto que dá pelo nome de Al  Tejo.

Assim sendo, e já que prematuramente nos deixou, resta-me aqui deixar palavras escritas pelo Vicentinho, já que na actualidade não pode fazer.
Resta-me apenas pedir desculpa a todos aqueles a que a memória avivei, em especial ao Dino, por lhes recordar o nome de quem nos deixou tantas saudades.
Descansa em PAZ AMIGO
Xico

O usufruto de um Castelo por uma população – o caso do Castelo do Alandroal e da Vila do Alandroal
(Comunicação ao colóquio do dia 5 de Setembro de 1998 Junta de Freguesia do Alandroal)

O Viajante que Chega ao Alandroal

O viajante que chega ao Alandroal, vindo de Vila Viçosa, por S. Pedro, não deixará por certo de se surpreender com a repentina aparição do Castelo. Não o viu de longe e, agora, surpreendentemente, deparasse-lhe à sua frente. Apesar da sua imponência não será preciso olhar para cima para o ver bem. Dir-se-á até que tem que olhar para baixo. “Curioso”- pensará o viajante.
Esta sensação vai desaparecendo progressivamente, enquanto vai descendo a Rua António José de Almeida e chega, digamos, ao sopé do Castelo, no Largo da Matriz. Aqui olha para cima, pára. Repara então que o Castelo aparece camuflado por edificações. « Fizeram as casas junto á muralha e é pena» - diz para si próprio.
Descendo a Praça da Republica (antiga praça do Príncipe da Beira – diz a placa toponímica) até à rua João de Deus (antigo caminho da Fonte), confirma a observação e tem momentos em que sabe que estão ali o Castelo e a Muralha, à sua direita escondidos. De repente, nua de casas, uma torre aparece-lhe. A seguir, novas edificações se colam à muralha.
No seu périplo de contornar a muralha vai sempre encontrando edificações que considerará espúrias até , que de novo, descobrirá uma Berta, quando dá conta que está perante uma entrada na muralha. Aqui, pela primeira vez, observa com alguma atenção o tecido urbano à sua esquerda. A vila desce, desce a muralha, primeiro em curiosas escadinhas e depôs em rampas de inclinação considerável, dando uma forma de ruazinhas estreitas e irregulares,, todas elas a desembocar  perpendicularmente numa outra, também ela estreita , que corre paralelamente à muralha mas a uma distancia já considerável.
Resiste à tentação de passar a porta que dá acesso à fortificação e resiste à tentação de se perder nas ruas que descem à sua esquerda.
O nosso viajante começa a pensar em duas ou três coisas ao mesmo tempo: que, por este lado, o Castelo e a Muralha se apresentam ao alto, parecendo-lhe agora como a vulgar ligação do adjectivo altaneiro ao substantivo castelo faz sentido,
 Passe a lugar comum. Contudo, não deixará de pensar que, à primeira vista, o casario que escorrega por aquela pequena encosta, o abafará.
Deve dizer-se que o nosso turista, porque de um turista se trata, está constantemente a estabelecer comparações com outros castelos que conhece: desde logo Monsaraz, que lá permanece, esse sim, altaneiro e, dir-se-ia, incólume; Marvão, que está a mil metros de altitude e, tal como Monsaraz, sem quaisquer edificações encostadas ao exterior da muralha; mesmo Terena aqui ao pé…
Continuará o seu périplo o nosso homem, não sem antes ter adiado a entrada na Muralha até tornar ao ponto de partida.
Novas casas agora mais baixinhas, como que respeitando-a. Até um quintal que deixa ver oliveiras…Agora sim, a Muralha nua e crua à sua frente, revelando-lhe a sua verdadeira dimensão.
Ei-lo agora quase no ponto de partida. Nova entrada para o Castelo aparentemente mais importante. É seguramente a entrada principal, está ali uma Igreja…cá fora, antes de entrar, não vê completamente a fachada da Igreja. Passa então o arco e não deixa de considerar estranho que a Igreja irrompa mesmo ali, em cima da muralha, abafando e sendo abafada por duas torres.
