TUDO COMO DANTES …QUARTEL GENERAL EM ABRANTES!
Wednesday, January 11, 2012
Tuesday, January 03, 2012
NÃO HÁ NADA P´RA NINGUEM...VAMOS EMBORA "MANEL" (de uma canção de Mário Mata)
Extractos do Diário do Sul - http://www.imprensaregional.com.pt/diariodosul/ - de ontem 02 Janeiro
Saturday, December 03, 2011
MEMÓRIAS do Rufino Casablanca
Extracto da novela « Peças Soltas no Interior da Circunferência »
Do capítulo VII
« A Ala dos Caçadores »
.... e a mulher que acabava de surgir na semi-obscuridade em que a sala principal da “ala dos caçadores “ se encontrava, olhou para o espelho que trinta anos antes – quando abandonara a casa materna – também reflectira a sua imagem. Estava agora defronte do enorme espelho, de pé, a examinar a figura que lhe era devolvida. Era bonita, agora e antes, já lá iam tantos anos!; de uma beleza que poderia ser apodada de exótica. Tinha uns espantados olhos cinzentos, claros ou escuros, consoante o estado de espírito, mas sempre surpreendidos pelo mundo que a cada momento admiravam. Agora mesmo, ainda se espantava com a imagem que o espelho lhe devolvia e em que ela não acreditava: Via uma mulher a aproximar-se dos cinquenta anos, contemplando-se a si própria num traje de fim de semana, calças e camisolão largos, que tinham pertencido a sua mãe. Viera para pôr em ordem a parte da casa a que chamavam a ala dos caçadores, pois tencionava mudar-se definitivamente para o Monte do Meio.
Baldada intenção essa, a de arrumar a casa. Ficaria para depois, estava bem de ver.
Mal chegou, entrou em contacto com as primas que restavam do quarteto infernal que em tempos tinham constituído, e durante uma semana, ficaram estendidas naqueles velhos cadeirões, alimentando-se mal e falando todas ao mesmo tempo. Com longos silêncios pelo meio. Silêncios tão eloquentes como as palavras. Dormindo pouco, fumando e bebendo muito. Acertando contas com o passado, sobretudo com a recordação de Rosalía.
Eram a penúltima geração da família. A geração que tinha nascido no início da década de cinquenta, todas mulheres.
Os filhos desta geração já se encontravam espalhados pelo mundo – “ Fazendo o estágio da vida “ – no dizer castiço da Guadalupe, cujo filho se encontrava em Angola como piloto duma companhia aérea.
A única que tinha os filhos consigo era a Evita, que padecia de uma doença oncológica que, com frequência, obrigava ao seu internamento devido à violência dos tratamentos. – “ Uns chatos, eles e as mulheres “ – queixava-se a Evita. – “ Como se eu não me desenrascasse sozinha “ – acrescentava. Outra coisa que a fazia perder a paciência eram as visitas e telefonemas constantes de antigos amantes e namorados, preocupados com o seu estado. – “ Outros chatos. Como é que eu me deixei prender, em tempos que já lá vão, a alguns desses imbecis ? “ – perguntava, irritada, perante a estupefacção das outras.
E enquanto assim falava, ia enrolando mais um charro. A Guadalupe, de todas a mais calma, a que sempre fora a âncora do quarteto, a que mantinha os pés na terra, fosse qual fosse a situação, de imediato lhe tirava o paivante das mãos e o fumava ela, enquanto lhe ajeitava o lenço na cabeça.
A última vez que aquele grupo de mulheres, todas a raiar os cinquenta anos, primas irmãs e amigas, se tinha encontrado, seis meses antes, fora no funeral da Rosalía, cujo automóvel se enfiara debaixo de um camião na carretera entre Badajoz e Sevilha. Para todos tinha sido um acidente, inclusive para as autoridades e para os membros mais novos da família, mas nenhuma delas acreditava nisso. A Rosalía suicidara-se! Atirara o carro para debaixo das rodas do camião. Todas disso tinham a certeza, embora não houvesse provas concretas. A Guadalupe bem procurara alguma pista que as elucidasse, dando voltas e mais voltas aos baús, secretárias e armários da casa de Terena, casa que a Rosalía habitara desde que se separara do marido, em busca de uma certeza de que todas precisavam para arrumar a recordação e, finalmente, terem descanso.
Infrutífera busca.
Os últimos seis meses tinham sido vividos em constante e doloroso desassossego de espírito. A incerteza do que se tinha passado transformara a vida daquelas três mulheres.
E aquela semana que passaram juntas na sala grande da ala dos caçadores, no Monte do Meio, mais não fora que um luto colectivo. O luto que ainda não tinham feito em conjunto.
Não admira, portanto, que a Rosalía fosse o principal motivo de conversa durante essa semana.
Escalpelizaram-lhe a vida e os amores, as raivas e as paixões, a inteligência e as teimosias, os erros que teimara em cometer, as aventuras em que embarcara e as mágoas que curtira sozinha, enquanto todas as outras seguiram para outras vidas e outras paragens. Sobretudo depois do quarteto se desfazer.
Foi a Rosalía a presença mais constante durante aquela semana de ajustar contas com a vida.
E com a morte.
Estaria essa semana para continuar, transformar-se-ia num mês ou em dois, se não se desse a chegada do João António e da Rosário, respectivamente viúvo e filha da Rosalía.
Vinham para ficar uns tempos em Portugal.
Vivendo em Sevilha, e tendo sido informados pelos filhos de Evita, que aquela geração de mulheres estava encafuada há uma semana na ala dos caçadores, sem darem mostras de querer terminar a reunião, e sabendo todos que as mulheres Rodriguez Potra não tinham perto nem longe, conhecendo as suas inquietações e angustias, resolveram aparecer para tentar pôr termo a qualquer decisão mais radical que pudessem tomar.
Os dois filhos de Evita que também já tinham rondado o monte, tentando acabar com aquele conclave, mas tinham sido corridos com maus modos e com o argumento que os encontros dos mais velhos, naquela família, não eram interrompidos pela vontade dos gaiatos. Além disso, há séculos que aquela família era um matriarcado, as mulheres é que mandavam, os homens apenas serviam para fazer os filhos que elas depois se encarregariam de criar. Foi com estas palavras que aqueles dois homens, gémeos, com quase trinta anos, já pais de família, foram postos fora do Monte do Meio. Que aguardassem ou então que voltassem para Lisboa, para suas casas, que era onde deviam estar. E que levassem com eles as respectivas mulheres e filhos. Esta última parte foi-lhes dita pela própria mãe. De nada valendo a preocupação que demonstravam pela saúde dela.
A chegada de João António e da filha alterou a vontade daquelas quatro mulheres. Fê-las encarar a realidade. Nada podiam fazer para trazer de volta a Rosalía. E a presença do marido e da filha, principalmente da filha, uma Rodriguez Potra, embora de tiragem mais recente, tornou impossível a continuação de uma conversa que estava a tornar-se doentia.
Esta situação era possível porque na família, há muitas gerações que não se faziam partilhas. Tudo era de todos e utilizável por todos. As três propriedades da família, espalhadas por um perímetro relativamente pequeno, que serviam de residência aos que se tinham mantido pela região, estavam sempre abertas aos que chegavam para passar uns tempos. Sempre assim tinha sido no passado e continuaria a ser enquanto as sucessivas gerações quisessem manter a tradição. A chegada de Rosário, acompanhada de seu pai, para passar uns tempos no Monte do Meio, foi respeitada pelas mulheres mais velhas, colocando fim àquilo que já parecia uma paranóia.
Quanto à mulher com que abriu este capítulo da narrativa, a que se estava mirando no espelho, continuou a arranjar ao seu jeito a ala dos caçadores, com vista a uma mudança, mais ou menos definitiva, para o Monte do Meio, não apenas porque se tinha cansado da cidade, mas também porque a Evita iria precisar de quem a acompanhasse no mau momento porque estava a passar, já que o relacionamento da prima com os filhos e as noras não era o melhor, conforme já ficou bem claro.
Rosário, assim se chamava esta mulher.
Convém explicar que um dos hábitos enraizados nesta família, era o de dar às gerações mais novas os mesmos nomes da geração anterior. Às filhas nunca era dado o nome das mães, mas sempre tomavam o nome das tias ou primas. Assim, tanto quanto as recordações recuavam no passado, sempre repetidas pelos mais velhos, e os documentos e fotografias permitiam comprovar, havia uma infinidade de Matildas, Guadalupes, Rosalías, Evas e Rosários em todas as gerações. Nos raros nascimentos de filhos varões era utilizada a mesma prática. E aquando dos casamentos, a parte que passava a integrar a família, era sempre previamente informada de que a escolha do nome das crianças que viessem a nascer, era sempre decidida pelo membro do casal que pertencia aos Rodriguez Potra. Nem sempre os noivos – ou noivas – aceitaram essas condições, tendo havido noivados que foram desfeitos à beira do casamento por esse motivo.
Nunca, porém, a tradição fora abandonada.
Rufino Casablanca
Monte do Meio – Janeiro de 2000
Do capítulo VII
« A Ala dos Caçadores »
.... e a mulher que acabava de surgir na semi-obscuridade em que a sala principal da “ala dos caçadores “ se encontrava, olhou para o espelho que trinta anos antes – quando abandonara a casa materna – também reflectira a sua imagem. Estava agora defronte do enorme espelho, de pé, a examinar a figura que lhe era devolvida. Era bonita, agora e antes, já lá iam tantos anos!; de uma beleza que poderia ser apodada de exótica. Tinha uns espantados olhos cinzentos, claros ou escuros, consoante o estado de espírito, mas sempre surpreendidos pelo mundo que a cada momento admiravam. Agora mesmo, ainda se espantava com a imagem que o espelho lhe devolvia e em que ela não acreditava: Via uma mulher a aproximar-se dos cinquenta anos, contemplando-se a si própria num traje de fim de semana, calças e camisolão largos, que tinham pertencido a sua mãe. Viera para pôr em ordem a parte da casa a que chamavam a ala dos caçadores, pois tencionava mudar-se definitivamente para o Monte do Meio.
Baldada intenção essa, a de arrumar a casa. Ficaria para depois, estava bem de ver.
Mal chegou, entrou em contacto com as primas que restavam do quarteto infernal que em tempos tinham constituído, e durante uma semana, ficaram estendidas naqueles velhos cadeirões, alimentando-se mal e falando todas ao mesmo tempo. Com longos silêncios pelo meio. Silêncios tão eloquentes como as palavras. Dormindo pouco, fumando e bebendo muito. Acertando contas com o passado, sobretudo com a recordação de Rosalía.
Eram a penúltima geração da família. A geração que tinha nascido no início da década de cinquenta, todas mulheres.
Os filhos desta geração já se encontravam espalhados pelo mundo – “ Fazendo o estágio da vida “ – no dizer castiço da Guadalupe, cujo filho se encontrava em Angola como piloto duma companhia aérea.
A única que tinha os filhos consigo era a Evita, que padecia de uma doença oncológica que, com frequência, obrigava ao seu internamento devido à violência dos tratamentos. – “ Uns chatos, eles e as mulheres “ – queixava-se a Evita. – “ Como se eu não me desenrascasse sozinha “ – acrescentava. Outra coisa que a fazia perder a paciência eram as visitas e telefonemas constantes de antigos amantes e namorados, preocupados com o seu estado. – “ Outros chatos. Como é que eu me deixei prender, em tempos que já lá vão, a alguns desses imbecis ? “ – perguntava, irritada, perante a estupefacção das outras.
E enquanto assim falava, ia enrolando mais um charro. A Guadalupe, de todas a mais calma, a que sempre fora a âncora do quarteto, a que mantinha os pés na terra, fosse qual fosse a situação, de imediato lhe tirava o paivante das mãos e o fumava ela, enquanto lhe ajeitava o lenço na cabeça.
A última vez que aquele grupo de mulheres, todas a raiar os cinquenta anos, primas irmãs e amigas, se tinha encontrado, seis meses antes, fora no funeral da Rosalía, cujo automóvel se enfiara debaixo de um camião na carretera entre Badajoz e Sevilha. Para todos tinha sido um acidente, inclusive para as autoridades e para os membros mais novos da família, mas nenhuma delas acreditava nisso. A Rosalía suicidara-se! Atirara o carro para debaixo das rodas do camião. Todas disso tinham a certeza, embora não houvesse provas concretas. A Guadalupe bem procurara alguma pista que as elucidasse, dando voltas e mais voltas aos baús, secretárias e armários da casa de Terena, casa que a Rosalía habitara desde que se separara do marido, em busca de uma certeza de que todas precisavam para arrumar a recordação e, finalmente, terem descanso.
Infrutífera busca.
Os últimos seis meses tinham sido vividos em constante e doloroso desassossego de espírito. A incerteza do que se tinha passado transformara a vida daquelas três mulheres.
E aquela semana que passaram juntas na sala grande da ala dos caçadores, no Monte do Meio, mais não fora que um luto colectivo. O luto que ainda não tinham feito em conjunto.
Não admira, portanto, que a Rosalía fosse o principal motivo de conversa durante essa semana.
Escalpelizaram-lhe a vida e os amores, as raivas e as paixões, a inteligência e as teimosias, os erros que teimara em cometer, as aventuras em que embarcara e as mágoas que curtira sozinha, enquanto todas as outras seguiram para outras vidas e outras paragens. Sobretudo depois do quarteto se desfazer.
Foi a Rosalía a presença mais constante durante aquela semana de ajustar contas com a vida.
E com a morte.
Estaria essa semana para continuar, transformar-se-ia num mês ou em dois, se não se desse a chegada do João António e da Rosário, respectivamente viúvo e filha da Rosalía.
Vinham para ficar uns tempos em Portugal.
Vivendo em Sevilha, e tendo sido informados pelos filhos de Evita, que aquela geração de mulheres estava encafuada há uma semana na ala dos caçadores, sem darem mostras de querer terminar a reunião, e sabendo todos que as mulheres Rodriguez Potra não tinham perto nem longe, conhecendo as suas inquietações e angustias, resolveram aparecer para tentar pôr termo a qualquer decisão mais radical que pudessem tomar.
Os dois filhos de Evita que também já tinham rondado o monte, tentando acabar com aquele conclave, mas tinham sido corridos com maus modos e com o argumento que os encontros dos mais velhos, naquela família, não eram interrompidos pela vontade dos gaiatos. Além disso, há séculos que aquela família era um matriarcado, as mulheres é que mandavam, os homens apenas serviam para fazer os filhos que elas depois se encarregariam de criar. Foi com estas palavras que aqueles dois homens, gémeos, com quase trinta anos, já pais de família, foram postos fora do Monte do Meio. Que aguardassem ou então que voltassem para Lisboa, para suas casas, que era onde deviam estar. E que levassem com eles as respectivas mulheres e filhos. Esta última parte foi-lhes dita pela própria mãe. De nada valendo a preocupação que demonstravam pela saúde dela.
