Nota introdutória:
Esta publicação, breve síntese de outra, mais abrangente e detalhada que penso editar oportunamente, não tem a pretensão de ser considerada um documento histórico apesar do extremo rigor (documentado) de tudo o nela é referido. Não segue essa metodologia, não é escrita por alguém com formação em História, nem é preferencialmente dirigida ao “mundo académico.
A CIDADE DO ENDOVÉLICO
Se as breves palavras que “rascunhei” há anos, numa tarde solarenga que inundava de morno silêncio a sala de leitura da Torre do Tombo, não tivessem resistido, teimosamente vincadas, numa das minhas caóticas sebentas, a determinação em realizar esta pesquisa histórica de que aqui vos pretendo revelar os resultados, ficaria por certo, como ficam tantas ideias da nossa vida, primeiro, adiadas para tempo incerto, e depois, esquecidas para sempre. Mas, tantos foram os olhares indiferentes, sobranceiros, senão desdenhosos, que em meu redor se multiplicaram quando, entre “a sacra e muy nobre” elite dos meios académicos, me atrevi a balbuciar a informação sintetizada nesse rascunho que, o medo ao ridículo, perante a minha própria inteligência e sobretudo a alheia, a foi remetendo aos poucos para os dúbios níveis do imaginário e do fantasioso. Contudo, em Setembro de 2011, após assistir a uma conferência sobre o Deus Celta Endovélico e da sua localização representativa no Templo (ainda não determinado arqueologicamente) no famoso outeiro de S. Miguel da Mota, o sentido codificado nas letras que traçara de atravesso no meu velho caderno entre o religioso ambiente da Torre do Tombo, reacendeu-se, vivo e incómodo, como nunca.
Efectivamente, (essa a ideia que eu tentava transmitir há muito) não era expectável que em redor de um Templo, com a carga mística contida no culto do Deus a que toda a Ibéria peregrinava, e a grandiosidade física que dos seus inúmeros vestígios podemos inferir, não existisse uma urbe de apoio logístico ao funcionamento de tal complexo e à guarida dos inúmeros devotos que ali se deslocavam (ainda não tinha lido Emil Hubner (1834-1901), que o afirma textualmente). Portanto, apenas duas elementares hipóteses se entrecruzavam em mim enquanto fui olhando os bicos dos sapatos pelo caminho até casa.
1ª - Que está por localizar uma cidade de dimensões consideráveis nas proximidades de S. Miguel da Mota.
2ª – Embora mais remota – Que o Templo do Deus Endovélico não se situava naquele ermo isolado, onde a decrépita ermida, de data incerta e construtor desconhecido, pretende simbolizar a cristianização do ancestral culto pagão.
Ora, era em pleno âmago da 1ª hipótese, que os meus velhos apontamentos, renascidos, incandesciam. E lá estavam, prova viva, entre desenhos e escritos vários, desencarnados de qualquer sonho ou fantasia, esperando que renovado olhar os relesse - «… os historiadores portugueses têm sucessivamente esquecido a existência de uma outra Lacobriga, transtagana (alentejana), céltica, mencionada por Ptolemeu, cap. V, tábua II, da sua Geografia, situada a oriente de Lisboa. Possível localização – Entre a ribeira do Lucifecit e a ribeira de Pardais????... » (ipsis litteris). Eis portanto, nesta última frase das minhas notas recolhidas no mausoléu dos pergaminhos, o motivo que, em vão, me acicatou a “incomodar”o mundo académico para a eventualidade desta descoberta. Aquele pequeno palmo de mundo, entre as ribeiras meridionais da Serra D`Ossa que serpenteiam até ao Guadiana, era o campo, a terra e as árvores e os matos e as ervas, onde nasci e cresci, era o passado da minha região, das “minhas gentes”, que estava em causa. E esse registo de quem fomos, no Alentejo, em Portugal, ou em qualquer outra parte deste planeta, deve ser exposto com absoluta verdade às gerações presentes, para que, desde as passadas, possam traçar a trajetória desta miraculosa raça humana, e, da sua leitura, retirarem o que a idoneidade de cada um achar por bem.
Nessa mesma tarde desafiei-me na realização de uma pesquisa própria, e, é para essa “viagem” regressiva pelo tempo que os convido, até à Antiguidade, até centenas de anos antes do início da era cristã, e aí, entre florestas habitadas por animais selvagens e ribeiros abundantes que se entrelaçavam num majestoso Guadiana (então denominado Anas), determinar a localização, exacta, desta surpreendente cidade que abraçava o Templo do Deus supremo dos Celtas, e que depois, ganhou a veneração de invasores cartagineses e romanos.
Deixei crescer barba e bigode cientista, empinei no nariz os meus óculos mais intelectuais, e assim, vestido com a pele de erudito sobre a essência ignorante (coisa nunca vista), encerrei-me três meses entre pergaminhos, papéis seculares, e microfilmes, na Biblioteca Nacional de Lisboa.
Qual o significado de Lacóbriga? Que particularidades comungavam esses aglomerados populacionais para que os historiadores assinalassem a existência de cidades homónimas no território hoje designado Portugal? – Estas eram, sem dúvida, as interrogações prioritárias de onde urgia partir.
Etimologia de Lacobriga ou Lacobrica
Escreve o erudito P. Henrique Florez, na sua España Sagrada: «Lacobriga - es nombre antiguo de los españoles primitivos, segun muestra la voz “briga”, frequentíssima en lugares antiguos, que significa vila ó poblacion : y en vista de que la misma voz suele entrar a composicion com términos latinos, como Augustobrica, Caesarobrica, etc. podemos reconocer en Lacobriga la etymologia de Lacus y briga; de suerte que por algun lago vecino recibiese el nombre…»
Mais específico ainda, Leite de Vasconcelos «… o nome “briga” significa “altura”, “castelo”, e provém do termo “brig” que se encontra no irlandês arcaico “bri”- montanha, e noutras línguas célticas. O nominativo irlandês “bri” perdeu a gutural, mas esta encontra-se ainda no genitivo “breg” < “brigos”.»
Podemos pois, desta conjugação etimológica, “Lacus (latina – lago ou lagoa) + “briga”, inferir como significado abrangente de Lacobriga, um núcleo populacional amuralhado, situado numa elevação, com a particularidade de estar próximo, ou, inclusivamente, rodeado por um lago. Simplificando, “Cidade do Castelo do Lago” (ou lagoa) (o P. Florez chama-lhe apenas villa ou Cidade da Lagoa).
Conhecendo de forma genérica o que procurávamos, a razão aconselhava o estudo das duas Lacóbrigas identificadas pelos historiadores. Uma, que seria a norte (na margem esquerda do Douro, diz Plínio (Liv. 3), assinalada no Itinerário de Antonino Pio (Imperador romano, 86 d. C. – 161) no trajecto de Lisboa a Braga (como Lancobriga), de que não nos ocuparemos por motivos que durante esta narrativa serão fáceis de entender (e também porque dela pouco ou nada reza a História, duvidando-se mesmo que possuísse dimensões de cidade), e a outra, essa sim, fundamental e determinante neste estudo, a Lacobriga que os cientistas históricos demarcaram no Algarve e de quem a cidade de Lagos usufrui, (usurpa, como veremos) há séculos, Passado e Fama. Analisemos então como se procedeu à identificação no sotavento algarvio, entre os Cónios (ver fig. 1), dessa mítica urbe que Ptolemeu indica a oriente de Lisboa e à cabeça das cidades Célticas.
Dos Autores Antigos, gregos e romanos, no que se refere à descrição do Sul da área geográfica que o Império Romano designará depois por Lusitânia, diferenciando-a da Bética pelo rio Guadiana (então, por todos referido como o rio Anas), as sub-regiões por eles demarcadas chegam-nos substantivadas pelo termo “Promontorium”. Deste termo latino, das suas diferentes traduções, interpretações, corrupções linguísticas, e respectivas demarcações no terreno, criou-se uma tal miscelânea (desde Avieno, Artimidoro, Estrabão, Plínio, Varrão, Agripa, Ptolemeu, Estácio de Veja, André de Resende, etc. (e este “etc.” inclui centenas que a este assunto se têm dedicado, até aos contemporâneos Jorge de Alarcão e Amílcar Guerra), que, se os “promontorium” fossem placas tectónicas nas mãos destes cientistas, viveríamos há milhares de anos sobre terramotos colossais, tantas são as voltas em que estas regiões colidiram, estrondosamente, nos seus textos. A vocês, meus companheiros de viagem, não os vou arrastar para este interminável “cataclismo” de onde saí com todos os neurónios retorcidos, não é esse o objectivo da nossa investigação, contudo, tenho que referir o “Promontorium Sacro”, traduzido por Promontório Sagrado, pois é neste que os Autores Antigos situaram Lacobriga (“in Sacro, Portus Hanibalis e Lacobriga” – Geografia de Ptolemeu).
É pois, (situemo-nos no sec. XVI) transportando sob o hábito de frade dominicano (que a Inquisição tornará particularmente popular) uma panóplia de “promontorium” e muitas outras informações que recolheu por toda a Europa, que o eborense André de Resende, pioneiro dos nossos arqueólogos, e padrinho de muitas localidades por inspiração própria (Vila Viçosa, por exemplo, para quem ele inventou o nome de Calipolis, e os habitantes desta localidade intitulam-se, há quinhentos anos, de calipolenses, sem que para isso haja qualquer raiz histórica), ávido de riscar no terreno as cidades e os lugares escritos nos seus papéis, qual divino Baptista - «Atravessemos agora o Guadiana e exponhamos aos estudiosos da Antiguidade as cidades da Lusitânia sobre as quais se julgará sem margem de dúvida ou pelo menos por conjectura provável.» - são palavras suas nas Antiguidades da Lusitânia (Adapt. de Raúl Fernandes). E conjecturou tão bem que, alegando uma lenda que os fantasiosos seguidores da “escola alcobacense” enfatizaram dos Autores Antigos, e segundo a qual terá existido um templo a Hércules na ponta de Sagres (Artimidoro foi o único a estar lá em presença e nega peremptoriamente qualquer vestígio desse Templo. Leite de Vasconcelos apenas lá encontrou uma lenda, e bem mais humilde, umas pedras que se moviam, à noite…), e assim, de nada mais que a brisa atlântica, o cabo de S. Vicente absorveu por séculos a designação de Promontório Sagrado, e a cidade céltica de Lacobriga, que André de Resende sabia estar indicada nas Tábuas de Ptolemeu a oriente de Olysipo (Lisboa), ficou a banhos até hoje no Algarve (então país dos Cónios), e as gentes nativas na área da sua verdadeira localização, os netos desses celtas, os descendentes dos lacobricenses que, assim o veremos durante este estudo, foram dos povos mais interventivos na nossa Antiguidade, ficaram privados da sua história com mais de 2.300 anos.
Parece incrível (para quem não acompanha de perto estes malabarismos interpretativos da História) que, em pleno sec. XXI, depois de milhares de supostas pesquisas, de milhares ou milhões de textos supostamente técnicos, mas afinal, apenas compostos por ideias emaranhadas em refinada linguística histórica, possam persistir mistificações do passado com esta dimensão, mas na realidade assim é, e aqui o demonstrarei de forma a não subsistirem quaisquer dúvidas. Em Lagos, ou nas suas proximidades, não existiu qualquer Lacobriga, e acrescento mais, em todo o Algarve não floresceu qualquer urbe pré-romana com as dimensões necessárias para se lhe atribuir a designação de cidade (Ossonoba não pode ser Faro, e que Balsa seja Tavira é muito duvidoso). Parta-se da listagem dos achados arqueológicos publicada por Carlos Fabião no seu estudo sobre o “guarum”(que é bem mais tardio), investigue-se, e medite-se no que essa zona, encerrada entre o mar e as serras, teria para comercializar com fenícios ou cartagineses.
O que resta agora do objetivo inicial da nossa investigação, da procura da Lacóbriga celta, que, julgando-a perdida na memória dos tempos, na esperança que algum moribundo vestígio seu nos surgisse entre a intricada escrita da Antiguidade, nos queimou olhos e cérebro na descodificação de dezenas de livros? A cidade de Lagos, e a convicção que os habitantes dessa localidade algarvia, eles próprios, embora de distinta forma, vítimas também desta falta de rigor científico, portanto involuntariamente, usurpam o passado dos povos que mais lutaram, morreram em chacinas várias, e (é grande a possibilidade atendendo a situações semelhantes com povo celta), se ofereceram e aos seus filhos em sacrifícios de sangue para manterem vivos os Deuses e as áureas sagradas em torno das tumbas dos seus mortos.
Espanha de Ptolomeu
De: A evolução dos Mapas através da História
Autor: Mário Ruiz Morales
Sub-Delegação do Governo de Granada
Universidade de Granada
Como atrás opinei, não há registo de qualquer cidade pré-romana desde a ponta de Sagres ao (então existente) delta do Anas (Guadiana). O mesmo se pode depreender da “Ora Marítima” de Avieno (sec. IV).
Assim, o projecto inicial que nos desafiara, a descoberta da Lacóbriga “perdida”, alterou-se em absoluto. O que iremos demonstrar, sem prejuízo da exacta localização da cidade entre os torrões alentejanos onde permanece sepultada, é que André de Resende (e quem o seguiu), cometeu um tremendo erro ao identificar o Cabo de S. Vicente como sendo o Promontório Sagrado, e, tirando partido da semelhança fonética, “colou” Lacóbriga a Lagos - «O vulgo designa Lacóbriga pelo nome mutilado e algo modificado de Lagos» (Ant. da Lusitânia – R. Fernandes) – afirma ele parecendo querer aliviar as responsabilidades – e atribui a Portimão o nome de Portus Hanibalis (de Portus Hanibalis, supostamente edificada pelo comandante cartaginês Haníbal, pouco mais nos contam os escritos históricos, sabe-se, contudo, que no período árabe se designava por Burj Munt, que significará “Torre no Monte ou Monte da Torre) (quanto a Lagos, diz-nos Mário Saa (1893-1971) em As Grandes Vias da Lusitânia, que no sec. Xll era uma pequena aldeia chamada Halcos), ocultando assim a sua verdadeira localização, que era, sem margem para dúvida (aqui ficará provado), nas terras do Endovélico, em pleno coração dos celtas do Alentejo. Recorde-se, para melhor entender estes “equívocos”, que, à época de André Resende (séc. XVI), Lagos e Portimão eram centros populosos com alguma importância no suporte da controversa Escola Náutica de Sagres fundada pelo Infante D. Henrique, e já com forte implantação da Igreja Católica (Lagos já tinha Bispo, e uma Capela dos Ossos…?).
Concentremo-nos então em desmontar esta teia de inverdades que se emaranha na História desde há séculos. Vários são os documentos históricos de que nos serviremos e que mencionam Lacóbriga, cuja construção (há quem escreva reconstrução, o que pressupõe a existência de um povoado mais antigo) é atribuída ao governador cartaginês Bahodes por volta do ano 370 a. C. (antes de Cristo). Nos Autores Antigos existe mesmo a descrição de um episódio nela passado na guerra de Sertório de que Plutarco dá conta na Biografia deste general romano (Tito Lívio também o menciona) e que muitos outros depois repetem. Mas, antes de analisarmos esses milenários registos e outros posteriores, vejamos aquele (finais do sec. XVI) que nos conta a formação de Lacobriga (em Lagos, não ousando contrariar o “mestre” André de Resende), e, como nesse mesmo escrito, algumas linhas depois, o historiador contorce os factos de tal forma que, descreve também a construção do Templo Endovélico nas Abas da Serra D´Ossa. Um malabarismo curioso, assim o veremos, mas, por pouco inteligente, de uma incoerência total. O seu autor é Frei Bernardo de Brito (1569-1617), um dos mais profícuos filhos da fantasiosa escola Cistercense de Alcobaça, estudante em Roma e Veneza, doutorado em Teologia por Coimbra, e nomeado Cronista-Mor do reino em 1614. Rodeado de apontamentos vários, onde pontificavam os do “sistema” Resende, molhou a pena no tinteiro, e, com um olho no papel e outro em todas as fogueiras da Inquisição que ardiam pelo país, escreveu um texto (Livro ll, Cap. Xll, da “Monarchia Lusytana”) que, “espremido” do seu palavreado medieval e nacionalista (estávamos em plena ocupação espanhola), nos pretende convencer do seguinte: O governador cartaginês Bahodes, depois de sofrer grande contestação na Andaluzia (a Turdetânia, suponho) refugiou-se no Porto de Haníbal (que afirma ser Portimão, claro) onde, ao perceber que as trocas comerciais eram tão cordiais, afectuosas até, com os Lusitanos (para ele o povo dos Cónios não existiu), mandou chamar os chefes das tribos do «sertão» (Alentejo, dos Celtas) e, durante uma grande festança com bois assados junto ao Templo de Hércules (que nunca existiu na ponta de Sagres), pediu-lhes permissão para construir uma cidade no interior, de forma a tornar mais acessível o intercâmbio de bens entre estes e os comerciantes cartagineses. Os chefes tribais do «sertão» (celtas do Alentejo, recordo) acharam uma ideia brilhante e concederam-lhe para tal objectivo, (a criação de um posto comercial mais no interior) uma cidade do povo Cónio(!), ainda mais distante e litoral(!), Lagos (!). Tudo isto é absurdo, é evidente, mas a incoerência na construção de tão desastrado texto por Frei Brito, continua – Depois de construída Lacobriga, Bahodes é substituído pelo governador Maharbal, este, «um dos que mais afeiçoados à nação Portugueza de quantos até aí tinham entrado em Espanha», instalou-se também em Portimão, e aí, há 2.370 anos(!), ouviu falar da cidade de Elvas, muito “famosa” nessa época «que já nesse tempo era cousa notável» (Há um desconhecimento total sobre Elvas nessa fracção do tempo. Ou não existia, ou seria um pequeno povoado da tribo dos Helvécios, presume-se), e, portanto, Maharbal contornou a costa, subiu o Anas (Guadiana) para apreciar essa «cousa notável» que era Elvas, e, sendo acometido por grave e súbita doença, consultados os “adivinhos” («agoureiros»), estes informaram o governador que o Deus Cupido estava muito zangado com ele (entretanto, Frei Brito introduziu no texto a história de uma nau grega que se perdera, cuja carga eram Ídolos de Vénus e Cupido e sacerdotisas venusianas, que os cartagineses capturaram) e, só a construção de um templo dedicado à divindade enfurecida, o poderia curar da desconhecida maleita. «Tal foi o medo em Maharbal, que concedendo liberdade aos gregos, deu logo ordem à formação do Templo, acudindo os Portugueses com tanto gozo à obra, que antes que o Capitão (Maharbal) se partir dali, foi acabada e posta no Templo de Cupido… (descreve o ídolo, e continua) … chamando a este ídolo em nossa língua antiga de Endovélico, cujo nome vemos nos templos de agora em algumas pedras do Templo dos romanos…». Assim, com esta “simplicidade”, se separou a cidade de Lacóbriga, em trezentos e tal quilómetros, do Templo Endovélico que, ficámos a saber pelo erudito Padre de Cister, se Elvas não fosse «uma cousa tão notável» que dava brado há 2370 anos entre os Cónios das praias algarvias do barlavento, os Celtas não teriam adorado o seu Deus, uns milhares de anos antes dos acontecimentos relatados por Frei Brito…
Depois de folhearmos estas páginas de puro ridículo, debrucemo-nos sobre o episódio mais conhecido da História Antiga em que Lacóbriga é referida, e que, na procura de explicações racionais para os acontecimentos nele referidos, mais tem perturbado os historiadores modernos, forçando-os a duvidar da situação geográfica que os clássicos lhe atribuíram. «Problemática» Lacóbriga, chama-lhe Amílcar Serra sem saber onde a colocar para que os registos históricos façam sentido (Alarcão “atira” com ela para a Arrábida, outros até para Coimbra). Esse texto, que podemos ler na “Biografia de Sertório” por Plutarco, e em muitos outros autores, contém informações preciosas para este nosso estudo, permitindo preencher as dúvidas que tanto têm perturbado quem o analisou em complexas conjecturas, e, marginalizando o evidente, “saltou” com a localização da cidade de Lacóbriga e do quartel-general de Sertório pelo mapa da Península Ibérica, (Pompónio Mela, Schulten, Muller, Tovar, Roldán, Alarcão, Amílcar Guerra, etc. etc.) tentando alcançar uma explicação racional para a sucessão dos eventos descritos no referido documento.
O enquadramento histórico das ocorrências registadas nesse texto, compreende o período em que Sertório, depois do seu retiro no norte de África causado pela guerra entre Mário e Sila, volta à Península Ibérica (há quem diga que a pedido das tribos que nela continuavam a resistir aos invasores romanos) e comanda os guerreiros nativos a quem juntou outros trazidos das regiões africanas. Entre as legiões de Roma que venceu, as comandadas pelo procônsul Quinto Cecílio Metelo Pio, foram das que mais sofreram com as investidas constantes de Sertório que, adoptando a táctica de guerrilha nativa, a mesma que anos atrás tanto sucesso permitira a Viriato (O segundo Viriato de que fala a história, natural do chamado Hermínio Menor, Marvão (!). O primeiro Viriato, contemporâneo de Aníbal Barca, faleceu na batalha de Cañas (216 a. C.). Viriato, não era um nome próprio, era um título, “o que usava as vírias”, símbolos de poder). Conta-nos Plutarco que Cecílio Metelo, vendo as suas legiões cada vez mais desgastadas por uma guerra para que não estavam preparadas, e querendo mudar a feição da contenda, resolveu cercar a cidade mais fiel a Sertório, Lacóbriga. A intenção do cerco era vergar os lacobricenses pela sede, uma vez que, apesar da abundância de água que rodeava a fortaleza, esta, intra-muros, possuía apenas um poço (outros escrevem cisterna). Imaginando uma rápida rendição, Cecílio Metelo ordenou aos seus homens que se aprovisionassem para meia-dúzia de dias, mas Sertório, rapidamente avisado pelos seus vigias, ordenou que se enchessem dois mil odres de água, e, pela calada da noite e pelos trilhos da serra, conseguiu introduzir o precioso líquido na fortaleza aliada. Cecílio Metelo, ao perceber que os sitiados resistiriam muitos mais dias que os previstos, enviou o seu lugar-tenente, Aquílio, com seis mil soldados, para recolherem novos mantimentos. Antecipando esta decisão do comandante rival, Sertório montara-lhes uma emboscada onde dizimou completamente as tropas de Aquílio que, sem armas e sem cavalo, se apresentou perante Cecílio Metelo, e todos, apavorados com a aproximação dos guerreiros de Sertório, atravessaram o Anas (Guadiana) e refugiaram-se nas cidades que dominavam para além deste rio.
O que contém este breve, mas sangrento, episódio da guerra contra Roma, que relatámos por súmula dos diversos textos históricos que a ele se referem, que tanta discussão tem causado entre os meios académicos? Que interrogações impedem os investigadores de refazerem pela razão os acontecimentos nele descritos? A mais evidente, por roçar o incompreensível, é a relação de privilégio (mencionada em todos os documentos) entre Sertório e a cidade de Lagos (suposta Lacóbriga). Como poderia existir tal afinidade, entre uma povoação situada nos confins do barlavento algarvio e o ex-cônsul romano que desenvolvera toda a sua campanha militar no centro da Península Ibérica e, que se saiba, nunca estabeleceu qualquer contacto com povos tão meridionais? Não faz sentido, contudo, fez acumular entre estudiosos modernos as dúvidas sobre a localização de Lacóbriga em Lagos (e por consequência, do Promontório Sagrado corresponder ao cabo de S. Vicente). E onde estaria aquartelado Sertório para que, de imediato, ter a informação do cerco e da premência de água? Bem perto, certamente, porque conseguiu resolver o problema com os famosos odres de água introduzidos na cidade através dos matagais da serra. E que serra? E a que distância estaria do Anas (Guadiana) a cidade dos lacobricenses, para que Cecílio Metelo o conseguisse cruzar com as suas tropas de forma tão rápida, evitando a perseguição dos guerreiros de Sertório? É inimaginável a quantidade (e a qualidade) das teorias avançadas na tentativa de dar respostas a este “imbróglio”. Direi mesmo que os historiadores entraram num “devaneio” total (desde o quartel-general de Sertório ser em Conitorgis, mais uma das cidades por localizar, desde marchas forçadas dos guerreiros sertorianos de 100 km por dia, teorias e mais teorias, e Lacóbriga saltitando pelo mapa como peça de dominó sem lugar onde encaixar). Contudo, para mim, nascido e criado entre os campos que, através dos meus velhos rascunhos, continuavam a reclamar para si a pertença dessa mítica cidade, outros pormenores da descrição do malogrado cerco de Cecílio Metelo, começavam a desenhar uma imagem que há anos conhecia. Afastei-a por improvável, mas ela teimava em emergir da memória e introduzir-se nos meus raciocínios, ganhando gradual sentido em cada aparição. Até que, incontornável, claramente impressa no texto que então examinava (Mappa de Portugal, Antigo e Moderno, do padre João Bautista de Castro, Pub. 1775) sobre Lacóbriga, essa visualização de que falo, me olhou nos olhos, feita palavra, surpreendente, entre os papéis velhos que enchiam a minha secretária na Biblioteca Nacional. No documento aberto entre as minhas mãos, o padre Castro começava por referir uma história muito famosa na tradição oral, recolhida por Baptista Mantuano nos seus Agelários, (André de Resende diz que a ouvia desde a sua meninice, em Évora) - «Em tempo dos romanos foy cidade muy famosa (Lacóbriga) e lembra-se della Baptista Mantuano, quando diz, que erigira o Senado desta povoação, sete estátuas a Ardiboro (Resende, diz Ardíburo), capitão insigne do imperador Valentiniano, as quais prostraram os Vandalos quando a tomaram.» E, algumas linhas depois, - «Há quem diga que Lacobriga é a villa de Abrantes, outros do Landroal, e João de Mariana diz, que é a villa de Alvor, fundada por Aníbal.»
“Landroal”(!), significava isto que, séculos atrás, alguém concluíra o que eu, depois de ler o texto sobre o cerco de Lacóbriga pelas tropas de Metelo, recusava aceitar, a vila do Alandroal satisfazia por inteiro todas as condicionantes (no domínio geográfico e no lógico) implícitas no polémico documento de Petrarca e muitos outros, e a imagem, que de uma forma recorrente dançava na minha memória (e vos mostrarei aqui, quando explicar o que afirmo) completava-lhe o sentido. Ávido por companhia nas minhas conjecturas, parti em busca do historiador que colocara na História semelhante hipótese. Quem era esse homem que ousara desafiar Resende? Em que argumentos se fundamentara para desafiar os dominicanos? Muitos livros depois, “entrei” no Nº XXX das Notícias da Conferência da Academia Real de História em 1724. Em “livros de folha”, 174, (Miscelânea de papéis políticos e curiosos) diz o seguinte: - «Em nome do grande João de Barros, está neste livro uma descrição da antiga Lusitânia, que não é seu, mas de Gaspar Barreiros, como se vê por alguns lugares em que faz menção à sua Corografia impressa; este Tratado é “douto”, e não está acabado, a última terra que menciona é Tentugal, que quer que seja a antiga Concórdia, e nos nomes antigos discorda muitas vezes de André de Resende, e algumas com boas conjecturas…» (e mais abaixo, no mesmo texto) «sobre a etimologia de Lisboa e a sua formação, aponta muitos erros que a vaidade dos Autores modernos quis autorizar, e é digno de se ler este discurso, como todo o Tratado; descreve algumas terras mediterrânicas, e para que Beja, e não Badajoz, seja Pax Julia, diz que acrescenta aqui os argumentos que defendeu na sua Corografia, e também confirma que Julia Mirtilis, a que chama Mirtilis Julia, é Mértola, e tratando logo de outra Lacóbriga dos Turdulos, mostra equívoco dos dois nomes e infere que uma delas é o Landroal.» Gaspar Barreiros, era este o nome do historiador que não alinhara nas confusões (manipulações) de André de Resende (por ser franciscano, portanto com outras “raízes” na Igreja Católica?). Gaspar Barreiros nasceu em Viseu por volta do ano 1500, formado na Universidade de Salamanca, foi um dos maiores eruditos e geógrafos do sec. XVl. Era sobrinho do célebre João de Barros e incumbido mais tarde por decreto régio de finalizar as Décadas de seu tio, tarefa que não realizará. Foi cónego de Viseu e Évora, chegou a pertencer à Inquisição sob as ordens do Cardeal D. Henrique, deslocou-se como embaixador a Roma onde abraçou as regras jesuítas, mas, meses mais tarde, possivelmente desgostoso com essa vivência, rogou ao Papa que o deixasse enveredar pela humildade dos franciscanos. Do extenso trabalho que deixou manuscrito nas mãos do seu irmão Lopo de Barros, apenas se imprimiu a “Chorographia de alguns lugares…”, e “Críticas de Quatro Livros… “. Da restante obra, supostamente perdida, ou escondida em obscuras bibliotecas, Justino Mendes de Almeida conseguiu localizar o que designou por “Um inédito de Gaspar Barreiros: «Suma, e Descripçam de Lusitania» (Coimbra/1984), e na qual o Geógrafo se refere a Lacóbriga. Para meu desapontamento, é um texto vago, não nega com frontalidade a existência da Lacóbriga algarvia (diz que só Pompónio Mela a menciona) e depois de pretender que os restantes historiadores confundiram Lacóbriga com Lancóbriga, afirma: - «… assim que todos se enganaram, e quanto ao lugar de hoje onde seria Lancobriga nisto há muita dúvida, e muita notícia obscura, quanto a mim parece-me que deve ser o Landroal.» Dos apontamentos, ou das conclusões já sintetizadas, onde fundamentava esta opinião, nada achei. A que informações teve acesso o cónego Barreiros nos anos que passou em Évora, ou o que viu “in loco”, no Alandroal, para que a Conferência da Academia de História em 1724, considerasse tão “douta” esta arrojada hipótese? Silêncio total, é a resposta da História a que temos acesso. Até que em 1888 (finais do sec. XlX, em que as chancelas da Inquisição já se haviam quebrado sob os pés dos iluministas), outro investigador passeia a batina pelos campos alentejanos, contrai repetidamente o sobrolho sobre os escritos dos Autores Antigos, e, (profundo apaixonado pela História e pela Arqueologia) atreve-se a desenterrar, desde as faldas da Serra D´Ossa, a problemática questão da Lacóbriga dos Celtas. Chamava-se, esse curioso e erudito padre (músico também), Joaquim José da Rocha Espanca (1839 – 1896), e o estudo onde compilou as suas investigações e conjecturas, foi publicado na “Revista Archeológica”/ Lisboa, onde assina sob a data de 07/08/1888. Apesar de algumas evidências absolutas que aponta, e onde reclama a localização dessa antiquíssima cidade no Alto-Alentejo (mais propriamente entre os “Vilares de Bencatel e Pardais, defenderá depois, num complemento mais detalhado desta publicação), o único interesse que recebeu em troca do seu texto, concentrou-se por inteiro na preocupação dos museus pela recolha dos muitos achados arqueológicos que o esforçado padre recolheu entre vinhas, terras de “semeadura”, e infindáveis olivais. Da sua argumentação histórica, do alerta que pretendeu enviar aos outros investigadores para a existência, sob os campos alentejanos das últimas ondulações da Serra D’Ossa, da cidade que Ptolemeu colocou à cabeça das cidades Celtas, o incompreendido clérigo, sem eco nem audiência, ficou até hoje a pregar ao vento em pleno «sertão». E porquê? Que razão impede um olhar mais atento dos historiadores para as opiniões de Gaspar Barreiros (que não nega a existência da Lacóbriga em Lagos) ou de Rocha Espanca (que também o não faz, falando sim de uma 3ª Lacobriga), quando afinal está claramente escrito nos Autores Antigos que essa cidade é Celta (e se sabe que o coração da região celta era o Alentejo) e se situa a oriente de Lisboa? Porque, (e foi isso que os impediu de negar a localização inicial de André de Resende), existe um outro pressuposto, a cidade deve localizar-se no “Promontório Sagrado” (Promontorium Sacro) «in Sacro Lacóbriga e Portus Hannibalis» assinalam os mesmos textos. Ora, convenhamos, encontrar um promontório no centro do «sertão» alentejano, não se afigura tarefa fácil.