A palavra curioso volta a aflorar-se, à falta de outra adjectivação, enquanto sente dificuldade em encontrar ângulo para fotografar, em plano geral, a Igreja.
Penetra então no Castelo propriamente dito. Sobe a barbacã, espreita por entre as ameias, trepa as torres. Torna a espreitar. Ruas estreitas descem para a fortificação, perdem-se na Praça. Varandas, quintais, chaminés, arcos, telhados. A um lado, edificações novas correspondem à expansão natural do burgo. Lá em baixo, a fonte setecentista, curiosamente de lado para a grande Praça.. Repara na Praça: é sem duvida, uma homenagem ao Castelo.
Aqui sim Há a largueza suficiente que serve de antecâmara ao monumento.
A Praça deixa uma área non edificandi  entre o quarteirão onde pontifica o edifício dos Paços do Concelho e as casas coladas Á muralha. Lá em baixo, perto da Fonte, a Praça não termina, flecte para a direita, estreita-se agora ligeiramente, nunca perdendo a muralha como referência, até que se subdivide em ruas estreitas que escorrem pela encosta abaixo.
O nosso viajante olha ainda mais para cima e vê, sobreposto ao casario, o campo, que parece ali estar como cenário. Oliveiras, azinheiras, sobreiros….
Sobe então à Torre de Menagem, (não sabe que os Alandroalenses lhe chamam apenas Torre, não a confundindo, apesar de tudo, com as outras torres a que chamam torreões, sendo que aqui, ao contrário da regra, o sufixo deixa de ter carácter aumentativo, aparecendo mais diminutivo que nunca para destacar a importância da outra, simplesmente Torre).
Mesmo admitindo que o nosso visitante não seja especialista em história, não deixaremos de compreender que ele ache espúrio o crescento que se fez à Torre de Menagem: um relógio de quatro mostradores, sinos, um reboco de um branco imaculado a contrastar com a patine dos xistos.
«Que diabo! Um relógio?». Evita uma adjectivação mais crítica e refugia-se mais uma vez, no vocabulário curioso, que serve, à falta de melhor, para dar como compreendido o que não está. Acabou por deixar escapar um comentário para o lado, como se estivesse alguém ao pé de si: «tem qualquer coisa de árabe, a Torre. A Torre e tudo isto, as varandas solarengas, os arcos tímidos, as chaminés desmesuradas, as escadarias empedradas, o traço levemente sinuoso das ruas, no fundo pequenos rios afluentes que abriram caminho sem geometria e confluíram num abraço à muralha para depois se ramificarem novamente e começarem a escorregar até ao campo. De novo o campo, com azinheiras, sobreiros, mato, olivais. Algumas hortas, searas em mosaico.
O nosso homem estava francamente fatigado de tanto subir e descer íngremes e estreitas escadarias na sua visita ao Castelo. Estava também um tanto ou quanto extasiado com os contrastes e quase perturbado pelas interrogações, que não deixará de se colocar: « Os castelos estão quase sempre edificados no cimo da elevação mais notória. Aqui não, está no meio da encosta. Os castelos, na sua maioria, estão despidos de construções para terem mais visibilidade. Aqui não, temos a muralha como parede de sala de estar, , de quartos de meninos, do café, da oficina, da mercearia.
Nos castelos vulgares - escapou-lhe a palavra mas deixou-a  ficar porque assim não considerava este – a Torre de Menagem permanece intocável e nunca se refere a Torre sem dizer de Menagem. Aqui não. Coloca-se-lhe um relógio e dividem-se as horas em quartos de sonoras badaladas para balizar  o tempo dos alandroalenses em bocadinhos e  - pasme-se – repetem as badaladas das horas certas para aviso dos distraídos». Estava já descer a rampa de entrada do Castelo (agora de saída)e olhando para trás, sem contudo se deter, apercebeu-se que estava a dizer como se estivesse alguém a seu lado: curioso, curioso, curioso….
Este poderia ser um relato, quase romanceado, de um visitante e do seu Castelo-