A chegada de João António e da filha alterou a vontade daquelas quatro mulheres. Fê-las encarar a realidade. Nada podiam fazer para trazer de volta a Rosalía. E a presença do marido e da filha, principalmente da filha, uma Rodriguez Potra, embora de tiragem mais recente, tornou impossível a continuação de uma conversa que estava a tornar-se doentia.
Esta situação era possível porque na família, há muitas gerações que não se faziam partilhas. Tudo era de todos e utilizável por todos. As três propriedades da família, espalhadas por um perímetro relativamente pequeno, que serviam de residência aos que se tinham mantido pela região, estavam sempre abertas aos que chegavam para passar uns tempos. Sempre assim tinha sido no passado e continuaria a ser enquanto as sucessivas gerações quisessem manter a tradição. A chegada de Rosário, acompanhada de seu pai, para passar uns tempos no Monte do Meio, foi respeitada pelas mulheres mais velhas, colocando fim àquilo que já parecia uma paranóia.
Quanto à mulher com que abriu este capítulo da narrativa, a que se estava mirando no espelho, continuou a arranjar ao seu jeito a ala dos caçadores, com vista a uma mudança, mais ou menos definitiva, para o Monte do Meio, não apenas porque se tinha cansado da cidade, mas também porque a Evita iria precisar de quem a acompanhasse no mau momento porque estava a passar, já que o relacionamento da prima com os filhos e as noras não era o melhor, conforme já ficou bem claro.
Rosário, assim se chamava esta mulher.
Convém explicar que um dos hábitos enraizados nesta família, era o de dar às gerações mais novas os mesmos nomes da geração anterior. Às filhas nunca era dado o nome das mães, mas sempre tomavam o nome das tias ou primas. Assim, tanto quanto as recordações recuavam no passado, sempre repetidas pelos mais velhos, e os documentos e fotografias permitiam comprovar, havia uma infinidade de Matildas, Guadalupes, Rosalías, Evas e Rosários em todas as gerações. Nos raros nascimentos de filhos varões era utilizada a mesma prática. E aquando dos casamentos, a parte que passava a integrar a família, era sempre previamente informada de que a escolha do nome das crianças que viessem a nascer, era sempre decidida pelo membro do casal que pertencia aos Rodriguez Potra. Nem sempre os noivos – ou noivas – aceitaram essas condições, tendo havido noivados que foram desfeitos à beira do casamento por esse motivo.
Nunca, porém, a tradição fora abandonada.
Rufino Casablanca
Monte do Meio – Janeiro de 2000
Tuesday, November 22, 2011
MEMÓRIAS do Rufino Casablanca
Em memória de Rufino Casablanca
« Amor e Sexo nas Margens da Ribeira do Lucefecit ao Longo dos Séculos »
___ Em Busca das Origens dos Rodriguez Potra ___
(Extracto da novela “ Peças Soltas no Interior da Circunferência “)
Durante a dinastia Filipina, quando a Espanha e Portugal tinham o mesmo rei, o bispo de Plasência, D. Alonso de Rivera, seguindo os conselhos do irmão, D. Francisco de Rivera, na altura vice-rei do Peru, mandou armar a custas suas uma frota de quatro navios, tendo confiado o comando-geral a um tal Juan José Rodriguez Potra, notável piloto que já tinha participado em várias viagens às costas ocidentais da índias espanholas. De facto, este Juan José Rodriguez Potra, era um experimentado marinheiro que, ao serviço da coroa espanhola, já participara em muitos actos de conquista dos territórios mais meridionais do continente que hoje é conhecido por América do Sul.
Com raízes em Olivenza, era o filho mais novo d’uma família de pequenos proprietários rurais, que possuía várias courelas na região de Olivenza, Landroal e Terena. Com a morte dos pais, os irmãos mais velhos, ficaram com a maior parte do espólio da família, tendo ele herdado apenas uma pequena propriedade no arredores de Terena. Homem ambicioso, depois de várias tentativas frustradas de fazer vida em Portugal e Espanha, embarcara para os Brasis e por lá se fizera mestre na arte da marinhagem.
Profundo conhecedor das cartas de marear daquelas paragens e das dificuldades que o estreito de Magalhães oferecia na travessia para o oceano Pacífico, e com um grande dom de comando, dificilmente o bispo de Plasência arranjaria quem melhor desempenhasse as funções de capitão-mor da sua frota.
Estando tudo pronto para a partida, zarpou do porto de Cádiz a 12 de Maio de 1590. Era a frota composta por dois galeões e dois bergantins, estes com a incumbência de montar a segurança dos navios maiores, pois a pirataria era usual por essa época. O objectivo da viagem era trazer um carregamento de prata e ouro, pedras preciosas, e a maior quantidade possível de madeiras raras.
Foi uma viagem sem história.
Depois de escalas nas Canárias, Cabo Verde e S. Salvador da Bahía, a travessia do mal afamado e perigoso estreito de Magalhães, foi uma brincadeira para o conhecimento e perícia do capitão da frota.
Já no oceano Pacífico, a navegação foi isso mesmo : Uma navegação pacífica.
Aportaram a Valparaíso, hoje parte do Chile, mas nessa época integrando ainda o vice-reino do Peru.
À chegada, tudo estava a postos para o carregamento.
O vice-rei do Peru, D. Francisco de Rivera, irmão do bispo que armara a frota, também ele parte interessada, tinha cumprido com o anteriormente combinado.
Levantaram ferro seis meses depois, bem abastecidos de provisões, com as tripulações folgadas e os navios reparados, pois uma navegação tão demorada, embora calma, sempre provoca alguns danos.
O regresso foi também uma viagem sem história.
Regressaram a Cádiz dois anos depois de terem partido.
As únicas baixas registadas nos diários de bordo, ficaram a dever-se a algumas brigas de marinheiros, a alguns tripulantes que desertaram em Valparaíso, e a uns tantos que morreram de febres tropicais. Tudo junto não somava mais de trinta homens.
Dividiram-se os proventos da viagem, em Sevilha, nas percentagens previamente combinadas.
Assim ficou o Juan José Rodriguez Potra um homem rico. Rico e com uma escrava por companheira.
Esta situação tem explicação e vamos dá-la de imediato para não atrasar o resto da narrativa.
Foi assim :
Aquando da permanência da frota em Valparaíso, durante a estiva da carga e enquanto se reparavam os navios, esperando ventos de feição para se fazerem ao mar, Juan José Rodriguez Potra, foi convidado a viver na residência do vice-rei . Foi posta à sua disposição toda uma ala do palacete. Numa das primeiras noites que passou em terra, depois de se deitar, apareceu no quarto uma mulher que disse ir fazer-lhe companhia por ordem do vice-rei. Era uma índia muito alta, da altura do Juan José, de feições angulosas e com uns enormes olhos cinzentos. Mulher bonita, com aquele tipo de beleza que ainda hoje é possível admirar nas mulheres daquela parte do mundo. Inicialmente, Juan José, não entendeu bem o que o que o vice-rei pretendia com aquele gesto, mas quando se meteu na cama com a mulher, desforrou-se de tantos meses de abstinência. Todas as manhãs, ao acordarem, ela sumia-se pelos corredores, tão muda como quando à noite vinha ter com ele. Durante o dia não lhe punha a vista em cima, mas depois da ceia, normalmente feita na companhia do vice-rei, quando se retirava para o seu quarto, já a encontrava na cama, esperando-o.
E foi assim durante toda a permanência da frota em Valparaíso.
Na véspera da largada da frota, de regresso a Espanha , ela falou com ele pela segunda vez, e explicando-se em bom castelhano, pediu-lhe para a levar para a terra dos brancos. – “ Ali, não passava de uma escrava, e nada a prendia àquela terra, depois de ter assistido à morte de toda a sua família “ – .
De imediato se decidiu. O vice-rei ainda o alertou para o perigo que seria meter uma mulher num barco rodeada de várias dezenas de homens, mas nem esse argumento o demoveu. Assim, no dia do embarque, levou-a para o camarote, vestida com trajos masculinos, dizendo que comprara aquele escravo para o servir em Espanha. E foi nessa qualidade que a desembarcou em Cádiz.
Quem ler esta narrativa dirá que parece um conto de fadas. – Uma viagem de muitos meses de duração, feita em navios de madeira, por regiões inóspitas, ainda mal conhecidas e mal cartografadas, sem tempestades, sem ataques de piratas numa altura em que os mares estavam infestados deles, uma mulher a bordo d’um navio, carregado de prata, ouro e pedras preciosas, rodeada por quase uma centena de homens, e desembarcada em Espanha numa altura em que este país era o mais poderoso do mundo.
Parece, de facto, um conto de fadas.
Mas não é !
E o que tem a ribeira do Lucefecit a ver com isto ?
Vejamos :
Após o desembarque e depois de feitas as contas, Juan José Rodriguez Potra, agora um homem rico, conforme já todos sabem, acompanhado pela sua escrava que, altiva e cor de cobre, a todos encantava com a sua beleza, realçada pelas vestes que imediatamente compraram.
Nesta fase da narrativa, é altura de lhe dar um nome cristão – Guadalupe – assim se chamou por iniciativa do companheiro.
Há, porém, um pormenor que ainda não foi dado a conhecer : Na parte final da viagem, depois da escala feita na ilha do Porto Santo, O Juan José, começou a sentir-se muito mal, tomado por febres altíssimas. Foi de grande préstimo, nessa altura, a ajuda dada pelo padre jesuíta que acompanhava a expedição. Esse padre, que tinha como incumbência a salvação das almas, tinha também conhecimentos médicos e foi graças a ele que o capitão-mor se livrou dessa maleita antes da chegada a Cádiz.
Depois da chegada, durante os primeiros tempos passados em Espanha e depois em Lisboa, mesmo depois de voltarem para a pequena propriedade que o Juan José possuía em Terena, essas febres voltavam com muita frequência a atormentá-lo.
Ele, que tinha navegado pelos sete mares, sempre incólume a epidemias e febres, que frequentemente dizimavam as tripulações, via-se agora cada vez mais fraco e doente, de nada lhe servindo as riquezas que acumulara.
Foi por essa altura que Guadalupe deu mostras do seu valor. Quando o marido – sim, marido, pois o Juan José quisera regularizar a situação e casaram na ermida de Nossa Senhora da Fonte Santa – começou a ficar doente, foi ela quem investiu os cabedais que tinham sobrado da viagem às américas. Comprou terras que anexou às que já tinham, assim como se fez de propriedades em Capelins e até em Espanha.
Quando, passados cinco anos, o Juan José fechou os olhos, deixou para trás toda uma vida de aventuras e uma razoável fortuna. Deixou também uma viúva muito bonita, de uma beleza exótica e na flor da idade. E dois filhos. Dois filhos caldeados de sangues ibérico e dos confins das américas.
Guadalupe não voltou a casar. E não foi por falta de pretendentes. Muitos apareceram atraídos pela sua beleza, e também pelas suas posses, diga-se. Fez até uma vida de clausura, encafuada no monte do Meio, transformado agora num grande casarão, e de onde administrava todos os seus bens.
Entretanto começou a correr o rumor que junto às margens da ribeira do Lucefecit, a jusante da ermida da Fonte Santa, aparecia uma mulher de grande beleza, cor de cobre, apenas coberta com alvos panos e montada num cavalo baio, que desafiava para práticas impuras qualquer cavaleiro, servo ou almocreve, que com ela se cruzasse. Até se dizia que homem que se prestasse a tais práticas ficava amaldiçoado. E olhava-se de soslaio na direcção do monte do Meio quando, nas tabernas, esta conversa vinha à baila.
Quando Guadalupe morreu, quase quarenta anos depois, deixou cinco filhos. Os dois que já tinha quando o marido era vivo, e mais três que foram nascendo depois. Levou com ela o segredo do nome dos pais dos últimos três, porém, todos foram baptizados com os apelidos Rodriguez Potra. E todos os cinco tinham aqueles enormes olhos cinzentos da mãe, de tal maneira marcantes, que ainda hoje se podem ver nos descendentes desta família.
FIM
Rufino Casablanca
Monte do Meio, Agosto de 2000
« Amor e Sexo nas Margens da Ribeira do Lucefecit ao Longo dos Séculos »
___ Em Busca das Origens dos Rodriguez Potra ___
(Extracto da novela “ Peças Soltas no Interior da Circunferência “)
Durante a dinastia Filipina, quando a Espanha e Portugal tinham o mesmo rei, o bispo de Plasência, D. Alonso de Rivera, seguindo os conselhos do irmão, D. Francisco de Rivera, na altura vice-rei do Peru, mandou armar a custas suas uma frota de quatro navios, tendo confiado o comando-geral a um tal Juan José Rodriguez Potra, notável piloto que já tinha participado em várias viagens às costas ocidentais da índias espanholas. De facto, este Juan José Rodriguez Potra, era um experimentado marinheiro que, ao serviço da coroa espanhola, já participara em muitos actos de conquista dos territórios mais meridionais do continente que hoje é conhecido por América do Sul.
Com raízes em Olivenza, era o filho mais novo d’uma família de pequenos proprietários rurais, que possuía várias courelas na região de Olivenza, Landroal e Terena. Com a morte dos pais, os irmãos mais velhos, ficaram com a maior parte do espólio da família, tendo ele herdado apenas uma pequena propriedade no arredores de Terena. Homem ambicioso, depois de várias tentativas frustradas de fazer vida em Portugal e Espanha, embarcara para os Brasis e por lá se fizera mestre na arte da marinhagem.
Profundo conhecedor das cartas de marear daquelas paragens e das dificuldades que o estreito de Magalhães oferecia na travessia para o oceano Pacífico, e com um grande dom de comando, dificilmente o bispo de Plasência arranjaria quem melhor desempenhasse as funções de capitão-mor da sua frota.
Estando tudo pronto para a partida, zarpou do porto de Cádiz a 12 de Maio de 1590. Era a frota composta por dois galeões e dois bergantins, estes com a incumbência de montar a segurança dos navios maiores, pois a pirataria era usual por essa época. O objectivo da viagem era trazer um carregamento de prata e ouro, pedras preciosas, e a maior quantidade possível de madeiras raras.
Foi uma viagem sem história.
Depois de escalas nas Canárias, Cabo Verde e S. Salvador da Bahía, a travessia do mal afamado e perigoso estreito de Magalhães, foi uma brincadeira para o conhecimento e perícia do capitão da frota.
Já no oceano Pacífico, a navegação foi isso mesmo : Uma navegação pacífica.
Aportaram a Valparaíso, hoje parte do Chile, mas nessa época integrando ainda o vice-reino do Peru.
À chegada, tudo estava a postos para o carregamento.
O vice-rei do Peru, D. Francisco de Rivera, irmão do bispo que armara a frota, também ele parte interessada, tinha cumprido com o anteriormente combinado.