O Promontório Sagrado
“Promontorium”, termo latino, cuja tradução nos remete de imediato para a óbvia tradução da palavra promontório (ou cabo). No entanto, assim como em muitas questões de outro âmbito, o óbvio é uma ferramenta do erro, remetendo o entendimento para verdades de sinal contrário. “Promontorium”, significa também – acima de, elevação, serra, montanha (quando a significação pretendida era serra ou montanha, incluía também a zona envolvente. Leite de Vasconcelos refere-o antes de embarcar em mais uma “calamidade” entre promontórios marítimos) e, com esta intenção de sentido era vulgarmente utilizado na Antiguidade). Resulta daqui que, com toda a propriedade, a expressão “Promomtorium Sacro” pode (e deve, neste caso específico) ser traduzida por Serra Sagrada ou Montanha Sagrada. E onde, com mais segurança de verdade histórica, se poderá encontrar serra ou montanha que corresponda a esta designação? Em Sagres, onde afinal nunca existiu qualquer templo? Na Arrábida, onde alegadamente existia um templo a Neptuno (numa época pré-romana?)? Como é possível que, aos nossos historiadores, não tenha ocorrido que a serra onde os Celtas tinham os altares dos seus deuses supremos (Endovélico, Atégina (Proserpina), Runesus, Fontana, Fontano, talvez Fagus (herdade da Faia)), essa Serra Sagrada, fosse, naturalmente, a Serra D’Ossa? Que outra Serra, que outra Montanha Sagrada poderia existir, senão aquela que congregava os Deuses no coração da nação céltica (Alentejo), e, (“coincidência”!) geograficamente situada, sem qualquer margem de erro, a oriente de Lisboa? Nos limites desse “Promontorium Sacro”, se situou Portus Hannibalis porque o comércio com os cartagineses (cereais, lã, e sobretudo os produtos da abundante extracção mineira) fazia-se pelo Anas (Guadiana), todos os historiadores o reconhecem. Embora a História nada diga de relevante sobre Portus Hannibalis, através do nome árabe, Burj Munt – Torre no Monte, ou Monte da Torre, Juromenha é uma boa candidata à sua localização, mas não tenho qualquer garantia que o confirme. Mas tenho sim , e muitas, evidências (ao longo deste estudo se irão revelar) que nesse “Promontorium Sacro”, o mesmo (e único) que Ptolomeu mencionou, está, a Lacóbriga que Bahodes ergueu, e junto à qual, Maharbal engrandeceu o templo de Endovélico, o grande Deus do Celtas, depois denominados Celtici, que viviam entre o Tejo e o Guadiana. E é essa Lacóbriga, a única que preenche todas as condicionantes implícitas no polémico texto que descreve o cerco montado por Cecílio Metelo, sem recorrer a qualquer esforço imaginativo nem discursos fantasiosos. E é, dessa enigmática cidade, da Cidade do Castelo do Lago, ou Cidade da Lagoa, situada a oriente de Lisboa, nas abas da Serra D’Ossa, perto do rio Anas (Guadiana), e que apenas possui uma cisterna no seu interior, que aqui vos mostro uma imagem, mil anos depois da sua construção, após D. Dinis já ter erigido sobre as suas fundações o actual castelo que, como veremos, possui ainda mais “segredos” para revelar.
- Na zona aqui demarcada em azul, Duarte D´armas, para que não restassem dúvidas, escreveu “Alagoa”.
- No quadrado a vermelho, chamo a atenção para umas intrigantes ameias que, sendo vistas de Sul, eliminam a tentação de as considerar um resquício de Vilares, que o «vulgo» aponta como sendo o originário Alandroal.
Vejamos agora, com a localização de Lacóbriga determinada (e uma parte, repito, uma parte, da cidade já documentada na Fig. 3), o famoso episódio do seu cerco que tanta tinta delirante consumiu sob as “doutas” penas dos historiadores.
O CERCO DE LACÓBRIGA
Para a compreensão definitiva deste acontecimento ocorrido há mais de 2000 anos, é fundamental determinar a localização dos aquartelamentos das legiões de Cecílio Metelo e do acampamento dos guerrilheiros de Sertório. Quanto ao quartel-general do procônsul romano, Manuel Andrade Maia dá-nos uma ajuda preciosa (Romanização do território português ao Sul do Tejo / Faculdade de Letras de Lisboa / 1987) (pág. 165): «Domergue (Claude Domergue) contribuiu, de forma notável, para confirmar o apoio das populações da futura Bética à causa de Metelo, ao dar a conhecer glandes de chumbo, por utilizar, em Azuaga (província de Badajoz). Estas balas, apresentam a marca “Q. ME” ou “Q. MET” que o autor identifica, logicamente, com o procônsul da Ulterior, Q. Cecilius Metellus Pius. A inscrição demonstra que as glandes foram manufacturadas naquela localidade da Sierra Morena, quando o procônsul tinha estabelecido, na região, o seu quartel-general e base, contra Sertório.» Quanto ao acampamento dos guerreiros do sublevado Sertório, parece-me indesmentível, depois de lermos Plutarco e tantos outros autores (André de Resende tudo fez para o ligar a Évora, até lhe “deu” casa, mulher, e serva), seria nas franjas da Serra D´Ossa viradas para a cidade eborense, há quem refira Vale de Infantes, outros a povoação de Pomares, até mesmo Evoramonte, S. Gens, etc. Não me querendo intrometer sobre a discussão subjacente, a localização do mítico Monte Vénus corresponder a um destes locais, deixo aqui apenas estas palavras de Tito Lívio quando trata da acomodação das tropas sertorianas entre as populações locais: «… os venusianos (naturalmente os habitantes do monte Vénus!) depois de repartir estes homens entre as famílias, para que aí fossem recebidos e bem tratados…»
Assim, sem obrigar os homens de Sertório a correr mais que cavalos, de odres às costas, desenfreados para o Algarve, ou para a Serra da Arrábida, nem as legiões de Cecílio Metelo a deslocarem-se, quais fantasmas invisíveis, para cercarem essas zonas, tudo se passou, afinal, numa área de aproximadamente 50 km o que, justifica desde logo, o pouco aprovisionamento das tropas romanas. O procônsul atravessou o Anas (Guadiana) vindo das cercanias de Badajoz, por Juromenha (que nesta época se chamaria Dippo, ou Dipone,) e montou o cerco a Lacóbriga remetendo os habitantes para o interior das muralhas onde ficaram dependentes da água existente na única cisterna. Os guerrilheiros de Sertório, acampados na Serra D’Ossa, tiveram de imediato conhecimento do cerco (ainda hoje há atalaias por toda aquela zona), e, sem marchas forçadas, profundos conhecedores do terreno, durante a noite desceram pelos trilhos da serra e introduziram os afamados odres dentro da cidade sitiada. Os restantes guerreiros, com Sertório á cabeça, rodearam a zona invadida e armaram a cilada onde chacinaram todos os soldados que acompanhavam Aquílio quando se ia reabastecer. Avisado do desaire e da aproximação de Sertório, Cecílio Metelo levantou o cerco, atravessou o Guadiana e refugiou-se nas cidades que dominava para lá deste rio. Como sempre, afinal, quando a verdade impera, a explicação é simples.
Os pressupostos anteriores, na localização dos respectivos quartéis-generais, de Sertório e do procônsul Metelo, são afinal, os mesmos que serviram para entender o chamado “problema da batalha de Segóvia”, cuja localização “saltou” centenas e centenas de quilómetros por toda a Península Ibérica e pelo imaginário dos historiadores, até que em 1981, Teresa Gamito, apontou o dedo para Segóvia, no concelho de Elvas (!).
A CONSTRUÇÃO (ou reconstrução) DE LACÓBRIGA
Depois de localizada Lacóbriga, recuemos quatrocentos anos desde este episódio com Sertório, e vejamos também, sem cidades celtas no Algarve, sem barcos gregos carregados de Ídolos e sacerdotisas, e sem arrufos do deus Cupido, o que resulta da versão do “criativo” Frei Bernardo de Brito quando descreve, no mesmo texto, a construção da cidade Lacobricense e do Templo a Endovélico.
O governador Bahodes, era responsável pelas feitorias cartaginesas que ao longo do Guadiana (lembremo-nos que nessa época as “estradas”, as vias de transporte, eram os rios e os seus afluentes, muito mais caudalosos que no presente) recolhiam os bens produzidos em abundância no interior da Península (ouro, prata, estanho, cereais, carne, lã, entre outros), trocando-os por armas, tecidos, estatuetas, peças de vidro, cerâmica, e demais produtos produzidos em zonas mediterrânicas. Assim, Bahodes, inteligentemente, percebeu o valor estratégico de possuir um entreposto no local onde afluíam tantos peregrinos (razão pela qual muitos historiadores afirmam que instituiu uma grande feira anual em Lacóbriga) e propôs aos nativos a construção de uma nova cidade (ou reconstrução da antiga, alegadamente destruída por um terramoto), apoderando-se assim de todo o comércio na zona que albergava os devotos. Por esta razão, Frei Brito escreve - «Os nossos, a quem não eram suspeitos estes negócios, pelas frescas pazes, lhe concederam logo a sua petição…». Erguida (ou reerguida) a cidade, Bahodes é rendido pelo governador Maharbal que, ao visitar a recente construção e prestar homenagem ao Deus Endovélico (assim homenageando a cultura nativa), achou por bom investimento a construção de um Templo, certamente com a grandiosidade da, depois designada, por cultura greco-romana, junto ao tempo primordial celta (que seria uma grande formação natural junto à água, característica comum aos templos célticos). Portanto, Bahodes edificou uma nova Lacóbriga, e Maharbal edificou-lhe um novo Templo. Simples.
LACÓBRIGA (Landroal), NO MAPA VIÁRIO ROMANO
A localização geográfica de uma cidade com esta carga histórica, «Em tempo dos romanos foi cidade muy famosa…», acrescenta, ao que já dela conhecemos, o P. Bautista de Castro e outros historiadores o fazem (mais conheceremos ainda da sua surpreendente existência), levanta de imediato outra pergunta. Como justificar então, que tal cidade, não esteja mencionada nos Itinerários das vias romanas? Muitos investigadores, embora desconhecendo a localização de Lacóbriga, colocaram esta questão de outra forma pertinente. Como era possível que, entre as vias romanas que ligavam Évora a Mérida, não existisse uma ligação nesses Itinerários direccionada ao Templo do Endovélico? No Itinerário de Antonino Pio (imperador romano, 138-161) principal referência das estradas romanas, e que tantos neurónios gastou e gasta aos estudiosos destas questões, a via que faz a ligação (vinda de Lisboa) entre as referidas cidades de Évora e Mérida, é conhecida pela designação de Itinerário XII, que, na zona alvo deste nosso estudo, faz o seguinte alinhamento: Ebora (Évora) – Ad Atrum Flumen – Dipone (que seria Juromenha) – Evandriana (apontada como sendo Olivença) – Emerita (Mérida). Assim, existem as mais variadas sugestões apontadas pelos campos, numa mistura desigual entre instinto e razão. Uma “canseira…”, escrevendo em alentejano puro. Estudei depois o trabalho de Mário Saa (1893-1971) que, sendo natural de Avis, calcorreou todo o país por veredas e azinhagas tentando descodificar os Itinerários, mas, em boa verdade, concluí que mais foram os problemas criados que as soluções encontradas. Por fim, desnorteado, e também desorientado, confesso, resolvi voltar a estradas menos poeirentas e concentrei-me de novo no Itinerário de Antonino Pio: Ebora – Ad Atrum Flumen – Dipone – Evandriana – Emerita. Na remota esperança de pista fugaz, agarrei-me ao dicionário e traduzi Ad Atrum Flumen = Passagem do rio obscuro. Isto é, fiquei ainda mais baralhado. Mas, uma vez mais, percebi alguns dias passados e muitos livros vazios, era em mim (pelo privilégio de naqueles campos ter nascido), e não nos que ali haviam passado sem conhecer o chão que pisavam, que habitava a resposta. “Passagem do rio obscuro”, e, por efeito contrário, em mim fez-se luz. Eu sabia, muito bem, onde estava esse rio, aliás, onde está, correndo desde há milhares de anos sob os campos de Lacóbriga, oculto, silencioso, aparentemente alheio, mas sendo ele o ponto fulcral na formação da sua história, e, por consequência, o fundamento base que fechará num mesmo sentido todas as revelações deste estudo. “Cabo de Mar”, chamavam-lhe os velhos, pretendendo com esta expressão designar um rio subterrâneo. «Dizem que vem de França, atravessa a Espanha, dá a curva em Sousel, e passa aqui, debaixo da vila». Coincidência, ou talvez não, em 1982, apresentaram-se uns mergulhadores (espeleólogos) ligados a uma universidade francesa (Versailles), que procederam à sua prospecção. Neste momento aguarda-se a divulgação de um novo estudo realizados por espeleólogos portugueses nos algares das Morenas e Stº. António. Se esse “braço de mar” que “vem de França,” contribui para a alimentação da bacia hidrográfica que se espraia sobre o anticlinal de Estremoz, desde o Cano, Sousel, até ao Alandroal, e influencia o curso dessas águas subterrâneas, os geólogos nos darão conta, certamente.
Sobre a zona assinalada a vermelho, encontram-se os “Villares” de Bencatel, Alandroal e Pardais, assim como a área que engloba os algares.
O intrépido caminhante de Avis (Mário Saa), (percebi numa 2ª leitura do seu trabalho, e já lhe pedi desculpa) se à data possuísse esta informação, teria ficado na história como o investigador que localizou Ad Atrum Flamen - «Depois de Évora não há conhecidos sinais romanos até ao caudaloso Lucefécir. Mas a leste do rio intensifica-se a arqueologia romana, em “centrações”, duas das quais, as mais notáveis, são aqui conhecidas por «vilares». Há os vilares de Bencatel (fez mal em não pensar nos vilares do Alandroal, e diz que não conseguiu encontrar a Azenha das Freiras), 1,5 km. ao sul da povoação actual, e 4,5 Km. a leste, os «vilares» de Paredais.» (O nome da aldeia de Pardais, deriva do nome “Paredais”, querendo significar paredes velhas ou muros antigos). E depois, Mário Saa escreve - «Mas de Évora aos “vilares” de Bencatel nada tem que possa interessar o arqueólogo», o que significa que, com a tradução de Ad Atrum Flamen (passagem do rio obscuro), que é a povoação indicada pelo Itinerário depois de Ebura (Évora), mais a informação do curso de água subterrâneo, o historiador de Avis tiraria a lógica conclusão (Creio, do trabalho que li de Rocha Espanca, que ele não teve conhecimento, ou não deu importância, ao “braço de mar”, e no entanto, ainda há homens vivos que lá nadaram, entrando por uma gruta situada na zona conhecida por “Tapada das Caraças”que encosta à “Tapada das Moedas”. Mais tarde, aqui voltaremos).
Nova questão, certamente, se instala agora entre os leitores mais atentos – Que motivo levou o responsável pelo Itinerário de Antonino Pio a substituir o nome de uma cidade tão famosa, Lacóbriga, pelo de Ad Atrum Flamen? Duas, são as possibilidades, onde devemos procurar tão complicada resposta.
1ª – Que a cidade perdeu importância até à data da elaboração dos Itinerários (princípios do Séc. II) e passou a ter outra denominação.
2ª – Que os construtores do Itinerário, apesar da importância da cidade, para melhor cumprirem o objectivo do seu trabalho, acharam que o nome Ad Atrum Flamen era mais abrangente, portanto, passível de fornecer mais informações aos caminhantes.
A primeira possibilidade é, na minha opinião, de excluir. No ano de 663, sob o domínio visigótico, (a estrutura eclesiástica manteve-se apesar da queda do Império Romano do Ocidente), vemos a assinatura de Servus-Dei, Bispo Lacobricense, no 4º Concílio de Toledo, o que pressupõe a continuação do seu esplendor, e conhecemos, em traços gerais, a sua importância durante o período árabe com a designação de Al Azwiya, nome que Lagos também reclama (o erudito António Rey, caiu involuntariamente nesta mistificação, sem atender à etimologia da Azwiya (Azóia) que identificou no barlavento algarvio – Al Rhayiana), e que, aplicado a uma povoação como Lacóbriga, se poderá traduzir como Cidade-Hospedaria (função também desempenhada pelos mosteiros). Seria a cidade algarvia uma hospedaria para os peregrinos (a 35 km.!) que se dirigiam ao templo inexistente em Sagres? Mas, tirando proveito da “simpática” recolha documental dos mistificadores que pretenderam construir um passado fictício para a cidade de Lagos, podemos aproveitar um pouco da “sua” história - «Abderraman, califa de Córdova, reedificou as muralhas dotando-as com duas ordens de grossos muros e torres.» Conforme se pode verificar na seguinte figura…
Resta-nos pois, a 2ª possibilidade - vejamos o que está subentendido no seu enunciado e a surpreendente conclusão a que nos conduz. Que significação tão relevante poderia conter Ad Atrum Flamen (passagem do rio obscuro) para se sobrepor ao nome de uma cidade como Lacóbriga? Uma única explicação pode satisfazer as premissas contidas nesta interrogação. “A Passagem do Rio Obscuro” teria, sem dúvida, que englobar no seu significado a abrangência de um destino mais famoso e procurado que a própria cidade. Portanto, apenas a fama do próprio Templo do Endovélico podia preencher esta condição. Retiremos, para exemplo demonstrativo, uma situação da atualidade. Se num mapa de Portugal, estiver mencionada a expressão “Cova da Iria”, saberemos de imediato que essa via se dirige ao centro do culto mariano, e teremos simultaneamente o conhecimento, por associação, que indica a cidade de Fátima. Assim, e da mesma forma, a “Passagem do Rio Obscuro” assinalava a estrada que conduzia ao centro do culto a Endovélico, e, por associação, à cidade envolvente, Lacóbriga.
Ora, que saibamos, sob o outeiro de S. Miguel da Mota não corre qualquer rio subterrâneo, e Lacóbriga dista deste local cerca de 4km., o que inviabiliza toda a minha argumentação anterior, ou então, por dedução contrária, inviabiliza a existência do Templo a Endovélico na localização que lhe atribuem.
Efetivamente, e tendo consciência do “sacrilégio” que representará para muitas pessoas apaixonadas por este tema, esta minha conjetura, devo afirmar, por disso estar convicto, que, quer a localização do Templo do Deus Endovélico no ermo ressequido de S. Miguel da Mota, quer no exíguo altar da Rocha da Mina (hipótese Manuel Calado), não fazem qualquer sentido
O “problema” Endovélico
Vejamos, em concreto, a situação presente que os arqueólogos, depois de centenas de anos de pesquisas e bibliografias, enfrentam na localização do Templo a Endovélico, Deus Supremo dos celtas do «sertão». Pelas palavras dos próprios, após a última investigação séria feita em 2002 (Amílcar Guerra, Thomas Schattner, Carlos Fabião e Rui Almeida):
«Chegados a este ponto, é interessante reflectir sobre os erros de avaliação que sempre foram cometidos quando se tratou do sítio de S. Miguel da Mota, incluindo os signatários. Em primeiro lugar, sempre se admitiu que deveríamos estar perante uma estrutura fruste, por ser um santuário consagrado a uma divindade indígena, quando toda a evidência escultórica e epigráfica nos falava de um santuário romano e sugeria mesmo alguma monumentalidade. Em segundo lugar, sempre se tomou como certa a localização da estrutura (um templo ou vários) no topo da crista, no local onde se ergueu mais tarde a ermida de S. Miguel, pelo que os vestígios de utilizações antigas da encosta nascente foram considerados como pertencentes a um amuralhado indígena, pesando na apreciação, uma vez mais, o carácter da divindade (Vasconcellos, 1905, p. 125), ou estruturas anexas ao santuário, quando afinal, ao que tudo indica, se trata do santuário propriamente dito».
Afinal, sabe-se agora, que não se tratava do «santuário propriamente dito», e esta teoria, do “templo de socalcos”, está definitivamente arredada entre os investigadores. E outras assim acabarão, em “nada”, porque nada se saberá da localização do Templo enquanto os arqueólogos recusarem aceitar que, há anos, perseguem uma pista “plantada” (não sei qual o “ramo” eclesiástico que o fez ao decidirem cortar pela raiz todos os cultos pagãos), que, como em todas as situações semelhantes, pretende afastar o conhecimento comum das pedras que falam verdades incómodas. A capela de S. Miguel foi erigida (repito, não se sabe quando nem a mando de quem) naquele local, porque ali existiam vestígios romanos (talvez uma habitação) que foram preenchidos, como se infere do texto publicado em 2002 pelos referidos autores «Era evidente que todo este material se encontrava descontextualizado e reutilizado simplesmente como material de enchimento, à semelhança do sucedido com muitos dos outros exemplares (escultóricos e epigráficos) daqui levados por Leite de Vasconcellos em 1890, as estátuas e outros fragmentos preenchendo a cavidade natural e a árula usada como material de construção». Que verdades procuraram ocultar da posteridade essas fantasmagóricas personagens? Não sei. Quem se dedica a estudar essas “guerras”, depois de afirmar que o poeta Luís de Camões andou com o Duque de Braçança e a sua «Academia da Luz», no Alentejo, a estudar as aras do Endovélico “agarram-se” a este extrato da obra camoniana:
«Se dizem, fero Amor (o deus Cupido), que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
È porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano»
E daqui retiram terríveis conclusões que, por desconhecimento fundamentado das mesmas, não comentarei.
Por curiosidade, acrescente-se que em Vila Viçosa, os falsários, foram menos meticulosos nos alicerces da Capela de Santiago, onde “estava” o templo de Proserpina.
O verdadeiro TEMPLO do DEUS ENDOVÉLICO
Para aceder ao entendimento correto deste “problema Endovélico” é necessária uma abordagem ligeiramente distinta das formas como o seu estudo tem sido tentado. Na verdade, apenas a introdução de uma subtil pergunta entre o conhecimento adquirido, pode conduzir a novas conclusões. Isto é, possuímos num prato da balança (visualizemos assim), milhares de estudos sobre o tema Endovélico nas Universidades de todo o mundo, e, em mais Universidades ainda, no outro prato desta avaliação, o peso colossal dessa fantástica cultura greco-romana que se rendeu, embora adaptando-se, conforme se pode verificar nas inúmeras aras votativas, com profunda convicção, portanto fé, ao culto tópico, local, de um Deus celta perdido entre as faldas da Serra d´Ossa. Foi uma das características da romanização, pensarão muitos, e eu devo responder-lhes que não. Com esta convicção com que adoraram Endovélico e Atégina (Proserpina), com esta fé com que os tomaram por seus Deuses Superiores, não é uma característica da romanização. Os romanos não hostilizavam, toleravam (lembremo-nos que estamos a falar de sociedades profundamente religiosas), mas não se entregavam desta forma aos cultos nativos. Necessariamente, existiram condições especiais no culto destes Deuses celtas, em que a cultura-greco romana se reviu, em que se sensibilizou, em que comungou, através do sentido do divino dos locais, uma identidade total com os princípios profundos que emanavam dos seus próprios deuses, do seu Panteão original. E é aqui que devemos introduzir esta pergunta. Que ligações tão similares, entre conceções da espiritualidade, entre princípios fundamentais que lhe regulavam os nascimentos, as colheitas, as doenças, os amores, tudo afinal, da sua vida, podiam existir entre estruturas sociais tão diversas? E a resposta, é a vida depois da morte. No submundo, habitavam as almas dos seus mortos, e esse submundo, era o reino do Endovélico, e de Atégina, (Proserpina que correspondia à deusa grega Perséfone, quando com ele se recolhia nos meses obscuros. Na mitologia grega e romana, “Os Infernos” eram os lugares subterrâneos onde as almas desciam depois da morte para serem julgadas. Constituía crença geral, tanto na Grécia como em Roma, que todas as cavernas cuja profundidade não fosse sondada pelo homem, eram entradas para “Os Infernos”. Na Grécia, a sua entrada era pelas cavernas próximas ao cabo Averno, perto do Peloponeso, e em Roma era pelas grutas de Cumas, perto do lago Averno. Esta era a “cosmografia” dos Infernos: 1ª Nível – Os palácios da Noite, do Sono, e dos Sonhos. 2º Nível – O Inferno, o dos Maus. 3º Nível – Tártaro – O dos Deuses expulsos do Olimpo. 4º Nível – Os Campos Elísios – Morada dos Deuses Superiores.
Só assim se entende como os invasores, provenientes destas culturas, ficaram absolutamente seduzidos perante este Endovélico, Deus do submundo, das forças ctónicas, telúricas, elo entre a vida e a morte, «praestantissimi et praesentissimi (sempre ativo e presente), que transmitia as indicações divinas desde as profundezas por intermédio de sonhos e visões, ou através dos oráculos. Daqui resulta pois, obrigatoriamente, que o Templo original do Grande Endovélico celta será uma ampla caverna, uma passagem para os seus domínios, o submundo.
E onde existe, nessa zona, uma caverna com tais dimensões? Na verdade, existirão dezenas. As mais superficiais, por vezes cedem sob o peso da cobertura, formando profundos “buracos” no chão dos milenares olivais (nos últimos anos, que eu saiba, abriram dois, um na Herdade da Pipeira junto à transformação de mármore, e outro a poucos metros do olival dos Vilares. Outra dessas cavernas, já aqui o referimos, dava acesso à natação dos rapazes na “Tapada das Caraças”, e outras, de enorme profundidade são “algares”, que os geólogos (espeleólogos) estudam, mergulhando na “Passagem do Rio Obscuro” (Ad Atrum Flamen). É aqui, nesta faixa de terreno, prolongamento em linha reta dos “Villares” de Bencatel e Alandroal, Carambô, dos algares Morenas e Stº António, dos bairros Alfarrobeira e S. Bento (com estrada para os “Villares de Pardais”), a enigmática capela de S. Bento e olivais circundantes (onde abundam os vestígios de cerâmica), e depois, alto da Carrapatoza (significava barranco), Herdade da Pipeira (onde mais tarde se implantou um convento da Ordem de S. Bento), no sentido dos “Moinhos de Vento” (englobando a “Tapada das Moedas”), que o Templo mítico de Endovélico se revelará, quando à sua volta, os arqueólogos “desenterrarem” dos torrões alentejanos, uma página fantástica da História, uma cidade pré-romana com 2.400 anos (talvez mais) de existência, a lendária Lacóbriga.
A CIDADE de LACÓBRIGA, e a sua localização
Zona vermelha – Localização de Lacóbriga (virada a nascente, Espanha).
1-Fonte / Azenha das Freiras – Possível localização do Templo a Fontoura.
2 e 3 - Algares (Morenas e Stº António).
4 e 5 – Vestígios da cidade, sob a Escola Secundária e o bairro de S. Bento (que depois foram “escondidos”).
6 e 7 – Cavernas superficiais que cederam recentemente.
8 – Ribeira do Alcalate (linha das fortalezas)
9 – Tapada das Caraças (caverna e fonte – “escondidos”)
10 – Tapada das Moedas.