UM CASTELO DIFERENTE

É natural e compreensível que muitas pessoas estranhem que o Castelo do Alandroal esteja envolvido por um semi-  anel  de edificações que, aparentemente. Lhe prejudica a imponência e lhe retira aquela dignidade austera que caracteriza a maioria dos castelos.
Nos anos quarenta/cinquenta, em Portugal, uma onda arquitectónica urbanística oficial varreu alguns pontos do país. Entre outros desígnios, preconizava uma espécie de purificação das fortalezas, entendem-se tal purificação como o despojo de construções que sufocavam.
Tal corrente foi então, e é hoje, objecto de apreciação contraditórias. E se foi responsável  por grandes edificações públicas fê-lo , em muitos casos, à custa de destruição de património edificado, evidentemente em nome da largueza de espaços e da importância arquitectónica e funcional das novas construções e do rasgar moderno  de espaçosas avenidas.
O que tem tudo isto a ver com o Alandroal e o seu Castelo? Provavelmente nada. Mas, tendo eu tido o atrevimento de aceitar o convite para participar num conjunto de palestras comemorativas dos sete séculos do Castelo do Alandroal, ao lado de investigadores de História e navegando eu noutras águas que não são propriamente  as da investigação histórica, pareceu-me que não seria totalmente despiciendo uma abordagem  noutra perspectiva, ainda dento das ciências sociais. Mais: a importância de um Castelo com o significado do de Alandroal, nos dias de hoje, legitima outros olhares, seguramente e desde logo, um espaço socioantropologico, de modo a retirar-lhe a visão exclusiva do passado enquanto passado, típica destas análises.
AS visões do passado, enquanto passado, são importantíssimas e as gerações actuais devem conhecer o passado, sobretudo o passado que mais directamente lhes diz respeito.
E isto raramente acontece ao nível da vulgarização do conhecimento histórico que, no fundo é qualquer coisa pela qual se tem respeito cerimonioso que se tem pelas coisas mortas.
Todavia, na minha opinião, que aliás partilha de correntes relativamente recentes, o conhecimento do passado, só por si, carece de vida e a vida continua aí. Isto é: matar-se um  monumento cristalizando-o  na época em que terá tido o seu auge funcional. Desde logo, os castelos, que se respeitam pela fotografia que nos dão de um passado. No fundo, no fundo respeitamo-los por estarem mortos
Uma abordagem sociológica questiona esta visão que, no limite, é o que apelidarei de paradigma isolacionista do castelo do castelo feitiche
O que eu pretendo dizer com isto e, em ultima análise, qual é o objecto  desta modesta contribuição para o ciclo de colóquios Castelos do Alandroal – VII séculos?
Em primeiro lugar defender a tese de que o aproveitamento hodierno de um monumento  como o do Castelo de Alandroal não passa pelo sacrifício  de edificações eventualmente consideradas espúrias e que aparentemente lhe retiram visibilidade,
Efectivamente estas edificações encostadas ao Castelo e à Muralha não lhe retiram a visibilidade, mas conferem-lhe, sim, outra visibilidade. A tese contrária  seria retirar história à história. Esta tese, se não existe agora, já existiu, e nada nos garante que não venha a ser defendida.
Em segundo lugar, defender aquilo que aparece como corolário da primeira tese: o que está, está, e como tal deve ser pontencionado. Por outras palavras: a mais valia que os Alandroalenses, ao longo de séculos, acrescentaram ao seu Castelo não pode, nem deve, ser apagado da história.
Ela traduz a vida das pessoas que foram e são tão ou mais importantes que aquelas que apenas que apenas por um esforço de abstracção poderemos localizar em determinado período de tempo.
Evidentemente que no curto espaço desta conversa que mantenho com os meus conterrâneos não é fácil aduzir um conjunto de argumentos, num todo coerente, que levaria muito tempo a produzir. Nem tão pouco esta reflexão resulta  de anterior investigação com mais rigor cientifico aplicada no caso em apreço. Mas é evidente que resulta de outras reflexões produzidas em contextos equiparáveis e que se poderiam sintetizar na afirmação de que as terras com o tal castelo-feitichev não passam de museus mortos. E que os outros que desmitificam e desmitificam  o castelo são comunidades com vida própria ainda que muita gente não dê por isso.
Sacrificando embora a eficácia do discurso à oportunidade, por um lado,, mas às limitações do momento, por outro, não resisto à pretensão de focar com exemplos as linhas mestras subjacentes à tese proposta.
A vila do Alandroal não é uma vila acastelada, isto é, existindo dentro do Castelo ou se quisermos da Muralha, e nunca o terá sido. A vila sempre abraçou o Castelo e coexistiu com ele numa relação umbilical, primeiro por razões de defesa militar e depois de defesa da comunidade enquanto comunidade.
É sabido que muitas vilas que tiveram grande importância estratégica, sob o ponto de vista militar, e que era essa importância estratégica que lhes assegurava a existência, sucumbiram, quando, por ordem natural do evoluir do processo histórico, as funções iniciais deixaram de fazer sentido. Dois exemplos mais um: Marvão, Monsaraz e Juromenha. As duas primeiras vilas, ambas acasteladas, no sentido que referi, perdendo a sua importância, cristalizando no tempo. E se a primeira destas não perdeu a função administrativa – Marvão ainda é sede de concelho - perdeu todas as outras. Já a segunda perdeu-as todas, inclusivamente a administrativa. No primeiro caso, para Santo António das Areias, no segundo , para Reguengos de Monsaraz, vilas sem história.