Levantaram ferro seis meses depois, bem abastecidos de provisões, com as tripulações folgadas e os navios reparados, pois uma navegação tão demorada, embora calma, sempre provoca alguns danos.
O regresso foi também uma viagem sem história.
Regressaram a Cádiz dois anos depois de terem partido.
As únicas baixas registadas nos diários de bordo, ficaram a dever-se a algumas brigas de marinheiros, a alguns tripulantes que desertaram em Valparaíso, e a uns tantos que morreram de febres tropicais. Tudo junto não somava mais de trinta homens.
Dividiram-se os proventos da viagem, em Sevilha, nas percentagens previamente combinadas.
Assim ficou o Juan José Rodriguez Potra um homem rico. Rico e com uma escrava por companheira.
Esta situação tem explicação e vamos dá-la de imediato para não atrasar o resto da narrativa.
Foi assim :
Aquando da permanência da frota em Valparaíso, durante a estiva da carga e enquanto se reparavam os navios, esperando ventos de feição para se fazerem ao mar, Juan José Rodriguez Potra, foi convidado a viver na residência do vice-rei . Foi posta à sua disposição toda uma ala do palacete. Numa das primeiras noites que passou em terra, depois de se deitar, apareceu no quarto uma mulher que disse ir fazer-lhe companhia por ordem do vice-rei. Era uma índia muito alta, da altura do Juan José, de feições angulosas e com uns enormes olhos cinzentos. Mulher bonita, com aquele tipo de beleza que ainda hoje é possível admirar nas mulheres daquela parte do mundo. Inicialmente, Juan José, não entendeu bem o que o que o vice-rei pretendia com aquele gesto, mas quando se meteu na cama com a mulher, desforrou-se de tantos meses de abstinência. Todas as manhãs, ao acordarem, ela sumia-se pelos corredores, tão muda como quando à noite vinha ter com ele. Durante o dia não lhe punha a vista em cima, mas depois da ceia, normalmente feita na companhia do vice-rei, quando se retirava para o seu quarto, já a encontrava na cama, esperando-o.
E foi assim durante toda a permanência da frota em Valparaíso.
Na véspera da largada da frota, de regresso a Espanha , ela falou com ele pela segunda vez, e explicando-se em bom castelhano, pediu-lhe para a levar para a terra dos brancos. – “ Ali, não passava de uma escrava, e nada a prendia àquela terra, depois de ter assistido à morte de toda a sua família “ – .
De imediato se decidiu. O vice-rei ainda o alertou para o perigo que seria meter uma mulher num barco rodeada de várias dezenas de homens, mas nem esse argumento o demoveu. Assim, no dia do embarque, levou-a para o camarote, vestida com trajos masculinos, dizendo que comprara aquele escravo para o servir em Espanha. E foi nessa qualidade que a desembarcou em Cádiz.
Quem ler esta narrativa dirá que parece um conto de fadas. – Uma viagem de muitos meses de duração, feita em navios de madeira, por regiões inóspitas, ainda mal conhecidas e mal cartografadas, sem tempestades, sem ataques de piratas numa altura em que os mares estavam infestados deles, uma mulher a bordo d’um navio, carregado de prata, ouro e pedras preciosas, rodeada por quase uma centena de homens, e desembarcada em Espanha numa altura em que este país era o mais poderoso do mundo.
Parece, de facto, um conto de fadas.
Mas não é !
E o que tem a ribeira do Lucefecit a ver com isto ?
Vejamos :
Após o desembarque e depois de feitas as contas, Juan José Rodriguez Potra, agora um homem rico, conforme já todos sabem, acompanhado pela sua escrava que, altiva e cor de cobre, a todos encantava com a sua beleza, realçada pelas vestes que imediatamente compraram.
Nesta fase da narrativa, é altura de lhe dar um nome cristão – Guadalupe – assim se chamou por iniciativa do companheiro.
Há, porém, um pormenor que ainda não foi dado a conhecer : Na parte final da viagem, depois da escala feita na ilha do Porto Santo, O Juan José, começou a sentir-se muito mal, tomado por febres altíssimas. Foi de grande préstimo, nessa altura, a ajuda dada pelo padre jesuíta que acompanhava a expedição. Esse padre, que tinha como incumbência a salvação das almas, tinha também conhecimentos médicos e foi graças a ele que o capitão-mor se livrou dessa maleita antes da chegada a Cádiz.
Depois da chegada, durante os primeiros tempos passados em Espanha e depois em Lisboa, mesmo depois de voltarem para a pequena propriedade que o Juan José possuía em Terena, essas febres voltavam com muita frequência a atormentá-lo.
Ele, que tinha navegado pelos sete mares, sempre incólume a epidemias e febres, que frequentemente dizimavam as tripulações, via-se agora cada vez mais fraco e doente, de nada lhe servindo as riquezas que acumulara.
Foi por essa altura que Guadalupe deu mostras do seu valor. Quando o marido – sim, marido, pois o Juan José quisera regularizar a situação e casaram na ermida de Nossa Senhora da Fonte Santa – começou a ficar doente, foi ela quem investiu os cabedais que tinham sobrado da viagem às américas. Comprou terras que anexou às que já tinham, assim como se fez de propriedades em Capelins e até em Espanha.
Quando, passados cinco anos, o Juan José fechou os olhos, deixou para trás toda uma vida de aventuras e uma razoável fortuna. Deixou também uma viúva muito bonita, de uma beleza exótica e na flor da idade. E dois filhos. Dois filhos caldeados de sangues ibérico e dos confins das américas.
Guadalupe não voltou a casar. E não foi por falta de pretendentes. Muitos apareceram atraídos pela sua beleza, e também pelas suas posses, diga-se. Fez até uma vida de clausura, encafuada no monte do Meio, transformado agora num grande casarão, e de onde administrava todos os seus bens.
Entretanto começou a correr o rumor que junto às margens da ribeira do Lucefecit, a jusante da ermida da Fonte Santa, aparecia uma mulher de grande beleza, cor de cobre, apenas coberta com alvos panos e montada num cavalo baio, que desafiava para práticas impuras qualquer cavaleiro, servo ou almocreve, que com ela se cruzasse. Até se dizia que homem que se prestasse a tais práticas ficava amaldiçoado. E olhava-se de soslaio na direcção do monte do Meio quando, nas tabernas, esta conversa vinha à baila.
Quando Guadalupe morreu, quase quarenta anos depois, deixou cinco filhos. Os dois que já tinha quando o marido era vivo, e mais três que foram nascendo depois. Levou com ela o segredo do nome dos pais dos últimos três, porém, todos foram baptizados com os apelidos Rodriguez Potra. E todos os cinco tinham aqueles enormes olhos cinzentos da mãe, de tal maneira marcantes, que ainda hoje se podem ver nos descendentes desta família.
FIM
Rufino Casablanca
Monte do Meio, Agosto de 2000
Tuesday, November 08, 2011
MEMÓRIAS do Rufino Casablanca
« Amor e Sexo nas Margens da Ribeira do Lucefecit ao Longo dos Tempos »
1990
Tinham-se conhecido no jantar convívio oferecido pela associação local de criadores de gado ovino durante a feira anual de Reguengos de Monsaraz. Ela, acompanhante de profissão, fora contratada, e paga antecipadamente, por um velho e importante criador desses animais para lhe fazer companhia durante o evento. Impossibilitada pelo protocolo, de ficar sentada ao lado do contratante, fora atirada para uma das mesas ao fundo da sala. Era uma situação que se repetia com frequência; quem contratava a sua companhia, normalmente, apenas a queria a seu lado na cama. Assim, acabou por ficar sentada ao lado de um jovem rapaz que nem vinte anos teria e que, manifestamente, também ali estava a fazer um frete. Os dois excluídos do negócio das ovelhas, de lãs, leite e queijos. Perspicaz, o rapaz rapidamente compreendeu o que ela ali fazia, e lá pela altura da sobremesa, propôs que ambos fossem tomar o café longe daquele lugar. Convite que ela acolheu com agrado, pois estava a adivinhar um resto de noite aborrecida na companhia do velho. Depois do café e de uma conversa mais franca, séria e objectiva, acabaram num dos quartos da casa de turismo rural, situada numa vila a norte de Reguengos. “Casa de Terena”, assim se chamava o estabelecimento, ali mesmo, na vizinhança de um velho castelo medieval. Até porque ela também estava a precisar de uma boa sessão de sexo, e não daquelas enfadonhas noites que cumpria por obrigação. O rapaz revelou-se à altura das circunstâncias; nem a deixou tirar a roupa, apenas lhe desviou as cuequinhas. E depois da pausa para os cigarros, atirou-se a ela novamente. Há muito que a rapariga não encontrava um homem que tão completamente a satisfizesse. Quando passado algum tempo, olhou para o companheiro, decidiu ser profissional e dar-lhe uma amostra do que era uma boa noite de sexo. Por agradecimento, apenas. Ergueu-se da cama, baixou as alças do vestido e deixou-o cair aos pés. Apareceu então esplendorosa, com as peças de lingerie a destacar-se da pele de tom moreno. O soutien caiu-lhe também aos pés, deixando à vontade dois seios pequenos que exibiam uma cor mais clara, marcando os limites do biquini. Das cuequinhas, muito reduzidas, saíam pêlos por todos os lados. As coxas ginasticadas, musculosas mesmo, denunciando muitas horas de ginásio, também exibiam as marcas do biquini. Aproximou-se dele que ainda se encontrava recostado na cama e decidiu proporcionar-lhe um mergulho de gozo vertiginoso. Meteu a mão por entre as boxers e verificou que o companheiro estava a meia-haste, estava maleável, quase frouxo; estava ainda cansado das arremetidas iniciais.
“ Vamos lá operar aqui um milagre “ – pensou.
Sentiu-o crescer na boca, tomando forma. E foi então que a mulher, com muito cuidado para não morder, para não magoar, aplicou os dentes na operação. Rodeou-o com o marfim duma dentadura alvíssima e, lentamente, sentindo-o pulsar, deu umas dentadinhas muito suaves, desviando-se a tempo de não ser atingida pela explosão que se seguiu.
O rapaz, que nunca tinha passado por semelhantes sensações, assombrado ainda, entrou em confidências, e disse-lhe que pertencia a uma família que vivia numa herdade nos arredores da vila em que se encontravam. No Monte do Meio, no dia seguinte, iria haver um almoço familiar, e queria que ela o acompanhasse para a apresentar à família como sua noiva, tal o deslumbramento em que se encontrava. A seguir adormeceu, exausto.
Ela, enquanto se vestia, aproximou-se da janela e viu a lua espelhada nas águas da albufeira do Lucefecit.
O luar de Agosto cumpria a sua obrigação.
Em seguida saiu do quarto, fechando a porta com cuidado, para que ele não acordasse, e desapareceu.
FIM
Rufino Casablanca – Monte do Meio – 1999
1990
Tinham-se conhecido no jantar convívio oferecido pela associação local de criadores de gado ovino durante a feira anual de Reguengos de Monsaraz. Ela, acompanhante de profissão, fora contratada, e paga antecipadamente, por um velho e importante criador desses animais para lhe fazer companhia durante o evento. Impossibilitada pelo protocolo, de ficar sentada ao lado do contratante, fora atirada para uma das mesas ao fundo da sala. Era uma situação que se repetia com frequência; quem contratava a sua companhia, normalmente, apenas a queria a seu lado na cama. Assim, acabou por ficar sentada ao lado de um jovem rapaz que nem vinte anos teria e que, manifestamente, também ali estava a fazer um frete. Os dois excluídos do negócio das ovelhas, de lãs, leite e queijos. Perspicaz, o rapaz rapidamente compreendeu o que ela ali fazia, e lá pela altura da sobremesa, propôs que ambos fossem tomar o café longe daquele lugar. Convite que ela acolheu com agrado, pois estava a adivinhar um resto de noite aborrecida na companhia do velho. Depois do café e de uma conversa mais franca, séria e objectiva, acabaram num dos quartos da casa de turismo rural, situada numa vila a norte de Reguengos. “Casa de Terena”, assim se chamava o estabelecimento, ali mesmo, na vizinhança de um velho castelo medieval. Até porque ela também estava a precisar de uma boa sessão de sexo, e não daquelas enfadonhas noites que cumpria por obrigação. O rapaz revelou-se à altura das circunstâncias; nem a deixou tirar a roupa, apenas lhe desviou as cuequinhas. E depois da pausa para os cigarros, atirou-se a ela novamente. Há muito que a rapariga não encontrava um homem que tão completamente a satisfizesse. Quando passado algum tempo, olhou para o companheiro, decidiu ser profissional e dar-lhe uma amostra do que era uma boa noite de sexo. Por agradecimento, apenas. Ergueu-se da cama, baixou as alças do vestido e deixou-o cair aos pés. Apareceu então esplendorosa, com as peças de lingerie a destacar-se da pele de tom moreno. O soutien caiu-lhe também aos pés, deixando à vontade dois seios pequenos que exibiam uma cor mais clara, marcando os limites do biquini. Das cuequinhas, muito reduzidas, saíam pêlos por todos os lados. As coxas ginasticadas, musculosas mesmo, denunciando muitas horas de ginásio, também exibiam as marcas do biquini. Aproximou-se dele que ainda se encontrava recostado na cama e decidiu proporcionar-lhe um mergulho de gozo vertiginoso. Meteu a mão por entre as boxers e verificou que o companheiro estava a meia-haste, estava maleável, quase frouxo; estava ainda cansado das arremetidas iniciais.
“ Vamos lá operar aqui um milagre “ – pensou.
Sentiu-o crescer na boca, tomando forma. E foi então que a mulher, com muito cuidado para não morder, para não magoar, aplicou os dentes na operação. Rodeou-o com o marfim duma dentadura alvíssima e, lentamente, sentindo-o pulsar, deu umas dentadinhas muito suaves, desviando-se a tempo de não ser atingida pela explosão que se seguiu.
O rapaz, que nunca tinha passado por semelhantes sensações, assombrado ainda, entrou em confidências, e disse-lhe que pertencia a uma família que vivia numa herdade nos arredores da vila em que se encontravam. No Monte do Meio, no dia seguinte, iria haver um almoço familiar, e queria que ela o acompanhasse para a apresentar à família como sua noiva, tal o deslumbramento em que se encontrava. A seguir adormeceu, exausto.
Ela, enquanto se vestia, aproximou-se da janela e viu a lua espelhada nas águas da albufeira do Lucefecit.
O luar de Agosto cumpria a sua obrigação.
Em seguida saiu do quarto, fechando a porta com cuidado, para que ele não acordasse, e desapareceu.
FIM
Rufino Casablanca – Monte do Meio – 1999
Tuesday, October 25, 2011
Wednesday, October 05, 2011
Sunday, September 25, 2011
EM MEMÓRIA DE RUFINO CASABLANCA
Este conto, foi escrito por Rufino Casablanca, em 1990.
Faz parte do espólio que deixou em casa de Chibía Milongo, aquando da sua morte, há três anos atrás.