E então, tudo fará sentido. A fama de Endovèlico atraiu os peregrinos, e em volta do culto, tendo por base o “negócio” da fé (o crescimento da cidade de Fátima a partir do pequeno povoado das aparições, continua a ser um bom exemplo), cresceu Lacóbriga. Foi essa capacidade de desenvolvimento deste complexo que o cartaginês Bahodes antecipou, ao solicitar autorização para lhe erguer fundamentos com outra grandiosidade tornando-o mais apelativo à cultura greco-romana, e Maharbal, dando continuidade ao projeto, ergueu na nova cidade um Templo grandioso. Depois, nas centenas de anos sob o domínio do Império Romano, atingiu certamente o seu auge, «em tempo dos romanos foi cidade muy famosa (relembro as palavras de Bautista de Castro), e lembra-se dela Baptista Mantuano quando diz que erigira o Senado (teria Senado) sete estátuas a Ardiboro…». Relacionada com esta história, de entre os escritos de Rocha Espanca, retirei esta curiosidade «… Miguel João Azambuja, meu amigo, tem-me afirmado repetidas vezes que o primo, Frei Francisco, possuía um livro pequeno em oitava, escrito em português, no qual se dizia que, desde Estremoz ao Alandroal, haviam sido levantadas sete estátuas em diversos pontos, asseverando o Frade que aquela cabeça (referia-se à cabeça de uma estátua romana, depois enviada para Lisboa) era uma das sobreditas sete. Mas infelizmente não me sabe dizer o título do livrinho, nem do seu autor, de forma que ainda o não topei». Desta guerra com os Alanos (por volta do ano 410) aqui subentendida (cada estátua corresponderia a uma conquista de Lacóbriga pelos novos invasores e posterior reconquista pelo capitão romano Ardiboro), a cidade sobreviveu sem dúvida pois, no ano de 633, no 4º Concílio de Toledo (época visigótica) aparece a assinatura do seu Bispo. No entanto, no Concílio seguinte (o 5º, ano de 638) na mesma cidade de Toledo, regista-se um facto estranho que continua a confundir-me. A assinatura do Bispo Lacobriguense não surge, e, em seu lugar assina o Bispo Arcobricense (de Arcóbriga, outra das cidades celtas indicadas por Ptolemeu e ainda não identificadas no terreno). Poderá ser uma indicação de que Lacóbriga e Arcóbriga eram duas cidades próximas que alternavam a cadeira do bispado. Ao observar as ameias de uma outra fortaleza na fig 4, demarcada no rectângulo vermelho (e que, de outra forma não lhe sei explicar a origem), pensei na hipótese de estarmos em presença de uma “dipolis” (nome atribuído pelos historiadores a uma cidade dupla), mas, ao verificar a situação da vila dos Arcos em plena bacia hidrográfica do anticlinal de Estremoz (fig 4 ), inclino-me também para a possibilidade desta vila ser uma boa candidata para a localização de Arcóbriga. Devo contudo acrescentar, não tenho qualquer outro indício que possa reforçar alguma destas hipóteses. Voltando a centrar-nos na “nossa” Lacóbriga, agora chamada Al Zawiya pois entramos no período muçulmano (depois do ano 710), mas da escassez de dados disponíveis pouco podemos inferir. Pertenceu certamente à taifa de Badajoz, o historiador António Rey diz-nos que Alcalate (o ribeiro) significa Linha das Fortalezas, o que pressupõe fortificações avançadas frente à cidade (nessa área, Leite de Vasconcelos, li no seu espólio, procedeu a escavações na procura de um cemitério a que não volta a fazer referências), mas penso que é seguro afirmar que não resistiu ao extremismo religioso dos Almorávidas. Não é mencionada nas reconquistas cristãs com a queda de Juromenha e de outras “praças fortes” da fronteira, e apenas voltamos a revê-la com o nome de Landroal, um povoado humilde, encolhido junto ao castelo, insignificante na História que nos contaram a partir do reinado de D. Dinis, e onde, qual sinal de comiseração, nos compensaram com uma estrofe nos Lusíadas, e de que nos sentimos muito orgulhosos, porque o Pêro Rodrigues recuperou meia-dúzia de vacas aos espanhóis… “Obrigadinho”. E os nossos avós celtas, onde estão? E os nossos avós romanos, onde estão? E os nossos avós Alanos, onde estão? E os nossos avós visigóticos, onde estão? E os nossos avós muçulmanos, onde estão?
Onde está o registo do nosso verdadeiro passado? Onde está a documentação, que as seguintes palavras fazem pressupor?
«Para homenagear gentes do Alandroal doutras eras já passadas, lê-se “A primeira parte da crónica de El-rei D. João I de Boa Memória”, da autoria do Cronista-mor Fernão Lopes e depara-se com este parágrafo:»
«Depois de lisboa, talvez nenhuma povoação seja mais vezes referida do que o Alandroal, uma obscura Vila de poucos moradores, onde tanto corriam os homens a pé como a cavalo… Por ali perto tinham sede algumas importantes comendas da ordem de Avis; é possível que algum dos seus freires tenha tomado a peito pôr em escrito o que viu da guerra que levou o mestre daquela ordem à culminância do outro.»
Onde está essa “abundância” de referências que o cronista refere? Que guerras foram essas entre as ordens religiosas? O que se passou de tão grave nessa zona, que tudo desapareceu e, numa incrível mistificação, os detentores do poder material, espiritual, e da criação escrita, até o nome dos seus antepassados esconderam entre a areia e o vento das longínquas praias algarvias? No silêncio da incompreensão, há que entender os Trovadores :
«Cresceu a devoção, foi-se ampliando / Esta de amor esplendida grandeza/ Que mais encobre, do que está mostrando / De vários cultos e de “grão” riqueza; / Que de ano em ano as regras observando / Uma só vez se mostra sua nobreza: / Se então tornais, vereis o mais oculto / Que agora vos proíbe o nosso culto.»
Braz de Mascarenhas/ Viriato Trágico/Est.199/Sobre o Endovélico/1685.
Muitas, inúmeras, são as perguntas que ficam a pairar sobre uma investigação com esta amplitude. Mas para nós, homens e mulheres do presente, há umas que, pela sua premência, sou obrigado a destacar. Os responsáveis locais acompanharam, arqueologicamente, no terreno, as obras de construção da inicial Escola Secundária do Alandroal, do bairro da Alfarrobeira, mais recentemente do bairro de S. Bento onde parece que «aí a coisa apareceu em grande», e, no presente, da urbanização da “Tapada das Caraças”(Que análise foi feita ao túnel antes de o demolirem? Onde está a fonte das famosas “caraças”?)? E, se esses acompanhamentos arqueológicos foram efetuados, o que consta nos seus pareceres? Não pretendo, ao levantar estas questões, indagar culpabilidades, ninguém, estou certo, embora as motivações pudessem abranger interesses vários, cometeria um “homicídio” cultural desta dimensão, se, remotamente, suspeitasse da importância dos vestígios escondidos. Em boa verdade, fazer contas com o passado não altera o presente, mas refletir sobre ele, pode alterar o futuro.
Um abraço a Todos.
João Torcato Coelho Cardoso Justa
A Cidade do Endovélico by João Torcato Coelho Cardoso Justa is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported License.
Monday, April 02, 2012
Tuesday, February 21, 2012
MEMÓRIAS DO PASSADO – HOJE A “MEMÓRIA” É DO HELDER SALGADO
Nota do Editor:
Desde há muito que o Hélder nos habituou a deixar neste “espaço” o seu testemunho em jeito de homenagem, a pessoas que “marcaram” a sua juventude ao mesmo tempo que se tornaram em personalidades que nunca procurando ser famosas, ficaram na memória de todos nós quer pelos seus actos, quer pelas suas “saídas”, quer pela sua bondade, ou pelos seus dotes.
Já aqui foram recordados, por intermédio do Hélder, o Catita Guiomar, o Dr. Galhardas, o Borrões, O Velho Godinho. O Zé Seabra, o Caritas, entre tantos outros.
Agora o Hélder proporciona-nos uma história digna de ombrear com tantas outras de Autores consagrados (Manuel da Fonseca, Alves Redol, Fernando Namora, entre outros)
Ao longo de várias semanas aqui vai ser recordada esta “personagem” que alem de outros dotes era exímio tocador de harmónica.
Assim se vai preservando (para memória futura) os usos e costumes da nossa gente.
O VELHO APERTA - A HISTÓRIA DE UM TOCADOR
Quando acabo de escrever o último texto fico sempre com uma sensação de vazio, julgando não me recordar de nova história.
Do “Bota cá licença” não sei como me apareceu na ideia.
Da “Morcela do Caritas”, foi no Fórum, quando, chegando já tarde, fui ouvir o Grupo de Portel, espectáculo de muito bom agrado, cuja locução soube transmitir para a plateia, a alegria que se vivia no palco.
Havia poucos lugares vagos e vendo três lugares vazios, procurei sentar-me sem incomodar. O mesmo procedimento teve a Bernarda Caritas, que sentando-se ao meu lado foi minha companheira até final do espectáculo.
Quando nos despedimos, num gesto impensado, disse-lhe - Vou escrever sobre a Morcela do Caritas - A Bernarda sorriu e cada um de nós foi ao seu destino.
Estamos em ambiente de música, dada pelo citado grupo, que teve a arte e o engenho de levar o Cante Alentejano além-fronteiras, (quem não se recorda do “Passarinho às quatro da Madrugada?”). Esta crónica irá decorrer no mesmo ambiente, com música dada, não por mim, mas pelo Tonho Aperta, que era tocador de harmónio.
O começo de um sonho
A popular e alegre aldeia de Montejuntos, foi berço do nosso protagonista.
Nesta simpática povoação irá decorrer esta história, que não sendo comum a qualquer pessoa, poderia ter sido a sua, a minha, a nossa, se decidíssemos correr riscos, se amassemos como o Tonho amou, se vencêssemos as metas que a vida nos ofereceu, se enfim fossemos um sonhador como o Tonho Aperta.
Eis o seu percurso.
Nascido de uma humilde e pobre família o Tonho soube com a sua capacidade de trabalho e elevado grau de respeito e seriedade, singrar na vida.
Não enriqueceu, nem isso, como afirmou algumas vezes, fora sua pretensão, apenas não queria olhar para “mãos alheias”.
Por imposição do pai, tirou a quarta classe, gesto que ele, quando se reconheceu como homem, bastante enaltecia.
- Se o meu pai não me obrigasse a tirar a quarta classe, hoje era mais burro do que a minha burra - chegou a dizer agradecendo deste modo ao pai.
Logo que saiu da escola o pai contratou-o para guarda de perus, no Aguilhão, tarefa que durava até ao Natal.
O então menino Aperta, não tinha “soldada”, vencia apenas a comida e dormida, tendo-lhe o lavrador dado quinze escudos, no fim da safra, valor correspondente ao preço de um peru de tamanho médio.
- Quinze escudos - murmurou o jovem inúmeras vezes, a caminho da sua casa em Montejuntos.
Pediu à mãe que lhe guardasse o dinheiro.
- Para que queres tu o dinheiro, não vês que faz falta cá em casa - disse a mãe determinada a gastar aquela pequena verba.
O rapaz entristeceu, baixou a cabeça e foi sentar-se a um canto da chaminé.
À noite, mais tarde, quando o pai chegou a casa viu-o com os cotovelos firmes nos joelhos, tapando a cara com as mãos.
- Que tens filho, estás doente? - perguntou surpreso o pai, que pouco antes o vira meter a mão direita no bolso das calças, a certificar-se que não tinha perdido o dinheiro, gesto que o pai traduziu de contentamento.
- Não pai, a mãe precisa do dinheiro, entreguei-lho - respondeu tentando não se mostrar triste, não conseguindo enganar o pai, que voltando-se para a mulher, disse, - Guarda o dinheiro do rapaz, talvez não nos venha a fazer falta.
O Tonho Aperta levantou a cabeça, sorriu para os pais e nada disse.
O sonho de comprar o harmónio começou com o dinheiro do peru, com os quinze escudos.
O primeiro olhar
Mais um Natal passado no Aguilhão e vemo-lo, em “escamél”, na Talaveira, depois já em carreiro, no monte do Roncão. Aqui contratado e a auferir duzentos e cinquenta escudo mensais.
O harmónio estava cada vez mais próximo do nosso homem.
O serviço como “escamél” era um serviço solto e todas as semanas ia buscar, ao moinho da Cinza, no carro de varais, quatro sacas de farinha para as cozeduras, que ele próprio ajudava a fazer.
Peneirava a farinha, amassava, ajudava a tender, enchia o forno de lenha e varria-o.
O jovem Tonho era um precioso auxiliar da tia Maria Berjano a encarregada desta labuta.
Numa das ocasiões em que se deslocou ao moinho encontrou lá a Bia Figueiras.
Já conhecia a rapariga e algumas vezes falara com ela, agora ali, com o barulho da água a galgar a parede do açude, com o cheiro da flor dos carapetos e o colorido rosáceo dos alandros, pareceu-lhe diferente, mais bonita.
Olharam um para o outro, falaram e sorriram, durante uns momentos.
Na despedida, quase por instinto, estenderam as mãos, fixaram o olhar um no outro parecendo selar um compromisso para toda a vida.
O nosso homem verificou que passar para Espanha era fácil, aliás já uma vez passara com o pai, pelo açude do moinho da Azenha de El-Rei, quando foi à festa à Cheles.
A ideia de passar contrabando começa a apoderar-se dele.
O Carnaval
Duas pretensões começaram a ocupar o cérebro, do Tonho Aperta.
Uma, a de puxar namoro à Bia Figueiras, outra, a de comprar o harmónio. Um dilema começa, também a afligi-lo, se comprasse o instrumento teria que tocar em qualquer lado e assim não tinha tempo para a rapariga, pois apenas tinha o tempo da “gavela”, a manhã de domingo disponível.
O entusiasmo de ter o harmónio foi mais forte e ei-lo em Évora, na casa da Musica, a comprar o seu, hà muito desejado, instrumento.
- Sabe tocar - pergunta-lhe o vendedor.
O Tonho tentou não responder, mas não foi capaz e gaguejando disse - Não sei, mas compro-o na mesma.
Julgava ele que para tocar algo de jeito bastaria premir os botões e, por encanto, as músicas apareciam, Tinha até pensado que a primeira música que tocasse, seria um tango “Um tango à média luz”, que dedicaria à sua já considerada namorada, a Bia Figueiras.
Ao tentar tocar, já na aldeia, o som que obtinha não se assemelhava a nenhuma música.
Tenta uma, duas, três vezes e o resultado era sempre o mesmo, soava-lhe sempre mal.
- Que raio de instrumento é este? e já estava a pensar que fora enganado
O nosso homem recupera o discernimento e serenando pensou melhor.
- Hei-de aprender, ao menos assim já tenho tempo para puxar namoro à Bia, - conformou-se e pareceu-lhe que o acto de puxar namoro à Bia, era tarefa fácil e já ganha.
Decidiu ser Domingo de Carnaval o desfecho do projectado e esperado acontecimento.
Durante o dia, depois de muito bem aperaltado, para espanto da mãe e a tolerância alegre do pai, segui para a festa.
Procurou apanhar a rapariga sozinha e não consegui. - Depois de almoço talvez consiga chegar perto dela - e começou a admitir falar-lhe mesmo na frente de outras pessoas, fossem rapazes, raparigas, homens ou mulheres.
Já estava por tudo.
Em frente à taberna do tio Sabino e no meio dos festejos, surgiu a oportunidade.
Respirou fundo, deu um jeito na gravata e em passada firme, vai acerca-se da jovem.
Ia começar a dirigir-lhe a palavra quando ouve um chamamento, - Bia anda cá - era a mãe Figueiras que notando o vestido da filha desabotoado a chamava.
Com a mãe da rapariga por perto, o Tonho não se atreveu, novamente, a abeirar-se da Bia e logo, outro pensamento de conformidade dele se apodera - Ficará para o baile.
Este pensamento, talvez por ser a última oportunidade do dia de Carnaval, começou a deixá-lo um pouco inquieto. Deu voltas e voltas ao cérebro, na tentativa de descobrir a causa daquela, embora pequena, mas preocupante inquietação.
Não lhe parecia ser da rapariga, pois na troca de olhares via nela uma desejada aceitação, que os sorrisos e a despedida no moinho da Cinza avalizaram.
- Que será? - interrogava-se constantemente.
Mal comeu a refeição do jantar, o que foi admoestado pela mãe, e mais uma vez tolerado pelo pai.
O baile
O ímpeto e a determinação que até então tinha tido começaram a refrear e, o nosso homem, já no baile, esperou duas séries de três músicas, como observador.
À terceira decidiu ir buscar a rapariga, que dava “cabaços” a todos os rapazes, sintoma que ela estaria à espera que ele a fosse buscar.
Um estranho pensamento afluiu-lhe no cérebro.
- Não há duas sem três - não fez caso desse presságio e caminhou em direcção da rapariga.
O pedido para dançar foi uma delicada vénia de dobragem de corpo, que pela perfeição e estilo provocou a admiração da rapariga.
Ergueu-se e sorriu.
Ela levantando-se da cadeira vem ao seu encontro, com um largo sorriso e braços meios apertos parecendo dizer, estou aqui, estou à tua disposição.
De mãos dadas procuram o meio do baile para começar a dança.
Começam a dançar ou melhor tentam começar porque o Tonho, apesar do esforço da rapariga não acerta.
Tentam por algum tempo e as melhoras não apareciam, não conseguiam acertar nenhuma música.
Os outros pares começam a jogar-lhe piadas e a mãe Figueiras, irritada com aquele ambiente, grita para dentro do recinto do baile, - Deixa esse paspalhão, não vês que não sabe dançar - ainda não se tinha apercebido que a filha gostava do Tonho Aperta.
Este ruborizou, sentindo dentro de si a fúria de um animal ferido, por um chumbo de zagalote que nunca merecera.
Ah se aquela frase fosse a sós .....
Recuperando a calma e diz para a rapariga - Vamo-nos embora, um dia todos os que de nós, de nós não, de mim se riram hão-de admirar-me.
Aquelas palavras surgiram aos ouvidos da rapariga como uma ordem, à qual obedeceu. Também ela se sentia vexada com as galhofas dos rapazes e raparigas, algumas delas suas amigas.
Ao sair do recinto, o nosso Tonho encontra o seu moral de parelhas o tio Zé Mocho, que o acalma e o tranquiliza.
O Tonho ignorou o conselho do seu moral para aprender a dançar, ainda que fosse com um pau.
O rapaz chorou de raiva e a rapariga de desgosto.
Contrabandista por acaso
O rapaz tenta arranjar alguém que o ensinasse a tocar o seu harmónio. Ficara um pouco traumatizado com a questão do baile e decidiu ir encontrar um mestre fora da aldeia.
Meteu a albarda na burra, que entretanto comprara ao Zé Maia, o cigano que morava na aldeia das Lajes, em Santiago Maior.
Parou em Ferreira, na taberna do Tio Paulino, perguntou por um tocador de instrumentos de fole, mas a resposta obtida não o convenceu.
Parou em Faleiros, e dirigiu-se à taberna do Manuel Coxo. Este prazenteiro e espertalhão logo pensou em indicar-lhe o Silva, taberneiro de Terena.
- Esse homem indica-te o melhor mestre. - Em Terena e nas Hortinhas há muitos e bons acordeonistas - disse o Coxo na mira do Silva arranjar mais um contrabandista para a sua quadrilha. Agradava-lhe a cara e a corpulência do rapaz.
Chegado a Terena prende a burra à argola de ferro que estava espetada na parede para esse efeito. O Silva estava no momento a ler o jornal “O Século” de que era assinante, olhando por cima deste observa o nosso protagonista.
Ao entrar na taberna apresentou-se.
- Sou de Montejuntos, venho da parte do senhor Manuel Coxo, de Faleiros pedir-lhe uma informação.
O Silva olhou-o de alto abaixo, perguntou-lhe o que fazia, e se conhecia a raia.
- Como as minhas mãos - disse o rapaz.
- Sou amigo do Jaquim da Cinza, conhece-o - sim respondeu o rapaz.
- No mínimo temos contrabandista, - pensou o Silva.
Este tinha fama de revolucionário e suspeitava-se que auxiliava os guerrilheiros de Terena, que combatiam na guerra civil de Espanha, por isso, as suas cautelas redobravam na frente de qualquer desconhecido.
- Diga lá o quer - pergunta o Silva, sem mais demoras e rodeios, não fosse o rapaz levantar alguma suspeita.
O Silva estava consciente da desconfiança de algumas pessoas e só dava a conhecer as suas ideias, quando tinha plena confiança em alguém, e a certeza que esse alguém não atraiçoasse a causa, que ele julgava de todos até mesmo universal.
Certo é que a sua táctica resultara e, embora os guerrilheiros não fossem muitos, até então não tinha havido denúncia.
- Aconselho-te o Inácio Vitorino é sabedor e toca bem, podes deixar aqui a burra que eu tomo conta dela, - disse o Silva tentando agradar e ganhar a confiança do rapaz.
As aprendizagens
O Inácio Vitorino era uma pessoa muito bem vista na Vila e logo cedeu à pretensão do nosso homem.
- Vou tocar uma peça que tu conheces, repara para o movimento dos meus dedos. A música é muito conhecida, è a Rosinha dos Limões.
O rapaz ficou tão entusiasmado que logo, com os lábios começou a solfejar a música.
- Tens que fazer isso com os dedos, deixa os lábios descansados. Os da mão esquerda marcam o compasso e os da outra, a música. Olha como eu faço, - e assim começou a primeira lição, que se repetiu por três vezes.
O Mestre observava a gradual ligeireza com que o nosso Aperta, agora aprendiz de música, desemperrava os dedos.
- Temos tocador, - pensou ao mesmo tempo que lhe ordenou - Pega no harmónio.
O Aperta ou melhor o coração do Aperta apertou-se, receoso a má figura que poderia fazer.
Desde o dia que comprara o harmónio, em Évora, não mais tentara tocar, embora lhe fizesse uma festinha todos os dias.
- O Mestre Vitorino sorrindo disse-lhe - Não tenhas medo, rapaz. Já vi pelo mexer dos teus dedos que vais ser um bom acordeonista.
Estas palavras foram o suficiente para o rapaz acalmar, mas não o convenceram que seria um bom academista.
O certo é que o som do primeiro toque, por ele produzido, lhe soara muito diferente do que tinha conseguido em sua casa, nos Montes.
Sem que o Mestre o mandasse, começou novamente a tocar. Este mandou-o parar.
- Vamos devagar, não quero que cries vícios que mais tarde podem ser de difícil correcção, - aconselhou o Mestre.
- Vamos tocar ao mesmo tempo a mesma música, para notares onde te enganas - disse, ao mesmo tempo ordenando o Vitorino.
Ao fim da quarta vez o Mestre só fingia que tocava, tentando não o dar aperceber.
- Agora tocas sozinho, - Sozinho? - surpreende-se o rapaz.
- Sim, acabaste de o fazer agora, - ambos sorriram.
- A lição por hoje acabou. Só quero que não te esqueças do que aprendeste, - Juro que não - respondeu o nosso Tonho, denotando um enorme contentamento.
- Deixa lá isso, - foram as palavras do Mestre quando o jovem lhe perguntou pelo custo da lição.
Ao entrar na taberna do Silva ainda mexia os dedos.
- Bem, muito bem mesmo. O senhor Vitorino é um bom Mestre - disse estas palavras num tom de respeito e admiração, que alegraram o taberneiro.
Por detrás do balcão, esfregou as mãos de contente e pensou ser o momento certo de convidar o rapaz para contrabandista.
- Ambos somos amigos do Jaquim da Cinza, podias fazer parte da minha quadrilha de contrabandistas. - o rapaz não se surpreendeu e perguntou ao Silva os pormenores.
- Aceito - disse o rapaz, pensando, não só no dinheiro que daí lhe poderia vir, mas também na lição que queria dar aqueles que o vexaram e sobretudo à mãe da sua amada.
Partiu feliz para Faleiros direito à taberna do Manel Coxo, para agradecer aquelas duas oportunidades.
Ao vê-lo entrar, o Coxo fez o mesmo gesto com as mãos, que o Silva tinha feito.
Via com o regresso do Tonho uns escuditos de ganho. Ele arriscava o dinheiro e os outros, os contrabandistas o dinheiro, o trabalho e corriam o risco de serem presos, o que só em caos de muita reincidência sucedia.
O nosso homem partiu para casa acarinhando mais o harmónio do que a burra.
Não perdeu tempo e depois de trancar bem a janela do quarto, não o fazendo à porta, para não parecer mal aos pais, sobretudo ao pai que cada dia que passava se mostrava um verdadeiro companheiro, começou a tocar a Rosinha dos Limões.
Suou-lhe bem ao ouvido e aos ouvidos dos pais que, de surpresos, precipitaram-se para a porta do quarto.
Repetiu duas vezes e não se enganara.
A segunda aprendizagem.
Na madrugada de segunda-feira apresentou-se no Monte do Roncão para começo do trabalho.
O moral das parelhas o tio Zé Mocho perguntou-lhe - Então, já está mais calmo. Estava a ver que batias na mulher. Tudo por não teres seguido o meu conselho.
O tio Mocho tinha aprendido a dançar com o pau e ainda o guardava. Devia ao pau, o seu primeiro parceiro de dança, esta aprendizagem e daí o convite para entrar em duas contradanças e o agora pertencer, de direito próprio, à organização da Festa Santa Cruz.
Devia todo o seu carisma a um simples pau de azinho, embora arranjado e envernizado.
Tudo isto contou ao jovem Aperta, tentando que ele percorresse o mesmo caminho, o seu caminho.
O Tonho concordou com o seu moral de parelhas.
O primeiro carregamento de café
A taberna do Coxo de Faleiros, componha-se de um pequeno compartimento, com porta e uma pequena janela.
Os contrabandistas eram atendidos, sempre de noite, pela janela.
- Quantos quilos querem? - perguntava o taberneiro - Dá-me tantos escudos ou tantas pesetas de café - a carga dependia do dinheiro.
Todas as quartas-feiras se repetia este acto.
Depois de algumas cargas e do muito sofrimento que ele, Tonho, só superava pensando na rapariga e na desforra
O nosso homem começou a pensar que seria mais fácil e mais vantajoso, ir buscar uma carga com a burra e depois passá-la para a Espanha.
Aproveitaria a ida a Terena e de caminho carregaria.
Teria para isso arranjar alforges próprios, que deixassem passar o mínimo cheiro possível, pois os pacotes de quilo de café em grão, de marca “Camelo” deitavam muito cheiro e isso era um factor de denúncia e, ao mesmo tempo de receio de ser assaltado no regresso a Montejuntos, com a carga de café. Este era o maior risco.
Falou com o moleiro e o taberneiro de Faleiros e viu nestes, condescendência. Faltava falar com o Silva o que sucedeu no domingo seguinte. Este pensou no assunto e concordou. A sua discordância poderia sair-lhe cara, pois sabia da relação que o rapaz tinha com o cabo Novo, granjeada após o incidente do baile, e do à vontade com que a guarda-fiscal entrava no monte do Roncão, onde o Tonho trabalhava.
Durante o Outono e o Inverno seguintes, em dias não anunciados, aparecia em Faleiros.
Trinta e cinco quilos de café em pacotes eram transportados na burra do nosso Aperta. No Verão e na Primavera as cargas eram menos frequentes, porque o risco de ser visto era muito maior.
No fim de cinco meses terminou a aprendizagem da música.
Dominava o harmónio a belo prazer e o seu reportório compunha-se de trinta e três músicas, as mesmas que o mestre Vitorino sabia.
A compra de casa
Ao fim de quatro anos o nosso homem tinha um razoável pé-de-meia.
Aconselhou-se com o pai e comprou, aceitando letras durante três anos, a casa ao Manuel Padilha, Tinha um bom quintal e assim poderia fazer a sua horta e ter uma cabra, para quando casasse e tivesse filhos, ter leite.
Este acto foi um estrondo em Montejuntos.
Um rapaz acabado de fazer dezanove anos ter uma casa? Era a admiração de todo o povo e foi também a do cabo Novo, que não se contendo indagou o rapaz,
- Como conseguiste arranjar dinheiro para a compra da casa? - disse sorrindo para o rapaz. Este respondeu também sorrindo, - Descanse meu cabo, que não foi com dinheiro roubado, - ambos intensificaram os sorrisos, tendo o cabo passado a mão direita pela cabeça do nosso protagonista, gesto que ele entendeu de continuidade para contrabandear.
A mãe Figueiras começa, embora controlando, a consentir o namoro.
O Tonho Aperta começa a respirar um pouco de felicidade.
A estreia como tocador
Já há muito tempo que o jovem tocava de janela aberta.
O som do seu harmónio fazia parar os transeuntes.
A mocidade dos Montes adorava ouvi-lo e até a Bia, a sua Bia Figueiras, às escondidas da mãe lá aparecia.
Naquele domingo o Zé Serrano convidou-o para tocar na sua taberna, no domingo seguinte toca na taberna do Sabino.
É ouvido em Cabeça de Carneiro, Santiago Maior.
Toca na sociedade em Terena, onde o seu mestre, o senhor Inácio Vitorino, não consegue conter as lágrimas.
O ponto por ele julgado o mais alto das suas actuações, foi na esplanada da sua sede de Concelho, o Alandroal, onde esteve o Presidente da Câmara.
Seguindo os conselhos do seu moral de parelhas, foi aceite para a realização da Festa de Santa Cruz.
A popular Festa da Santa Cruz
Em Montejuntos, Cabeça de Carneiro, na aldeia da Venda e nas Hortinhas realizavam-se estes festejos.
Muitas pessoas defendendo a origem da Festa, afirmavam a sua primeira realização em Cabeça de Carneiro, outras em Montejuntos e só mais tarde, na aldeia da Venda e nas Hortinhas.