O Alandroal não. É certo que o equilíbrio desta vila tem sido instável ao longo da história e a sua pequenez tem sido uma constante. Todavia, tem sabido fazer a gestão dessa instabilidade. Quero dizer: tem sido possível a sua manutenção.,se quiserem preservação  - em termos absolutos, ainda que em termos relativos tenha perdido para sedes de concelhos vizinhos na variável económica, à medida que o modelo ìa perdendo as características de auto suficiência.
O que é que isto tem a ver com o Castelo? Provavelmente nada. Isto é, por outras razões, a povoação  poderia ter sido o que sempre foi, e ser o que hoje é, , mesmo sem o Castelo, tanto mais que o Castelo nunca chegou ao grande público, isto é, nunca teve  um aproveitamento turístico que fizesse  com que a população ganhasse em notoriedade e em termos económicos com o fato de dispor de um Castelo. Mas será difícil, para não dizer que o contrário seria um mero exercício de realidade virtual, não ligar indissociavelmente a vila do Alandroal ao Castelo do Alandroal.
Antes de ilustrarmos esta nossa exposição com uma incursão histórica em abono do que dizemos, atenhamo-nos ao presente e àquilo que foi um passado recente e que é também o passado de muitos que aqui estão e que têm tido a paciência de me ouvir, (neste caso de o ler nota do editor).
Aquilo que o nosso turista-tipo cujo retrato.robot esbocei na primeira parte desta conversa, acabou por classificar de curioso, traduz a ligação umbilical da vila, isto é, das gentes, às pedras, ao seu significado. Por outras palavras: a gente do Alandroal, ao longo dos séculos, na sua grande maioria, , talvez não tenham sabido interpretar historicamente a importância da fortificação, tal como nas outras terras, evidentemente…Mas terão seguramente sentido, sublinho sentido, essa indelével ligação. Porquê? Porque estas coisas não precisam  de ser sabidas para serem sentidas, isto é,  para serem interiorizadas.
O que acontece, e que tem acontecido de facto, sem artificialismo promocionais, é que, naturalmente as pessoas do Alandroal nascem a olhar para o Castelo e, de há um século para cá, a ouvirem as horas do relógio. As pessoas do Alandroal vivem o Castelo sem ser preciso mistificá-lo. E tanto que vivem que se servem dele no quotidiano, isto é, utilizam-no, usufruem dele. Aproveitam-lhe as paredes colocando-lhes habitações, oficinas, lojas, escritórios. Deixaram-lhe espaços livres em quintais e varandas, tanto no interior como no exterior; construíram-lhe uma Igreja e, séculos mais tarde ampliaram-na até ao limite da Igreja Matriz.
No Castelo enterraram-lhe os seus mortos – que mais  importância se dar aos mortos?
Fizeram e fazem festas em que a realogilidade tout court   se mistura com a realogilidade  popular.
Construíram-lhe uma cadeia para punição dos malfeitores e adoptaram mesmo o interior de uma torre para a cela mais inexpugnável do estabelecimento prisional. Por ela passaram, ainda que em transito, homicidas, e simples ciganos e contrabandistas, num passado muito recente,
Aquilo que para alguns olhos deveria ser evitado, institucionalizou-se. Isto tem implicado que  o Castelo e a Muralha, perdidas as suas funções de natureza militar, tenham adquirido outras: desde sempre,  sem duvida, a religiosa; a habitacional (há muitos anos que vivem dentro e encostadas à muralha muitas famílias); a comercial (desde que os mais velhos alandroalenses se lembram , sempre a Muralha ofereceu ao comércio e aos serviços o seu amparo); até as funções lúdica, cultural, educativa e administrativa estiveram adentro da muralha  (dentro da muralha funcionou uma Escola Primária, existiu a sede da Banda Municipal Alandroalense, onde havia bailes, espectáculos, cinema, se via televisão; ainda hoje há espectáculos noutro espaço, no carinhosamente chamado Quintal do Relógio).
Um aspecto curioso e que pouca gente associará ao Castelo é a Festa de Touros, incontornável no Alandroal. Não é só pelo facto de as touradas se realizarem perto da Muralha mas, sobretudo, porque já se realizaram lá dentro. Livros das Visitações falam disso. Um pormenor curioso e que se conta em meia dúzia de palavras é o registo de graves prejuízos materiais que as touradas causavam na Igreja com as investidas dos cornúpetos e dos valentes em fuga. Foram tomadas medidas severas para evitar tais desvarios que haviam chegado ao conhecimento das autoridades eclesiásticas que entenderam por bem pôr-lhes cobro.
Estar na Praça da Republica, no Alandroal, em alguns recantos, é sempre ter o abrigo protector dos frios Invernos e a reconfortante sombra do impiedoso verão alentejano. Estar na Praça é estar a olhar, sem querer, para o conjunto Torre- Castelo-Muralha. Para o pormenor da marcha inexorável do tempo.
Quando eu andava na Escola Primária, desenhava o Castelo vezes sem fim e os meus companheiros de classe faziam o mesmo. O Castelo, a Torre e a Muralha estão presentes em símbolos, logótipos, nome de empresas, associações.
É impossível que um artista plástico, fotógrafo, jornalista, tenha que dizer algo sobre o Alandroal que não tenha como modelo e referência o tríptico Torre – Castelo – Muralha.

A seguir : O CASTELO DOALANDROAL E DOIS ALCAIDESCANTADOS NOS LUSÍADAS