Para a Chibía vão os nossos agradecimentos.
Chico Manuel
« Esta obra é uma ficção. Qualquer semelhança com a realidade, é pura coincidência. »
Era uma vez um homem ...
( Um conto por Rufino Casablanca )
Alentejano por nascimento, um dia partiu para África, e por lá fez a sua vida.
Anos mais tarde, muitos anos mais tarde, voltou à sua terra.
Rufino José Potra, assim se chamava.
Esta ..., é a sua história ...
O Rufino, nasceu exactamente um mês depois da morte do pai.
Corria o ano de 1922.
Aquela que viria a ser sua mãe, mulher bonita e trigueira, muito desembaraçada de modos, perdera-se de amores por um amolador de facas e tesouras, também exímio a consertar guarda-chuvas e a rebitar panelas, tachos e alguidares. Homem sem pouso regular, amigo de copos e farras, com um certo ar boémio. Na carroça em que transportava a bigorna, o engenho da roda de esmeril e as restantes ferramentas do ofício, e que simultaneamente lhe servia de casa, também transportava uma guitarra. E todas as tabernas eram apropriadas para exercitar os seus dons de fadista. Todos os meses aparecia pelos largos e ruas da Vila, anunciando a sua presença com os melodiosos gorjeios da gaita que simbolizava a profissão.
O romance foi arrebatado e teve um desenlace que era previsível.
Poucos meses depois já a rapariga tinha a barriga a crescer.
E outros tantos meses mais tarde, chegou a notícia de que o amolador de facas tinha sido mortalmente anavalhado, numa briga de barraca, durante as Festas dos Capuchos.
Assim, aos oito meses de gravidez, ficou a saber que o filho ia nascer órfão de pai.
Condoídos, os patrões, não a devolveram à casa paterna e deixaram passar o tempo até ao nascimento da criança.
Todos ganharam com essa decisão : A Rosalía Potra, assim se chamava a rapariga, porque assegurou uma casa farta para o nascimento do filho; e os patrões, porque sabiam que não era fácil arranjar outra criada com as condições de honestidade e trabalho que aquela lhes garantia.
Pela parte dos patrões, nunca houve grande preocupação com o desgosto da criada. Até lhes pareceu que tinha sido uma sorte a Rosalía ver-se livre do amolador de facas, pois era sabido o feitio quezilento e brigão do rapaz, sempre disposto a largar o trabalho para se meter na fadistagem. E constantemente a vadiar por tudo quanto era feira e festa no Alentejo.
Quanto a Rosalía, bastará dizer que a partir dessa altura apenas teve como preocupação o bem estar do filho.
Este, nasceu no palacete dos patrões da mãe, uma estalagem que se situava, ali mesmo, na Praça da República, e aí viveu até à morte desta, também ele como criado da casa.
Primeiro, como moço de mandados, e mais tarde, como cozinheiro.
Excelente cozinheiro, para sermos honestos no que dizemos.
E foi já depois da morte prematura da mãe, uma santa e esforçada mulher, como todos reconheciam, e a quem uma estranha doença consumiu, que chegou a carta de chamada, enviada de Angola, por um tio, irmão da falecida.
Esse tio, que ele não conhecia pessoalmente, pois tinha sido deportado para essa colónia muitos anos antes do seu nascimento, por motivos políticos, estava estabelecido em Luanda com uma empresa que era, simultaneamente, armazém, padaria, mercearia, drogaria, restaurante e pensão.
« Casa Pero Rodrigues », assim se chamava o estabelecimento.
Foi nessa cidade, Luanda, que já fez a entrada do ano de 1945.
Tinha chegado uns dias antes, depois duma longa viagem de barco, com escalas nas ilhas de Cabo Verde e São Tomé.
O que verdadeiramente queremos contar – as andanças de um alentejano por outras paragens – começa aqui.
Aos vinte e três anos o Rufino era, como muitos outros rapazes dessa idade, um pouco irreflectido, com muito sangue na guelra, não deixava que lhe pusessem a pata em cima e, por dá cá aquela palha, arranjava um sarilho de todo o tamanho. Já se vira envolvido nalgumas boas brigas e até se dizia que não era preciso muito para o fazer sair do sério. Os que o conheciam melhor, os que com ele mais de perto lidavam, diziam que era o feitio do pai a vir ao de cima e o fazia destemperar.
Todavia, espantava toda a gente com a assiduidade com que frequentava a igreja.
Ainda em tempo de sua mãe, antes de começar a correr a região, trabalhando aqui e ali, fizera todas as comunhões, crisma e catequeses, revelando uma grande devoção, sobretudo por altura das festas religiosas, transportando os andores e os pendões, quando em dias de procissão. Tinha, até, opas de propriedade pessoal, que usava consoante o tipo de festa religiosa em que participava.
Não se lhe conheceram muitas namoradas, e aquelas que teve, quando os namoros acabavam, não lhe ficavam a querer mal.
No geral, era um rapaz respeitado, pese embora a propensão para não levar o trabalho a muito sério.
Não que fosse madraço.
Simplesmente, não coalhava emprego.
Resta acrescentar que era um homem muito bem posto, alto, ombros largos e feições correctas, tendo até algumas preocupações na forma como se vestia. Outra herança do pai.
Era este o homem que se apresentou a seu tio na cidade de Luanda, pelos finais de 1944.
Este, Rufino Potra, tal como o sobrinho, tinha sido dos primeiros comerciantes de Luanda a compreender o potencial da cidade, e rapidamente se metera nos mais diversos negócios; para além do estabelecimento que já referimos, tinha negócios de importação e exportação, nomeadamente de vinhos e bacalhau, assim como de óleos alimentares dos mais diversos tipos.
O tio de Rufino, que nunca casou nem tinha qualquer formação académica, era, porém, muito astuto nos negócios, e quando enriqueceu, sentindo-se velho e doente, cansado e muito só, prestou todo o apoio ao sobrinho na administração da sua já larga fortuna, antes de se retirar, definitivamente, para um velho casarão colonial que possuía no bairro das Ingombotas.
Embora vigiado de muito perto pelo tio, conseguiu ganhar-lhe a confiança, e começou a dinamizar os negócios da empresa, ampliando-os muito rapidamente.
Foi nessa altura que conheceu a Ana Milongo.
Como já dissemos, o Rufino, aos domingos, era frequentador da missa.
Começou por reparar naquela rapariga negra, alta e desenvolta, com porte atlético, que ocupava sempre um dos lugares mais perto do altar. Reparou, também, que era uma mulher muito bonita, elegante, com um cabelo estilo “afro”, do tipo que, muitos anos mais tarde, viria a ser popularizado por Ângela Davis, outra negra, que do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos da América, viria a dar muito que falar.
As pernas altas, cobertas quase até aos pés por um vestido muito sóbrio. Um chapéu largo, do qual pendia um véu, escondia-lhe o rosto quase por completo.
Aquela jovem mulher passou a constituir uma obsessão para ele.
Pese embora a força da sua fé católica não lhe exigir tanto, passou a frequentar a igreja todos os dias, pois descobrira que ela todas as manhãs ia à primeira missa.
E como quem está interessado sempre vai descobrindo mais coisas – basta ir fazendo perguntas – conseguiu saber que era sobrinha do sacerdote responsável pela paróquia; que pertencia a uma família católica, da classe média negra de Luanda, se esse termo se pode utilizar para definir a situação social que nessa altura se vivia na capital da colónia.
Ela, soube ele mais tarde, também reparara naquele homem que, todos os dias, marcava presença na primeira missa da manhã.
Um dia chegaram à fala.
Quando ela saiu da igreja, acompanhada pelo tio, sacerdote, como já dissemos, ele, muito desembaraçado, disse-lhe que ali ia diariamente porque a sua fé isso lhe ordenava, mas que a presença dela na igreja, também diariamente, não lhe era indiferente. E com o devido respeito lhe perguntava, na presença do tio, que muito considerava, se estaria disposta a falar com ele afim de se conhecerem melhor. Pedindo desculpa por isso, também lhe disse que já tirara informações da família dela, porque Luanda, afinal, era uma pequena aldeia. Na sua posição, precisava de uma mulher a seu lado, começava a fazer-se tarde para casar, e estava disposto a dar todas as explicações que ela, ou a família dela, achassem por bem pedir-lhe.
Assim mesmo. Tudo de rajada. E que não ficassem dúvidas sobre as suas intenções.
Tio e sobrinha ficaram atónitos com aquele palavreado.
Ela, levantando o véu que lhe cobria o rosto, disfarçando a atrapalhação que por momentos a tolheu, disse que apreciava a maneira frontal como ele se lhe dirigira e que, embora não estivesse habituada a ser abordada daquela maneira, levaria em conta o pedido dele e que falariam num dos dias seguintes.
Falaram; falaram e começaram a namorar.
Na Luanda de meados dos anos quarenta, essa não era uma situação normal, sobretudo nos meios em que ambos viviam.
E não só porque a cidade já se habituara a ver em Rufino o herdeiro duma grande fortuna, mas também porque na família de Ana Milongo, os casamentos sempre se tinham realizado entre pessoas da mesma cor.
Casaram um ano depois; e quem os casou foi o sacerdote, tio da noiva.
Foi então que começaram a nascer os filhos : Primeiro os gémeos, João e Jacinto, assim se chamaram; depois as gémeas; uma, se chamou Rosalía, em homenagem à mãe de Rufino, e a outra, Eva, como a primeira mulher.
Por essa altura já o tio de Rufino tinha falecido, deixando-o como único herdeiro e fazendo dele um dos homens mais ricos da cidade.
No princípio dos anos sessenta, quando os filhos começaram a crescer e a guerra colonial começou a fazer as primeiras vítimas é que, verdadeiramente, começaram os trabalhos deste casal. Casal que até era apontado, em certos meios, como o verdadeiro exemplo e realização da presença portuguesa em África.
Não é, porém, para falar da guerra colonial que aqui estamos. Esses assuntos apenas aqui serão abordados na medida em que tiveram influência no que pretendemos contar.
Todos os filhos de Rufino Potra e Ana Milongo tomaram partido, durante os anos sessenta, no que diz respeito à guerra. O primeiro a juntar-se à guerrilha foi o João; logo de seguida, o Jacinto desapareceu, e só um ano mais tarde deu notícias; estava em Argel e dizia que só voltaria a Angola quando esta fosse um país independente.
Mais tarde, souberam que o João tinha sido aprisionado pelas tropas portuguesas e internado no campo de concentração de S. Nicolau, no sul da Angola. E embora fossem permitidas algumas visitas por parte dos pais, a verdade é que nunca mais se restabeleceu a relação de intimidade que tinha existido antes.
As gémeas, Rosalía e Eva, também muito cedo se manifestaram a favor da independência de Angola. Quando vieram para Lisboa, já como alunas da universidade, participaram activamente em movimentos estudantis avessos ao regime e, antes de terminarem os cursos, também rumaram a Argel e acabaram por integrar as fileiras de um dos movimentos de libertação de Angola.
Por essa altura já os negócios de Rufino estavam a correr mal.
Nada aconteceu por acaso.
Primeiro, foi o desgosto de nada saber dos filhos mais velhos; durante anos não teve a menor notícia deles.
Depois, as filhas seguiram as pisadas dos irmãos e voltou a repetir-se a situação.
A mulher, Ana Milongo, refugiou-se na religião e procurou aí a cura para os desgostos.
O entusiasmo que Rufino sempre sentira pelos negócios foi esmorecendo e, por fim, desinteressou-se completamente.
Os gestores que colocou à frente das empresas não terão sido a melhor escolha e rapidamente foram perdendo competitividade na economia da cidade, acabando por abrir falência.
Foi assim que aquela família, que já tinha sido um exemplo para a comunidade, se viu, no espaço de uma dezena de anos, arruinada economicamente, destroçada e dividida como agregado familiar.
Rufino, depois de liquidar o que restava dos seus negócios, passou a viver de alguns, parcos, rendimentos.
Assim se viram estes dois seres, Rufino e Ana Milongo, completamente isolados, vivendo cada um em seu lado naquele enorme casarão, ali para o lado das Ingombotas.
Esse casarão fora o único património que restara dos tempos passados.
Até que um dia aconteceu o inesperado : Em Lisboa, dera-se uma revolução. As Forças Armadas, através de um punhado de jovens oficiais, assumiram o poder.
E, subitamente ... bem ... não tão subitamente assim, mas umas semanas depois, o filho João, que estava preso no campo de S. Nicolau, apareceu em casa. Disse que o mano Jacinto também deveria regressar em breve.
Quanto às manas, Rosalía e Eva, não tinha qualquer informação porque se encontravam em missão no estrangeiro e era provável que o seu regresso não se desse de imediato. Os pais, para falarmos a verdade, não o entenderam muito bem.
O entendimento completo da situação só viria depois, quando a cidade se encheu de guerrilheiros de todos os movimentos de libertação, que disputavam os diversos bairros, esquina a esquina, casa a casa.
Quando, passados cerca de dezoito meses, se soube que os “mobutus” já estavam perto de Catete, e os “apartaides” estavam a chegar a Novo Redondo, cercando Luanda, Rufino Potra e Ana Milongo, meteram-se num avião da ponte aérea, e aterraram em Lisboa a 12 de Novembro de 1975.
Os filhos já estavam todos em Luanda, mas passavam-se semanas que não iam a casa dos pais. Estes, estavam aflitos porque não compreendiam a actividade dos filhos; a segurança nas ruas era nula; todos as noites havia tiroteios na cidade; e nos últimos meses a casa tinha sido ocupada para ali instalar uma espécie de quartel-general, pois a toda a hora entravam e saíam militares. Que, embora fossem negros e mestiços, falavam espanhol.
Fartos de se sentirem intrusos na sua própria casa, deixaram recados aos outros filhos e, com a ajuda de Rosalía, entraram no avião que os trouxe para Lisboa.
Passado que foi um ano, quando os desgostos, as raivas e as desilusões se foram atenuando, Quando se impôs a necessidade da sobrevivência económica e a saúde mental estava por um fio, foi a altura de ultrapassar tudo o que estava para trás e prosseguir.
E esse caminho foi encontrado por Rufino e Ana Milongo na região em que ele tinha nascido.
E naquela rua da Vila, muito perto do Jardim das Meninas, junto à casa em que Rufino tinha nascido, na vizinhança do castelo medieval, numa região muito famosa pela sua cozinha, surgiu um restaurante que fazia a diferença.
Claro que as açordas e as migas, as sopas de cação, os cozidos de grão, eram os pratos fortes da casa. Uma ou outra caldeta, também brilhava na ementa.
Contudo, volta e meia, aparecia um cliente, por vezes vindo de longe – também retornado – que pedia com grande à vontade :
– « Oh comadre Ana, que mal pergunte, o compadre Rufino que diga quando é que comemos a muamba de galinha ! »
Era o Rufino na cozinha, e a Ana Milongo às mesas, aviando a freguesia com a ligeireza que o reumático permitia.