Em Montejuntos a Festa tinha dia certo, três de Maio, dia da invenção da Santa Cruz.
O que releva neste ano e em muitos que se seguiram foi o desempenho do nosso jovem Aperta. O seu entusiasmo foi a admiração de muita gente, até da família da rapariga, cuja mãe começou a sentir uma forte admiração pelo rapaz.
Depois do trabalho e durante o serão, à luz do candeeiro a petróleo e da candeia de azeite, fazia em casa os recortes em papel e em prata, auxiliado pelo pai e pela mãe.
No sábado à tarde pediu dispensa ao moral das parelhas e ao patrão, e foi auxiliar na decoração da casa onde saía a Madalena, que seria interpretada pela Bia Figueiras.
Teve oportunidade de falar com ela durante algum tempo, muito embora a conversa tivesse sido quase só respeitante aos festejos.
Assistiu a pedido da estreante Bia, que iria pela primeira vez, representar a Maria Madalena, com alguma condescendência das mulheres mais velhas, ao ensaio da rapariga.
O Cante nada lhe dizia e até lhe feria os ouvidos, se não fora a Bia a interprete ter-se-ia indo embora.
A sua atenção focou-se no desempenho e no entusiasmo da moça. Observou-lhe o corpo, maravilhoso e saudável, de carnes soltas, apetitosas.
Tentou fixá-la no olhar nas não conseguiu. Queria deste modo e só com olhar, dizer-lhe quanto a amava e quanto bem lhe queria.
Pensou no baile e conformou-se.
O baile da Festa
Este baile foi o segundo baile que o nosso Tonho tomou parte
À entrada trocou algumas impressões com o Zé Mocho e nesse momento viu passar a Bia com a mãe.
Falaram um pouco, tendo ele ficado ainda por algum tempo, a falar com o seu moral de parelhas, agora um grande amigo.
Começa o baile.
Um acordeonista de renome abrilhantava a dança.
O jovem Aperta não ligou à música, concentrava-se só no modo como havia de vingar-se.
Com a mesma postura que tinha demonstrado no Carnaval, dirigiu-se para o recinto do baile.
Esperou as mesmas séries de música, depois com a mesma vénia convidou Bia para dançar. Também esta procurou manter a mesma postura.
Os rapazes que outrora o tinham vexado interrogavam-se pelo estranho comportamento do Tonho e da Bia, não lhe parecendo adequado para quem já namorava.
A mãe Figueiras era a que aparentava mais preocupação, não encontrando também explicação para o procedimento da filha e do namorado.
A música começa.
O casal dança primorosamente, ela rodopia pressa pela mão dele, afastam-se, unem-se, tocam com a cara um no outro, apertam-se, alargam-se e assim vão chamando atenção de todos os presentes.
Até as raparigas e rapazes espanhóis se surpreenderam.
Terminada a série e ele ordena - Vamo-nos embora, já todos nos admiraram.
Estavam assim de uma forma diferente de todas, a fazer pensar os presentes, consuma a vingança do Tonho Aperta.
“Os descantes”
A festa continua em casa do Tonho Aperta que para o efeito tinha pedido aos pais.
As filhas do Jaquim da Cinza e alguns moços e moças espanhóis tinham sido convidados pelo rapaz.
Comeram, dançaram, e até ouve sapateado e castanholas sevilhanas.
Foi uma confraternização nunca vista em Montejuntos, em que a mãe da Bia foi, perante a rapidez dos acontecimentos e arrastada pela filha e o namorado, forçada a assistir
A mãe do Tonho começou a modificar o seu comportamento para com o filho. Começou a ver nele um homem digno, respeitador, trabalhador e muito poupado.
Ao vê-lo namorar com a Bia Figueiras, de quem sempre muito gostara, perdeu todo o poder que exercia sobre o rapaz.
Nunca os dois namorados tinham estado tanto tempo juntos e dançado tanto, embora a dança tivesse pequenos intervalos para dar lugar a novo verso, em cantigas improvisadas pelos dançantes.
Esta dança não permitia que os pares parassem, embora dançassem a sós, altura em que o rapaz ou a rapariga cantava a desgarrada, verso improvisado e intencional, quase sempre a revelar o amor ou o desprezo a quem a quadra era dirigida. Acabada de cantar começavam, novamente, agora agarrados a dançar e a cantar a mesma quadra
A Zefa Potra, em tom de picardia, dirigiu esta quadra ao Manel Moreira, o melhor improvisador de versos daquele tempo.
Vamos, também entrar na roda e ouçamo-la.
“Com a tua gravada aos éses
À roda sobre dourada
Tu és parvo, não conheces
Que eu de ti não gosto nada”
Agarrem os seus pares e vamos dançar, repetindo a quadra.
A resposta, ao “consoante” do Moreira, não se fez esperar.
Com ar altivo e sorridente olhou para a rapariga e versou.
Dediquem-lhe, por favor, a mesma atenção.
“Eu sou parvo não conheço
Que de mim não gosta nada?
Moça mais linda mereço
E sem ser esgrouviada”
E era assim em animação mordaz, mas de salutar convivência, se dançava e cantava nos “descantes”.
O nosso homem só não se saturou daquela dança porque tinha a Bia com ele.
Pensou em começar a tocar o “Tango à média luz”, que ele ouvira na feira de Agosto, em Vila Viçosa à então famosa acordeonista Eugénia Lima, e agora já o tocava, mas para isso tinha que deixar a Bia e esta podia dançar com outro, acto que ele não tolerava.
Começaram a pedir-lhe e ele a resistir, a não querer tocar.
A Bia Figueiras puxando-o fê-lo sair da roda e pedindo-lhe para tocar disse, - Ficarei ao pé de ti, não danço.
O Tonho ruborizou atrapalhado e de semblante carregado ia falar, mas ela astuta, não lho permite dando-lhe um beijo na face.
Um beijo na frente de tanta gente, dos pais dele e da mãe dela era a melhor prova de amor que ela até então lhe dera.
Se alguma dúvida tivesse ficaria, com aquele acto, desvanecida.
A rapariga vai buscar um estrado e uma cadeira e ele foi buscar o harmónio.
Depois do Tonho Aperta se sentar, ela dando dois passos em frente, anuncia.
- Caros amigos e amigas, o melhor tocador das redondezas vai abrilhantar o nosso baile, vai tocar, exclusivamente, para vós.
A rapariga surpreende todos e o jovem Aperta, ficou encantado com a espontaneidade da namorada.
- Vamos começar pela bonita música a “Rosinha dos Limões” - completou.
Foi um completo delírio, e aumentou quando a Bia foi buscar a mãe para dançar.
O baile acabou alta madrugada.
Nos outros anos seguintes, no dia três de Maio, no dia da Festa Santa Cruz os acontecimentos repetiram-se, com o nosso homem a envaidecer-se com a Bia Figueiras, até hoje a melhor intérprete de Maria Madalena.
O casamento
O pai sempre teve uma grande admiração pelo filho, à medida que ele fora crescendo a admiração aumentava.
Agora, pelo excelente companheirismo reinante entre os dois, o filho confidenciava-lhe os seus problemas.
Tinha já vinte e quatro anos e por vezes abordava com a Bia os projectos para o casamento, mas aqui hesitava, sem contudo o dar a conhecer à rapariga.
Já tinha casa embora só mobilada no essencial. Isto não o incomodava.
- O melhor é agarrar nela e trazê-la para casa, - pensou algumas vezes.
Mas este pensamento era logo ofuscado por outro; se ela não quiser e se ela se zangar. Esta hesitação começou a atormentá-lo e levou-o a auscultar o pai, que melhor do que ninguém lhe daria o conselho adequado
- Não, não quero que me dês o mesmo desgosto que eu dei ao teu avô - respondeu o pai com um modo antes nunca visto pelo filho. Este apercebeu-se que se consumasse o acto de se amigar com a rapariga perderia a amizade do pai.
No ano seguinte, ele com vinte cinco anos e ela com vinte e quatro, no dia da Festa da Santa Cruz casaram.
Um casamento simples, sem cerimónias mas onde não faltou alegria, a dança e a música.
O casal, Tonho e Bia, muito embora ambos auxiliassem nos festejos vindouros, aquela não mais personalizou a Maria Madalena.
O desencanto
Durante dez anos a felicidade foi sentimento reinante e orientador na vida deste casal.
A casa que o Tonho Aperta comprara tinha um grande quintal. O galinheiro, amplo dava para albergar a criação e um casal de pombos brancos que ele oferecera à Bia, ainda em solteiros. No chiqueiro além do porco tinham uma cabra, para abundância de leite. Palheiro e cabana para a burra e ainda sobejava terra para uma pequena horta e árvores de fruto.
Um paraíso comentava, não só as amigas, mas também pessoas alheias à família.
Dez anos se passaram na mesma rotina.
Os trabalhos no monte do Roncão, algum contrabando, algumas pescarias com o moleiro e o Silva e, o nosso Tonho a tocar cada vez menos, embora até tivesse tocado em baptizados e casamentos.
Nos primeiros tempos de casado, conformou-se com a esterilidade da esposa, mas agora passado este tempo começou, com alguma frequência, a falar nisso à Bia Figueiras.
Queria à viva força que a Bia lhe desse um filho, um descendente a quem ele poderia deixar os seus bens, a sua casa que entretanto acaba de pagar.
Desde que casara, poucas cargas de café passara, agora com a casa paga e querendo dedicar-se mais à esposa, decidiu deixar o contrabando.
- Para que me serviram estes anos de trabalho, de sofrimento e de risco de vida? - esta interrogação começou a apoquentá-lo com alguma frequência.
Decidiram ir à aldeia do Rosário consultar o “poeta”, um curandeiro que em pouco tempo alcançou grande fama. A Bia Figueiras logo no primeiro dia que tomou o remédio sentiu-se mal. Ocultou este estado ao marido. Ao segundo dia piorou e começou a não ter apetite.
O Tonho alegrou-se e perguntou à mulher.
- Já engravidaste? - ela encolheu os ombros e nada disse.
- É preciso esperar - pensou o Aperta.
Por falta de apetite, a Bia começa a enfraquecer e só lhe apetece estar deitada.
O Tonho começou a vir algumas noites a casa e sempre a encontrava deitada. Nos primeiros dias pensou que estaria em repouso para não abortar e mimava a esposa com caldinhos de farinha torrada ou de chocolate.
Um dia falando com o moral de parelhas, este perguntou - Tem vómitos - Não - respondeu o Tonho.
- Então isso não é gravidez, ela está doente, é melhor procurares um médico - recomendou o tio Mocho.
O Tonho deixou de imediato o trabalho e dirigiu-se a Terena para chamar o Doutor Galhardas.
Entrou na taberna para cumprimentar o Silva que o convida para petiscar peixe do rio frito, com o tio Laurentino Manitas, o melhor apregoador de Terena. Demorou-se pouco tempo e dirigiu-se ao consultório contando ao médico o estado da esposa.
- Chegaste a hora certa, só agora despachei o último doente e o harmónio? - pergunta de repente o doutor.
- Já pouco toco - É pena gostei tanto do ouvir.
O doutor tinha assistido, na sociedade, à actuação do tocador Aperta.
Chegados a casa, o doutor encontra a Bia muito débil.
Septicemia diagnosticou.
A frase do doutor provocou um abalo maior no nosso Tonho, do que ter levado um coice no estômago da mula ratinha, a mula mais arisca do monte do Roncão.
O Tonho tinha a consciência que aquela doença, desenvolvida por via sanguínea a partir de outra já existente era muito grave, quase incurável.
Os remédios do “poeta” na tentativa da Bia engravidar tinham despoletado a doença.
O nosso protagonista começa a arrepender-se da sua insistência, e só agora compreendeu o sacrifício que a Bia fazia para lhe proporcionar a alegria de lhe dar um filho.
Apesar dos esforços do doutor a Bia Figueiras finou-se ao fim de dois dias.
Com a sua morte o Aperta sentiu desmoronar-se tudo aquilo que durante os seus anos de vida tinha conseguido, que ele e a esposa consideravam a seu mundo.
Só ao fim de três dias o agora viúvo Tonho Aperta saiu de casa.
Durante este tempo arrumou a casa e deu um jeito no quintal, tentou fazer compreender à burra e à cabra que a dona morrera.
Fixou o olhar no harmónio e viu-se a tocar em todas as freguesias do Concelho, recolhendo fortes e morosos aplausos, mas o que lhe fez humedecer os seus olhos, foi a recordação do baile da Santa Cruz, em sua casa, onde pela primeira vez a sua Bia lhe dera um beijo.
Outra triste surpresa teve ao verificar o pombal, o pombo morrera.
Este acontecimento foi motivo de cisma, durante muito tempo, do Tonho.
- Porque morrera o pombo e não a pomba? Ou porque não morreram os dois?
O Aperta despede-se
O Tonho Aperta despediu-se da profissão de carreiro e passou a trabalhar à jorna.
Com uns peixes apanhados no Guadiana, quase sempre no pego abaixo do moinho da Cinza, o pego mais profundo do rio, dava-lhe para viver.
Um dia, no moinho encontrou o Silva pescaram juntos e decidiram vender o peixe em Terena, onde foi apregoado pelo tio Laurentino.
O Silva consegue, finalmente, convencer o nosso protagonista a combater na Guerra Civil de Espanha e combina o seu encontro, no moinho da Azenha del Rei, com Jacinto Cardoso, um homem de Terena já a combater em Espanha.
O Cardoso testava sempre os novos aspirantes a recruta de guerrilha, para lhe apreciar o grau de coragem revolucionária neles existentes, para isso apresentou-o a Luís Garçoa, que trabalhava no Monte da Estacada, em Espanha e auxiliava, às escondidas do patrão, o seu conterrâneo Jacinto Cardoso.
Os três homens conversavam sobre o perigo que estavam expostos, quando uma pomba branca em voo rasante passou rente a cabeça do Tonho Aperta.
O imprevisto e rápido voar da ave assustou os três companheiros de tal modo que o Cardoso chegou a pegar na espingarda.
O Garçoa, o mais calmo, observa a reação do nosso protagonista, que seguia com o olhar voo da pomba, e diz para o Cardoso
- O estado de espirito do Aperta nunca o deixará ser um guerrilheiro, torna-se presa fácil para o inimigo.
Jacinto Cardoso concordou.
Durante o caminho e apesar de constantemente o incentivar não lhe fora capaz de lhe alterar o ânimo.
O Silva tinha falhado, pela primeira vez, a prospeção deste recrutamento.
O Tonho partiu para Montejuntos, desanimado consigo próprio.
As silvas rasgavam-lhe as calças, os carapetos picavam-lhe o corpo e os alandros e as estevas chicoteavam-no.
Qualquer cova ou pedra mais saliente o fazia cair.
Pensou no suicídio e acabar assim com aquele sofrimento, mas o voo daquela ave impressionou tanto que o fazia caminhar até casa,
Sentia saudades da burra, da cabra a quem tinha, antes de partir, aberto as portas.
Quando se lembrava do harmónio soluçava e não continha as lágrimas.
Já perto do moinho da Cinza, por se lembrar que fora ali que pela primeira falara à Bia Figueiras, o único amor da vida, soltou um grito de raiva.
Raiva contra o destino, contra a sina que ele deveria ter lido e interpretado de maneira diferente, com um outro comportamento, sobretudo em relação à sua falecida.
O cão ouviu-o e ladrou-lhe.
- Cala-te piloto, até tu me escorraças - disse em tom desgostoso.
O piloto ouvindo-o corre de contentamento, empinou-se a ele e fê-lo sentar.
Lambeu-lhe as mãos sanguentadas de tanto cair e a cara golpeada pelos carrapetos e silvas. O Tonho sentiu-se acarinhado, sentimento que após a morte da Bia jamais sentira. Adormeceu por momentos e ganhou forças.
O cão seguiu-o durante algum tempo depois parou e sentou-se seguindo o Tonho de vista que sentindo a sua falta, lhe acenou.
Chegou a casa ao romper da aurora.
Ao abrir a porta uma pomba branca, que lhe pareceu a mesma do outro dia entra em casa, poisa nas costas da cadeira onde a Bia se sentava e rolou.
O Tonho julgou que teria fome.
De repente, abrindo a porta do quintal ouve o tremelicar dos lábios da burra e o som de um pequeno berro da cabra. Olhou em volta estava tudo como quando ele partira. Até o alecrim e o malmequer intensificaram os seus cheiros.
Só no pombal a pomba não estava.
Voltou a entra em casa e a ave continuava na cadeira.
Pareceu-lhe ver a Bia, ouviu a sua voz, olhou para o harmónio e viu-o a tocar o “Tango à média luz”, debruçou-se com a mesma vénia de quando ia buscar a Bia para dançar, em frente da pomba e dançou. Dançou maravilhosamente sentindo-se nos braços da Bia Figueiras, respirando o seu cheiro, sentindo o seu calor. E ela estava tão bonita e tão leve, que lhe apetecia morrer a dançar.
Ouve quem o ouvisse dizer “Olha Bia somos admirados” e cai desemparado no lajeado da cozinha, naquele dia frio como uma sepultura.
Testemunhos longínquos da época assim mo relataram, outros deles contemporâneos, contaram-me de maneira um pouco diferente.
Viram o tocador Aperta tocando a “Rosinha dos limões”, a seguir uma pomba branca, que lhe saiu de casa.
O povo de Montejuntos e de Ferreira, com o tio Mocho e o patrão, ao lado do Tonho, este sempre tocando, subiram a rua e pararam no terreiro da Santa Cruz.
Pessoas dignas de crédito e crentes, relataram-me que nunca, nem na romaria mais antiga do Concelho, a festa dos Prazeres, viram tanta gente e sentiram tanta fé. Uma fé diferente de todas as que até aí sentiram, uma fé de quem acredita na eternidade do amor, revelando o amor do Tonho e da Bia.
Pararam no terreiro onde a pomba pousada os esperava.
A multidão círculo deixou a pomba e o tocador no meio.
Como por encanto e soando cada vez mais alto ouve-se o “Cântigo das Oliveiras” tal como a Bia Figueiras o interpretava.
Em uníssono a multidão também cantou. A Bia parecia estar em cada um dos presentes.
O Tonho Aperta deixa o harmónio e num impulso incontrolável tenta agarrar a pomba, que foge voando, e ali acabou para sempre o nosso protagonista.
Com a fuga da pomba branca o “O Cântigo das Oliveiras” terminou, dando lugar a cenas e choro comoventes.
O harmónio está guardado, à espera de um novo tocador, no monte do Roncão, cujo lavrador, o senhor Zé Ramalho quando se referia ao seu criado Tonho Aperta, ousava sempre esta expressão de pena, “não morreu de velho morreu envelhecido por amor”
Durante muito tempo ouve quem visse a burra entre Faleiros e Montejuntos. Quando alguém a tentava apanhar, agora livre da pressão do contrabando e ciosa da liberdade que o dono lhe concedera, dava dois coices e fugia.
A cabra foi ter ao Moinho da Cinza onde acabou os seus dias.
E a bomba branca?
Houve e ainda há quem acredite que a pomba voltará, no dia três de Maio, numa Festa da Santa Cruz, para encarnar uma donzela, cuja voz, corpo e alma permita interpretar a Madalena como a Bia Figueiras sempre o fez.
A lenda da pomba branca confundia-se nos testemunhos que recolhi com a história do Tonho Aperta, do velho Aperta, a história de um tocador.
Hélder Salgado.
15-02-2012.
Desde há muito que o Hélder nos habituou a deixar neste “espaço” o seu testemunho em jeito de homenagem, a pessoas que “marcaram” a sua juventude ao mesmo tempo que se tornaram em personalidades que nunca procurando ser famosas, ficaram na memória de todos nós quer pelos seus actos, quer pelas suas “saídas”, quer pela sua bondade, ou pelos seus dotes.
Já aqui foram recordados, por intermédio do Hélder, o Catita Guiomar, o Dr. Galhardas, o Borrões, O Velho Godinho. O Zé Seabra, o Caritas, entre tantos outros.
Agora o Hélder proporciona-nos uma história digna de ombrear com tantas outras de Autores consagrados (Manuel da Fonseca, Alves Redol, Fernando Namora, entre outros)
Ao longo de várias semanas aqui vai ser recordada esta “personagem” que alem de outros dotes era exímio tocador de harmónica.
Assim se vai preservando (para memória futura) os usos e costumes da nossa gente.
O VELHO APERTA - A HISTÓRIA DE UM TOCADOR
Quando acabo de escrever o último texto fico sempre com uma sensação de vazio, julgando não me recordar de nova história.
Do “Bota cá licença” não sei como me apareceu na ideia.
Da “Morcela do Caritas”, foi no Fórum, quando, chegando já tarde, fui ouvir o Grupo de Portel, espectáculo de muito bom agrado, cuja locução soube transmitir para a plateia, a alegria que se vivia no palco.
Havia poucos lugares vagos e vendo três lugares vazios, procurei sentar-me sem incomodar. O mesmo procedimento teve a Bernarda Caritas, que sentando-se ao meu lado foi minha companheira até final do espectáculo.
Quando nos despedimos, num gesto impensado, disse-lhe - Vou escrever sobre a Morcela do Caritas - A Bernarda sorriu e cada um de nós foi ao seu destino.
Estamos em ambiente de música, dada pelo citado grupo, que teve a arte e o engenho de levar o Cante Alentejano além-fronteiras, (quem não se recorda do “Passarinho às quatro da Madrugada?”). Esta crónica irá decorrer no mesmo ambiente, com música dada, não por mim, mas pelo Tonho Aperta, que era tocador de harmónio.
O começo de um sonho
A popular e alegre aldeia de Montejuntos, foi berço do nosso protagonista.
Nesta simpática povoação irá decorrer esta história, que não sendo comum a qualquer pessoa, poderia ter sido a sua, a minha, a nossa, se decidíssemos correr riscos, se amassemos como o Tonho amou, se vencêssemos as metas que a vida nos ofereceu, se enfim fossemos um sonhador como o Tonho Aperta.
Eis o seu percurso.
Nascido de uma humilde e pobre família o Tonho soube com a sua capacidade de trabalho e elevado grau de respeito e seriedade, singrar na vida.
Não enriqueceu, nem isso, como afirmou algumas vezes, fora sua pretensão, apenas não queria olhar para “mãos alheias”.
Por imposição do pai, tirou a quarta classe, gesto que ele, quando se reconheceu como homem, bastante enaltecia.
- Se o meu pai não me obrigasse a tirar a quarta classe, hoje era mais burro do que a minha burra - chegou a dizer agradecendo deste modo ao pai.
Logo que saiu da escola o pai contratou-o para guarda de perus, no Aguilhão, tarefa que durava até ao Natal.
O então menino Aperta, não tinha “soldada”, vencia apenas a comida e dormida, tendo-lhe o lavrador dado quinze escudos, no fim da safra, valor correspondente ao preço de um peru de tamanho médio.
- Quinze escudos - murmurou o jovem inúmeras vezes, a caminho da sua casa em Montejuntos.
Pediu à mãe que lhe guardasse o dinheiro.
- Para que queres tu o dinheiro, não vês que faz falta cá em casa - disse a mãe determinada a gastar aquela pequena verba.
O rapaz entristeceu, baixou a cabeça e foi sentar-se a um canto da chaminé.
À noite, mais tarde, quando o pai chegou a casa viu-o com os cotovelos firmes nos joelhos, tapando a cara com as mãos.
- Que tens filho, estás doente? - perguntou surpreso o pai, que pouco antes o vira meter a mão direita no bolso das calças, a certificar-se que não tinha perdido o dinheiro, gesto que o pai traduziu de contentamento.
- Não pai, a mãe precisa do dinheiro, entreguei-lho - respondeu tentando não se mostrar triste, não conseguindo enganar o pai, que voltando-se para a mulher, disse, - Guarda o dinheiro do rapaz, talvez não nos venha a fazer falta.
O Tonho Aperta levantou a cabeça, sorriu para os pais e nada disse.
O sonho de comprar o harmónio começou com o dinheiro do peru, com os quinze escudos.
O primeiro olhar
Mais um Natal passado no Aguilhão e vemo-lo, em “escamél”, na Talaveira, depois já em carreiro, no monte do Roncão. Aqui contratado e a auferir duzentos e cinquenta escudo mensais.
O harmónio estava cada vez mais próximo do nosso homem.
O serviço como “escamél” era um serviço solto e todas as semanas ia buscar, ao moinho da Cinza, no carro de varais, quatro sacas de farinha para as cozeduras, que ele próprio ajudava a fazer.
Peneirava a farinha, amassava, ajudava a tender, enchia o forno de lenha e varria-o.
O jovem Tonho era um precioso auxiliar da tia Maria Berjano a encarregada desta labuta.
Numa das ocasiões em que se deslocou ao moinho encontrou lá a Bia Figueiras.
Já conhecia a rapariga e algumas vezes falara com ela, agora ali, com o barulho da água a galgar a parede do açude, com o cheiro da flor dos carapetos e o colorido rosáceo dos alandros, pareceu-lhe diferente, mais bonita.
Olharam um para o outro, falaram e sorriram, durante uns momentos.
Na despedida, quase por instinto, estenderam as mãos, fixaram o olhar um no outro parecendo selar um compromisso para toda a vida.
O nosso homem verificou que passar para Espanha era fácil, aliás já uma vez passara com o pai, pelo açude do moinho da Azenha de El-Rei, quando foi à festa à Cheles.
A ideia de passar contrabando começa a apoderar-se dele.
O Carnaval
Duas pretensões começaram a ocupar o cérebro, do Tonho Aperta.
Uma, a de puxar namoro à Bia Figueiras, outra, a de comprar o harmónio. Um dilema começa, também a afligi-lo, se comprasse o instrumento teria que tocar em qualquer lado e assim não tinha tempo para a rapariga, pois apenas tinha o tempo da “gavela”, a manhã de domingo disponível.
O entusiasmo de ter o harmónio foi mais forte e ei-lo em Évora, na casa da Musica, a comprar o seu, hà muito desejado, instrumento.
- Sabe tocar - pergunta-lhe o vendedor.
O Tonho tentou não responder, mas não foi capaz e gaguejando disse - Não sei, mas compro-o na mesma.
Julgava ele que para tocar algo de jeito bastaria premir os botões e, por encanto, as músicas apareciam, Tinha até pensado que a primeira música que tocasse, seria um tango “Um tango à média luz”, que dedicaria à sua já considerada namorada, a Bia Figueiras.
Ao tentar tocar, já na aldeia, o som que obtinha não se assemelhava a nenhuma música.
Tenta uma, duas, três vezes e o resultado era sempre o mesmo, soava-lhe sempre mal.
- Que raio de instrumento é este? e já estava a pensar que fora enganado
O nosso homem recupera o discernimento e serenando pensou melhor.
- Hei-de aprender, ao menos assim já tenho tempo para puxar namoro à Bia, - conformou-se e pareceu-lhe que o acto de puxar namoro à Bia, era tarefa fácil e já ganha.
Decidiu ser Domingo de Carnaval o desfecho do projectado e esperado acontecimento.
Durante o dia, depois de muito bem aperaltado, para espanto da mãe e a tolerância alegre do pai, segui para a festa.
Procurou apanhar a rapariga sozinha e não consegui. - Depois de almoço talvez consiga chegar perto dela - e começou a admitir falar-lhe mesmo na frente de outras pessoas, fossem rapazes, raparigas, homens ou mulheres.
Já estava por tudo.
Em frente à taberna do tio Sabino e no meio dos festejos, surgiu a oportunidade.
Respirou fundo, deu um jeito na gravata e em passada firme, vai acerca-se da jovem.
Ia começar a dirigir-lhe a palavra quando ouve um chamamento, - Bia anda cá - era a mãe Figueiras que notando o vestido da filha desabotoado a chamava.
Com a mãe da rapariga por perto, o Tonho não se atreveu, novamente, a abeirar-se da Bia e logo, outro pensamento de conformidade dele se apodera - Ficará para o baile.
Este pensamento, talvez por ser a última oportunidade do dia de Carnaval, começou a deixá-lo um pouco inquieto. Deu voltas e voltas ao cérebro, na tentativa de descobrir a causa daquela, embora pequena, mas preocupante inquietação.
Não lhe parecia ser da rapariga, pois na troca de olhares via nela uma desejada aceitação, que os sorrisos e a despedida no moinho da Cinza avalizaram.
- Que será? - interrogava-se constantemente.
Mal comeu a refeição do jantar, o que foi admoestado pela mãe, e mais uma vez tolerado pelo pai.
O baile
O ímpeto e a determinação que até então tinha tido começaram a refrear e, o nosso homem, já no baile, esperou duas séries de três músicas, como observador.
À terceira decidiu ir buscar a rapariga, que dava “cabaços” a todos os rapazes, sintoma que ela estaria à espera que ele a fosse buscar.
Um estranho pensamento afluiu-lhe no cérebro.
- Não há duas sem três - não fez caso desse presságio e caminhou em direcção da rapariga.
O pedido para dançar foi uma delicada vénia de dobragem de corpo, que pela perfeição e estilo provocou a admiração da rapariga.
Ergueu-se e sorriu.
Ela levantando-se da cadeira vem ao seu encontro, com um largo sorriso e braços meios apertos parecendo dizer, estou aqui, estou à tua disposição.
De mãos dadas procuram o meio do baile para começar a dança.
Começam a dançar ou melhor tentam começar porque o Tonho, apesar do esforço da rapariga não acerta.
Tentam por algum tempo e as melhoras não apareciam, não conseguiam acertar nenhuma música.