Era o Alentejo a absorver mais um caldinho de cultura culinária, com gente que vinha de fora, como, aliás, sempre tinha acontecido ao longo dos séculos.
E foi assim que, aquele casal de velhos, começou a ultrapassar o problema da sobrevivência económica.
Mas faltava alguma coisa naquelas vidas !
Era a questão dos afectos a mordê-los por dentro.
As notícias dos filhos eram muito raras, e quando ainda escasseavam mais, instalava-se naquela casa um clima de tal tristeza que muito dificilmente ultrapassavam.
Foi por volta de 1985 que os filhos começaram a aparecer.
O primeiro foi o Jacinto. Quando deixou o governo angolano, passou a integrar a embaixada de Angola na capital espanhola e um dia apareceu no restaurante acompanhado da mulher e dos filhos. Não cabem nesta narrativa as manifestações de alegria que se seguiram, porque demorariam muito tempo a descrever, mas bem podem imaginar como foram, sobretudo por parte da avó.
Depois foram as gémeas, Rosalía e Eva. Apareceram juntas e, como era habitual, à bulha uma com a outra.
Vinham para ficar.
Ambas traziam filhos, mas vinham sem marido. Nem nunca se soube ao certo se alguma vez o tinham tido. Nunca lhes foram pedidas explicações sobre esse assunto, nem elas as deram.
Segundo disseram, sobretudo a Eva, a sua contribuição para a independência de Angola, tinha chegado ao fim.
Agora, competia às novas gerações prosseguir o caminho que tinha sido iniciado há mais de vinte anos atrás. E embora continuassem fiéis aos princípios que as tinham norteado, não lhes agradava falar muito sobre o assunto. Ainda, muito em jeito de desabafo, a Eva sempre foi dizendo que não lhe agradava o rumo que o governo angolano estava a dar ao país.
Vinham para trabalhar e ficar perto dos pais.
Elas, e os filhos.
Mas foi o Jacinto quem trouxe a melhor notícia. E fora para dar essa novidade que tinha vindo ter com os pais tão rapidamente, pois ainda nem sequer tinha tido tempo de se instalar em Madrid.
O mano João estava vivo; estava em Moçambique; casado e com filhos.
Apenas tomara conhecimento disso poucos dias antes.
Depois da tentativa do chamado levantamento “Nitista”, contra o governo de Angola, em meados de 1977, e em que o mano João estivera profundamente envolvido, fugira para Cuba e, mais tarde, entrara clandestinamente em Moçambique. Aí se mantivera numa semi-clandestinidade, constituíra família, e ele, Jacinto, estava agora a tratar do assunto afim de o trazer para Portugal. Deixara a política e trabalhava na cidade da Beira.
Eva – Evita – como era tratada em família, foi trabalhar para Évora, deixando os filhos, dois magníficos rapazes, cor de chocolate, com os avós, afim de prosseguirem os estudos secundários que ainda tinham iniciado em Angola.
Rosalía foi trabalhar com o irmão Jacinto na embaixada de Angola, em Madrid. Deixou as duas filhas com os avós, também para estudarem no colégio local.
Foi quando de Moçambique chegou o João.
Trazia com ele a mulher, uma mulata alta e bonita. E as duas filhas, que eram a cara chapada da avó Ana.
Nessa altura Rufino Potra e Ana Milongo, realizaram o seu maior sonho : Juntar à mesa todos os filhos e netos.
E aquela vila alentejana, nesse verão de meados da década de oitenta, ficou marcada por gente que, vinda doutras paragens, fez daquela terra o seu ponto de encontro.
A planície se encarregaria de os integrar, tal como vem acontecendo há milénios, com todos os que aqui chegaram.
FIM
Rufino Casablanca
Terena – Monte do Meio – Maio de 1990
Faz parte do espólio que deixou em casa de Chibía Milongo, aquando da sua morte, há três anos atrás.
Para a Chibía vão os nossos agradecimentos.
Chico Manuel
« Esta obra é uma ficção. Qualquer semelhança com a realidade, é pura coincidência. »
Era uma vez um homem ...
( Um conto por Rufino Casablanca )
Alentejano por nascimento, um dia partiu para África, e por lá fez a sua vida.
Anos mais tarde, muitos anos mais tarde, voltou à sua terra.
Rufino José Potra, assim se chamava.
Esta ..., é a sua história ...
O Rufino, nasceu exactamente um mês depois da morte do pai.
Corria o ano de 1922.
Aquela que viria a ser sua mãe, mulher bonita e trigueira, muito desembaraçada de modos, perdera-se de amores por um amolador de facas e tesouras, também exímio a consertar guarda-chuvas e a rebitar panelas, tachos e alguidares. Homem sem pouso regular, amigo de copos e farras, com um certo ar boémio. Na carroça em que transportava a bigorna, o engenho da roda de esmeril e as restantes ferramentas do ofício, e que simultaneamente lhe servia de casa, também transportava uma guitarra. E todas as tabernas eram apropriadas para exercitar os seus dons de fadista. Todos os meses aparecia pelos largos e ruas da Vila, anunciando a sua presença com os melodiosos gorjeios da gaita que simbolizava a profissão.
O romance foi arrebatado e teve um desenlace que era previsível.
Poucos meses depois já a rapariga tinha a barriga a crescer.
E outros tantos meses mais tarde, chegou a notícia de que o amolador de facas tinha sido mortalmente anavalhado, numa briga de barraca, durante as Festas dos Capuchos.
Assim, aos oito meses de gravidez, ficou a saber que o filho ia nascer órfão de pai.
Condoídos, os patrões, não a devolveram à casa paterna e deixaram passar o tempo até ao nascimento da criança.
Todos ganharam com essa decisão : A Rosalía Potra, assim se chamava a rapariga, porque assegurou uma casa farta para o nascimento do filho; e os patrões, porque sabiam que não era fácil arranjar outra criada com as condições de honestidade e trabalho que aquela lhes garantia.
Pela parte dos patrões, nunca houve grande preocupação com o desgosto da criada. Até lhes pareceu que tinha sido uma sorte a Rosalía ver-se livre do amolador de facas, pois era sabido o feitio quezilento e brigão do rapaz, sempre disposto a largar o trabalho para se meter na fadistagem. E constantemente a vadiar por tudo quanto era feira e festa no Alentejo.
Quanto a Rosalía, bastará dizer que a partir dessa altura apenas teve como preocupação o bem estar do filho.
Este, nasceu no palacete dos patrões da mãe, uma estalagem que se situava, ali mesmo, na Praça da República, e aí viveu até à morte desta, também ele como criado da casa.
Primeiro, como moço de mandados, e mais tarde, como cozinheiro.
Excelente cozinheiro, para sermos honestos no que dizemos.
E foi já depois da morte prematura da mãe, uma santa e esforçada mulher, como todos reconheciam, e a quem uma estranha doença consumiu, que chegou a carta de chamada, enviada de Angola, por um tio, irmão da falecida.
Esse tio, que ele não conhecia pessoalmente, pois tinha sido deportado para essa colónia muitos anos antes do seu nascimento, por motivos políticos, estava estabelecido em Luanda com uma empresa que era, simultaneamente, armazém, padaria, mercearia, drogaria, restaurante e pensão.
« Casa Pero Rodrigues », assim se chamava o estabelecimento.
Foi nessa cidade, Luanda, que já fez a entrada do ano de 1945.
Tinha chegado uns dias antes, depois duma longa viagem de barco, com escalas nas ilhas de Cabo Verde e São Tomé.
O que verdadeiramente queremos contar – as andanças de um alentejano por outras paragens – começa aqui.
Aos vinte e três anos o Rufino era, como muitos outros rapazes dessa idade, um pouco irreflectido, com muito sangue na guelra, não deixava que lhe pusessem a pata em cima e, por dá cá aquela palha, arranjava um sarilho de todo o tamanho. Já se vira envolvido nalgumas boas brigas e até se dizia que não era preciso muito para o fazer sair do sério. Os que o conheciam melhor, os que com ele mais de perto lidavam, diziam que era o feitio do pai a vir ao de cima e o fazia destemperar.
Todavia, espantava toda a gente com a assiduidade com que frequentava a igreja.
Ainda em tempo de sua mãe, antes de começar a correr a região, trabalhando aqui e ali, fizera todas as comunhões, crisma e catequeses, revelando uma grande devoção, sobretudo por altura das festas religiosas, transportando os andores e os pendões, quando em dias de procissão. Tinha, até, opas de propriedade pessoal, que usava consoante o tipo de festa religiosa em que participava.
Não se lhe conheceram muitas namoradas, e aquelas que teve, quando os namoros acabavam, não lhe ficavam a querer mal.
No geral, era um rapaz respeitado, pese embora a propensão para não levar o trabalho a muito sério.
Não que fosse madraço.
Simplesmente, não coalhava emprego.
Resta acrescentar que era um homem muito bem posto, alto, ombros largos e feições correctas, tendo até algumas preocupações na forma como se vestia. Outra herança do pai.
Era este o homem que se apresentou a seu tio na cidade de Luanda, pelos finais de 1944.
Este, Rufino Potra, tal como o sobrinho, tinha sido dos primeiros comerciantes de Luanda a compreender o potencial da cidade, e rapidamente se metera nos mais diversos negócios; para além do estabelecimento que já referimos, tinha negócios de importação e exportação, nomeadamente de vinhos e bacalhau, assim como de óleos alimentares dos mais diversos tipos.
O tio de Rufino, que nunca casou nem tinha qualquer formação académica, era, porém, muito astuto nos negócios, e quando enriqueceu, sentindo-se velho e doente, cansado e muito só, prestou todo o apoio ao sobrinho na administração da sua já larga fortuna, antes de se retirar, definitivamente, para um velho casarão colonial que possuía no bairro das Ingombotas.
Embora vigiado de muito perto pelo tio, conseguiu ganhar-lhe a confiança, e começou a dinamizar os negócios da empresa, ampliando-os muito rapidamente.
Foi nessa altura que conheceu a Ana Milongo.
Como já dissemos, o Rufino, aos domingos, era frequentador da missa.
Começou por reparar naquela rapariga negra, alta e desenvolta, com porte atlético, que ocupava sempre um dos lugares mais perto do altar. Reparou, também, que era uma mulher muito bonita, elegante, com um cabelo estilo “afro”, do tipo que, muitos anos mais tarde, viria a ser popularizado por Ângela Davis, outra negra, que do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos da América, viria a dar muito que falar.
As pernas altas, cobertas quase até aos pés por um vestido muito sóbrio. Um chapéu largo, do qual pendia um véu, escondia-lhe o rosto quase por completo.
Aquela jovem mulher passou a constituir uma obsessão para ele.
Pese embora a força da sua fé católica não lhe exigir tanto, passou a frequentar a igreja todos os dias, pois descobrira que ela todas as manhãs ia à primeira missa.
E como quem está interessado sempre vai descobrindo mais coisas – basta ir fazendo perguntas – conseguiu saber que era sobrinha do sacerdote responsável pela paróquia; que pertencia a uma família católica, da classe média negra de Luanda, se esse termo se pode utilizar para definir a situação social que nessa altura se vivia na capital da colónia.
Ela, soube ele mais tarde, também reparara naquele homem que, todos os dias, marcava presença na primeira missa da manhã.
Um dia chegaram à fala.
Quando ela saiu da igreja, acompanhada pelo tio, sacerdote, como já dissemos, ele, muito desembaraçado, disse-lhe que ali ia diariamente porque a sua fé isso lhe ordenava, mas que a presença dela na igreja, também diariamente, não lhe era indiferente. E com o devido respeito lhe perguntava, na presença do tio, que muito considerava, se estaria disposta a falar com ele afim de se conhecerem melhor. Pedindo desculpa por isso, também lhe disse que já tirara informações da família dela, porque Luanda, afinal, era uma pequena aldeia. Na sua posição, precisava de uma mulher a seu lado, começava a fazer-se tarde para casar, e estava disposto a dar todas as explicações que ela, ou a família dela, achassem por bem pedir-lhe.
Assim mesmo. Tudo de rajada. E que não ficassem dúvidas sobre as suas intenções.
Tio e sobrinha ficaram atónitos com aquele palavreado.
Ela, levantando o véu que lhe cobria o rosto, disfarçando a atrapalhação que por momentos a tolheu, disse que apreciava a maneira frontal como ele se lhe dirigira e que, embora não estivesse habituada a ser abordada daquela maneira, levaria em conta o pedido dele e que falariam num dos dias seguintes.
Falaram; falaram e começaram a namorar.
Na Luanda de meados dos anos quarenta, essa não era uma situação normal, sobretudo nos meios em que ambos viviam.
E não só porque a cidade já se habituara a ver em Rufino o herdeiro duma grande fortuna, mas também porque na família de Ana Milongo, os casamentos sempre se tinham realizado entre pessoas da mesma cor.
Casaram um ano depois; e quem os casou foi o sacerdote, tio da noiva.
Foi então que começaram a nascer os filhos : Primeiro os gémeos, João e Jacinto, assim se chamaram; depois as gémeas; uma, se chamou Rosalía, em homenagem à mãe de Rufino, e a outra, Eva, como a primeira mulher.
Por essa altura já o tio de Rufino tinha falecido, deixando-o como único herdeiro e fazendo dele um dos homens mais ricos da cidade.
No princípio dos anos sessenta, quando os filhos começaram a crescer e a guerra colonial começou a fazer as primeiras vítimas é que, verdadeiramente, começaram os trabalhos deste casal. Casal que até era apontado, em certos meios, como o verdadeiro exemplo e realização da presença portuguesa em África.
Não é, porém, para falar da guerra colonial que aqui estamos. Esses assuntos apenas aqui serão abordados na medida em que tiveram influência no que pretendemos contar.
Todos os filhos de Rufino Potra e Ana Milongo tomaram partido, durante os anos sessenta, no que diz respeito à guerra. O primeiro a juntar-se à guerrilha foi o João; logo de seguida, o Jacinto desapareceu, e só um ano mais tarde deu notícias; estava em Argel e dizia que só voltaria a Angola quando esta fosse um país independente.
Mais tarde, souberam que o João tinha sido aprisionado pelas tropas portuguesas e internado no campo de concentração de S. Nicolau, no sul da Angola. E embora fossem permitidas algumas visitas por parte dos pais, a verdade é que nunca mais se restabeleceu a relação de intimidade que tinha existido antes.
As gémeas, Rosalía e Eva, também muito cedo se manifestaram a favor da independência de Angola. Quando vieram para Lisboa, já como alunas da universidade, participaram activamente em movimentos estudantis avessos ao regime e, antes de terminarem os cursos, também rumaram a Argel e acabaram por integrar as fileiras de um dos movimentos de libertação de Angola.
Por essa altura já os negócios de Rufino estavam a correr mal.
Nada aconteceu por acaso.
Primeiro, foi o desgosto de nada saber dos filhos mais velhos; durante anos não teve a menor notícia deles.
Depois, as filhas seguiram as pisadas dos irmãos e voltou a repetir-se a situação.
A mulher, Ana Milongo, refugiou-se na religião e procurou aí a cura para os desgostos.
O entusiasmo que Rufino sempre sentira pelos negócios foi esmorecendo e, por fim, desinteressou-se completamente.
Os gestores que colocou à frente das empresas não terão sido a melhor escolha e rapidamente foram perdendo competitividade na economia da cidade, acabando por abrir falência.
Foi assim que aquela família, que já tinha sido um exemplo para a comunidade, se viu, no espaço de uma dezena de anos, arruinada economicamente, destroçada e dividida como agregado familiar.
Rufino, depois de liquidar o que restava dos seus negócios, passou a viver de alguns, parcos, rendimentos.
Assim se viram estes dois seres, Rufino e Ana Milongo, completamente isolados, vivendo cada um em seu lado naquele enorme casarão, ali para o lado das Ingombotas.
Esse casarão fora o único património que restara dos tempos passados.
Até que um dia aconteceu o inesperado : Em Lisboa, dera-se uma revolução. As Forças Armadas, através de um punhado de jovens oficiais, assumiram o poder.
E, subitamente ... bem ... não tão subitamente assim, mas umas semanas depois, o filho João, que estava preso no campo de S. Nicolau, apareceu em casa. Disse que o mano Jacinto também deveria regressar em breve.
Quanto às manas, Rosalía e Eva, não tinha qualquer informação porque se encontravam em missão no estrangeiro e era provável que o seu regresso não se desse de imediato. Os pais, para falarmos a verdade, não o entenderam muito bem.
O entendimento completo da situação só viria depois, quando a cidade se encheu de guerrilheiros de todos os movimentos de libertação, que disputavam os diversos bairros, esquina a esquina, casa a casa.
Quando, passados cerca de dezoito meses, se soube que os “mobutus” já estavam perto de Catete, e os “apartaides” estavam a chegar a Novo Redondo, cercando Luanda, Rufino Potra e Ana Milongo, meteram-se num avião da ponte aérea, e aterraram em Lisboa a 12 de Novembro de 1975.
Os filhos já estavam todos em Luanda, mas passavam-se semanas que não iam a casa dos pais. Estes, estavam aflitos porque não compreendiam a actividade dos filhos; a segurança nas ruas era nula; todos as noites havia tiroteios na cidade; e nos últimos meses a casa tinha sido ocupada para ali instalar uma espécie de quartel-general, pois a toda a hora entravam e saíam militares. Que, embora fossem negros e mestiços, falavam espanhol.
Fartos de se sentirem intrusos na sua própria casa, deixaram recados aos outros filhos e, com a ajuda de Rosalía, entraram no avião que os trouxe para Lisboa.
Passado que foi um ano, quando os desgostos, as raivas e as desilusões se foram atenuando, Quando se impôs a necessidade da sobrevivência económica e a saúde mental estava por um fio, foi a altura de ultrapassar tudo o que estava para trás e prosseguir.
E esse caminho foi encontrado por Rufino e Ana Milongo na região em que ele tinha nascido.
E naquela rua da Vila, muito perto do Jardim das Meninas, junto à casa em que Rufino tinha nascido, na vizinhança do castelo medieval, numa região muito famosa pela sua cozinha, surgiu um restaurante que fazia a diferença.
Claro que as açordas e as migas, as sopas de cação, os cozidos de grão, eram os pratos fortes da casa. Uma ou outra caldeta, também brilhava na ementa.
Contudo, volta e meia, aparecia um cliente, por vezes vindo de longe – também retornado – que pedia com grande à vontade :
– « Oh comadre Ana, que mal pergunte, o compadre Rufino que diga quando é que comemos a muamba de galinha ! »
Era o Rufino na cozinha, e a Ana Milongo às mesas, aviando a freguesia com a ligeireza que o reumático permitia.
Era o Alentejo a absorver mais um caldinho de cultura culinária, com gente que vinha de fora, como, aliás, sempre tinha acontecido ao longo dos séculos.
E foi assim que, aquele casal de velhos, começou a ultrapassar o problema da sobrevivência económica.
Mas faltava alguma coisa naquelas vidas !
Era a questão dos afectos a mordê-los por dentro.
As notícias dos filhos eram muito raras, e quando ainda escasseavam mais, instalava-se naquela casa um clima de tal tristeza que muito dificilmente ultrapassavam.
Foi por volta de 1985 que os filhos começaram a aparecer.
O primeiro foi o Jacinto. Quando deixou o governo angolano, passou a integrar a embaixada de Angola na capital espanhola e um dia apareceu no restaurante acompanhado da mulher e dos filhos. Não cabem nesta narrativa as manifestações de alegria que se seguiram, porque demorariam muito tempo a descrever, mas bem podem imaginar como foram, sobretudo por parte da avó.
Depois foram as gémeas, Rosalía e Eva. Apareceram juntas e, como era habitual, à bulha uma com a outra.
Vinham para ficar.
Ambas traziam filhos, mas vinham sem marido. Nem nunca se soube ao certo se alguma vez o tinham tido. Nunca lhes foram pedidas explicações sobre esse assunto, nem elas as deram.
Segundo disseram, sobretudo a Eva, a sua contribuição para a independência de Angola, tinha chegado ao fim.
Agora, competia às novas gerações prosseguir o caminho que tinha sido iniciado há mais de vinte anos atrás. E embora continuassem fiéis aos princípios que as tinham norteado, não lhes agradava falar muito sobre o assunto. Ainda, muito em jeito de desabafo, a Eva sempre foi dizendo que não lhe agradava o rumo que o governo angolano estava a dar ao país.
Vinham para trabalhar e ficar perto dos pais.
Elas, e os filhos.
Mas foi o Jacinto quem trouxe a melhor notícia. E fora para dar essa novidade que tinha vindo ter com os pais tão rapidamente, pois ainda nem sequer tinha tido tempo de se instalar em Madrid.
O mano João estava vivo; estava em Moçambique; casado e com filhos.
Apenas tomara conhecimento disso poucos dias antes.
Depois da tentativa do chamado levantamento “Nitista”, contra o governo de Angola, em meados de 1977, e em que o mano João estivera profundamente envolvido, fugira para Cuba e, mais tarde, entrara clandestinamente em Moçambique. Aí se mantivera numa semi-clandestinidade, constituíra família, e ele, Jacinto, estava agora a tratar do assunto afim de o trazer para Portugal. Deixara a política e trabalhava na cidade da Beira.
Eva – Evita – como era tratada em família, foi trabalhar para Évora, deixando os filhos, dois magníficos rapazes, cor de chocolate, com os avós, afim de prosseguirem os estudos secundários que ainda tinham iniciado em Angola.
Rosalía foi trabalhar com o irmão Jacinto na embaixada de Angola, em Madrid. Deixou as duas filhas com os avós, também para estudarem no colégio local.
Foi quando de Moçambique chegou o João.
Trazia com ele a mulher, uma mulata alta e bonita. E as duas filhas, que eram a cara chapada da avó Ana.
Nessa altura Rufino Potra e Ana Milongo, realizaram o seu maior sonho : Juntar à mesa todos os filhos e netos.
E aquela vila alentejana, nesse verão de meados da década de oitenta, ficou marcada por gente que, vinda doutras paragens, fez daquela terra o seu ponto de encontro.
A planície se encarregaria de os integrar, tal como vem acontecendo há milénios, com todos os que aqui chegaram.
FIM
Rufino Casablanca
Terena – Monte do Meio – Maio de 1990
Tuesday, September 13, 2011
Wednesday, August 31, 2011
ALANDROAL EM FESTA
Festival da Juventude e Festas em Honra de Nossa Senhora da Conceição em Contagem Decrescente
É já amanhã que a animação volta ao Alandroal, com a realização de mais uma edição do Festival da Juventude e das tradicionais Festas em Honra de Nossa Senhora da Conceição. Até ao próximo dia 5 de Setembro, segunda-feira, terá ao seu dispor várias actividades culturais, desportivas e lúdicas. Garraiadas e largadas, concertos, bailes tradicionais, apresentações desportivas, exposições e animação nocturna, com alguns dos melhores DJ’s da actualidade. Além disso poderá ainda visitar os stands de artesanato e gastronomia, ou deliciar-se com um petisco nas tasquinhas das associações do concelho. Motivos de interesse para que passe momentos repletos de animação e alegria não vão faltar. Em baixo pode consultar programa detalhado da edição 2011 do Festival da Juventude e festas em honra de Nossa Senhora da Conceição. Não falte!
Sunday, July 10, 2011
PESQUISA
Comemorando os 150 anos do nascimento de José Leite de Vasconcelos, o Grupo dos Amigos do Museu Nacional de Arqueologia visitou os pontos de interesse histórico relacionados.
Assim, estiveram em Terena, lugar ligado desde sempre ao Endovélico, dirigindo-se de seguida ao Outeiro de São Miguel da Mota, onde é suposto ter existido um Templo do tempo dos romanos, onde era prestado culto ao antigo Deus Celta.
Assim, estiveram em Terena, lugar ligado desde sempre ao Endovélico, dirigindo-se de seguida ao Outeiro de São Miguel da Mota, onde é suposto ter existido um Templo do tempo dos romanos, onde era prestado culto ao antigo Deus Celta.
Friday, June 17, 2011
“ESTE SIM A RECORDAR OS DOCUMENTÁRIOS APRESENTADOS PELO SRº DOMINGOS MARIA PEÇAS
Desenho de 1950. Uma jóia! Verdadeira relíquia!!!!
Atendendo a uma solicitação do governo americano, que visava uma política de aproximação com o Brasil, Walt Disney fez esse e outros desenhos animados.
Essa maravilha foi criada nos anos 50, inteiramente à mão,sem computadores, efeitos digitais ou recursos mágicos do cinema de hoje.
Desenho de 1950. Uma jóia! Verdadeira relíquia!!!!
Atendendo a uma solicitação do governo americano, que visava uma política de aproximação com o Brasil, Walt Disney fez esse e outros desenhos animados.
Essa maravilha foi criada nos anos 50, inteiramente à mão,sem computadores, efeitos digitais ou recursos mágicos do cinema de hoje.
Wednesday, June 08, 2011
CULTURA NUNCA É DEMAIS
Revisão d'Os Lusíadas na Crise...
Diria agora Camões...
À rasca...espalharei por toda a parte
I
As sarnas de barões todos inchados
Eleitos pela plebe lusitana
Que agora se encontram instalados
Fazendo o que lhes dá na real gana.
Nos seus poleiros bem engalanados,
Mais do que permite a decência humana,
Olvidam-se de quanto proclamaram
Nas campanhas com que nos enganaram!
II
E também as jogadas habilidosas
Daqueles tais que foram dilatando
Contas bancárias ignominiosas,
Do Minho ao Algarve tudo devastando,
Guardam para si as coisas valiosas.
Desprezam quem de fome vai chorando!
Gritando levarei, se tiver arte,
Esta falta de vergonha a toda a parte!
III
Falam da crise grega todo o ano!
E das aflições que à Europa deram;
Calam-se aqueles que, por engano,
Votaram no refugo que elegeram!
Que a mim mete-me nojo o peito ufano
De crápulas que só enriqueceram
Com a prática de trafulhice tanta
Que andarem à solta só me espanta.
IV
E vós, ninfas do Douro onde eu nado,
Por quem sempre senti carinho ardente,
Não me deixeis agora abandonado
E concedei engenho à minha mente,
De modo a que possa, convosco ao lado,
Desmascarar de forma eloquente
Aqueles que já têm no seu gene
A besta horrível do poder perene!
Diria agora Camões...
À rasca...espalharei por toda a parte
I
As sarnas de barões todos inchados
Eleitos pela plebe lusitana
Que agora se encontram instalados
Fazendo o que lhes dá na real gana.
Nos seus poleiros bem engalanados,
Mais do que permite a decência humana,
Olvidam-se de quanto proclamaram
Nas campanhas com que nos enganaram!
II
E também as jogadas habilidosas
Daqueles tais que foram dilatando
Contas bancárias ignominiosas,
Do Minho ao Algarve tudo devastando,
Guardam para si as coisas valiosas.
Desprezam quem de fome vai chorando!
Gritando levarei, se tiver arte,
Esta falta de vergonha a toda a parte!
III
Falam da crise grega todo o ano!
E das aflições que à Europa deram;
Calam-se aqueles que, por engano,
Votaram no refugo que elegeram!
Que a mim mete-me nojo o peito ufano
De crápulas que só enriqueceram
Com a prática de trafulhice tanta
Que andarem à solta só me espanta.
IV
E vós, ninfas do Douro onde eu nado,
Por quem sempre senti carinho ardente,
Não me deixeis agora abandonado
E concedei engenho à minha mente,
De modo a que possa, convosco ao lado,
Desmascarar de forma eloquente
Aqueles que já têm no seu gene
A besta horrível do poder perene!
Monday, June 06, 2011
OH GENTE DA MINHA TERRA – (SUAS TRADIÇÕES)
Os Jogos tradicionais da Zona dos Mármores começam a ser uma tradição no Alentejo. A aldeia do Rosário, no Alandroal, recebeu o Torneio da Malha.
País - Torneio de malha no Alandroal junta 20 equipas alentejanas - RTP Noticias, Vídeo
País - Torneio de malha no Alandroal junta 20 equipas alentejanas - RTP Noticias, Vídeo
Wednesday, May 25, 2011
EXCELENTE !!!
Espectacular momento de música
Assistam a uma peça espectacular e de bons momentos de música.
A artista não só toca com o corpo mas também com alma, a alma espanhola!
Tem momentos que ela ocupa o lugar do maestro...
Lindíssimo. Sensibilidade, ritmo e mestria... vale a pena ver e ouvir.
Arte e Música... ainda haverá algo mais para nos surpreender?
Dediquem 7 minutos do vosso tempo, para apreciar este show...
(enviado por Air-Fado)
Monday, May 09, 2011
Saturday, May 07, 2011
Monday, April 18, 2011
CASAS NOVAS DE MARES
Termina aqui a " Trilogia do Quadiana "
Relembramos que esta narrativa, tal como as outras que a antecederam, foi encontrada dentro de uma garrafa que estava encalhada num açude do rio.
O manuscrito não estava assinado e vinha redigido em língua castelhana.
A tradução, mais uma vez, é da responsabilidade de Eveline Sambraz.
O título também é da responsabilidade da tradutora.
« Casas Novas de Mares »
Quando Pablo Picasso completou oitenta anos de vida, lá pelo outono de 1961, reuniu na sua propriedade, no sul de França, uma grande quantidade de amigos; dessa comemoração constou uma tourada privada em que actuou, entre outros, Luís Miguel Domingín, ele próprio amigo de Picasso; pois foi durante os festejos de aniversário do pintor, que se desenharam os primeiros planos da minha entrada em Portugal.