Os outros pares começam a jogar-lhe piadas e a mãe Figueiras, irritada com aquele ambiente, grita para dentro do recinto do baile, - Deixa esse paspalhão, não vês que não sabe dançar - ainda não se tinha apercebido que a filha gostava do Tonho Aperta.
Este ruborizou, sentindo dentro de si a fúria de um animal ferido, por um chumbo de zagalote que nunca merecera.
Ah se aquela frase fosse a sós .....
Recuperando a calma e diz para a rapariga - Vamo-nos embora, um dia todos os que de nós, de nós não, de mim se riram hão-de admirar-me.
Aquelas palavras surgiram aos ouvidos da rapariga como uma ordem, à qual obedeceu. Também ela se sentia vexada com as galhofas dos rapazes e raparigas, algumas delas suas amigas.
Ao sair do recinto, o nosso Tonho encontra o seu moral de parelhas o tio Zé Mocho, que o acalma e o tranquiliza.
O Tonho ignorou o conselho do seu moral para aprender a dançar, ainda que fosse com um pau.
O rapaz chorou de raiva e a rapariga de desgosto.
Contrabandista por acaso
O rapaz tenta arranjar alguém que o ensinasse a tocar o seu harmónio. Ficara um pouco traumatizado com a questão do baile e decidiu ir encontrar um mestre fora da aldeia.
Meteu a albarda na burra, que entretanto comprara ao Zé Maia, o cigano que morava na aldeia das Lajes, em Santiago Maior.
Parou em Ferreira, na taberna do Tio Paulino, perguntou por um tocador de instrumentos de fole, mas a resposta obtida não o convenceu.
Parou em Faleiros, e dirigiu-se à taberna do Manuel Coxo. Este prazenteiro e espertalhão logo pensou em indicar-lhe o Silva, taberneiro de Terena.
- Esse homem indica-te o melhor mestre. - Em Terena e nas Hortinhas há muitos e bons acordeonistas - disse o Coxo na mira do Silva arranjar mais um contrabandista para a sua quadrilha. Agradava-lhe a cara e a corpulência do rapaz.
Chegado a Terena prende a burra à argola de ferro que estava espetada na parede para esse efeito. O Silva estava no momento a ler o jornal “O Século” de que era assinante, olhando por cima deste observa o nosso protagonista.
Ao entrar na taberna apresentou-se.
- Sou de Montejuntos, venho da parte do senhor Manuel Coxo, de Faleiros pedir-lhe uma informação.
O Silva olhou-o de alto abaixo, perguntou-lhe o que fazia, e se conhecia a raia.
- Como as minhas mãos - disse o rapaz.
- Sou amigo do Jaquim da Cinza, conhece-o - sim respondeu o rapaz.
- No mínimo temos contrabandista, - pensou o Silva.
Este tinha fama de revolucionário e suspeitava-se que auxiliava os guerrilheiros de Terena, que combatiam na guerra civil de Espanha, por isso, as suas cautelas redobravam na frente de qualquer desconhecido.
- Diga lá o quer - pergunta o Silva, sem mais demoras e rodeios, não fosse o rapaz levantar alguma suspeita.
O Silva estava consciente da desconfiança de algumas pessoas e só dava a conhecer as suas ideias, quando tinha plena confiança em alguém, e a certeza que esse alguém não atraiçoasse a causa, que ele julgava de todos até mesmo universal.
Certo é que a sua táctica resultara e, embora os guerrilheiros não fossem muitos, até então não tinha havido denúncia.
- Aconselho-te o Inácio Vitorino é sabedor e toca bem, podes deixar aqui a burra que eu tomo conta dela, - disse o Silva tentando agradar e ganhar a confiança do rapaz.
As aprendizagens
O Inácio Vitorino era uma pessoa muito bem vista na Vila e logo cedeu à pretensão do nosso homem.
- Vou tocar uma peça que tu conheces, repara para o movimento dos meus dedos. A música é muito conhecida, è a Rosinha dos Limões.
O rapaz ficou tão entusiasmado que logo, com os lábios começou a solfejar a música.
- Tens que fazer isso com os dedos, deixa os lábios descansados. Os da mão esquerda marcam o compasso e os da outra, a música. Olha como eu faço, - e assim começou a primeira lição, que se repetiu por três vezes.
O Mestre observava a gradual ligeireza com que o nosso Aperta, agora aprendiz de música, desemperrava os dedos.
- Temos tocador, - pensou ao mesmo tempo que lhe ordenou - Pega no harmónio.
O Aperta ou melhor o coração do Aperta apertou-se, receoso a má figura que poderia fazer.
Desde o dia que comprara o harmónio, em Évora, não mais tentara tocar, embora lhe fizesse uma festinha todos os dias.
- O Mestre Vitorino sorrindo disse-lhe - Não tenhas medo, rapaz. Já vi pelo mexer dos teus dedos que vais ser um bom acordeonista.
Estas palavras foram o suficiente para o rapaz acalmar, mas não o convenceram que seria um bom academista.
O certo é que o som do primeiro toque, por ele produzido, lhe soara muito diferente do que tinha conseguido em sua casa, nos Montes.
Sem que o Mestre o mandasse, começou novamente a tocar. Este mandou-o parar.
- Vamos devagar, não quero que cries vícios que mais tarde podem ser de difícil correcção, - aconselhou o Mestre.
- Vamos tocar ao mesmo tempo a mesma música, para notares onde te enganas - disse, ao mesmo tempo ordenando o Vitorino.
Ao fim da quarta vez o Mestre só fingia que tocava, tentando não o dar aperceber.
- Agora tocas sozinho, - Sozinho? - surpreende-se o rapaz.
- Sim, acabaste de o fazer agora, - ambos sorriram.
- A lição por hoje acabou. Só quero que não te esqueças do que aprendeste, - Juro que não - respondeu o nosso Tonho, denotando um enorme contentamento.
- Deixa lá isso, - foram as palavras do Mestre quando o jovem lhe perguntou pelo custo da lição.
Ao entrar na taberna do Silva ainda mexia os dedos.
- Bem, muito bem mesmo. O senhor Vitorino é um bom Mestre - disse estas palavras num tom de respeito e admiração, que alegraram o taberneiro.
Por detrás do balcão, esfregou as mãos de contente e pensou ser o momento certo de convidar o rapaz para contrabandista.
- Ambos somos amigos do Jaquim da Cinza, podias fazer parte da minha quadrilha de contrabandistas. - o rapaz não se surpreendeu e perguntou ao Silva os pormenores.
- Aceito - disse o rapaz, pensando, não só no dinheiro que daí lhe poderia vir, mas também na lição que queria dar aqueles que o vexaram e sobretudo à mãe da sua amada.
Partiu feliz para Faleiros direito à taberna do Manel Coxo, para agradecer aquelas duas oportunidades.
Ao vê-lo entrar, o Coxo fez o mesmo gesto com as mãos, que o Silva tinha feito.
Via com o regresso do Tonho uns escuditos de ganho. Ele arriscava o dinheiro e os outros, os contrabandistas o dinheiro, o trabalho e corriam o risco de serem presos, o que só em caos de muita reincidência sucedia.
O nosso homem partiu para casa acarinhando mais o harmónio do que a burra.
Não perdeu tempo e depois de trancar bem a janela do quarto, não o fazendo à porta, para não parecer mal aos pais, sobretudo ao pai que cada dia que passava se mostrava um verdadeiro companheiro, começou a tocar a Rosinha dos Limões.
Suou-lhe bem ao ouvido e aos ouvidos dos pais que, de surpresos, precipitaram-se para a porta do quarto.
Repetiu duas vezes e não se enganara.
A segunda aprendizagem.
Na madrugada de segunda-feira apresentou-se no Monte do Roncão para começo do trabalho.
O moral das parelhas o tio Zé Mocho perguntou-lhe - Então, já está mais calmo. Estava a ver que batias na mulher. Tudo por não teres seguido o meu conselho.
O tio Mocho tinha aprendido a dançar com o pau e ainda o guardava. Devia ao pau, o seu primeiro parceiro de dança, esta aprendizagem e daí o convite para entrar em duas contradanças e o agora pertencer, de direito próprio, à organização da Festa Santa Cruz.
Devia todo o seu carisma a um simples pau de azinho, embora arranjado e envernizado.
Tudo isto contou ao jovem Aperta, tentando que ele percorresse o mesmo caminho, o seu caminho.
O Tonho concordou com o seu moral de parelhas.
O primeiro carregamento de café
A taberna do Coxo de Faleiros, componha-se de um pequeno compartimento, com porta e uma pequena janela.
Os contrabandistas eram atendidos, sempre de noite, pela janela.
- Quantos quilos querem? - perguntava o taberneiro - Dá-me tantos escudos ou tantas pesetas de café - a carga dependia do dinheiro.
Todas as quartas-feiras se repetia este acto.
Depois de algumas cargas e do muito sofrimento que ele, Tonho, só superava pensando na rapariga e na desforra
O nosso homem começou a pensar que seria mais fácil e mais vantajoso, ir buscar uma carga com a burra e depois passá-la para a Espanha.
Aproveitaria a ida a Terena e de caminho carregaria.
Teria para isso arranjar alforges próprios, que deixassem passar o mínimo cheiro possível, pois os pacotes de quilo de café em grão, de marca “Camelo” deitavam muito cheiro e isso era um factor de denúncia e, ao mesmo tempo de receio de ser assaltado no regresso a Montejuntos, com a carga de café. Este era o maior risco.
Falou com o moleiro e o taberneiro de Faleiros e viu nestes, condescendência. Faltava falar com o Silva o que sucedeu no domingo seguinte. Este pensou no assunto e concordou. A sua discordância poderia sair-lhe cara, pois sabia da relação que o rapaz tinha com o cabo Novo, granjeada após o incidente do baile, e do à vontade com que a guarda-fiscal entrava no monte do Roncão, onde o Tonho trabalhava.
Durante o Outono e o Inverno seguintes, em dias não anunciados, aparecia em Faleiros.
Trinta e cinco quilos de café em pacotes eram transportados na burra do nosso Aperta. No Verão e na Primavera as cargas eram menos frequentes, porque o risco de ser visto era muito maior.
No fim de cinco meses terminou a aprendizagem da música.
Dominava o harmónio a belo prazer e o seu reportório compunha-se de trinta e três músicas, as mesmas que o mestre Vitorino sabia.
A compra de casa
Ao fim de quatro anos o nosso homem tinha um razoável pé-de-meia.
Aconselhou-se com o pai e comprou, aceitando letras durante três anos, a casa ao Manuel Padilha, Tinha um bom quintal e assim poderia fazer a sua horta e ter uma cabra, para quando casasse e tivesse filhos, ter leite.
Este acto foi um estrondo em Montejuntos.
Um rapaz acabado de fazer dezanove anos ter uma casa? Era a admiração de todo o povo e foi também a do cabo Novo, que não se contendo indagou o rapaz,
- Como conseguiste arranjar dinheiro para a compra da casa? - disse sorrindo para o rapaz. Este respondeu também sorrindo, - Descanse meu cabo, que não foi com dinheiro roubado, - ambos intensificaram os sorrisos, tendo o cabo passado a mão direita pela cabeça do nosso protagonista, gesto que ele entendeu de continuidade para contrabandear.
A mãe Figueiras começa, embora controlando, a consentir o namoro.
O Tonho Aperta começa a respirar um pouco de felicidade.
A estreia como tocador
Já há muito tempo que o jovem tocava de janela aberta.
O som do seu harmónio fazia parar os transeuntes.
A mocidade dos Montes adorava ouvi-lo e até a Bia, a sua Bia Figueiras, às escondidas da mãe lá aparecia.
Naquele domingo o Zé Serrano convidou-o para tocar na sua taberna, no domingo seguinte toca na taberna do Sabino.
É ouvido em Cabeça de Carneiro, Santiago Maior.
Toca na sociedade em Terena, onde o seu mestre, o senhor Inácio Vitorino, não consegue conter as lágrimas.
O ponto por ele julgado o mais alto das suas actuações, foi na esplanada da sua sede de Concelho, o Alandroal, onde esteve o Presidente da Câmara.
Seguindo os conselhos do seu moral de parelhas, foi aceite para a realização da Festa de Santa Cruz.
A popular Festa da Santa Cruz
Em Montejuntos, Cabeça de Carneiro, na aldeia da Venda e nas Hortinhas realizavam-se estes festejos.
Muitas pessoas defendendo a origem da Festa, afirmavam a sua primeira realização em Cabeça de Carneiro, outras em Montejuntos e só mais tarde, na aldeia da Venda e nas Hortinhas.
Em Montejuntos a Festa tinha dia certo, três de Maio, dia da invenção da Santa Cruz.
O que releva neste ano e em muitos que se seguiram foi o desempenho do nosso jovem Aperta. O seu entusiasmo foi a admiração de muita gente, até da família da rapariga, cuja mãe começou a sentir uma forte admiração pelo rapaz.
Depois do trabalho e durante o serão, à luz do candeeiro a petróleo e da candeia de azeite, fazia em casa os recortes em papel e em prata, auxiliado pelo pai e pela mãe.
No sábado à tarde pediu dispensa ao moral das parelhas e ao patrão, e foi auxiliar na decoração da casa onde saía a Madalena, que seria interpretada pela Bia Figueiras.
Teve oportunidade de falar com ela durante algum tempo, muito embora a conversa tivesse sido quase só respeitante aos festejos.
Assistiu a pedido da estreante Bia, que iria pela primeira vez, representar a Maria Madalena, com alguma condescendência das mulheres mais velhas, ao ensaio da rapariga.
O Cante nada lhe dizia e até lhe feria os ouvidos, se não fora a Bia a interprete ter-se-ia indo embora.
A sua atenção focou-se no desempenho e no entusiasmo da moça. Observou-lhe o corpo, maravilhoso e saudável, de carnes soltas, apetitosas.
Tentou fixá-la no olhar nas não conseguiu. Queria deste modo e só com olhar, dizer-lhe quanto a amava e quanto bem lhe queria.
Pensou no baile e conformou-se.
O baile da Festa
Este baile foi o segundo baile que o nosso Tonho tomou parte
À entrada trocou algumas impressões com o Zé Mocho e nesse momento viu passar a Bia com a mãe.
Falaram um pouco, tendo ele ficado ainda por algum tempo, a falar com o seu moral de parelhas, agora um grande amigo.
Começa o baile.
Um acordeonista de renome abrilhantava a dança.
O jovem Aperta não ligou à música, concentrava-se só no modo como havia de vingar-se.
Com a mesma postura que tinha demonstrado no Carnaval, dirigiu-se para o recinto do baile.
Esperou as mesmas séries de música, depois com a mesma vénia convidou Bia para dançar. Também esta procurou manter a mesma postura.
Os rapazes que outrora o tinham vexado interrogavam-se pelo estranho comportamento do Tonho e da Bia, não lhe parecendo adequado para quem já namorava.
A mãe Figueiras era a que aparentava mais preocupação, não encontrando também explicação para o procedimento da filha e do namorado.
A música começa.
O casal dança primorosamente, ela rodopia pressa pela mão dele, afastam-se, unem-se, tocam com a cara um no outro, apertam-se, alargam-se e assim vão chamando atenção de todos os presentes.
Até as raparigas e rapazes espanhóis se surpreenderam.
Terminada a série e ele ordena - Vamo-nos embora, já todos nos admiraram.
Estavam assim de uma forma diferente de todas, a fazer pensar os presentes, consuma a vingança do Tonho Aperta.
“Os descantes”
A festa continua em casa do Tonho Aperta que para o efeito tinha pedido aos pais.
As filhas do Jaquim da Cinza e alguns moços e moças espanhóis tinham sido convidados pelo rapaz.
Comeram, dançaram, e até ouve sapateado e castanholas sevilhanas.
Foi uma confraternização nunca vista em Montejuntos, em que a mãe da Bia foi, perante a rapidez dos acontecimentos e arrastada pela filha e o namorado, forçada a assistir
A mãe do Tonho começou a modificar o seu comportamento para com o filho. Começou a ver nele um homem digno, respeitador, trabalhador e muito poupado.
Ao vê-lo namorar com a Bia Figueiras, de quem sempre muito gostara, perdeu todo o poder que exercia sobre o rapaz.
Nunca os dois namorados tinham estado tanto tempo juntos e dançado tanto, embora a dança tivesse pequenos intervalos para dar lugar a novo verso, em cantigas improvisadas pelos dançantes.
Esta dança não permitia que os pares parassem, embora dançassem a sós, altura em que o rapaz ou a rapariga cantava a desgarrada, verso improvisado e intencional, quase sempre a revelar o amor ou o desprezo a quem a quadra era dirigida. Acabada de cantar começavam, novamente, agora agarrados a dançar e a cantar a mesma quadra
A Zefa Potra, em tom de picardia, dirigiu esta quadra ao Manel Moreira, o melhor improvisador de versos daquele tempo.
Vamos, também entrar na roda e ouçamo-la.
“Com a tua gravada aos éses
À roda sobre dourada
Tu és parvo, não conheces
Que eu de ti não gosto nada”
Agarrem os seus pares e vamos dançar, repetindo a quadra.
A resposta, ao “consoante” do Moreira, não se fez esperar.
Com ar altivo e sorridente olhou para a rapariga e versou.
Dediquem-lhe, por favor, a mesma atenção.
“Eu sou parvo não conheço
Que de mim não gosta nada?
Moça mais linda mereço
E sem ser esgrouviada”
E era assim em animação mordaz, mas de salutar convivência, se dançava e cantava nos “descantes”.
O nosso homem só não se saturou daquela dança porque tinha a Bia com ele.
Pensou em começar a tocar o “Tango à média luz”, que ele ouvira na feira de Agosto, em Vila Viçosa à então famosa acordeonista Eugénia Lima, e agora já o tocava, mas para isso tinha que deixar a Bia e esta podia dançar com outro, acto que ele não tolerava.
Começaram a pedir-lhe e ele a resistir, a não querer tocar.
A Bia Figueiras puxando-o fê-lo sair da roda e pedindo-lhe para tocar disse, - Ficarei ao pé de ti, não danço.
O Tonho ruborizou atrapalhado e de semblante carregado ia falar, mas ela astuta, não lho permite dando-lhe um beijo na face.
Um beijo na frente de tanta gente, dos pais dele e da mãe dela era a melhor prova de amor que ela até então lhe dera.
Se alguma dúvida tivesse ficaria, com aquele acto, desvanecida.
A rapariga vai buscar um estrado e uma cadeira e ele foi buscar o harmónio.
Depois do Tonho Aperta se sentar, ela dando dois passos em frente, anuncia.
- Caros amigos e amigas, o melhor tocador das redondezas vai abrilhantar o nosso baile, vai tocar, exclusivamente, para vós.
A rapariga surpreende todos e o jovem Aperta, ficou encantado com a espontaneidade da namorada.
- Vamos começar pela bonita música a “Rosinha dos Limões” - completou.
Foi um completo delírio, e aumentou quando a Bia foi buscar a mãe para dançar.
O baile acabou alta madrugada.
Nos outros anos seguintes, no dia três de Maio, no dia da Festa Santa Cruz os acontecimentos repetiram-se, com o nosso homem a envaidecer-se com a Bia Figueiras, até hoje a melhor intérprete de Maria Madalena.
O casamento
O pai sempre teve uma grande admiração pelo filho, à medida que ele fora crescendo a admiração aumentava.
Agora, pelo excelente companheirismo reinante entre os dois, o filho confidenciava-lhe os seus problemas.
Tinha já vinte e quatro anos e por vezes abordava com a Bia os projectos para o casamento, mas aqui hesitava, sem contudo o dar a conhecer à rapariga.
Já tinha casa embora só mobilada no essencial. Isto não o incomodava.
- O melhor é agarrar nela e trazê-la para casa, - pensou algumas vezes.
Mas este pensamento era logo ofuscado por outro; se ela não quiser e se ela se zangar. Esta hesitação começou a atormentá-lo e levou-o a auscultar o pai, que melhor do que ninguém lhe daria o conselho adequado
- Não, não quero que me dês o mesmo desgosto que eu dei ao teu avô - respondeu o pai com um modo antes nunca visto pelo filho. Este apercebeu-se que se consumasse o acto de se amigar com a rapariga perderia a amizade do pai.
No ano seguinte, ele com vinte cinco anos e ela com vinte e quatro, no dia da Festa da Santa Cruz casaram.
Um casamento simples, sem cerimónias mas onde não faltou alegria, a dança e a música.
O casal, Tonho e Bia, muito embora ambos auxiliassem nos festejos vindouros, aquela não mais personalizou a Maria Madalena.
O desencanto
Durante dez anos a felicidade foi sentimento reinante e orientador na vida deste casal.
A casa que o Tonho Aperta comprara tinha um grande quintal. O galinheiro, amplo dava para albergar a criação e um casal de pombos brancos que ele oferecera à Bia, ainda em solteiros. No chiqueiro além do porco tinham uma cabra, para abundância de leite. Palheiro e cabana para a burra e ainda sobejava terra para uma pequena horta e árvores de fruto.
Um paraíso comentava, não só as amigas, mas também pessoas alheias à família.
Dez anos se passaram na mesma rotina.
Os trabalhos no monte do Roncão, algum contrabando, algumas pescarias com o moleiro e o Silva e, o nosso Tonho a tocar cada vez menos, embora até tivesse tocado em baptizados e casamentos.
Nos primeiros tempos de casado, conformou-se com a esterilidade da esposa, mas agora passado este tempo começou, com alguma frequência, a falar nisso à Bia Figueiras.
Queria à viva força que a Bia lhe desse um filho, um descendente a quem ele poderia deixar os seus bens, a sua casa que entretanto acaba de pagar.
Desde que casara, poucas cargas de café passara, agora com a casa paga e querendo dedicar-se mais à esposa, decidiu deixar o contrabando.
- Para que me serviram estes anos de trabalho, de sofrimento e de risco de vida? - esta interrogação começou a apoquentá-lo com alguma frequência.
Decidiram ir à aldeia do Rosário consultar o “poeta”, um curandeiro que em pouco tempo alcançou grande fama. A Bia Figueiras logo no primeiro dia que tomou o remédio sentiu-se mal. Ocultou este estado ao marido. Ao segundo dia piorou e começou a não ter apetite.
O Tonho alegrou-se e perguntou à mulher.
- Já engravidaste? - ela encolheu os ombros e nada disse.
- É preciso esperar - pensou o Aperta.
Por falta de apetite, a Bia começa a enfraquecer e só lhe apetece estar deitada.
O Tonho começou a vir algumas noites a casa e sempre a encontrava deitada. Nos primeiros dias pensou que estaria em repouso para não abortar e mimava a esposa com caldinhos de farinha torrada ou de chocolate.
Um dia falando com o moral de parelhas, este perguntou - Tem vómitos - Não - respondeu o Tonho.
- Então isso não é gravidez, ela está doente, é melhor procurares um médico - recomendou o tio Mocho.
O Tonho deixou de imediato o trabalho e dirigiu-se a Terena para chamar o Doutor Galhardas.
Entrou na taberna para cumprimentar o Silva que o convida para petiscar peixe do rio frito, com o tio Laurentino Manitas, o melhor apregoador de Terena. Demorou-se pouco tempo e dirigiu-se ao consultório contando ao médico o estado da esposa.
- Chegaste a hora certa, só agora despachei o último doente e o harmónio? - pergunta de repente o doutor.
- Já pouco toco - É pena gostei tanto do ouvir.
O doutor tinha assistido, na sociedade, à actuação do tocador Aperta.
Chegados a casa, o doutor encontra a Bia muito débil.
Septicemia diagnosticou.
A frase do doutor provocou um abalo maior no nosso Tonho, do que ter levado um coice no estômago da mula ratinha, a mula mais arisca do monte do Roncão.
O Tonho tinha a consciência que aquela doença, desenvolvida por via sanguínea a partir de outra já existente era muito grave, quase incurável.
Os remédios do “poeta” na tentativa da Bia engravidar tinham despoletado a doença.
O nosso protagonista começa a arrepender-se da sua insistência, e só agora compreendeu o sacrifício que a Bia fazia para lhe proporcionar a alegria de lhe dar um filho.
Apesar dos esforços do doutor a Bia Figueiras finou-se ao fim de dois dias.
Com a sua morte o Aperta sentiu desmoronar-se tudo aquilo que durante os seus anos de vida tinha conseguido, que ele e a esposa consideravam a seu mundo.
Só ao fim de três dias o agora viúvo Tonho Aperta saiu de casa.
Durante este tempo arrumou a casa e deu um jeito no quintal, tentou fazer compreender à burra e à cabra que a dona morrera.
Fixou o olhar no harmónio e viu-se a tocar em todas as freguesias do Concelho, recolhendo fortes e morosos aplausos, mas o que lhe fez humedecer os seus olhos, foi a recordação do baile da Santa Cruz, em sua casa, onde pela primeira vez a sua Bia lhe dera um beijo.
Outra triste surpresa teve ao verificar o pombal, o pombo morrera.
Este acontecimento foi motivo de cisma, durante muito tempo, do Tonho.
- Porque morrera o pombo e não a pomba? Ou porque não morreram os dois?
O Aperta despede-se
O Tonho Aperta despediu-se da profissão de carreiro e passou a trabalhar à jorna.
Com uns peixes apanhados no Guadiana, quase sempre no pego abaixo do moinho da Cinza, o pego mais profundo do rio, dava-lhe para viver.
Um dia, no moinho encontrou o Silva pescaram juntos e decidiram vender o peixe em Terena, onde foi apregoado pelo tio Laurentino.
O Silva consegue, finalmente, convencer o nosso protagonista a combater na Guerra Civil de Espanha e combina o seu encontro, no moinho da Azenha del Rei, com Jacinto Cardoso, um homem de Terena já a combater em Espanha.
O Cardoso testava sempre os novos aspirantes a recruta de guerrilha, para lhe apreciar o grau de coragem revolucionária neles existentes, para isso apresentou-o a Luís Garçoa, que trabalhava no Monte da Estacada, em Espanha e auxiliava, às escondidas do patrão, o seu conterrâneo Jacinto Cardoso.
Os três homens conversavam sobre o perigo que estavam expostos, quando uma pomba branca em voo rasante passou rente a cabeça do Tonho Aperta.
O imprevisto e rápido voar da ave assustou os três companheiros de tal modo que o Cardoso chegou a pegar na espingarda.
O Garçoa, o mais calmo, observa a reação do nosso protagonista, que seguia com o olhar voo da pomba, e diz para o Cardoso
- O estado de espirito do Aperta nunca o deixará ser um guerrilheiro, torna-se presa fácil para o inimigo.
Jacinto Cardoso concordou.
Durante o caminho e apesar de constantemente o incentivar não lhe fora capaz de lhe alterar o ânimo.
O Silva tinha falhado, pela primeira vez, a prospeção deste recrutamento.
O Tonho partiu para Montejuntos, desanimado consigo próprio.
As silvas rasgavam-lhe as calças, os carapetos picavam-lhe o corpo e os alandros e as estevas chicoteavam-no.
Qualquer cova ou pedra mais saliente o fazia cair.
Pensou no suicídio e acabar assim com aquele sofrimento, mas o voo daquela ave impressionou tanto que o fazia caminhar até casa,
Sentia saudades da burra, da cabra a quem tinha, antes de partir, aberto as portas.
Quando se lembrava do harmónio soluçava e não continha as lágrimas.
Já perto do moinho da Cinza, por se lembrar que fora ali que pela primeira falara à Bia Figueiras, o único amor da vida, soltou um grito de raiva.
Raiva contra o destino, contra a sina que ele deveria ter lido e interpretado de maneira diferente, com um outro comportamento, sobretudo em relação à sua falecida.
O cão ouviu-o e ladrou-lhe.
- Cala-te piloto, até tu me escorraças - disse em tom desgostoso.
O piloto ouvindo-o corre de contentamento, empinou-se a ele e fê-lo sentar.
Lambeu-lhe as mãos sanguentadas de tanto cair e a cara golpeada pelos carrapetos e silvas. O Tonho sentiu-se acarinhado, sentimento que após a morte da Bia jamais sentira. Adormeceu por momentos e ganhou forças.
O cão seguiu-o durante algum tempo depois parou e sentou-se seguindo o Tonho de vista que sentindo a sua falta, lhe acenou.
Chegou a casa ao romper da aurora.
Ao abrir a porta uma pomba branca, que lhe pareceu a mesma do outro dia entra em casa, poisa nas costas da cadeira onde a Bia se sentava e rolou.
O Tonho julgou que teria fome.
De repente, abrindo a porta do quintal ouve o tremelicar dos lábios da burra e o som de um pequeno berro da cabra. Olhou em volta estava tudo como quando ele partira. Até o alecrim e o malmequer intensificaram os seus cheiros.
Só no pombal a pomba não estava.
Voltou a entra em casa e a ave continuava na cadeira.
Pareceu-lhe ver a Bia, ouviu a sua voz, olhou para o harmónio e viu-o a tocar o “Tango à média luz”, debruçou-se com a mesma vénia de quando ia buscar a Bia para dançar, em frente da pomba e dançou. Dançou maravilhosamente sentindo-se nos braços da Bia Figueiras, respirando o seu cheiro, sentindo o seu calor. E ela estava tão bonita e tão leve, que lhe apetecia morrer a dançar.
Ouve quem o ouvisse dizer “Olha Bia somos admirados” e cai desemparado no lajeado da cozinha, naquele dia frio como uma sepultura.
Testemunhos longínquos da época assim mo relataram, outros deles contemporâneos, contaram-me de maneira um pouco diferente.
Viram o tocador Aperta tocando a “Rosinha dos limões”, a seguir uma pomba branca, que lhe saiu de casa.
O povo de Montejuntos e de Ferreira, com o tio Mocho e o patrão, ao lado do Tonho, este sempre tocando, subiram a rua e pararam no terreiro da Santa Cruz.
Pessoas dignas de crédito e crentes, relataram-me que nunca, nem na romaria mais antiga do Concelho, a festa dos Prazeres, viram tanta gente e sentiram tanta fé. Uma fé diferente de todas as que até aí sentiram, uma fé de quem acredita na eternidade do amor, revelando o amor do Tonho e da Bia.
Pararam no terreiro onde a pomba pousada os esperava.
A multidão círculo deixou a pomba e o tocador no meio.
Como por encanto e soando cada vez mais alto ouve-se o “Cântigo das Oliveiras” tal como a Bia Figueiras o interpretava.
Em uníssono a multidão também cantou. A Bia parecia estar em cada um dos presentes.
O Tonho Aperta deixa o harmónio e num impulso incontrolável tenta agarrar a pomba, que foge voando, e ali acabou para sempre o nosso protagonista.
Com a fuga da pomba branca o “O Cântigo das Oliveiras” terminou, dando lugar a cenas e choro comoventes.
O harmónio está guardado, à espera de um novo tocador, no monte do Roncão, cujo lavrador, o senhor Zé Ramalho quando se referia ao seu criado Tonho Aperta, ousava sempre esta expressão de pena, “não morreu de velho morreu envelhecido por amor”
Durante muito tempo ouve quem visse a burra entre Faleiros e Montejuntos. Quando alguém a tentava apanhar, agora livre da pressão do contrabando e ciosa da liberdade que o dono lhe concedera, dava dois coices e fugia.
A cabra foi ter ao Moinho da Cinza onde acabou os seus dias.
E a bomba branca?
Houve e ainda há quem acredite que a pomba voltará, no dia três de Maio, numa Festa da Santa Cruz, para encarnar uma donzela, cuja voz, corpo e alma permita interpretar a Madalena como a Bia Figueiras sempre o fez.
A lenda da pomba branca confundia-se nos testemunhos que recolhi com a história do Tonho Aperta, do velho Aperta, a história de um tocador.
Hélder Salgado.
15-02-2012.
Thursday, February 09, 2012
Wednesday, January 11, 2012
Tuesday, January 03, 2012
NÃO HÁ NADA P´RA NINGUEM...VAMOS EMBORA "MANEL" (de uma canção de Mário Mata)
Extractos do Diário do Sul - http://www.imprensaregional.com.pt/diariodosul/ - de ontem 02 Janeiro
Saturday, December 03, 2011
MEMÓRIAS do Rufino Casablanca
Extracto da novela « Peças Soltas no Interior da Circunferência »
Do capítulo VII
« A Ala dos Caçadores »
.... e a mulher que acabava de surgir na semi-obscuridade em que a sala principal da “ala dos caçadores “ se encontrava, olhou para o espelho que trinta anos antes – quando abandonara a casa materna – também reflectira a sua imagem. Estava agora defronte do enorme espelho, de pé, a examinar a figura que lhe era devolvida. Era bonita, agora e antes, já lá iam tantos anos!; de uma beleza que poderia ser apodada de exótica. Tinha uns espantados olhos cinzentos, claros ou escuros, consoante o estado de espírito, mas sempre surpreendidos pelo mundo que a cada momento admiravam. Agora mesmo, ainda se espantava com a imagem que o espelho lhe devolvia e em que ela não acreditava: Via uma mulher a aproximar-se dos cinquenta anos, contemplando-se a si própria num traje de fim de semana, calças e camisolão largos, que tinham pertencido a sua mãe. Viera para pôr em ordem a parte da casa a que chamavam a ala dos caçadores, pois tencionava mudar-se definitivamente para o Monte do Meio.
Baldada intenção essa, a de arrumar a casa. Ficaria para depois, estava bem de ver.
Mal chegou, entrou em contacto com as primas que restavam do quarteto infernal que em tempos tinham constituído, e durante uma semana, ficaram estendidas naqueles velhos cadeirões, alimentando-se mal e falando todas ao mesmo tempo. Com longos silêncios pelo meio. Silêncios tão eloquentes como as palavras. Dormindo pouco, fumando e bebendo muito. Acertando contas com o passado, sobretudo com a recordação de Rosalía.
Eram a penúltima geração da família. A geração que tinha nascido no início da década de cinquenta, todas mulheres.
Os filhos desta geração já se encontravam espalhados pelo mundo – “ Fazendo o estágio da vida “ – no dizer castiço da Guadalupe, cujo filho se encontrava em Angola como piloto duma companhia aérea.
A única que tinha os filhos consigo era a Evita, que padecia de uma doença oncológica que, com frequência, obrigava ao seu internamento devido à violência dos tratamentos. – “ Uns chatos, eles e as mulheres “ – queixava-se a Evita. – “ Como se eu não me desenrascasse sozinha “ – acrescentava. Outra coisa que a fazia perder a paciência eram as visitas e telefonemas constantes de antigos amantes e namorados, preocupados com o seu estado. – “ Outros chatos. Como é que eu me deixei prender, em tempos que já lá vão, a alguns desses imbecis ? “ – perguntava, irritada, perante a estupefacção das outras.
E enquanto assim falava, ia enrolando mais um charro. A Guadalupe, de todas a mais calma, a que sempre fora a âncora do quarteto, a que mantinha os pés na terra, fosse qual fosse a situação, de imediato lhe tirava o paivante das mãos e o fumava ela, enquanto lhe ajeitava o lenço na cabeça.
A última vez que aquele grupo de mulheres, todas a raiar os cinquenta anos, primas irmãs e amigas, se tinha encontrado, seis meses antes, fora no funeral da Rosalía, cujo automóvel se enfiara debaixo de um camião na carretera entre Badajoz e Sevilha. Para todos tinha sido um acidente, inclusive para as autoridades e para os membros mais novos da família, mas nenhuma delas acreditava nisso. A Rosalía suicidara-se! Atirara o carro para debaixo das rodas do camião. Todas disso tinham a certeza, embora não houvesse provas concretas. A Guadalupe bem procurara alguma pista que as elucidasse, dando voltas e mais voltas aos baús, secretárias e armários da casa de Terena, casa que a Rosalía habitara desde que se separara do marido, em busca de uma certeza de que todas precisavam para arrumar a recordação e, finalmente, terem descanso.
Infrutífera busca.
Os últimos seis meses tinham sido vividos em constante e doloroso desassossego de espírito. A incerteza do que se tinha passado transformara a vida daquelas três mulheres.
E aquela semana que passaram juntas na sala grande da ala dos caçadores, no Monte do Meio, mais não fora que um luto colectivo. O luto que ainda não tinham feito em conjunto.
Não admira, portanto, que a Rosalía fosse o principal motivo de conversa durante essa semana.
Escalpelizaram-lhe a vida e os amores, as raivas e as paixões, a inteligência e as teimosias, os erros que teimara em cometer, as aventuras em que embarcara e as mágoas que curtira sozinha, enquanto todas as outras seguiram para outras vidas e outras paragens. Sobretudo depois do quarteto se desfazer.
Foi a Rosalía a presença mais constante durante aquela semana de ajustar contas com a vida.
E com a morte.
Estaria essa semana para continuar, transformar-se-ia num mês ou em dois, se não se desse a chegada do João António e da Rosário, respectivamente viúvo e filha da Rosalía.
Vinham para ficar uns tempos em Portugal.
Vivendo em Sevilha, e tendo sido informados pelos filhos de Evita, que aquela geração de mulheres estava encafuada há uma semana na ala dos caçadores, sem darem mostras de querer terminar a reunião, e sabendo todos que as mulheres Rodriguez Potra não tinham perto nem longe, conhecendo as suas inquietações e angustias, resolveram aparecer para tentar pôr termo a qualquer decisão mais radical que pudessem tomar.
Os dois filhos de Evita que também já tinham rondado o monte, tentando acabar com aquele conclave, mas tinham sido corridos com maus modos e com o argumento que os encontros dos mais velhos, naquela família, não eram interrompidos pela vontade dos gaiatos. Além disso, há séculos que aquela família era um matriarcado, as mulheres é que mandavam, os homens apenas serviam para fazer os filhos que elas depois se encarregariam de criar. Foi com estas palavras que aqueles dois homens, gémeos, com quase trinta anos, já pais de família, foram postos fora do Monte do Meio. Que aguardassem ou então que voltassem para Lisboa, para suas casas, que era onde deviam estar. E que levassem com eles as respectivas mulheres e filhos. Esta última parte foi-lhes dita pela própria mãe. De nada valendo a preocupação que demonstravam pela saúde dela.
A chegada de João António e da filha alterou a vontade daquelas quatro mulheres. Fê-las encarar a realidade. Nada podiam fazer para trazer de volta a Rosalía. E a presença do marido e da filha, principalmente da filha, uma Rodriguez Potra, embora de tiragem mais recente, tornou impossível a continuação de uma conversa que estava a tornar-se doentia.
Esta situação era possível porque na família, há muitas gerações que não se faziam partilhas. Tudo era de todos e utilizável por todos. As três propriedades da família, espalhadas por um perímetro relativamente pequeno, que serviam de residência aos que se tinham mantido pela região, estavam sempre abertas aos que chegavam para passar uns tempos. Sempre assim tinha sido no passado e continuaria a ser enquanto as sucessivas gerações quisessem manter a tradição. A chegada de Rosário, acompanhada de seu pai, para passar uns tempos no Monte do Meio, foi respeitada pelas mulheres mais velhas, colocando fim àquilo que já parecia uma paranóia.
Quanto à mulher com que abriu este capítulo da narrativa, a que se estava mirando no espelho, continuou a arranjar ao seu jeito a ala dos caçadores, com vista a uma mudança, mais ou menos definitiva, para o Monte do Meio, não apenas porque se tinha cansado da cidade, mas também porque a Evita iria precisar de quem a acompanhasse no mau momento porque estava a passar, já que o relacionamento da prima com os filhos e as noras não era o melhor, conforme já ficou bem claro.
Rosário, assim se chamava esta mulher.
Convém explicar que um dos hábitos enraizados nesta família, era o de dar às gerações mais novas os mesmos nomes da geração anterior. Às filhas nunca era dado o nome das mães, mas sempre tomavam o nome das tias ou primas. Assim, tanto quanto as recordações recuavam no passado, sempre repetidas pelos mais velhos, e os documentos e fotografias permitiam comprovar, havia uma infinidade de Matildas, Guadalupes, Rosalías, Evas e Rosários em todas as gerações. Nos raros nascimentos de filhos varões era utilizada a mesma prática. E aquando dos casamentos, a parte que passava a integrar a família, era sempre previamente informada de que a escolha do nome das crianças que viessem a nascer, era sempre decidida pelo membro do casal que pertencia aos Rodriguez Potra. Nem sempre os noivos – ou noivas – aceitaram essas condições, tendo havido noivados que foram desfeitos à beira do casamento por esse motivo.
Nunca, porém, a tradição fora abandonada.
Rufino Casablanca
Monte do Meio – Janeiro de 2000
Do capítulo VII
« A Ala dos Caçadores »
.... e a mulher que acabava de surgir na semi-obscuridade em que a sala principal da “ala dos caçadores “ se encontrava, olhou para o espelho que trinta anos antes – quando abandonara a casa materna – também reflectira a sua imagem. Estava agora defronte do enorme espelho, de pé, a examinar a figura que lhe era devolvida. Era bonita, agora e antes, já lá iam tantos anos!; de uma beleza que poderia ser apodada de exótica. Tinha uns espantados olhos cinzentos, claros ou escuros, consoante o estado de espírito, mas sempre surpreendidos pelo mundo que a cada momento admiravam. Agora mesmo, ainda se espantava com a imagem que o espelho lhe devolvia e em que ela não acreditava: Via uma mulher a aproximar-se dos cinquenta anos, contemplando-se a si própria num traje de fim de semana, calças e camisolão largos, que tinham pertencido a sua mãe. Viera para pôr em ordem a parte da casa a que chamavam a ala dos caçadores, pois tencionava mudar-se definitivamente para o Monte do Meio.
Baldada intenção essa, a de arrumar a casa. Ficaria para depois, estava bem de ver.
Mal chegou, entrou em contacto com as primas que restavam do quarteto infernal que em tempos tinham constituído, e durante uma semana, ficaram estendidas naqueles velhos cadeirões, alimentando-se mal e falando todas ao mesmo tempo. Com longos silêncios pelo meio. Silêncios tão eloquentes como as palavras. Dormindo pouco, fumando e bebendo muito. Acertando contas com o passado, sobretudo com a recordação de Rosalía.
Eram a penúltima geração da família. A geração que tinha nascido no início da década de cinquenta, todas mulheres.
Os filhos desta geração já se encontravam espalhados pelo mundo – “ Fazendo o estágio da vida “ – no dizer castiço da Guadalupe, cujo filho se encontrava em Angola como piloto duma companhia aérea.
A única que tinha os filhos consigo era a Evita, que padecia de uma doença oncológica que, com frequência, obrigava ao seu internamento devido à violência dos tratamentos. – “ Uns chatos, eles e as mulheres “ – queixava-se a Evita. – “ Como se eu não me desenrascasse sozinha “ – acrescentava. Outra coisa que a fazia perder a paciência eram as visitas e telefonemas constantes de antigos amantes e namorados, preocupados com o seu estado. – “ Outros chatos. Como é que eu me deixei prender, em tempos que já lá vão, a alguns desses imbecis ? “ – perguntava, irritada, perante a estupefacção das outras.
E enquanto assim falava, ia enrolando mais um charro. A Guadalupe, de todas a mais calma, a que sempre fora a âncora do quarteto, a que mantinha os pés na terra, fosse qual fosse a situação, de imediato lhe tirava o paivante das mãos e o fumava ela, enquanto lhe ajeitava o lenço na cabeça.
A última vez que aquele grupo de mulheres, todas a raiar os cinquenta anos, primas irmãs e amigas, se tinha encontrado, seis meses antes, fora no funeral da Rosalía, cujo automóvel se enfiara debaixo de um camião na carretera entre Badajoz e Sevilha. Para todos tinha sido um acidente, inclusive para as autoridades e para os membros mais novos da família, mas nenhuma delas acreditava nisso. A Rosalía suicidara-se! Atirara o carro para debaixo das rodas do camião. Todas disso tinham a certeza, embora não houvesse provas concretas. A Guadalupe bem procurara alguma pista que as elucidasse, dando voltas e mais voltas aos baús, secretárias e armários da casa de Terena, casa que a Rosalía habitara desde que se separara do marido, em busca de uma certeza de que todas precisavam para arrumar a recordação e, finalmente, terem descanso.
Infrutífera busca.
Os últimos seis meses tinham sido vividos em constante e doloroso desassossego de espírito. A incerteza do que se tinha passado transformara a vida daquelas três mulheres.
E aquela semana que passaram juntas na sala grande da ala dos caçadores, no Monte do Meio, mais não fora que um luto colectivo. O luto que ainda não tinham feito em conjunto.
Não admira, portanto, que a Rosalía fosse o principal motivo de conversa durante essa semana.
Escalpelizaram-lhe a vida e os amores, as raivas e as paixões, a inteligência e as teimosias, os erros que teimara em cometer, as aventuras em que embarcara e as mágoas que curtira sozinha, enquanto todas as outras seguiram para outras vidas e outras paragens. Sobretudo depois do quarteto se desfazer.
Foi a Rosalía a presença mais constante durante aquela semana de ajustar contas com a vida.
E com a morte.
Estaria essa semana para continuar, transformar-se-ia num mês ou em dois, se não se desse a chegada do João António e da Rosário, respectivamente viúvo e filha da Rosalía.
Vinham para ficar uns tempos em Portugal.
Vivendo em Sevilha, e tendo sido informados pelos filhos de Evita, que aquela geração de mulheres estava encafuada há uma semana na ala dos caçadores, sem darem mostras de querer terminar a reunião, e sabendo todos que as mulheres Rodriguez Potra não tinham perto nem longe, conhecendo as suas inquietações e angustias, resolveram aparecer para tentar pôr termo a qualquer decisão mais radical que pudessem tomar.
Os dois filhos de Evita que também já tinham rondado o monte, tentando acabar com aquele conclave, mas tinham sido corridos com maus modos e com o argumento que os encontros dos mais velhos, naquela família, não eram interrompidos pela vontade dos gaiatos. Além disso, há séculos que aquela família era um matriarcado, as mulheres é que mandavam, os homens apenas serviam para fazer os filhos que elas depois se encarregariam de criar. Foi com estas palavras que aqueles dois homens, gémeos, com quase trinta anos, já pais de família, foram postos fora do Monte do Meio. Que aguardassem ou então que voltassem para Lisboa, para suas casas, que era onde deviam estar. E que levassem com eles as respectivas mulheres e filhos. Esta última parte foi-lhes dita pela própria mãe. De nada valendo a preocupação que demonstravam pela saúde dela.
A chegada de João António e da filha alterou a vontade daquelas quatro mulheres. Fê-las encarar a realidade. Nada podiam fazer para trazer de volta a Rosalía. E a presença do marido e da filha, principalmente da filha, uma Rodriguez Potra, embora de tiragem mais recente, tornou impossível a continuação de uma conversa que estava a tornar-se doentia.
Esta situação era possível porque na família, há muitas gerações que não se faziam partilhas. Tudo era de todos e utilizável por todos. As três propriedades da família, espalhadas por um perímetro relativamente pequeno, que serviam de residência aos que se tinham mantido pela região, estavam sempre abertas aos que chegavam para passar uns tempos. Sempre assim tinha sido no passado e continuaria a ser enquanto as sucessivas gerações quisessem manter a tradição. A chegada de Rosário, acompanhada de seu pai, para passar uns tempos no Monte do Meio, foi respeitada pelas mulheres mais velhas, colocando fim àquilo que já parecia uma paranóia.
Quanto à mulher com que abriu este capítulo da narrativa, a que se estava mirando no espelho, continuou a arranjar ao seu jeito a ala dos caçadores, com vista a uma mudança, mais ou menos definitiva, para o Monte do Meio, não apenas porque se tinha cansado da cidade, mas também porque a Evita iria precisar de quem a acompanhasse no mau momento porque estava a passar, já que o relacionamento da prima com os filhos e as noras não era o melhor, conforme já ficou bem claro.
Rosário, assim se chamava esta mulher.
Convém explicar que um dos hábitos enraizados nesta família, era o de dar às gerações mais novas os mesmos nomes da geração anterior. Às filhas nunca era dado o nome das mães, mas sempre tomavam o nome das tias ou primas. Assim, tanto quanto as recordações recuavam no passado, sempre repetidas pelos mais velhos, e os documentos e fotografias permitiam comprovar, havia uma infinidade de Matildas, Guadalupes, Rosalías, Evas e Rosários em todas as gerações. Nos raros nascimentos de filhos varões era utilizada a mesma prática. E aquando dos casamentos, a parte que passava a integrar a família, era sempre previamente informada de que a escolha do nome das crianças que viessem a nascer, era sempre decidida pelo membro do casal que pertencia aos Rodriguez Potra. Nem sempre os noivos – ou noivas – aceitaram essas condições, tendo havido noivados que foram desfeitos à beira do casamento por esse motivo.
Nunca, porém, a tradição fora abandonada.
Rufino Casablanca
Monte do Meio – Janeiro de 2000
Tuesday, November 22, 2011
MEMÓRIAS do Rufino Casablanca
Em memória de Rufino Casablanca
« Amor e Sexo nas Margens da Ribeira do Lucefecit ao Longo dos Séculos »
___ Em Busca das Origens dos Rodriguez Potra ___
(Extracto da novela “ Peças Soltas no Interior da Circunferência “)
Durante a dinastia Filipina, quando a Espanha e Portugal tinham o mesmo rei, o bispo de Plasência, D. Alonso de Rivera, seguindo os conselhos do irmão, D. Francisco de Rivera, na altura vice-rei do Peru, mandou armar a custas suas uma frota de quatro navios, tendo confiado o comando-geral a um tal Juan José Rodriguez Potra, notável piloto que já tinha participado em várias viagens às costas ocidentais da índias espanholas. De facto, este Juan José Rodriguez Potra, era um experimentado marinheiro que, ao serviço da coroa espanhola, já participara em muitos actos de conquista dos territórios mais meridionais do continente que hoje é conhecido por América do Sul.
Com raízes em Olivenza, era o filho mais novo d’uma família de pequenos proprietários rurais, que possuía várias courelas na região de Olivenza, Landroal e Terena. Com a morte dos pais, os irmãos mais velhos, ficaram com a maior parte do espólio da família, tendo ele herdado apenas uma pequena propriedade no arredores de Terena. Homem ambicioso, depois de várias tentativas frustradas de fazer vida em Portugal e Espanha, embarcara para os Brasis e por lá se fizera mestre na arte da marinhagem.
Profundo conhecedor das cartas de marear daquelas paragens e das dificuldades que o estreito de Magalhães oferecia na travessia para o oceano Pacífico, e com um grande dom de comando, dificilmente o bispo de Plasência arranjaria quem melhor desempenhasse as funções de capitão-mor da sua frota.
Estando tudo pronto para a partida, zarpou do porto de Cádiz a 12 de Maio de 1590. Era a frota composta por dois galeões e dois bergantins, estes com a incumbência de montar a segurança dos navios maiores, pois a pirataria era usual por essa época. O objectivo da viagem era trazer um carregamento de prata e ouro, pedras preciosas, e a maior quantidade possível de madeiras raras.
Foi uma viagem sem história.
Depois de escalas nas Canárias, Cabo Verde e S. Salvador da Bahía, a travessia do mal afamado e perigoso estreito de Magalhães, foi uma brincadeira para o conhecimento e perícia do capitão da frota.
Já no oceano Pacífico, a navegação foi isso mesmo : Uma navegação pacífica.
Aportaram a Valparaíso, hoje parte do Chile, mas nessa época integrando ainda o vice-reino do Peru.
À chegada, tudo estava a postos para o carregamento.
O vice-rei do Peru, D. Francisco de Rivera, irmão do bispo que armara a frota, também ele parte interessada, tinha cumprido com o anteriormente combinado.
Levantaram ferro seis meses depois, bem abastecidos de provisões, com as tripulações folgadas e os navios reparados, pois uma navegação tão demorada, embora calma, sempre provoca alguns danos.
O regresso foi também uma viagem sem história.
Regressaram a Cádiz dois anos depois de terem partido.
As únicas baixas registadas nos diários de bordo, ficaram a dever-se a algumas brigas de marinheiros, a alguns tripulantes que desertaram em Valparaíso, e a uns tantos que morreram de febres tropicais. Tudo junto não somava mais de trinta homens.
Dividiram-se os proventos da viagem, em Sevilha, nas percentagens previamente combinadas.
Assim ficou o Juan José Rodriguez Potra um homem rico. Rico e com uma escrava por companheira.
Esta situação tem explicação e vamos dá-la de imediato para não atrasar o resto da narrativa.
Foi assim :
Aquando da permanência da frota em Valparaíso, durante a estiva da carga e enquanto se reparavam os navios, esperando ventos de feição para se fazerem ao mar, Juan José Rodriguez Potra, foi convidado a viver na residência do vice-rei . Foi posta à sua disposição toda uma ala do palacete. Numa das primeiras noites que passou em terra, depois de se deitar, apareceu no quarto uma mulher que disse ir fazer-lhe companhia por ordem do vice-rei. Era uma índia muito alta, da altura do Juan José, de feições angulosas e com uns enormes olhos cinzentos. Mulher bonita, com aquele tipo de beleza que ainda hoje é possível admirar nas mulheres daquela parte do mundo. Inicialmente, Juan José, não entendeu bem o que o que o vice-rei pretendia com aquele gesto, mas quando se meteu na cama com a mulher, desforrou-se de tantos meses de abstinência. Todas as manhãs, ao acordarem, ela sumia-se pelos corredores, tão muda como quando à noite vinha ter com ele. Durante o dia não lhe punha a vista em cima, mas depois da ceia, normalmente feita na companhia do vice-rei, quando se retirava para o seu quarto, já a encontrava na cama, esperando-o.
E foi assim durante toda a permanência da frota em Valparaíso.
Na véspera da largada da frota, de regresso a Espanha , ela falou com ele pela segunda vez, e explicando-se em bom castelhano, pediu-lhe para a levar para a terra dos brancos. – “ Ali, não passava de uma escrava, e nada a prendia àquela terra, depois de ter assistido à morte de toda a sua família “ – .
De imediato se decidiu. O vice-rei ainda o alertou para o perigo que seria meter uma mulher num barco rodeada de várias dezenas de homens, mas nem esse argumento o demoveu. Assim, no dia do embarque, levou-a para o camarote, vestida com trajos masculinos, dizendo que comprara aquele escravo para o servir em Espanha. E foi nessa qualidade que a desembarcou em Cádiz.
Quem ler esta narrativa dirá que parece um conto de fadas. – Uma viagem de muitos meses de duração, feita em navios de madeira, por regiões inóspitas, ainda mal conhecidas e mal cartografadas, sem tempestades, sem ataques de piratas numa altura em que os mares estavam infestados deles, uma mulher a bordo d’um navio, carregado de prata, ouro e pedras preciosas, rodeada por quase uma centena de homens, e desembarcada em Espanha numa altura em que este país era o mais poderoso do mundo.
Parece, de facto, um conto de fadas.
Mas não é !
E o que tem a ribeira do Lucefecit a ver com isto ?
Vejamos :
Após o desembarque e depois de feitas as contas, Juan José Rodriguez Potra, agora um homem rico, conforme já todos sabem, acompanhado pela sua escrava que, altiva e cor de cobre, a todos encantava com a sua beleza, realçada pelas vestes que imediatamente compraram.
Nesta fase da narrativa, é altura de lhe dar um nome cristão – Guadalupe – assim se chamou por iniciativa do companheiro.
Há, porém, um pormenor que ainda não foi dado a conhecer : Na parte final da viagem, depois da escala feita na ilha do Porto Santo, O Juan José, começou a sentir-se muito mal, tomado por febres altíssimas. Foi de grande préstimo, nessa altura, a ajuda dada pelo padre jesuíta que acompanhava a expedição. Esse padre, que tinha como incumbência a salvação das almas, tinha também conhecimentos médicos e foi graças a ele que o capitão-mor se livrou dessa maleita antes da chegada a Cádiz.
Depois da chegada, durante os primeiros tempos passados em Espanha e depois em Lisboa, mesmo depois de voltarem para a pequena propriedade que o Juan José possuía em Terena, essas febres voltavam com muita frequência a atormentá-lo.
Ele, que tinha navegado pelos sete mares, sempre incólume a epidemias e febres, que frequentemente dizimavam as tripulações, via-se agora cada vez mais fraco e doente, de nada lhe servindo as riquezas que acumulara.
Foi por essa altura que Guadalupe deu mostras do seu valor. Quando o marido – sim, marido, pois o Juan José quisera regularizar a situação e casaram na ermida de Nossa Senhora da Fonte Santa – começou a ficar doente, foi ela quem investiu os cabedais que tinham sobrado da viagem às américas. Comprou terras que anexou às que já tinham, assim como se fez de propriedades em Capelins e até em Espanha.
Quando, passados cinco anos, o Juan José fechou os olhos, deixou para trás toda uma vida de aventuras e uma razoável fortuna. Deixou também uma viúva muito bonita, de uma beleza exótica e na flor da idade. E dois filhos. Dois filhos caldeados de sangues ibérico e dos confins das américas.
Guadalupe não voltou a casar. E não foi por falta de pretendentes. Muitos apareceram atraídos pela sua beleza, e também pelas suas posses, diga-se. Fez até uma vida de clausura, encafuada no monte do Meio, transformado agora num grande casarão, e de onde administrava todos os seus bens.
Entretanto começou a correr o rumor que junto às margens da ribeira do Lucefecit, a jusante da ermida da Fonte Santa, aparecia uma mulher de grande beleza, cor de cobre, apenas coberta com alvos panos e montada num cavalo baio, que desafiava para práticas impuras qualquer cavaleiro, servo ou almocreve, que com ela se cruzasse. Até se dizia que homem que se prestasse a tais práticas ficava amaldiçoado. E olhava-se de soslaio na direcção do monte do Meio quando, nas tabernas, esta conversa vinha à baila.
Quando Guadalupe morreu, quase quarenta anos depois, deixou cinco filhos. Os dois que já tinha quando o marido era vivo, e mais três que foram nascendo depois. Levou com ela o segredo do nome dos pais dos últimos três, porém, todos foram baptizados com os apelidos Rodriguez Potra. E todos os cinco tinham aqueles enormes olhos cinzentos da mãe, de tal maneira marcantes, que ainda hoje se podem ver nos descendentes desta família.
FIM
Rufino Casablanca
Monte do Meio, Agosto de 2000
« Amor e Sexo nas Margens da Ribeira do Lucefecit ao Longo dos Séculos »
___ Em Busca das Origens dos Rodriguez Potra ___
(Extracto da novela “ Peças Soltas no Interior da Circunferência “)
Durante a dinastia Filipina, quando a Espanha e Portugal tinham o mesmo rei, o bispo de Plasência, D. Alonso de Rivera, seguindo os conselhos do irmão, D. Francisco de Rivera, na altura vice-rei do Peru, mandou armar a custas suas uma frota de quatro navios, tendo confiado o comando-geral a um tal Juan José Rodriguez Potra, notável piloto que já tinha participado em várias viagens às costas ocidentais da índias espanholas. De facto, este Juan José Rodriguez Potra, era um experimentado marinheiro que, ao serviço da coroa espanhola, já participara em muitos actos de conquista dos territórios mais meridionais do continente que hoje é conhecido por América do Sul.