A direcção do PCE ( Partido Comunista de Espanha ) há muito que vinha tentando montar em Portugal, uma organização de retaguarda, afim de apoiar o aparelho clandestino do partido que operava no interior de Espanha. Seria eu o responsável por essa tarefa.
Hoje - trinta anos depois - ao relembrar esses tempos, quero aqui deixar um sinal de muita saudade para aquele que primeiro se lembrou da forma como eu poderia entrar em Portugal : Domingo Dominguín; nem mais; Domingo Dominguín, irmão de Luís Miguel Dominguín.
Por essa época eu vivia em Espanha, incorporado na organização clandestina do partido, sempre munido de documentos falsos que essa mesma organização me facultava; documentos de tal maneira bem feitos que nada os distinguia dos autênticos.
Também por essa época, já Domingo Domingín era dirigente do partido, embora não vivesse em clandestinidade; não que se ignorasse a forma como pensava, todos sabiam da sua ligação ao partido, inclusive a polícia política de Franco tinha conhecimento disso, mas o facto de ser irmão do melhor matador de touros de Espanha nessa altura, e também o facto de pertencer a uma família que, sem reservas, sempre tinha apoiado o regime franquista, fazia com que a polícia esperasse uma ocasião para o prender em flagrante; como, aliás, aconteceu mais tarde.
Luís Miguel Dominguín, que nunca se envolvera em política, era, no entanto, incapaz de negar fosse o que fosse ao irmão; assim, ali mesmo, durante a comemoração dos oitenta anos de Picasso, no sul de França, foi elaborado o plano que me colocaria em Portugal.
« Eu faria parte daquela corte de aficcionados que sempre acompanha os matadores de touros nas suas deslocações, quando Luís Miguel Dominguín se deslocasse a Badajoz, para actuar numa corrida, por altura da feira de São João, no verão seguinte. Pela minha parte, teria que assegurar a ligação com os camaradas do partido português, afim de poder ser recolhido em Elvas. »
Um mês antes da data da operação, tudo estava planeado ao mais pequeno pormenor : Depois da corrida, a comitiva, cerca de quinze pessoas, entre as quais Lúcia Bosé, mulher de Luís Miguel, iria jantar à pousada de Elvas; no regresso, a comitiva viria desfalcada, pois eu seguiria o meu caminho e não voltaria a Badajoz; todos os detalhes estavam assegurados, mesmo as autorizações para passagem na fronteira.
Como estas acções conspirativas são sempre rodeadas do maior segredo, apenas Luís Miguel Domingín sabia que eu não regressaria a Espanha; no entanto, sempre me pareceu que Lúcia Bosé, que era italiana, e em tempos tinha participado em algumas iniciativas do partido italiano, nomeadamente na festa anual do " L'Unitá ", estava a par do que se ia passar.
Bem dito, melhor feito.
No fim do jantar, à porta da pousada, e depois do reconhecimento, feito através dos sinais previamente combinados, meti-me num citroen boca de sapo e ala que se faz tarde; esta operação foi de tal forma bem executada que os restantes convivas só muito mais tarde se aperceberam da minha falta; para isso deve ter constituído motivo bastante as fortes libações durante a refeição; tanto quanto sei, tudo lhes correu da melhor maneira durante a viagem de regresso a Badajoz; nem a passagem da fronteira foi problema.
Também, quem iria arranjar problemas ao maior matador de touros do mundo ! ?
Tomámos o caminho do sul; por uma estrada que me pareceu correr, mais ou menos paralela ao rio Quadiana, passando por várias localidades cujos nomes retive : Juromenha, São Brás dos Matos, Rosáro, Capelins; depois foi a vez de uma povoação muito dispersa que, acho, se chamava Santiago Maior, e por fim, chegámos à aldeia em que pernoitaria e de cujo nome jamais me esquecerei, pois nunca encontrei uma terra com um nome tão poético : Casas Novas de Mares.
Demorámos cerca de cinco horas em toda esta viagem, porque todas as estradas eram de terra batida, estando algumas em tão mau estado, que nos obrigavam a andar a passo de caracol, e a última coisa que queríamos era que o carro ficasse no fundo de algum daqueles buracos.
O meu companheiro parecia conhecer a região como as suas mãos, o que não o impediu de estar alerta durante toda a viagem, pois, segundo me disse, era usual haver patrulhas da guarda fronteiriça, já que se tratava duma zona de contrabando; entregou-me a um casal de velhotes, num monte isolado, que tinham à minha espera uma ceia e me convidaram a comer, pedindo desculpa pela modéstia da refeição.
Eu, um intelectual, vindo de famílias abastadas, habituado a uma vida citadina e que, por opção, me encontrava naquela situação, perdido algures no Alentejo, absolutamente dependente daquelas pessoas, senti que o internacionalismo, termo que eu utilizava frequentemente, quando me referia à luta de classes, estava bem representado ali; apesar dos anos de clandestinidade que já levava, apesar dos maus momentos que já passara, apesar da dureza que a vida clandestina sempre implica, apesar de pensar que estava bem curtido pela vida, ainda me emocionei.
Tive que esconder os olhos para que os meus hospedeiros não vissem o brilho que as lágrimas lhe deram.
O companheiro que me trouxe, João José Potra ( vim a saber o seu nome mais tarde, já depois da revolução de Abril ) depois de comer daquela ceia, muito rapidamente, despediu-se e avisou-me que no dia seguinte alguém apareceria para me levar para o próximo destino.
A cama em que dormi estava de acordo com a ceia : Simples, mas confortável.
Tudo se passou como previsto.
Passada uma semana já estava a trabalhar na organização dos pontos de apoio que ajudariam os companheiros que em Espanha lutavam contra o franquismo.
E de tal maneira esses pontos de apoio funcionaram, que se mantiveram activos até à queda da ditadura no meu país, já em meados da década de setenta.
Mas ainda hoje, passados trinta anos, de todos os que me ajudaram nessa noite, aqueles que mais vivamente me ficaram na memória, continua a ser o casal de companheiros que, numa aldeia perdida da planície alentejana, me deu guarida por uma noite.
FIM
Relembramos que esta narrativa, tal como as outras que a antecederam, foi encontrada dentro de uma garrafa que estava encalhada num açude do rio.
O manuscrito não estava assinado e vinha redigido em língua castelhana.
A tradução, mais uma vez, é da responsabilidade de Eveline Sambraz.
O título também é da responsabilidade da tradutora.
« Casas Novas de Mares »
Quando Pablo Picasso completou oitenta anos de vida, lá pelo outono de 1961, reuniu na sua propriedade, no sul de França, uma grande quantidade de amigos; dessa comemoração constou uma tourada privada em que actuou, entre outros, Luís Miguel Domingín, ele próprio amigo de Picasso; pois foi durante os festejos de aniversário do pintor, que se desenharam os primeiros planos da minha entrada em Portugal.
A direcção do PCE ( Partido Comunista de Espanha ) há muito que vinha tentando montar em Portugal, uma organização de retaguarda, afim de apoiar o aparelho clandestino do partido que operava no interior de Espanha. Seria eu o responsável por essa tarefa.
Hoje - trinta anos depois - ao relembrar esses tempos, quero aqui deixar um sinal de muita saudade para aquele que primeiro se lembrou da forma como eu poderia entrar em Portugal : Domingo Dominguín; nem mais; Domingo Dominguín, irmão de Luís Miguel Dominguín.
Por essa época eu vivia em Espanha, incorporado na organização clandestina do partido, sempre munido de documentos falsos que essa mesma organização me facultava; documentos de tal maneira bem feitos que nada os distinguia dos autênticos.
Também por essa época, já Domingo Domingín era dirigente do partido, embora não vivesse em clandestinidade; não que se ignorasse a forma como pensava, todos sabiam da sua ligação ao partido, inclusive a polícia política de Franco tinha conhecimento disso, mas o facto de ser irmão do melhor matador de touros de Espanha nessa altura, e também o facto de pertencer a uma família que, sem reservas, sempre tinha apoiado o regime franquista, fazia com que a polícia esperasse uma ocasião para o prender em flagrante; como, aliás, aconteceu mais tarde.
Luís Miguel Dominguín, que nunca se envolvera em política, era, no entanto, incapaz de negar fosse o que fosse ao irmão; assim, ali mesmo, durante a comemoração dos oitenta anos de Picasso, no sul de França, foi elaborado o plano que me colocaria em Portugal.
« Eu faria parte daquela corte de aficcionados que sempre acompanha os matadores de touros nas suas deslocações, quando Luís Miguel Dominguín se deslocasse a Badajoz, para actuar numa corrida, por altura da feira de São João, no verão seguinte. Pela minha parte, teria que assegurar a ligação com os camaradas do partido português, afim de poder ser recolhido em Elvas. »
Um mês antes da data da operação, tudo estava planeado ao mais pequeno pormenor : Depois da corrida, a comitiva, cerca de quinze pessoas, entre as quais Lúcia Bosé, mulher de Luís Miguel, iria jantar à pousada de Elvas; no regresso, a comitiva viria desfalcada, pois eu seguiria o meu caminho e não voltaria a Badajoz; todos os detalhes estavam assegurados, mesmo as autorizações para passagem na fronteira.
Como estas acções conspirativas são sempre rodeadas do maior segredo, apenas Luís Miguel Domingín sabia que eu não regressaria a Espanha; no entanto, sempre me pareceu que Lúcia Bosé, que era italiana, e em tempos tinha participado em algumas iniciativas do partido italiano, nomeadamente na festa anual do " L'Unitá ", estava a par do que se ia passar.
Bem dito, melhor feito.
No fim do jantar, à porta da pousada, e depois do reconhecimento, feito através dos sinais previamente combinados, meti-me num citroen boca de sapo e ala que se faz tarde; esta operação foi de tal forma bem executada que os restantes convivas só muito mais tarde se aperceberam da minha falta; para isso deve ter constituído motivo bastante as fortes libações durante a refeição; tanto quanto sei, tudo lhes correu da melhor maneira durante a viagem de regresso a Badajoz; nem a passagem da fronteira foi problema.
Também, quem iria arranjar problemas ao maior matador de touros do mundo ! ?
Tomámos o caminho do sul; por uma estrada que me pareceu correr, mais ou menos paralela ao rio Quadiana, passando por várias localidades cujos nomes retive : Juromenha, São Brás dos Matos, Rosáro, Capelins; depois foi a vez de uma povoação muito dispersa que, acho, se chamava Santiago Maior, e por fim, chegámos à aldeia em que pernoitaria e de cujo nome jamais me esquecerei, pois nunca encontrei uma terra com um nome tão poético : Casas Novas de Mares.
Demorámos cerca de cinco horas em toda esta viagem, porque todas as estradas eram de terra batida, estando algumas em tão mau estado, que nos obrigavam a andar a passo de caracol, e a última coisa que queríamos era que o carro ficasse no fundo de algum daqueles buracos.
O meu companheiro parecia conhecer a região como as suas mãos, o que não o impediu de estar alerta durante toda a viagem, pois, segundo me disse, era usual haver patrulhas da guarda fronteiriça, já que se tratava duma zona de contrabando; entregou-me a um casal de velhotes, num monte isolado, que tinham à minha espera uma ceia e me convidaram a comer, pedindo desculpa pela modéstia da refeição.
Eu, um intelectual, vindo de famílias abastadas, habituado a uma vida citadina e que, por opção, me encontrava naquela situação, perdido algures no Alentejo, absolutamente dependente daquelas pessoas, senti que o internacionalismo, termo que eu utilizava frequentemente, quando me referia à luta de classes, estava bem representado ali; apesar dos anos de clandestinidade que já levava, apesar dos maus momentos que já passara, apesar da dureza que a vida clandestina sempre implica, apesar de pensar que estava bem curtido pela vida, ainda me emocionei.
Tive que esconder os olhos para que os meus hospedeiros não vissem o brilho que as lágrimas lhe deram.
O companheiro que me trouxe, João José Potra ( vim a saber o seu nome mais tarde, já depois da revolução de Abril ) depois de comer daquela ceia, muito rapidamente, despediu-se e avisou-me que no dia seguinte alguém apareceria para me levar para o próximo destino.
A cama em que dormi estava de acordo com a ceia : Simples, mas confortável.
Tudo se passou como previsto.
Passada uma semana já estava a trabalhar na organização dos pontos de apoio que ajudariam os companheiros que em Espanha lutavam contra o franquismo.
E de tal maneira esses pontos de apoio funcionaram, que se mantiveram activos até à queda da ditadura no meu país, já em meados da década de setenta.
Mas ainda hoje, passados trinta anos, de todos os que me ajudaram nessa noite, aqueles que mais vivamente me ficaram na memória, continua a ser o casal de companheiros que, numa aldeia perdida da planície alentejana, me deu guarida por uma noite.
FIM
Wednesday, April 06, 2011
BADAJOZ
« Esta é a segunda narrativa das três que fazem parte da " TRILOGIA DO QUADIANA " .
Lembramos que estes escritos foram encontrados dentro duma garrafa, encalhada num açude do rio.
Vinham escritos em língua castelhana e não estavam assinados.
A tradução é da responsabilidade de Eveline Sambraz.
O título é também da responsabilidade da tradutora. »
Nota da tradutora === " Na organização da narrativa, sobretudo na forma como está paragrafada, foi respeitado o original "
BADAJOZ
Quando Rufino Potra chegou à estação do Levante, naquela manhã de Abril de 1936, em Madrid, tinha acabado de chegar o combóio de Valência. Ia esperar Largo Maltese, um amigo doutro amigo a quem ele tinha prometido ajudar na busca dum mapa antigo que estaria na biblioteca de Badajoz. Esse mapa, pelos acasos do destino, fora parar a essa biblioteca, por testamento de um antigo navegador do século XIX que, depois passar grande parte da sua vida nas colónias espanholas da América Latina, acabara os seus dias em Badajoz, legando à cidade todo o seu espólio. Este espólio, estaria ainda por classificar, e jazia, há dezenas de anos, nas caves do edifício que albergava a biblioteca municipal. O amigo de Largo Maltese, também amigo do Rufino, sabendo que este era natural de Cheles, e que tinha feito os estudos preparatórios em Badajoz, conhecendo a cidade muito bem, não achara melhor solução que entregar-lhe o recém chegado. A Madrid de 1936 fervilhava de vida e de boatos. A vitória da Frente Popular dois meses antes, em eleições muito disputadas, tinha dado à cidade um movimento inusitado. Havia sempre muita gente a chegar, muita gente a partir e os comboios, apesar dos tradicionais atrasos dos caminhos de ferro espanhóis, andavam sempre apinhados. Excepcionalmente, a composição vinda de Valência tinha chegado dentro do horário. Foi preciso esperar um bom espaço de tempo, antes que se desfizesse a confusão dos que chegavam e dos que partiam, entre os gritos dos bagageiros que ofereciam os seus serviços, e o resfolgar das locomotivas. Quando aquela balbúrdia acalmou, Rufino, vislumbrou ao fundo do cais, um homem que nunca mais esqueceria. Não tanto pelo seu aspecto físico, mas sobretudo pelas situações porque iriam passar nos próximos dias. Era um homem alto, fisicamente bem constituído, muito moreno e exibia um farto bigode. As feições pareciam indicar que talvez pudesse ser mestiço. Embora a mistura de sangues se tivesse dado várias gerações antes, a verdade é que os lábios cheios e o cabelo um pouco encarapinhado, embora longo e caindo sobre os ombros, indiciavam a presença de antepassados negros na sua família. Estava vestido como os marinheiros sempre se vestem em terra : Calças de boca larga, botas de couro muito flexível, grosso camisolão de malha, com gola alta, e casacão de marinheiro. Ao ombro, como bagagem, trazia um grande saco de lona. Vale a pena falar um pouco mais deste homem já que a sua participação no decorrer desta narrativa será de muita importância. Cidadão espanhol, tinha nascido em Cuba no fim do século dezanove, quando aquela ilha ainda era uma colónia espanhola. A guerra Hispano - Americana apanhara-o ainda criança e mudara-se com a família para o México, no início do século vinte. Aí, tivera uma vida aventurosa, sempre tendo o mar como cenário. O mar das Caraíbas, mais propriamente. Vinha em busca do tal mapa, porque nele estaria a chave da localização dum tesouro escondido pelos espanhóis, quando estes ainda dominavam o México. Um aventureiro, como facilmente se vê. Meio-irmão, segundo se sabia, de Corto Maltese, outro aventureiro. Quando se viram frente a frente e Rufino se apresentou, trocaram um vigoroso aperto de mão, tendo o visitante informado que tinha instalações reservadas num hotel do centro da cidade, mas que apenas tencionava demorar-se em Madrid, o tempo estritamente necessário. Tinha igualmente reservado um automóvel e queria partir para Badajoz o mais rapidamente possível. O hotel, um dos melhores da cidade, reconheceu Rufino, tinha realmente um quarto reservado e um automóvel pronto para partir. Combinaram partir no dia seguinte, mal o sol nascesse. Também se ajustou a dormida de Rufino no hotel, para evitar demoras de última hora. Parecia não faltar dinheiro ao recém chegado. Convém, para melhor se entender o que se vai seguir, dar uma explicação do ambiente que se vivia em Madrid por essa época : Os espanhóis tinham ido às urnas no dia 6 de Fevereiro passado, domingo de Carnaval. As eleições tinham sido ganhas pela Frente Popular que, entretanto, já tinha formado governo. O Primeiro Ministro da República de Espanha, don Miguel Azaña, desdobrava-se em esforços, não só para dar um rumo ao país, como para harmonizar os partidos de esquerda que, entre si, não se entendiam. Os vários partidos das direitas, que não aceitavam a derrota eleitoral, conspiravam abertamente contra o governo. Os tiroteios entre os falangistas e grupos da FAI ( Federação Anarquista Ibérica ), eram diários. A cidade fervilhava de boatos sobre assassinatos políticos e levantamentos militares. Todos os quartéis de Madrid estavam de prevenção rigorosa. O clima social e político da capital de Espanha era de cortar à faca. Dizia-se que os partidos das direitas estavam a armar os seus militantes, porque estava iminente um golpe de estado contra a república. Foi esta cidade que os nossos dois conhecidos deixaram para trás naquele dia do fim de Abril, quando se puseram a caminho de Badajoz. Ao fim do dia, já instalados nesta cidade da Extremadura espanhola, recolheram cedo à pensão onde se hospedaram, pois tencionavam começar a procurar o mapa logo pela manhã. Munidos das respectivas autorizações, passadas pelo Ayuntamiento de Badajoz, aonde Largo Maltese se apresentara como historiador de assuntos relacionados com as antigas colónias de Espanha nas Américas, às dez horas da manhã já estavam a abrir os caixotes do espólio a que fizemos referência. Não encontraram nada. Do mapa, nem sombra. Por mais que uma vez passaram a pente fino todo o espólio, mas sem qualquer resultado. Ainda falaram com o responsável da biblioteca que, muito assustado e em grande atrapalhação, sem motivo aparente, os informara que os caixotes estavam naquela cave, tanto quanto ele sabia, há mais de cinquenta anos, sem nunca terem sido abertos. Desanimado, mas conformado com o resultado da pesquisa, Largo Maltese, disse a Rufino que teria que continuar a busca noutros lugares, pois tinha a certeza que o mapa existia. E o tesouro, por suposto, também. E ele, agora mais do que nunca, estava disposto a deitar-lhe a mão. Fariam uma última tentativa no dia seguinte. Depois, fosse qual fosse o resultado, regressariam a Madrid. No dia seguinte, voltaram a passar em revista todo o espólio, chegando à mesma conclusão : O mapa não se encontrava ali. Foi nessa altura que repararam em vários caixotes que também se encontravam na cave, embora um pouco afastados. Os caixotes pareciam em muito bom estado, decerto não se encontravam naquele lugar há muito tempo. Rufino, que estava muito desiludido com o resultado da busca, por raiva e descargo de consciência, meteu a alavanca às tábuas e retirou a tampa. Surpreendido, verificou que o caixote estava cheio de metralhadoras e carregadores de munições. As armas eram novas e de modelo relativamente recente. Depois de chamar Largo Maltese, que ainda se encontrava junto do espólio que os tinha levado a Badajoz, numa última tentativa para encontrar o mapa, abriram o resto dos caixotes e confirmaram que todos continham o mesmo tipo de armas. Quando saíram da biblioteca, foram de imediato para o quartel do governo militar e falaram com o coronel que exercia as funções de governador da cidade, dando-lhe conta do que tinham encontrado.
Ainda se demoraram mais dois dias na cidade. O suficiente para saberem que aquelas armas estavam a entrar em Badajoz, vindas de Portugal, e se destinavam a armar os militantes falangistas.
Apenas esperavam que se desse o levantamento militar.
O levantamento militar deu-se a 17 de Julho de 1936.
Quanto aos dois intervenientes, Largo Maltese e Rufino Potra, depois de se despedirem, em Madrid, no dia 12 de Maio de 1936, nunca mais se encontraram, nem souberam um do outro.
Rufino Potra não chegou a saber se Largo Maltese acabou por encontrar o tesouro.
Nem Largo Maltese teve conhecimento dos trabalhos em que Rufino Potra se viu durante a guerra civil que se seguiu.
FIM
Lembramos que estes escritos foram encontrados dentro duma garrafa, encalhada num açude do rio.
Vinham escritos em língua castelhana e não estavam assinados.
A tradução é da responsabilidade de Eveline Sambraz.
O título é também da responsabilidade da tradutora. »
Nota da tradutora === " Na organização da narrativa, sobretudo na forma como está paragrafada, foi respeitado o original "
BADAJOZ
Quando Rufino Potra chegou à estação do Levante, naquela manhã de Abril de 1936, em Madrid, tinha acabado de chegar o combóio de Valência. Ia esperar Largo Maltese, um amigo doutro amigo a quem ele tinha prometido ajudar na busca dum mapa antigo que estaria na biblioteca de Badajoz. Esse mapa, pelos acasos do destino, fora parar a essa biblioteca, por testamento de um antigo navegador do século XIX que, depois passar grande parte da sua vida nas colónias espanholas da América Latina, acabara os seus dias em Badajoz, legando à cidade todo o seu espólio. Este espólio, estaria ainda por classificar, e jazia, há dezenas de anos, nas caves do edifício que albergava a biblioteca municipal. O amigo de Largo Maltese, também amigo do Rufino, sabendo que este era natural de Cheles, e que tinha feito os estudos preparatórios em Badajoz, conhecendo a cidade muito bem, não achara melhor solução que entregar-lhe o recém chegado. A Madrid de 1936 fervilhava de vida e de boatos. A vitória da Frente Popular dois meses antes, em eleições muito disputadas, tinha dado à cidade um movimento inusitado. Havia sempre muita gente a chegar, muita gente a partir e os comboios, apesar dos tradicionais atrasos dos caminhos de ferro espanhóis, andavam sempre apinhados. Excepcionalmente, a composição vinda de Valência tinha chegado dentro do horário. Foi preciso esperar um bom espaço de tempo, antes que se desfizesse a confusão dos que chegavam e dos que partiam, entre os gritos dos bagageiros que ofereciam os seus serviços, e o resfolgar das locomotivas. Quando aquela balbúrdia acalmou, Rufino, vislumbrou ao fundo do cais, um homem que nunca mais esqueceria. Não tanto pelo seu aspecto físico, mas sobretudo pelas situações porque iriam passar nos próximos dias. Era um homem alto, fisicamente bem constituído, muito moreno e exibia um farto bigode. As feições pareciam indicar que talvez pudesse ser mestiço. Embora a mistura de sangues se tivesse dado várias gerações antes, a verdade é que os lábios cheios e o cabelo um pouco encarapinhado, embora longo e caindo sobre os ombros, indiciavam a presença de antepassados negros na sua família. Estava vestido como os marinheiros sempre se vestem em terra : Calças de boca larga, botas de couro muito flexível, grosso camisolão de malha, com gola alta, e casacão de marinheiro. Ao ombro, como bagagem, trazia um grande saco de lona. Vale a pena falar um pouco mais deste homem já que a sua participação no decorrer desta narrativa será de muita importância. Cidadão espanhol, tinha nascido em Cuba no fim do século dezanove, quando aquela ilha ainda era uma colónia espanhola. A guerra Hispano - Americana apanhara-o ainda criança e mudara-se com a família para o México, no início do século vinte. Aí, tivera uma vida aventurosa, sempre tendo o mar como cenário. O mar das Caraíbas, mais propriamente. Vinha em busca do tal mapa, porque nele estaria a chave da localização dum tesouro escondido pelos espanhóis, quando estes ainda dominavam o México. Um aventureiro, como facilmente se vê. Meio-irmão, segundo se sabia, de Corto Maltese, outro aventureiro. Quando se viram frente a frente e Rufino se apresentou, trocaram um vigoroso aperto de mão, tendo o visitante informado que tinha instalações reservadas num hotel do centro da cidade, mas que apenas tencionava demorar-se em Madrid, o tempo estritamente necessário. Tinha igualmente reservado um automóvel e queria partir para Badajoz o mais rapidamente possível. O hotel, um dos melhores da cidade, reconheceu Rufino, tinha realmente um quarto reservado e um automóvel pronto para partir. Combinaram partir no dia seguinte, mal o sol nascesse. Também se ajustou a dormida de Rufino no hotel, para evitar demoras de última hora. Parecia não faltar dinheiro ao recém chegado. Convém, para melhor se entender o que se vai seguir, dar uma explicação do ambiente que se vivia em Madrid por essa época : Os espanhóis tinham ido às urnas no dia 6 de Fevereiro passado, domingo de Carnaval. As eleições tinham sido ganhas pela Frente Popular que, entretanto, já tinha formado governo. O Primeiro Ministro da República de Espanha, don Miguel Azaña, desdobrava-se em esforços, não só para dar um rumo ao país, como para harmonizar os partidos de esquerda que, entre si, não se entendiam. Os vários partidos das direitas, que não aceitavam a derrota eleitoral, conspiravam abertamente contra o governo. Os tiroteios entre os falangistas e grupos da FAI ( Federação Anarquista Ibérica ), eram diários. A cidade fervilhava de boatos sobre assassinatos políticos e levantamentos militares. Todos os quartéis de Madrid estavam de prevenção rigorosa. O clima social e político da capital de Espanha era de cortar à faca. Dizia-se que os partidos das direitas estavam a armar os seus militantes, porque estava iminente um golpe de estado contra a república. Foi esta cidade que os nossos dois conhecidos deixaram para trás naquele dia do fim de Abril, quando se puseram a caminho de Badajoz. Ao fim do dia, já instalados nesta cidade da Extremadura espanhola, recolheram cedo à pensão onde se hospedaram, pois tencionavam começar a procurar o mapa logo pela manhã. Munidos das respectivas autorizações, passadas pelo Ayuntamiento de Badajoz, aonde Largo Maltese se apresentara como historiador de assuntos relacionados com as antigas colónias de Espanha nas Américas, às dez horas da manhã já estavam a abrir os caixotes do espólio a que fizemos referência. Não encontraram nada. Do mapa, nem sombra. Por mais que uma vez passaram a pente fino todo o espólio, mas sem qualquer resultado. Ainda falaram com o responsável da biblioteca que, muito assustado e em grande atrapalhação, sem motivo aparente, os informara que os caixotes estavam naquela cave, tanto quanto ele sabia, há mais de cinquenta anos, sem nunca terem sido abertos. Desanimado, mas conformado com o resultado da pesquisa, Largo Maltese, disse a Rufino que teria que continuar a busca noutros lugares, pois tinha a certeza que o mapa existia. E o tesouro, por suposto, também. E ele, agora mais do que nunca, estava disposto a deitar-lhe a mão. Fariam uma última tentativa no dia seguinte. Depois, fosse qual fosse o resultado, regressariam a Madrid. No dia seguinte, voltaram a passar em revista todo o espólio, chegando à mesma conclusão : O mapa não se encontrava ali. Foi nessa altura que repararam em vários caixotes que também se encontravam na cave, embora um pouco afastados. Os caixotes pareciam em muito bom estado, decerto não se encontravam naquele lugar há muito tempo. Rufino, que estava muito desiludido com o resultado da busca, por raiva e descargo de consciência, meteu a alavanca às tábuas e retirou a tampa. Surpreendido, verificou que o caixote estava cheio de metralhadoras e carregadores de munições. As armas eram novas e de modelo relativamente recente. Depois de chamar Largo Maltese, que ainda se encontrava junto do espólio que os tinha levado a Badajoz, numa última tentativa para encontrar o mapa, abriram o resto dos caixotes e confirmaram que todos continham o mesmo tipo de armas. Quando saíram da biblioteca, foram de imediato para o quartel do governo militar e falaram com o coronel que exercia as funções de governador da cidade, dando-lhe conta do que tinham encontrado.
Ainda se demoraram mais dois dias na cidade. O suficiente para saberem que aquelas armas estavam a entrar em Badajoz, vindas de Portugal, e se destinavam a armar os militantes falangistas.
Apenas esperavam que se desse o levantamento militar.
O levantamento militar deu-se a 17 de Julho de 1936.
Quanto aos dois intervenientes, Largo Maltese e Rufino Potra, depois de se despedirem, em Madrid, no dia 12 de Maio de 1936, nunca mais se encontraram, nem souberam um do outro.
Rufino Potra não chegou a saber se Largo Maltese acabou por encontrar o tesouro.
Nem Largo Maltese teve conhecimento dos trabalhos em que Rufino Potra se viu durante a guerra civil que se seguiu.
FIM
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