Com raízes em Olivenza, era o filho mais novo d’uma família de pequenos proprietários rurais, que possuía várias courelas na região de Olivenza, Landroal e Terena. Com a morte dos pais, os irmãos mais velhos, ficaram com a maior parte do espólio da família, tendo ele herdado apenas uma pequena propriedade no arredores de Terena. Homem ambicioso, depois de várias tentativas frustradas de fazer vida em Portugal e Espanha, embarcara para os Brasis e por lá se fizera mestre na arte da marinhagem.
Profundo conhecedor das cartas de marear daquelas paragens e das dificuldades que o estreito de Magalhães oferecia na travessia para o oceano Pacífico, e com um grande dom de comando, dificilmente o bispo de Plasência arranjaria quem melhor desempenhasse as funções de capitão-mor da sua frota.
Estando tudo pronto para a partida, zarpou do porto de Cádiz a 12 de Maio de 1590. Era a frota composta por dois galeões e dois bergantins, estes com a incumbência de montar a segurança dos navios maiores, pois a pirataria era usual por essa época. O objectivo da viagem era trazer um carregamento de prata e ouro, pedras preciosas, e a maior quantidade possível de madeiras raras.
Foi uma viagem sem história.
Depois de escalas nas Canárias, Cabo Verde e S. Salvador da Bahía, a travessia do mal afamado e perigoso estreito de Magalhães, foi uma brincadeira para o conhecimento e perícia do capitão da frota.
Já no oceano Pacífico, a navegação foi isso mesmo : Uma navegação pacífica.
Aportaram a Valparaíso, hoje parte do Chile, mas nessa época integrando ainda o vice-reino do Peru.
À chegada, tudo estava a postos para o carregamento.
O vice-rei do Peru, D. Francisco de Rivera, irmão do bispo que armara a frota, também ele parte interessada, tinha cumprido com o anteriormente combinado.
Levantaram ferro seis meses depois, bem abastecidos de provisões, com as tripulações folgadas e os navios reparados, pois uma navegação tão demorada, embora calma, sempre provoca alguns danos.
O regresso foi também uma viagem sem história.
Regressaram a Cádiz dois anos depois de terem partido.
As únicas baixas registadas nos diários de bordo, ficaram a dever-se a algumas brigas de marinheiros, a alguns tripulantes que desertaram em Valparaíso, e a uns tantos que morreram de febres tropicais. Tudo junto não somava mais de trinta homens.
Dividiram-se os proventos da viagem, em Sevilha, nas percentagens previamente combinadas.
Assim ficou o Juan José Rodriguez Potra um homem rico. Rico e com uma escrava por companheira.
Esta situação tem explicação e vamos dá-la de imediato para não atrasar o resto da narrativa.
Foi assim :
Aquando da permanência da frota em Valparaíso, durante a estiva da carga e enquanto se reparavam os navios, esperando ventos de feição para se fazerem ao mar, Juan José Rodriguez Potra, foi convidado a viver na residência do vice-rei . Foi posta à sua disposição toda uma ala do palacete. Numa das primeiras noites que passou em terra, depois de se deitar, apareceu no quarto uma mulher que disse ir fazer-lhe companhia por ordem do vice-rei. Era uma índia muito alta, da altura do Juan José, de feições angulosas e com uns enormes olhos cinzentos. Mulher bonita, com aquele tipo de beleza que ainda hoje é possível admirar nas mulheres daquela parte do mundo. Inicialmente, Juan José, não entendeu bem o que o que o vice-rei pretendia com aquele gesto, mas quando se meteu na cama com a mulher, desforrou-se de tantos meses de abstinência. Todas as manhãs, ao acordarem, ela sumia-se pelos corredores, tão muda como quando à noite vinha ter com ele. Durante o dia não lhe punha a vista em cima, mas depois da ceia, normalmente feita na companhia do vice-rei, quando se retirava para o seu quarto, já a encontrava na cama, esperando-o.
E foi assim durante toda a permanência da frota em Valparaíso.
Na véspera da largada da frota, de regresso a Espanha , ela falou com ele pela segunda vez, e explicando-se em bom castelhano, pediu-lhe para a levar para a terra dos brancos. – “ Ali, não passava de uma escrava, e nada a prendia àquela terra, depois de ter assistido à morte de toda a sua família “ – .
De imediato se decidiu. O vice-rei ainda o alertou para o perigo que seria meter uma mulher num barco rodeada de várias dezenas de homens, mas nem esse argumento o demoveu. Assim, no dia do embarque, levou-a para o camarote, vestida com trajos masculinos, dizendo que comprara aquele escravo para o servir em Espanha. E foi nessa qualidade que a desembarcou em Cádiz.
Quem ler esta narrativa dirá que parece um conto de fadas. – Uma viagem de muitos meses de duração, feita em navios de madeira, por regiões inóspitas, ainda mal conhecidas e mal cartografadas, sem tempestades, sem ataques de piratas numa altura em que os mares estavam infestados deles, uma mulher a bordo d’um navio, carregado de prata, ouro e pedras preciosas, rodeada por quase uma centena de homens, e desembarcada em Espanha numa altura em que este país era o mais poderoso do mundo.
Parece, de facto, um conto de fadas.
Mas não é !
E o que tem a ribeira do Lucefecit a ver com isto ?
Vejamos :
Após o desembarque e depois de feitas as contas, Juan José Rodriguez Potra, agora um homem rico, conforme já todos sabem, acompanhado pela sua escrava que, altiva e cor de cobre, a todos encantava com a sua beleza, realçada pelas vestes que imediatamente compraram.
Nesta fase da narrativa, é altura de lhe dar um nome cristão – Guadalupe – assim se chamou por iniciativa do companheiro.
Há, porém, um pormenor que ainda não foi dado a conhecer : Na parte final da viagem, depois da escala feita na ilha do Porto Santo, O Juan José, começou a sentir-se muito mal, tomado por febres altíssimas. Foi de grande préstimo, nessa altura, a ajuda dada pelo padre jesuíta que acompanhava a expedição. Esse padre, que tinha como incumbência a salvação das almas, tinha também conhecimentos médicos e foi graças a ele que o capitão-mor se livrou dessa maleita antes da chegada a Cádiz.
Depois da chegada, durante os primeiros tempos passados em Espanha e depois em Lisboa, mesmo depois de voltarem para a pequena propriedade que o Juan José possuía em Terena, essas febres voltavam com muita frequência a atormentá-lo.
Ele, que tinha navegado pelos sete mares, sempre incólume a epidemias e febres, que frequentemente dizimavam as tripulações, via-se agora cada vez mais fraco e doente, de nada lhe servindo as riquezas que acumulara.
Foi por essa altura que Guadalupe deu mostras do seu valor. Quando o marido – sim, marido, pois o Juan José quisera regularizar a situação e casaram na ermida de Nossa Senhora da Fonte Santa – começou a ficar doente, foi ela quem investiu os cabedais que tinham sobrado da viagem às américas. Comprou terras que anexou às que já tinham, assim como se fez de propriedades em Capelins e até em Espanha.
Quando, passados cinco anos, o Juan José fechou os olhos, deixou para trás toda uma vida de aventuras e uma razoável fortuna. Deixou também uma viúva muito bonita, de uma beleza exótica e na flor da idade. E dois filhos. Dois filhos caldeados de sangues ibérico e dos confins das américas.
Guadalupe não voltou a casar. E não foi por falta de pretendentes. Muitos apareceram atraídos pela sua beleza, e também pelas suas posses, diga-se. Fez até uma vida de clausura, encafuada no monte do Meio, transformado agora num grande casarão, e de onde administrava todos os seus bens.
Entretanto começou a correr o rumor que junto às margens da ribeira do Lucefecit, a jusante da ermida da Fonte Santa, aparecia uma mulher de grande beleza, cor de cobre, apenas coberta com alvos panos e montada num cavalo baio, que desafiava para práticas impuras qualquer cavaleiro, servo ou almocreve, que com ela se cruzasse. Até se dizia que homem que se prestasse a tais práticas ficava amaldiçoado. E olhava-se de soslaio na direcção do monte do Meio quando, nas tabernas, esta conversa vinha à baila.
Quando Guadalupe morreu, quase quarenta anos depois, deixou cinco filhos. Os dois que já tinha quando o marido era vivo, e mais três que foram nascendo depois. Levou com ela o segredo do nome dos pais dos últimos três, porém, todos foram baptizados com os apelidos Rodriguez Potra. E todos os cinco tinham aqueles enormes olhos cinzentos da mãe, de tal maneira marcantes, que ainda hoje se podem ver nos descendentes desta família.
FIM
Rufino Casablanca
Monte do Meio, Agosto de 2000
Tuesday, November 08, 2011
MEMÓRIAS do Rufino Casablanca
« Amor e Sexo nas Margens da Ribeira do Lucefecit ao Longo dos Tempos »
1990
Tinham-se conhecido no jantar convívio oferecido pela associação local de criadores de gado ovino durante a feira anual de Reguengos de Monsaraz. Ela, acompanhante de profissão, fora contratada, e paga antecipadamente, por um velho e importante criador desses animais para lhe fazer companhia durante o evento. Impossibilitada pelo protocolo, de ficar sentada ao lado do contratante, fora atirada para uma das mesas ao fundo da sala. Era uma situação que se repetia com frequência; quem contratava a sua companhia, normalmente, apenas a queria a seu lado na cama. Assim, acabou por ficar sentada ao lado de um jovem rapaz que nem vinte anos teria e que, manifestamente, também ali estava a fazer um frete. Os dois excluídos do negócio das ovelhas, de lãs, leite e queijos. Perspicaz, o rapaz rapidamente compreendeu o que ela ali fazia, e lá pela altura da sobremesa, propôs que ambos fossem tomar o café longe daquele lugar. Convite que ela acolheu com agrado, pois estava a adivinhar um resto de noite aborrecida na companhia do velho. Depois do café e de uma conversa mais franca, séria e objectiva, acabaram num dos quartos da casa de turismo rural, situada numa vila a norte de Reguengos. “Casa de Terena”, assim se chamava o estabelecimento, ali mesmo, na vizinhança de um velho castelo medieval. Até porque ela também estava a precisar de uma boa sessão de sexo, e não daquelas enfadonhas noites que cumpria por obrigação. O rapaz revelou-se à altura das circunstâncias; nem a deixou tirar a roupa, apenas lhe desviou as cuequinhas. E depois da pausa para os cigarros, atirou-se a ela novamente. Há muito que a rapariga não encontrava um homem que tão completamente a satisfizesse. Quando passado algum tempo, olhou para o companheiro, decidiu ser profissional e dar-lhe uma amostra do que era uma boa noite de sexo. Por agradecimento, apenas. Ergueu-se da cama, baixou as alças do vestido e deixou-o cair aos pés. Apareceu então esplendorosa, com as peças de lingerie a destacar-se da pele de tom moreno. O soutien caiu-lhe também aos pés, deixando à vontade dois seios pequenos que exibiam uma cor mais clara, marcando os limites do biquini. Das cuequinhas, muito reduzidas, saíam pêlos por todos os lados. As coxas ginasticadas, musculosas mesmo, denunciando muitas horas de ginásio, também exibiam as marcas do biquini. Aproximou-se dele que ainda se encontrava recostado na cama e decidiu proporcionar-lhe um mergulho de gozo vertiginoso. Meteu a mão por entre as boxers e verificou que o companheiro estava a meia-haste, estava maleável, quase frouxo; estava ainda cansado das arremetidas iniciais.
“ Vamos lá operar aqui um milagre “ – pensou.
Sentiu-o crescer na boca, tomando forma. E foi então que a mulher, com muito cuidado para não morder, para não magoar, aplicou os dentes na operação. Rodeou-o com o marfim duma dentadura alvíssima e, lentamente, sentindo-o pulsar, deu umas dentadinhas muito suaves, desviando-se a tempo de não ser atingida pela explosão que se seguiu.
O rapaz, que nunca tinha passado por semelhantes sensações, assombrado ainda, entrou em confidências, e disse-lhe que pertencia a uma família que vivia numa herdade nos arredores da vila em que se encontravam. No Monte do Meio, no dia seguinte, iria haver um almoço familiar, e queria que ela o acompanhasse para a apresentar à família como sua noiva, tal o deslumbramento em que se encontrava. A seguir adormeceu, exausto.
Ela, enquanto se vestia, aproximou-se da janela e viu a lua espelhada nas águas da albufeira do Lucefecit.
O luar de Agosto cumpria a sua obrigação.
Em seguida saiu do quarto, fechando a porta com cuidado, para que ele não acordasse, e desapareceu.
FIM
Rufino Casablanca – Monte do Meio – 1999
1990
Tinham-se conhecido no jantar convívio oferecido pela associação local de criadores de gado ovino durante a feira anual de Reguengos de Monsaraz. Ela, acompanhante de profissão, fora contratada, e paga antecipadamente, por um velho e importante criador desses animais para lhe fazer companhia durante o evento. Impossibilitada pelo protocolo, de ficar sentada ao lado do contratante, fora atirada para uma das mesas ao fundo da sala. Era uma situação que se repetia com frequência; quem contratava a sua companhia, normalmente, apenas a queria a seu lado na cama. Assim, acabou por ficar sentada ao lado de um jovem rapaz que nem vinte anos teria e que, manifestamente, também ali estava a fazer um frete. Os dois excluídos do negócio das ovelhas, de lãs, leite e queijos. Perspicaz, o rapaz rapidamente compreendeu o que ela ali fazia, e lá pela altura da sobremesa, propôs que ambos fossem tomar o café longe daquele lugar. Convite que ela acolheu com agrado, pois estava a adivinhar um resto de noite aborrecida na companhia do velho. Depois do café e de uma conversa mais franca, séria e objectiva, acabaram num dos quartos da casa de turismo rural, situada numa vila a norte de Reguengos. “Casa de Terena”, assim se chamava o estabelecimento, ali mesmo, na vizinhança de um velho castelo medieval. Até porque ela também estava a precisar de uma boa sessão de sexo, e não daquelas enfadonhas noites que cumpria por obrigação. O rapaz revelou-se à altura das circunstâncias; nem a deixou tirar a roupa, apenas lhe desviou as cuequinhas. E depois da pausa para os cigarros, atirou-se a ela novamente. Há muito que a rapariga não encontrava um homem que tão completamente a satisfizesse. Quando passado algum tempo, olhou para o companheiro, decidiu ser profissional e dar-lhe uma amostra do que era uma boa noite de sexo. Por agradecimento, apenas. Ergueu-se da cama, baixou as alças do vestido e deixou-o cair aos pés. Apareceu então esplendorosa, com as peças de lingerie a destacar-se da pele de tom moreno. O soutien caiu-lhe também aos pés, deixando à vontade dois seios pequenos que exibiam uma cor mais clara, marcando os limites do biquini. Das cuequinhas, muito reduzidas, saíam pêlos por todos os lados. As coxas ginasticadas, musculosas mesmo, denunciando muitas horas de ginásio, também exibiam as marcas do biquini. Aproximou-se dele que ainda se encontrava recostado na cama e decidiu proporcionar-lhe um mergulho de gozo vertiginoso. Meteu a mão por entre as boxers e verificou que o companheiro estava a meia-haste, estava maleável, quase frouxo; estava ainda cansado das arremetidas iniciais.
“ Vamos lá operar aqui um milagre “ – pensou.
Sentiu-o crescer na boca, tomando forma. E foi então que a mulher, com muito cuidado para não morder, para não magoar, aplicou os dentes na operação. Rodeou-o com o marfim duma dentadura alvíssima e, lentamente, sentindo-o pulsar, deu umas dentadinhas muito suaves, desviando-se a tempo de não ser atingida pela explosão que se seguiu.
O rapaz, que nunca tinha passado por semelhantes sensações, assombrado ainda, entrou em confidências, e disse-lhe que pertencia a uma família que vivia numa herdade nos arredores da vila em que se encontravam. No Monte do Meio, no dia seguinte, iria haver um almoço familiar, e queria que ela o acompanhasse para a apresentar à família como sua noiva, tal o deslumbramento em que se encontrava. A seguir adormeceu, exausto.
Ela, enquanto se vestia, aproximou-se da janela e viu a lua espelhada nas águas da albufeira do Lucefecit.
O luar de Agosto cumpria a sua obrigação.
Em seguida saiu do quarto, fechando a porta com cuidado, para que ele não acordasse, e desapareceu.
FIM
Rufino Casablanca – Monte do Meio – 1999
Tuesday, October 25, 2011
Wednesday, October 05, 2011
Sunday, September 25, 2011
EM MEMÓRIA DE RUFINO CASABLANCA
Este conto, foi escrito por Rufino Casablanca, em 1990.
Faz parte do espólio que deixou em casa de Chibía Milongo, aquando da sua morte, há três anos atrás.
Para a Chibía vão os nossos agradecimentos.
Chico Manuel
« Esta obra é uma ficção. Qualquer semelhança com a realidade, é pura coincidência. »
Era uma vez um homem ...
( Um conto por Rufino Casablanca )
Alentejano por nascimento, um dia partiu para África, e por lá fez a sua vida.
Anos mais tarde, muitos anos mais tarde, voltou à sua terra.
Rufino José Potra, assim se chamava.
Esta ..., é a sua história ...
O Rufino, nasceu exactamente um mês depois da morte do pai.
Corria o ano de 1922.
Aquela que viria a ser sua mãe, mulher bonita e trigueira, muito desembaraçada de modos, perdera-se de amores por um amolador de facas e tesouras, também exímio a consertar guarda-chuvas e a rebitar panelas, tachos e alguidares. Homem sem pouso regular, amigo de copos e farras, com um certo ar boémio. Na carroça em que transportava a bigorna, o engenho da roda de esmeril e as restantes ferramentas do ofício, e que simultaneamente lhe servia de casa, também transportava uma guitarra. E todas as tabernas eram apropriadas para exercitar os seus dons de fadista. Todos os meses aparecia pelos largos e ruas da Vila, anunciando a sua presença com os melodiosos gorjeios da gaita que simbolizava a profissão.
O romance foi arrebatado e teve um desenlace que era previsível.
Poucos meses depois já a rapariga tinha a barriga a crescer.
E outros tantos meses mais tarde, chegou a notícia de que o amolador de facas tinha sido mortalmente anavalhado, numa briga de barraca, durante as Festas dos Capuchos.
Assim, aos oito meses de gravidez, ficou a saber que o filho ia nascer órfão de pai.
Condoídos, os patrões, não a devolveram à casa paterna e deixaram passar o tempo até ao nascimento da criança.
Todos ganharam com essa decisão : A Rosalía Potra, assim se chamava a rapariga, porque assegurou uma casa farta para o nascimento do filho; e os patrões, porque sabiam que não era fácil arranjar outra criada com as condições de honestidade e trabalho que aquela lhes garantia.
Pela parte dos patrões, nunca houve grande preocupação com o desgosto da criada. Até lhes pareceu que tinha sido uma sorte a Rosalía ver-se livre do amolador de facas, pois era sabido o feitio quezilento e brigão do rapaz, sempre disposto a largar o trabalho para se meter na fadistagem. E constantemente a vadiar por tudo quanto era feira e festa no Alentejo.
Quanto a Rosalía, bastará dizer que a partir dessa altura apenas teve como preocupação o bem estar do filho.
Este, nasceu no palacete dos patrões da mãe, uma estalagem que se situava, ali mesmo, na Praça da República, e aí viveu até à morte desta, também ele como criado da casa.
Primeiro, como moço de mandados, e mais tarde, como cozinheiro.
Excelente cozinheiro, para sermos honestos no que dizemos.
E foi já depois da morte prematura da mãe, uma santa e esforçada mulher, como todos reconheciam, e a quem uma estranha doença consumiu, que chegou a carta de chamada, enviada de Angola, por um tio, irmão da falecida.
Esse tio, que ele não conhecia pessoalmente, pois tinha sido deportado para essa colónia muitos anos antes do seu nascimento, por motivos políticos, estava estabelecido em Luanda com uma empresa que era, simultaneamente, armazém, padaria, mercearia, drogaria, restaurante e pensão.
« Casa Pero Rodrigues », assim se chamava o estabelecimento.
Foi nessa cidade, Luanda, que já fez a entrada do ano de 1945.
Tinha chegado uns dias antes, depois duma longa viagem de barco, com escalas nas ilhas de Cabo Verde e São Tomé.
O que verdadeiramente queremos contar – as andanças de um alentejano por outras paragens – começa aqui.
Aos vinte e três anos o Rufino era, como muitos outros rapazes dessa idade, um pouco irreflectido, com muito sangue na guelra, não deixava que lhe pusessem a pata em cima e, por dá cá aquela palha, arranjava um sarilho de todo o tamanho. Já se vira envolvido nalgumas boas brigas e até se dizia que não era preciso muito para o fazer sair do sério. Os que o conheciam melhor, os que com ele mais de perto lidavam, diziam que era o feitio do pai a vir ao de cima e o fazia destemperar.
Todavia, espantava toda a gente com a assiduidade com que frequentava a igreja.
Ainda em tempo de sua mãe, antes de começar a correr a região, trabalhando aqui e ali, fizera todas as comunhões, crisma e catequeses, revelando uma grande devoção, sobretudo por altura das festas religiosas, transportando os andores e os pendões, quando em dias de procissão. Tinha, até, opas de propriedade pessoal, que usava consoante o tipo de festa religiosa em que participava.
Não se lhe conheceram muitas namoradas, e aquelas que teve, quando os namoros acabavam, não lhe ficavam a querer mal.
No geral, era um rapaz respeitado, pese embora a propensão para não levar o trabalho a muito sério.
Não que fosse madraço.
Simplesmente, não coalhava emprego.
Resta acrescentar que era um homem muito bem posto, alto, ombros largos e feições correctas, tendo até algumas preocupações na forma como se vestia. Outra herança do pai.
Era este o homem que se apresentou a seu tio na cidade de Luanda, pelos finais de 1944.
Este, Rufino Potra, tal como o sobrinho, tinha sido dos primeiros comerciantes de Luanda a compreender o potencial da cidade, e rapidamente se metera nos mais diversos negócios; para além do estabelecimento que já referimos, tinha negócios de importação e exportação, nomeadamente de vinhos e bacalhau, assim como de óleos alimentares dos mais diversos tipos.
O tio de Rufino, que nunca casou nem tinha qualquer formação académica, era, porém, muito astuto nos negócios, e quando enriqueceu, sentindo-se velho e doente, cansado e muito só, prestou todo o apoio ao sobrinho na administração da sua já larga fortuna, antes de se retirar, definitivamente, para um velho casarão colonial que possuía no bairro das Ingombotas.
Embora vigiado de muito perto pelo tio, conseguiu ganhar-lhe a confiança, e começou a dinamizar os negócios da empresa, ampliando-os muito rapidamente.
Foi nessa altura que conheceu a Ana Milongo.
Como já dissemos, o Rufino, aos domingos, era frequentador da missa.
Começou por reparar naquela rapariga negra, alta e desenvolta, com porte atlético, que ocupava sempre um dos lugares mais perto do altar. Reparou, também, que era uma mulher muito bonita, elegante, com um cabelo estilo “afro”, do tipo que, muitos anos mais tarde, viria a ser popularizado por Ângela Davis, outra negra, que do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos da América, viria a dar muito que falar.
As pernas altas, cobertas quase até aos pés por um vestido muito sóbrio. Um chapéu largo, do qual pendia um véu, escondia-lhe o rosto quase por completo.
Aquela jovem mulher passou a constituir uma obsessão para ele.
Pese embora a força da sua fé católica não lhe exigir tanto, passou a frequentar a igreja todos os dias, pois descobrira que ela todas as manhãs ia à primeira missa.
E como quem está interessado sempre vai descobrindo mais coisas – basta ir fazendo perguntas – conseguiu saber que era sobrinha do sacerdote responsável pela paróquia; que pertencia a uma família católica, da classe média negra de Luanda, se esse termo se pode utilizar para definir a situação social que nessa altura se vivia na capital da colónia.
Ela, soube ele mais tarde, também reparara naquele homem que, todos os dias, marcava presença na primeira missa da manhã.
Um dia chegaram à fala.
Quando ela saiu da igreja, acompanhada pelo tio, sacerdote, como já dissemos, ele, muito desembaraçado, disse-lhe que ali ia diariamente porque a sua fé isso lhe ordenava, mas que a presença dela na igreja, também diariamente, não lhe era indiferente. E com o devido respeito lhe perguntava, na presença do tio, que muito considerava, se estaria disposta a falar com ele afim de se conhecerem melhor. Pedindo desculpa por isso, também lhe disse que já tirara informações da família dela, porque Luanda, afinal, era uma pequena aldeia. Na sua posição, precisava de uma mulher a seu lado, começava a fazer-se tarde para casar, e estava disposto a dar todas as explicações que ela, ou a família dela, achassem por bem pedir-lhe.
Assim mesmo. Tudo de rajada. E que não ficassem dúvidas sobre as suas intenções.
Tio e sobrinha ficaram atónitos com aquele palavreado.
Ela, levantando o véu que lhe cobria o rosto, disfarçando a atrapalhação que por momentos a tolheu, disse que apreciava a maneira frontal como ele se lhe dirigira e que, embora não estivesse habituada a ser abordada daquela maneira, levaria em conta o pedido dele e que falariam num dos dias seguintes.
Falaram; falaram e começaram a namorar.
Na Luanda de meados dos anos quarenta, essa não era uma situação normal, sobretudo nos meios em que ambos viviam.
E não só porque a cidade já se habituara a ver em Rufino o herdeiro duma grande fortuna, mas também porque na família de Ana Milongo, os casamentos sempre se tinham realizado entre pessoas da mesma cor.
Casaram um ano depois; e quem os casou foi o sacerdote, tio da noiva.
Foi então que começaram a nascer os filhos : Primeiro os gémeos, João e Jacinto, assim se chamaram; depois as gémeas; uma, se chamou Rosalía, em homenagem à mãe de Rufino, e a outra, Eva, como a primeira mulher.
Por essa altura já o tio de Rufino tinha falecido, deixando-o como único herdeiro e fazendo dele um dos homens mais ricos da cidade.
No princípio dos anos sessenta, quando os filhos começaram a crescer e a guerra colonial começou a fazer as primeiras vítimas é que, verdadeiramente, começaram os trabalhos deste casal. Casal que até era apontado, em certos meios, como o verdadeiro exemplo e realização da presença portuguesa em África.
Não é, porém, para falar da guerra colonial que aqui estamos. Esses assuntos apenas aqui serão abordados na medida em que tiveram influência no que pretendemos contar.
Todos os filhos de Rufino Potra e Ana Milongo tomaram partido, durante os anos sessenta, no que diz respeito à guerra. O primeiro a juntar-se à guerrilha foi o João; logo de seguida, o Jacinto desapareceu, e só um ano mais tarde deu notícias; estava em Argel e dizia que só voltaria a Angola quando esta fosse um país independente.
Mais tarde, souberam que o João tinha sido aprisionado pelas tropas portuguesas e internado no campo de concentração de S. Nicolau, no sul da Angola. E embora fossem permitidas algumas visitas por parte dos pais, a verdade é que nunca mais se restabeleceu a relação de intimidade que tinha existido antes.
As gémeas, Rosalía e Eva, também muito cedo se manifestaram a favor da independência de Angola. Quando vieram para Lisboa, já como alunas da universidade, participaram activamente em movimentos estudantis avessos ao regime e, antes de terminarem os cursos, também rumaram a Argel e acabaram por integrar as fileiras de um dos movimentos de libertação de Angola.
Por essa altura já os negócios de Rufino estavam a correr mal.
Nada aconteceu por acaso.
Primeiro, foi o desgosto de nada saber dos filhos mais velhos; durante anos não teve a menor notícia deles.
Depois, as filhas seguiram as pisadas dos irmãos e voltou a repetir-se a situação.
A mulher, Ana Milongo, refugiou-se na religião e procurou aí a cura para os desgostos.
O entusiasmo que Rufino sempre sentira pelos negócios foi esmorecendo e, por fim, desinteressou-se completamente.
Os gestores que colocou à frente das empresas não terão sido a melhor escolha e rapidamente foram perdendo competitividade na economia da cidade, acabando por abrir falência.
Foi assim que aquela família, que já tinha sido um exemplo para a comunidade, se viu, no espaço de uma dezena de anos, arruinada economicamente, destroçada e dividida como agregado familiar.
Rufino, depois de liquidar o que restava dos seus negócios, passou a viver de alguns, parcos, rendimentos.
Assim se viram estes dois seres, Rufino e Ana Milongo, completamente isolados, vivendo cada um em seu lado naquele enorme casarão, ali para o lado das Ingombotas.
Esse casarão fora o único património que restara dos tempos passados.
Até que um dia aconteceu o inesperado : Em Lisboa, dera-se uma revolução. As Forças Armadas, através de um punhado de jovens oficiais, assumiram o poder.
E, subitamente ... bem ... não tão subitamente assim, mas umas semanas depois, o filho João, que estava preso no campo de S. Nicolau, apareceu em casa. Disse que o mano Jacinto também deveria regressar em breve.
Quanto às manas, Rosalía e Eva, não tinha qualquer informação porque se encontravam em missão no estrangeiro e era provável que o seu regresso não se desse de imediato. Os pais, para falarmos a verdade, não o entenderam muito bem.
O entendimento completo da situação só viria depois, quando a cidade se encheu de guerrilheiros de todos os movimentos de libertação, que disputavam os diversos bairros, esquina a esquina, casa a casa.
Quando, passados cerca de dezoito meses, se soube que os “mobutus” já estavam perto de Catete, e os “apartaides” estavam a chegar a Novo Redondo, cercando Luanda, Rufino Potra e Ana Milongo, meteram-se num avião da ponte aérea, e aterraram em Lisboa a 12 de Novembro de 1975.
Os filhos já estavam todos em Luanda, mas passavam-se semanas que não iam a casa dos pais. Estes, estavam aflitos porque não compreendiam a actividade dos filhos; a segurança nas ruas era nula; todos as noites havia tiroteios na cidade; e nos últimos meses a casa tinha sido ocupada para ali instalar uma espécie de quartel-general, pois a toda a hora entravam e saíam militares. Que, embora fossem negros e mestiços, falavam espanhol.
Fartos de se sentirem intrusos na sua própria casa, deixaram recados aos outros filhos e, com a ajuda de Rosalía, entraram no avião que os trouxe para Lisboa.
Passado que foi um ano, quando os desgostos, as raivas e as desilusões se foram atenuando, Quando se impôs a necessidade da sobrevivência económica e a saúde mental estava por um fio, foi a altura de ultrapassar tudo o que estava para trás e prosseguir.
E esse caminho foi encontrado por Rufino e Ana Milongo na região em que ele tinha nascido.
E naquela rua da Vila, muito perto do Jardim das Meninas, junto à casa em que Rufino tinha nascido, na vizinhança do castelo medieval, numa região muito famosa pela sua cozinha, surgiu um restaurante que fazia a diferença.
Claro que as açordas e as migas, as sopas de cação, os cozidos de grão, eram os pratos fortes da casa. Uma ou outra caldeta, também brilhava na ementa.
Contudo, volta e meia, aparecia um cliente, por vezes vindo de longe – também retornado – que pedia com grande à vontade :
– « Oh comadre Ana, que mal pergunte, o compadre Rufino que diga quando é que comemos a muamba de galinha ! »
Era o Rufino na cozinha, e a Ana Milongo às mesas, aviando a freguesia com a ligeireza que o reumático permitia.
Era o Alentejo a absorver mais um caldinho de cultura culinária, com gente que vinha de fora, como, aliás, sempre tinha acontecido ao longo dos séculos.
E foi assim que, aquele casal de velhos, começou a ultrapassar o problema da sobrevivência económica.
Mas faltava alguma coisa naquelas vidas !
Era a questão dos afectos a mordê-los por dentro.
As notícias dos filhos eram muito raras, e quando ainda escasseavam mais, instalava-se naquela casa um clima de tal tristeza que muito dificilmente ultrapassavam.
Foi por volta de 1985 que os filhos começaram a aparecer.
O primeiro foi o Jacinto. Quando deixou o governo angolano, passou a integrar a embaixada de Angola na capital espanhola e um dia apareceu no restaurante acompanhado da mulher e dos filhos. Não cabem nesta narrativa as manifestações de alegria que se seguiram, porque demorariam muito tempo a descrever, mas bem podem imaginar como foram, sobretudo por parte da avó.
Depois foram as gémeas, Rosalía e Eva. Apareceram juntas e, como era habitual, à bulha uma com a outra.
Vinham para ficar.
Ambas traziam filhos, mas vinham sem marido. Nem nunca se soube ao certo se alguma vez o tinham tido. Nunca lhes foram pedidas explicações sobre esse assunto, nem elas as deram.
Segundo disseram, sobretudo a Eva, a sua contribuição para a independência de Angola, tinha chegado ao fim.
Agora, competia às novas gerações prosseguir o caminho que tinha sido iniciado há mais de vinte anos atrás. E embora continuassem fiéis aos princípios que as tinham norteado, não lhes agradava falar muito sobre o assunto. Ainda, muito em jeito de desabafo, a Eva sempre foi dizendo que não lhe agradava o rumo que o governo angolano estava a dar ao país.
Vinham para trabalhar e ficar perto dos pais.
Elas, e os filhos.
Mas foi o Jacinto quem trouxe a melhor notícia. E fora para dar essa novidade que tinha vindo ter com os pais tão rapidamente, pois ainda nem sequer tinha tido tempo de se instalar em Madrid.
O mano João estava vivo; estava em Moçambique; casado e com filhos.
Apenas tomara conhecimento disso poucos dias antes.
Depois da tentativa do chamado levantamento “Nitista”, contra o governo de Angola, em meados de 1977, e em que o mano João estivera profundamente envolvido, fugira para Cuba e, mais tarde, entrara clandestinamente em Moçambique. Aí se mantivera numa semi-clandestinidade, constituíra família, e ele, Jacinto, estava agora a tratar do assunto afim de o trazer para Portugal. Deixara a política e trabalhava na cidade da Beira.
Eva – Evita – como era tratada em família, foi trabalhar para Évora, deixando os filhos, dois magníficos rapazes, cor de chocolate, com os avós, afim de prosseguirem os estudos secundários que ainda tinham iniciado em Angola.
Rosalía foi trabalhar com o irmão Jacinto na embaixada de Angola, em Madrid. Deixou as duas filhas com os avós, também para estudarem no colégio local.
Foi quando de Moçambique chegou o João.
Trazia com ele a mulher, uma mulata alta e bonita. E as duas filhas, que eram a cara chapada da avó Ana.
Nessa altura Rufino Potra e Ana Milongo, realizaram o seu maior sonho : Juntar à mesa todos os filhos e netos.
E aquela vila alentejana, nesse verão de meados da década de oitenta, ficou marcada por gente que, vinda doutras paragens, fez daquela terra o seu ponto de encontro.
A planície se encarregaria de os integrar, tal como vem acontecendo há milénios, com todos os que aqui chegaram.
FIM
Rufino Casablanca
Terena – Monte do Meio – Maio de 1990
Faz parte do espólio que deixou em casa de Chibía Milongo, aquando da sua morte, há três anos atrás.
Para a Chibía vão os nossos agradecimentos.
Chico Manuel
« Esta obra é uma ficção. Qualquer semelhança com a realidade, é pura coincidência. »
Era uma vez um homem ...
( Um conto por Rufino Casablanca )
Alentejano por nascimento, um dia partiu para África, e por lá fez a sua vida.
Anos mais tarde, muitos anos mais tarde, voltou à sua terra.
Rufino José Potra, assim se chamava.
Esta ..., é a sua história ...
O Rufino, nasceu exactamente um mês depois da morte do pai.
Corria o ano de 1922.
Aquela que viria a ser sua mãe, mulher bonita e trigueira, muito desembaraçada de modos, perdera-se de amores por um amolador de facas e tesouras, também exímio a consertar guarda-chuvas e a rebitar panelas, tachos e alguidares. Homem sem pouso regular, amigo de copos e farras, com um certo ar boémio. Na carroça em que transportava a bigorna, o engenho da roda de esmeril e as restantes ferramentas do ofício, e que simultaneamente lhe servia de casa, também transportava uma guitarra. E todas as tabernas eram apropriadas para exercitar os seus dons de fadista. Todos os meses aparecia pelos largos e ruas da Vila, anunciando a sua presença com os melodiosos gorjeios da gaita que simbolizava a profissão.
O romance foi arrebatado e teve um desenlace que era previsível.
Poucos meses depois já a rapariga tinha a barriga a crescer.
E outros tantos meses mais tarde, chegou a notícia de que o amolador de facas tinha sido mortalmente anavalhado, numa briga de barraca, durante as Festas dos Capuchos.
Assim, aos oito meses de gravidez, ficou a saber que o filho ia nascer órfão de pai.
Condoídos, os patrões, não a devolveram à casa paterna e deixaram passar o tempo até ao nascimento da criança.
Todos ganharam com essa decisão : A Rosalía Potra, assim se chamava a rapariga, porque assegurou uma casa farta para o nascimento do filho; e os patrões, porque sabiam que não era fácil arranjar outra criada com as condições de honestidade e trabalho que aquela lhes garantia.
Pela parte dos patrões, nunca houve grande preocupação com o desgosto da criada. Até lhes pareceu que tinha sido uma sorte a Rosalía ver-se livre do amolador de facas, pois era sabido o feitio quezilento e brigão do rapaz, sempre disposto a largar o trabalho para se meter na fadistagem. E constantemente a vadiar por tudo quanto era feira e festa no Alentejo.
Quanto a Rosalía, bastará dizer que a partir dessa altura apenas teve como preocupação o bem estar do filho.
Este, nasceu no palacete dos patrões da mãe, uma estalagem que se situava, ali mesmo, na Praça da República, e aí viveu até à morte desta, também ele como criado da casa.
Primeiro, como moço de mandados, e mais tarde, como cozinheiro.
Excelente cozinheiro, para sermos honestos no que dizemos.
E foi já depois da morte prematura da mãe, uma santa e esforçada mulher, como todos reconheciam, e a quem uma estranha doença consumiu, que chegou a carta de chamada, enviada de Angola, por um tio, irmão da falecida.
Esse tio, que ele não conhecia pessoalmente, pois tinha sido deportado para essa colónia muitos anos antes do seu nascimento, por motivos políticos, estava estabelecido em Luanda com uma empresa que era, simultaneamente, armazém, padaria, mercearia, drogaria, restaurante e pensão.
« Casa Pero Rodrigues », assim se chamava o estabelecimento.
Foi nessa cidade, Luanda, que já fez a entrada do ano de 1945.
Tinha chegado uns dias antes, depois duma longa viagem de barco, com escalas nas ilhas de Cabo Verde e São Tomé.
O que verdadeiramente queremos contar – as andanças de um alentejano por outras paragens – começa aqui.
Aos vinte e três anos o Rufino era, como muitos outros rapazes dessa idade, um pouco irreflectido, com muito sangue na guelra, não deixava que lhe pusessem a pata em cima e, por dá cá aquela palha, arranjava um sarilho de todo o tamanho. Já se vira envolvido nalgumas boas brigas e até se dizia que não era preciso muito para o fazer sair do sério. Os que o conheciam melhor, os que com ele mais de perto lidavam, diziam que era o feitio do pai a vir ao de cima e o fazia destemperar.
Todavia, espantava toda a gente com a assiduidade com que frequentava a igreja.
Ainda em tempo de sua mãe, antes de começar a correr a região, trabalhando aqui e ali, fizera todas as comunhões, crisma e catequeses, revelando uma grande devoção, sobretudo por altura das festas religiosas, transportando os andores e os pendões, quando em dias de procissão. Tinha, até, opas de propriedade pessoal, que usava consoante o tipo de festa religiosa em que participava.
Não se lhe conheceram muitas namoradas, e aquelas que teve, quando os namoros acabavam, não lhe ficavam a querer mal.
No geral, era um rapaz respeitado, pese embora a propensão para não levar o trabalho a muito sério.
Não que fosse madraço.
Simplesmente, não coalhava emprego.
Resta acrescentar que era um homem muito bem posto, alto, ombros largos e feições correctas, tendo até algumas preocupações na forma como se vestia. Outra herança do pai.
Era este o homem que se apresentou a seu tio na cidade de Luanda, pelos finais de 1944.
Este, Rufino Potra, tal como o sobrinho, tinha sido dos primeiros comerciantes de Luanda a compreender o potencial da cidade, e rapidamente se metera nos mais diversos negócios; para além do estabelecimento que já referimos, tinha negócios de importação e exportação, nomeadamente de vinhos e bacalhau, assim como de óleos alimentares dos mais diversos tipos.
O tio de Rufino, que nunca casou nem tinha qualquer formação académica, era, porém, muito astuto nos negócios, e quando enriqueceu, sentindo-se velho e doente, cansado e muito só, prestou todo o apoio ao sobrinho na administração da sua já larga fortuna, antes de se retirar, definitivamente, para um velho casarão colonial que possuía no bairro das Ingombotas.
Embora vigiado de muito perto pelo tio, conseguiu ganhar-lhe a confiança, e começou a dinamizar os negócios da empresa, ampliando-os muito rapidamente.
Foi nessa altura que conheceu a Ana Milongo.
Como já dissemos, o Rufino, aos domingos, era frequentador da missa.
Começou por reparar naquela rapariga negra, alta e desenvolta, com porte atlético, que ocupava sempre um dos lugares mais perto do altar. Reparou, também, que era uma mulher muito bonita, elegante, com um cabelo estilo “afro”, do tipo que, muitos anos mais tarde, viria a ser popularizado por Ângela Davis, outra negra, que do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos da América, viria a dar muito que falar.
As pernas altas, cobertas quase até aos pés por um vestido muito sóbrio. Um chapéu largo, do qual pendia um véu, escondia-lhe o rosto quase por completo.
Aquela jovem mulher passou a constituir uma obsessão para ele.
Pese embora a força da sua fé católica não lhe exigir tanto, passou a frequentar a igreja todos os dias, pois descobrira que ela todas as manhãs ia à primeira missa.
E como quem está interessado sempre vai descobrindo mais coisas – basta ir fazendo perguntas – conseguiu saber que era sobrinha do sacerdote responsável pela paróquia; que pertencia a uma família católica, da classe média negra de Luanda, se esse termo se pode utilizar para definir a situação social que nessa altura se vivia na capital da colónia.
Ela, soube ele mais tarde, também reparara naquele homem que, todos os dias, marcava presença na primeira missa da manhã.
Um dia chegaram à fala.
Quando ela saiu da igreja, acompanhada pelo tio, sacerdote, como já dissemos, ele, muito desembaraçado, disse-lhe que ali ia diariamente porque a sua fé isso lhe ordenava, mas que a presença dela na igreja, também diariamente, não lhe era indiferente. E com o devido respeito lhe perguntava, na presença do tio, que muito considerava, se estaria disposta a falar com ele afim de se conhecerem melhor. Pedindo desculpa por isso, também lhe disse que já tirara informações da família dela, porque Luanda, afinal, era uma pequena aldeia. Na sua posição, precisava de uma mulher a seu lado, começava a fazer-se tarde para casar, e estava disposto a dar todas as explicações que ela, ou a família dela, achassem por bem pedir-lhe.
Assim mesmo. Tudo de rajada. E que não ficassem dúvidas sobre as suas intenções.
Tio e sobrinha ficaram atónitos com aquele palavreado.
Ela, levantando o véu que lhe cobria o rosto, disfarçando a atrapalhação que por momentos a tolheu, disse que apreciava a maneira frontal como ele se lhe dirigira e que, embora não estivesse habituada a ser abordada daquela maneira, levaria em conta o pedido dele e que falariam num dos dias seguintes.
Falaram; falaram e começaram a namorar.
Na Luanda de meados dos anos quarenta, essa não era uma situação normal, sobretudo nos meios em que ambos viviam.
E não só porque a cidade já se habituara a ver em Rufino o herdeiro duma grande fortuna, mas também porque na família de Ana Milongo, os casamentos sempre se tinham realizado entre pessoas da mesma cor.
Casaram um ano depois; e quem os casou foi o sacerdote, tio da noiva.
Foi então que começaram a nascer os filhos : Primeiro os gémeos, João e Jacinto, assim se chamaram; depois as gémeas; uma, se chamou Rosalía, em homenagem à mãe de Rufino, e a outra, Eva, como a primeira mulher.
Por essa altura já o tio de Rufino tinha falecido, deixando-o como único herdeiro e fazendo dele um dos homens mais ricos da cidade.
No princípio dos anos sessenta, quando os filhos começaram a crescer e a guerra colonial começou a fazer as primeiras vítimas é que, verdadeiramente, começaram os trabalhos deste casal. Casal que até era apontado, em certos meios, como o verdadeiro exemplo e realização da presença portuguesa em África.
Não é, porém, para falar da guerra colonial que aqui estamos. Esses assuntos apenas aqui serão abordados na medida em que tiveram influência no que pretendemos contar.
Todos os filhos de Rufino Potra e Ana Milongo tomaram partido, durante os anos sessenta, no que diz respeito à guerra. O primeiro a juntar-se à guerrilha foi o João; logo de seguida, o Jacinto desapareceu, e só um ano mais tarde deu notícias; estava em Argel e dizia que só voltaria a Angola quando esta fosse um país independente.
Mais tarde, souberam que o João tinha sido aprisionado pelas tropas portuguesas e internado no campo de concentração de S. Nicolau, no sul da Angola. E embora fossem permitidas algumas visitas por parte dos pais, a verdade é que nunca mais se restabeleceu a relação de intimidade que tinha existido antes.
As gémeas, Rosalía e Eva, também muito cedo se manifestaram a favor da independência de Angola. Quando vieram para Lisboa, já como alunas da universidade, participaram activamente em movimentos estudantis avessos ao regime e, antes de terminarem os cursos, também rumaram a Argel e acabaram por integrar as fileiras de um dos movimentos de libertação de Angola.
Por essa altura já os negócios de Rufino estavam a correr mal.
Nada aconteceu por acaso.
Primeiro, foi o desgosto de nada saber dos filhos mais velhos; durante anos não teve a menor notícia deles.
Depois, as filhas seguiram as pisadas dos irmãos e voltou a repetir-se a situação.
A mulher, Ana Milongo, refugiou-se na religião e procurou aí a cura para os desgostos.
O entusiasmo que Rufino sempre sentira pelos negócios foi esmorecendo e, por fim, desinteressou-se completamente.
Os gestores que colocou à frente das empresas não terão sido a melhor escolha e rapidamente foram perdendo competitividade na economia da cidade, acabando por abrir falência.
Foi assim que aquela família, que já tinha sido um exemplo para a comunidade, se viu, no espaço de uma dezena de anos, arruinada economicamente, destroçada e dividida como agregado familiar.
Rufino, depois de liquidar o que restava dos seus negócios, passou a viver de alguns, parcos, rendimentos.
Assim se viram estes dois seres, Rufino e Ana Milongo, completamente isolados, vivendo cada um em seu lado naquele enorme casarão, ali para o lado das Ingombotas.
Esse casarão fora o único património que restara dos tempos passados.
Até que um dia aconteceu o inesperado : Em Lisboa, dera-se uma revolução. As Forças Armadas, através de um punhado de jovens oficiais, assumiram o poder.
E, subitamente ... bem ... não tão subitamente assim, mas umas semanas depois, o filho João, que estava preso no campo de S. Nicolau, apareceu em casa. Disse que o mano Jacinto também deveria regressar em breve.
Quanto às manas, Rosalía e Eva, não tinha qualquer informação porque se encontravam em missão no estrangeiro e era provável que o seu regresso não se desse de imediato. Os pais, para falarmos a verdade, não o entenderam muito bem.
O entendimento completo da situação só viria depois, quando a cidade se encheu de guerrilheiros de todos os movimentos de libertação, que disputavam os diversos bairros, esquina a esquina, casa a casa.
Quando, passados cerca de dezoito meses, se soube que os “mobutus” já estavam perto de Catete, e os “apartaides” estavam a chegar a Novo Redondo, cercando Luanda, Rufino Potra e Ana Milongo, meteram-se num avião da ponte aérea, e aterraram em Lisboa a 12 de Novembro de 1975.
Os filhos já estavam todos em Luanda, mas passavam-se semanas que não iam a casa dos pais. Estes, estavam aflitos porque não compreendiam a actividade dos filhos; a segurança nas ruas era nula; todos as noites havia tiroteios na cidade; e nos últimos meses a casa tinha sido ocupada para ali instalar uma espécie de quartel-general, pois a toda a hora entravam e saíam militares. Que, embora fossem negros e mestiços, falavam espanhol.
Fartos de se sentirem intrusos na sua própria casa, deixaram recados aos outros filhos e, com a ajuda de Rosalía, entraram no avião que os trouxe para Lisboa.
Passado que foi um ano, quando os desgostos, as raivas e as desilusões se foram atenuando, Quando se impôs a necessidade da sobrevivência económica e a saúde mental estava por um fio, foi a altura de ultrapassar tudo o que estava para trás e prosseguir.
E esse caminho foi encontrado por Rufino e Ana Milongo na região em que ele tinha nascido.
E naquela rua da Vila, muito perto do Jardim das Meninas, junto à casa em que Rufino tinha nascido, na vizinhança do castelo medieval, numa região muito famosa pela sua cozinha, surgiu um restaurante que fazia a diferença.
Claro que as açordas e as migas, as sopas de cação, os cozidos de grão, eram os pratos fortes da casa. Uma ou outra caldeta, também brilhava na ementa.
Contudo, volta e meia, aparecia um cliente, por vezes vindo de longe – também retornado – que pedia com grande à vontade :
– « Oh comadre Ana, que mal pergunte, o compadre Rufino que diga quando é que comemos a muamba de galinha ! »
Era o Rufino na cozinha, e a Ana Milongo às mesas, aviando a freguesia com a ligeireza que o reumático permitia.
Era o Alentejo a absorver mais um caldinho de cultura culinária, com gente que vinha de fora, como, aliás, sempre tinha acontecido ao longo dos séculos.
E foi assim que, aquele casal de velhos, começou a ultrapassar o problema da sobrevivência económica.
Mas faltava alguma coisa naquelas vidas !
Era a questão dos afectos a mordê-los por dentro.
As notícias dos filhos eram muito raras, e quando ainda escasseavam mais, instalava-se naquela casa um clima de tal tristeza que muito dificilmente ultrapassavam.
Foi por volta de 1985 que os filhos começaram a aparecer.
O primeiro foi o Jacinto. Quando deixou o governo angolano, passou a integrar a embaixada de Angola na capital espanhola e um dia apareceu no restaurante acompanhado da mulher e dos filhos. Não cabem nesta narrativa as manifestações de alegria que se seguiram, porque demorariam muito tempo a descrever, mas bem podem imaginar como foram, sobretudo por parte da avó.
Depois foram as gémeas, Rosalía e Eva. Apareceram juntas e, como era habitual, à bulha uma com a outra.
Vinham para ficar.
Ambas traziam filhos, mas vinham sem marido. Nem nunca se soube ao certo se alguma vez o tinham tido. Nunca lhes foram pedidas explicações sobre esse assunto, nem elas as deram.
Segundo disseram, sobretudo a Eva, a sua contribuição para a independência de Angola, tinha chegado ao fim.
Agora, competia às novas gerações prosseguir o caminho que tinha sido iniciado há mais de vinte anos atrás. E embora continuassem fiéis aos princípios que as tinham norteado, não lhes agradava falar muito sobre o assunto. Ainda, muito em jeito de desabafo, a Eva sempre foi dizendo que não lhe agradava o rumo que o governo angolano estava a dar ao país.
Vinham para trabalhar e ficar perto dos pais.
Elas, e os filhos.
Mas foi o Jacinto quem trouxe a melhor notícia. E fora para dar essa novidade que tinha vindo ter com os pais tão rapidamente, pois ainda nem sequer tinha tido tempo de se instalar em Madrid.
O mano João estava vivo; estava em Moçambique; casado e com filhos.
Apenas tomara conhecimento disso poucos dias antes.
Depois da tentativa do chamado levantamento “Nitista”, contra o governo de Angola, em meados de 1977, e em que o mano João estivera profundamente envolvido, fugira para Cuba e, mais tarde, entrara clandestinamente em Moçambique. Aí se mantivera numa semi-clandestinidade, constituíra família, e ele, Jacinto, estava agora a tratar do assunto afim de o trazer para Portugal. Deixara a política e trabalhava na cidade da Beira.
Eva – Evita – como era tratada em família, foi trabalhar para Évora, deixando os filhos, dois magníficos rapazes, cor de chocolate, com os avós, afim de prosseguirem os estudos secundários que ainda tinham iniciado em Angola.
Rosalía foi trabalhar com o irmão Jacinto na embaixada de Angola, em Madrid. Deixou as duas filhas com os avós, também para estudarem no colégio local.
Foi quando de Moçambique chegou o João.
Trazia com ele a mulher, uma mulata alta e bonita. E as duas filhas, que eram a cara chapada da avó Ana.
Nessa altura Rufino Potra e Ana Milongo, realizaram o seu maior sonho : Juntar à mesa todos os filhos e netos.
E aquela vila alentejana, nesse verão de meados da década de oitenta, ficou marcada por gente que, vinda doutras paragens, fez daquela terra o seu ponto de encontro.
A planície se encarregaria de os integrar, tal como vem acontecendo há milénios, com todos os que aqui chegaram.
FIM
Rufino Casablanca
Terena – Monte do Meio – Maio de 1990
Tuesday, September 13, 2011
Wednesday, August 31, 2011
ALANDROAL EM FESTA
Festival da Juventude e Festas em Honra de Nossa Senhora da Conceição em Contagem Decrescente
É já amanhã que a animação volta ao Alandroal, com a realização de mais uma edição do Festival da Juventude e das tradicionais Festas em Honra de Nossa Senhora da Conceição. Até ao próximo dia 5 de Setembro, segunda-feira, terá ao seu dispor várias actividades culturais, desportivas e lúdicas. Garraiadas e largadas, concertos, bailes tradicionais, apresentações desportivas, exposições e animação nocturna, com alguns dos melhores DJ’s da actualidade. Além disso poderá ainda visitar os stands de artesanato e gastronomia, ou deliciar-se com um petisco nas tasquinhas das associações do concelho. Motivos de interesse para que passe momentos repletos de animação e alegria não vão faltar. Em baixo pode consultar programa detalhado da edição 2011 do Festival da Juventude e festas em honra de Nossa Senhora da Conceição. Não falte!
Sunday, July 10, 2011
PESQUISA
Comemorando os 150 anos do nascimento de José Leite de Vasconcelos, o Grupo dos Amigos do Museu Nacional de Arqueologia visitou os pontos de interesse histórico relacionados.
Assim, estiveram em Terena, lugar ligado desde sempre ao Endovélico, dirigindo-se de seguida ao Outeiro de São Miguel da Mota, onde é suposto ter existido um Templo do tempo dos romanos, onde era prestado culto ao antigo Deus Celta.
Assim, estiveram em Terena, lugar ligado desde sempre ao Endovélico, dirigindo-se de seguida ao Outeiro de São Miguel da Mota, onde é suposto ter existido um Templo do tempo dos romanos, onde era prestado culto ao antigo Deus Celta.
Friday, June 17, 2011
“ESTE SIM A RECORDAR OS DOCUMENTÁRIOS APRESENTADOS PELO SRº DOMINGOS MARIA PEÇAS
Desenho de 1950. Uma jóia! Verdadeira relíquia!!!!
Atendendo a uma solicitação do governo americano, que visava uma política de aproximação com o Brasil, Walt Disney fez esse e outros desenhos animados.
Essa maravilha foi criada nos anos 50, inteiramente à mão,sem computadores, efeitos digitais ou recursos mágicos do cinema de hoje.
Desenho de 1950. Uma jóia! Verdadeira relíquia!!!!
Atendendo a uma solicitação do governo americano, que visava uma política de aproximação com o Brasil, Walt Disney fez esse e outros desenhos animados.
Essa maravilha foi criada nos anos 50, inteiramente à mão,sem computadores, efeitos digitais ou recursos mágicos do cinema de hoje.
Wednesday, June 08, 2011
CULTURA NUNCA É DEMAIS
Revisão d'Os Lusíadas na Crise...
Diria agora Camões...
À rasca...espalharei por toda a parte
I
As sarnas de barões todos inchados
Eleitos pela plebe lusitana
Que agora se encontram instalados
Fazendo o que lhes dá na real gana.
Nos seus poleiros bem engalanados,
Mais do que permite a decência humana,
Olvidam-se de quanto proclamaram
Nas campanhas com que nos enganaram!
II
E também as jogadas habilidosas
Daqueles tais que foram dilatando
Contas bancárias ignominiosas,
Do Minho ao Algarve tudo devastando,
Guardam para si as coisas valiosas.
Desprezam quem de fome vai chorando!
Gritando levarei, se tiver arte,
Esta falta de vergonha a toda a parte!
III
Falam da crise grega todo o ano!
E das aflições que à Europa deram;
Calam-se aqueles que, por engano,
Votaram no refugo que elegeram!
Que a mim mete-me nojo o peito ufano
De crápulas que só enriqueceram
Com a prática de trafulhice tanta
Que andarem à solta só me espanta.
IV
E vós, ninfas do Douro onde eu nado,
Por quem sempre senti carinho ardente,
Não me deixeis agora abandonado
E concedei engenho à minha mente,
De modo a que possa, convosco ao lado,
Desmascarar de forma eloquente
Aqueles que já têm no seu gene
A besta horrível do poder perene!
Diria agora Camões...
À rasca...espalharei por toda a parte
I
As sarnas de barões todos inchados
Eleitos pela plebe lusitana
Que agora se encontram instalados
Fazendo o que lhes dá na real gana.
Nos seus poleiros bem engalanados,
Mais do que permite a decência humana,
Olvidam-se de quanto proclamaram
Nas campanhas com que nos enganaram!
II
E também as jogadas habilidosas
Daqueles tais que foram dilatando
Contas bancárias ignominiosas,
Do Minho ao Algarve tudo devastando,
Guardam para si as coisas valiosas.
Desprezam quem de fome vai chorando!
Gritando levarei, se tiver arte,
Esta falta de vergonha a toda a parte!
III
Falam da crise grega todo o ano!
E das aflições que à Europa deram;
Calam-se aqueles que, por engano,
Votaram no refugo que elegeram!
Que a mim mete-me nojo o peito ufano
De crápulas que só enriqueceram
Com a prática de trafulhice tanta
Que andarem à solta só me espanta.
IV
E vós, ninfas do Douro onde eu nado,
Por quem sempre senti carinho ardente,
Não me deixeis agora abandonado
E concedei engenho à minha mente,
De modo a que possa, convosco ao lado,
Desmascarar de forma eloquente
Aqueles que já têm no seu gene
A besta horrível do poder perene!
Monday, June 06, 2011
OH GENTE DA MINHA TERRA – (SUAS TRADIÇÕES)
Os Jogos tradicionais da Zona dos Mármores começam a ser uma tradição no Alentejo. A aldeia do Rosário, no Alandroal, recebeu o Torneio da Malha.
País - Torneio de malha no Alandroal junta 20 equipas alentejanas - RTP Noticias, Vídeo
País - Torneio de malha no Alandroal junta 20 equipas alentejanas - RTP Noticias, Vídeo
Subscribe to:
Posts (Atom)











